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sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

DO NASCIMENTO AO CASAMENTO

Por
ANTÓNIO BRAZ PEREIRA


Rebordainhos foi, desde a minha lembrança, uma aldeia bastante populosa, apesar das grandes dificuldades socioeconómicas, inerentes parcialmente da posição geográfica e da adesão total ao Cristianismo, na imposição de valores e princípios morais e religiosos. Nas décadas 50/60, a emigração para o Brasil, África e Europa facilitou de alguma maneira a vida aos que ficaram. Contudo, a despedida era um calvário para os que partiam e para os que ficavam… havia acompanhamento geral até à saída da Aldeia, choros e gritos como se fosse um adeus para sempre.

As circunstâncias básicas, a carência de meios contraceptivos, o magro conforto e outros componentes, tornavam a natalidade num fardo pesado e complexo para o agregado familiar. Houve mulheres que pariram mais de vinte filhos, ainda que só parte deles viessem a sobreviver! Treze, foi o número que superou a média geral de 7/8. Os partos eram domiciliares e as parteiras designadas para o acto aprenderam as técnicas, como os miúdos aprendem a andar ou a falar: pela força das circunstâncias. Contudo, dada a falta de meios, podiam ser consideradas geniais. Existiram casos onde a mãe biológica, por diversas razões, deixou de amamentar o bebé e outra mulher, em situação de pós-parto, substituiu-a no aleitamento.
Chegava o baptizado, e os padrinhos, nobres e ricos de preferência, viriam a ser tratados por “compadres”. As minhas recordações infantis têm como ponto de referência os cinco anitos… capturando “azeiteiros” na poça da fonte grande.

A partir dos seis anos, a catequese, as catequistas, Lúcia, tia Ester e Aninhas da Eira, tiveram acções preponderantes e de grande eficácia na educação de cada um de nós, para além da formação teológica religiosa. A tia Lúcia, incansável desde sempre, na ajuda aos arranjos dos altares, cantares, lavagem das toalhas, enfim… merecia a medalha de fidelidade, desempenhando várias tarefas, na Igreja, benevolamente. A cruzada, desde sempre me fascinou… vestida de branco, com a cruz das caravelas, em fila de dois, direitinhos como fusos, orgulhosos e sorridente, saía nos eventos importantes, festas etc. O Luís, que na altura frequentava o seminário, e vinha passar férias a casa da tia Helena, iniciou-nos às primeiras notas musicais, e algum latim que decorávamos sem saber o que queria dizer, salvo uma frase aparentemente maliciosa, mas que queria apenas dizer: “ Os peixes romperam as redes”!?

Alguns de nós aprendemos a ajudar à missa, em latim… quase sempre a dois, e foi numa vinda oficial do Bispo, que uma “barracada” imprevista e incontrolável de riso surgiu, entre mim e o Pintassilgo, ajudantes designados pelo P.e João. Com antecedência de 15 dias, decorámos uns textos de boas-vindas, ensaiados ao pormenor para que nada falhasse naquele dia, juntamente com outras fantasias e cânticos religiosos. À saída dos ensaios, alguