por
António Augusto Fernandes
Era uma instituição aquele senhor professor, Francisco Ribom de seu nome, natural de Carrapatas, já na Terra Quente. Ele era o Senhor Professor por antonomásia. E, como todas as instituições do tempo de Salazar, virtualmente eterno. Já fora professor de meu pai, acabei eu a quarta classe, desandei e ele por lá ficou ainda a desencardir muita cabecinha serrana com o alfabeto, a tabuada e a palmatória, o grande adjutório pedagógico.
Alto, enxuto de carnes, rosto sobre o comprido de faces secas e bem esquadriadas, testa estreita com três rugas de pessoa dada ao pensamento, farta cabeleira levemente ondulada e já um pouco grisalha, nariz fino e vibrátil, olho acinzentado. A sua figura tinha algo de austero e até de hierático. Trajava impreterivelmente fato de cor neutra, entre o cinza e o castanho, calçava botas de calfe, à Salazar e usava gravata, a única gravata que se usava em Rebordainhos. No Inverno, sobre o fato, um capote de três voltas com gola de raposa, esse que por aí nomeiam de alentejano, mas que sempre se viu por terras de Bragança. Com este seu ar distinto, aristocrático mesmo, era com naturalidade que impunha respeito aos parranas que calçavam botas de couro cru cardadas, meotes de lã churra e vestiam jaquetas de cotim por cima das camisas de popelina.
Por esta sua longevidade docente começava, como todas as instituições longevas, a aureolar-se de lenda: constava que, colocado ainda muito jovem em Rebordainhos, se afeiçoara de tal modo à terra que fizera com a Direcção Escolar o pacto de, em troca da sua permanência na aldeia, construir a expensas suas aquela escola que ainda hoje lá se vê no altinho da Portela. Si non è vero è ben trovato! Edifício simpático na sua alvura de pombal, voltado a nascente como um pombal, ao centro da fachada um patim coberto (já desaparecido) a que se acedia por três degraus, um pátio com duas cerejeiras bravas e um murete em toda a volta, onde hoje se fazem os magustos e sardinhadas conviviais da comunidade (e que os façam por muitos anos e bons!).
Todas as manhã, excepto aos domingos, ele e mana, a Senhora Dona Maria, saíam de casa, a antiga cadeia comunal junto ao Pelourinho, pontuais como ingleses. O sinal era dado pelo sino, como se de cerimónia litúrgica se tratasse. Nós, os da Portela, víamo-los apontar no início do Prado, junto à forja e quando curvavam para o pátio do sr. Amadeu, enfiávamo-nos de escambulhada na sala de aula, cada um no seu lugar. Ele a transpor o limiar, e nós a erguermo-nos como impulsionados por uma mola, hirtos como soldados em miniatura, estendendo o braço direito e clamando em coro marcial: bom dia, senhor professor! Tinha destas coisas bonitas a disciplina do Doutor Oliveira Salazar que nos contemplava lá de cima, do seu retrato encaixilhado! Ele dum lado, o General Craveiro Lopes do outro, eram como dois acólitos para o Cristo Crucificado que presidia ao acto docente.
Nas manhãs de forte geada ou nevão corríamos ali acima, ao giestal do tio Zé Foguete a arrebanhar duas fronças de giesta seca mais uns guiços e armávamos grande lumaréu no patim para acender a braseira, conquistando assim alguns créditos para a hora de enfrentar a palmatória que não se fazia rogada na altura de corrigir os ditados ou declamar a tabuada.
Era aliás para o carvão da braseira e para o giz que, logo no princípio do ano, éramos convidados a esportular a fortuna de dois mil e quinhentos réis (propina única, mas que nem todos tinham) e que, nas manhãs mais frias, nos davam direito a desengaranhar os dedos para conseguirmos segurar o lápis de ardósia.
Não, não era nada fácil ser-se garoto nessas terras e nesses tempos; fazer a quarta classe era para muitos uma verdadeira odisseia. E se eram bravos os invernos então! De uma vez, aí por 1953 ou 54, o nevão deixou-nos isolados do resto do mundo durante uma semana. Nem o burrico do tio Benjamim se atrevia a descer a Rossas em cata do correio! Valeu que o telefone tinha chegado por essa altura à Taberna de Cima, do tio António Trocho − o posto oficial dos correios − e muitas vezes até funcionava. Mas foi uma delícia essa semana de férias em que o pessoal jogou à bolada até dizer chega, fez bonecos de neve por todo o lado e arroussou o traseiro sobre giestas por quantas ladeiras nevadas a geada tornava escorregadias como vidro! Ficou nos fastos da freguesia tal nevão! E tal foi ele que, depois de uma noite de tormenta, pela manhã, tivemos que desentulhar a porta da tia Ermelinda para ela poder sair de casa. Meu pai ainda tentou cavar um túnel até à casa da tia Isabel Caldeireira, mas desistiu porque a abóbada lhe desabou sobre a calva.
Aos sábados era dia de faxina: corríamos ao dito giestal, mas desta feita para cortar ramos de giesta verde e flexível com que armávamos esplendorosas vassouras que nos permitiam entrar em negociações com as meninas da sala feminina, a da D. Maria: numa partilha muito democrática de tarefas, nós fazíamos-lhes as vassouras e elas varriam também a nossa sala, quando estavam para aí viradas.
É bem verdade que era ríspido e nada escasso em distribuir palmatoadas. De uma vez alguém levantou a atoarda: se esfregássemos as mãos com alho, as palmatoadas não doíam e, mais extraordinário ainda, o alho fazia rachar a palmatória! E num belo dia de Inverno, que era quando as palmatoadas mais doíam nas mãos enregeladas, a sala tresandava a alho como em dia de alheiras. Rica lembrança! E logo o senhor Professor que tinha faro mais apurado que perdigueiro de raça. Entrou na sala, estacou, fariscou os ares, enrugou a testa… e lá foram dois ou três que tinham abusado na receita tirar a prova dos noves:
− Então dói ou não dói!? E, pelo rictus facial dos eleitos, parece que sim, que doía a valer. E a maldita da palmatória que nem uma fendazinha abriu!...
A palmatória era, naqueles tempos, o grande adjutório pedagógico. E o senhor professor não era nada peco a usá-la. Mas um belo dia aquela bolachinha de madeira com cinco furos e uma haste desapareceu. A nossa alma alegrou-se. Vinha aí a nova pedagogia de abolição dos castigos corporais e parece que um ou outro Inspector mais adepto da nova escola começava a implicar com a santa luzia, como o sr. Professor lhe chamava. Puro engano. Em seu lugar apareceu uma régua luzidia, de sessenta centímetros de comprimento por um centímetro de espessura, encomendada à arte do tio Hermenegildo carpinteiro. Esta sempre dava para ir disfarçando a função punitiva com uma parca utilização a traçar segmentos de recta no quadro. Como se não bastasse para desgraças, a certa altura o Luís Moleiro teve a triste ideia de trazer da Ribeira dos Pereiros uma longa e direitíssima vara de avelaneira. A intenção do doador era que servisse de ponteiro no quadro e nos mapas, mas a experiência ensinou-nos que a sua virtude primeira era a de nos esgaçar as orelhas à distância. E pior ainda quando algum de nós era posto à frente das hostes em pé, de vara em riste. Como trazíamos sempre algumas contas em atraso com alguém, ai de quem fizesse menção de abrir a boca, a vara zunia sobre o transgressor. Para salvaguarda da justiça cósmica que preside aos destinos humanos, deixe-se registado que foi o Moleiro, o da ideia, o primeiro a experimentar-lhe os efeitos salutares.
Devo reconhecer que as minhas mãos não foram das mais castigadas, talvez por já lá ter aparecido a saber ler, desemburrado, em Macedo de Cavaleiros, por uma tal D. Clarinha, à volta dos meus cinco anos. Mas tal resguardo não obstou a que, já em preparativos para o exame da quarta classe (que para muitos constituía a primeira visita a Bragança), em certo ditado onde aparecia a palavra paralelepípedo, tendo eu prantado paralelípedo, pagasse com duas valentes palmatoada a sílaba escamoteada.
Se na leitura e aritmética me ia safando, a minha desgraça eram as linhas e ramais dos caminhos-de-ferro mais a geografia das Colónias: não havia maneira de empinar estupidamente aquelas coisas alheias à nossa experiência. E foi sobretudo em tais matérias que a S. Luzia me aqueceu as mãos. Isto soa como um horror escatológico para as pedagogias emolientes de hoje, mas, em boa verdade, não me fizeram mal nenhum, estas e outras, só me espevitaram as memórias, como dizia o povo, e não é por elas que guardo qualquer rancor ao bom do Mestre.
Mas, se a vida não era fácil para a ganapada sujeita a tal regime, também não era pêra doce para ele, tendo pela frente para cima de vinte raparigos semi-selvagens e distribuídos pelas quatro classes. Faziam-se cópias, garatujavam-se as quatro operações na lousa de ardósia, declamava-se a tabuada em altos berros, tudo em simultâneo e numa balbúrdia gloriosa. Silêncio só na sacrossanta hora do ditado dos grandes, os da quarta que preparavam o sua ida a exame, que isso de passagens administrativas era heresia ainda por inventar.
Em lousas de ardósia se escrevia com pauzinhos também de pedra (numa grande fidelidade ao étimo latino − lápis − pedra em latim, que deu origem ao nossos lápis), que o papel estava para lá das nossas posses e guardava-se para o grande Caderno Diário, onde deixávamos à vez a nossa dedada para a posteridade. E o trabalhão que não foi convencer-nos a não limpar os gatafunhos da lousa com uma cuspidela e um esfreganço do canhão da jaqueta! Havia que trazer na sacola um farrapinho humedecido dentro de uma caixinha de graxa… Mas quem é que na aldeia engraxava fosse o que fosse!?
Por esses tempos emergia lentamente o fenómeno que havia de substituir a matéria-prima das alfaias caseiras, a madeira, o barro e a folha-de-flandres. Surgia a era do plástico! O primeiro toque, para nós mais palpável, dessa revolução foi um cinto de vidro sintético (assim chamávamos ao plástico transparente) que o Tonho do tio Alípio Pequeno recebeu de um tio emigrado no Canadá. Andava ufano o rapaz e no recreio sacava-o das presilhas para podermos admirá-lo, palpá-lo, mirá-lo contra o sol. E todos nós lhe propúnhamos negócios mirabolantes em que, para além nos nossos cintos miseráveis de cabedal, entravam nozes e rebuçados e canivetes e o diabo a quatro. Não havia negócio possível para a maravilha inaudita!
Num outro dia, outra maravilha. O Sr. Professor entrou na sala menos severo, quase afável. Mandou-nos sentar e, sem mais explicações, mergulhou uma folha numa bacia com água. Com ares misteriosos de mago, disse para esperarmos cinco minutos. Foram os cinco minutos mais silenciosos da temporada. Com mil cautelas retirou a folha da água, escorreu-a, foi encostá-la a um vidro da janela do fundo, alisando-a cuidadosamente com o lenço. Aguardou que secasse; depois, lentamente, foi despegando uma película translúcida e, como por magia, no vidro ficou estampada a gravura colorida dos Lusitos da Mocidade Portuguesa a saudarem a bandeira nacional. E tal foi o nosso embasbacamento, que à hora do almoço, o Ferreira, que era curioso, não resistiu a experimentar a consistência da pintura com a unha. Resultado: um rasgãozito de dois milímetros no canto inferior esquerdo. Quando o Professor entrou para as aulas da tarde, que também ele andava embevecido com o fenómeno, foi mirá-lo de perto. E olha se lhe escapava o rasgãozito! Foi uma das mais feias tareias que nos foi dado ver.
Embora por vezes exorbitasse na abundância das reguadas (quando o víamos branco, os lábios finos como lâminas e as aletas do nariz fremindo, já sabíamos que vinha aí tempestade!) hoje estou em crer que ao rigor de tal regime, que não apenas ao nosso brilhantismo intelectual, se deve ter deixado atrás de si uma das aldeias mais alfabetizadas de Portugal e a escola de Rebordainhos a pôr o ramo entre as mais produtivas do concelho. Isso a que hoje se chama sucesso escolar e se fabrica com sucessivos abaixamentos da bitola de exigência.
Já naquele tempo ele ensaiava uns tenteios do ensino experimental, trazendo o quotidiano para a sala de aula: uma plantazita, uma folha de árvore, postais… E um dia, para nos falar de cerâmica e para nosso deslumbramento, apareceu com uma chavenazita chinesa miniatural do seu serviço de chá a que chamou de porcelana de casca de ovo. E era de facto fina que nem casca de ovo, para desdouro das nossas toscas malgas de Massarelos em que migávamos o caldo!
As gentes da aldeia estimavam-no e ele, embora com alguma distância, tratava-as sem sobranceria, com natural urbanidade e gostava da terra como se nela tivesse nascido. À sua queda para arquitecto que se ficou a dever o traço da única fonte artística da aldeia em pedra lavrada, no pequeno largo do Pelourinho, a olhar para o adro, com uma certa graça levemente neoclássica. Ainda hoje lá está, como sempre sem verter uma pinga de água e não sei se alguma vez terá tido outra finalidade que não fosse a decorativa.
Os tempos que a ensinança lhe deixava livres passava-os ele na sua quintinha, logo ali à saída d’À-Chave, em Vale-d’Espada (nome lindo, a evocar cavalarias medievais!...) onde mais tarde viria a construir moradia e onde ensaiava experimentações na área da botânica, num pomar limpo e arrumado que nem sala de estar. Nunca ali entrei que não fosse acometido do receio de trazer agarrada às brochas das botas alguma lama da que as vacas largavam em trânsito pelos caminhos da aldeia. De certa maneira esse pomar representava para a minha mente infantil um
esquisso do Paraíso Terreal. E não tanto pela inacessibilidade dos muros altos, mas sobretudo pela abundância e variedade das árvores fruteiras, pela esquadria em que elas se alinhavam e, sobretudo, por umas certas maçãs vermelhas enormes que lá reluziam e convidavam o garotio a uma lapada furtiva. A esse tempo, a fruta não abundava na serra, quer porque as árvores de fruto eram uma espécie de luxo sem valor mercantil, embora alindassem as estrema de muitas courelas, quer porque as geadas tardias frequentemente queimavam a fruta ainda na flor. Por isso, aquele esplendor pomífero deixava-me siderado a imaginar que fora com uma maçã daquelas que a nossa mãe Eva pusera às voltas a cabeça do mal-aventurado Pai Adão. Ainda hoje me formigam na consciência algumas que por lá apanhei às escondidas, naquela canada que lhe passava à ilharga a caminho da Galiana.
Que lá, na etérea região onde se premeiam os justos, o Pai de todos o recompense da boa sementeira lançada nas terras ásperas de Rebordainhos.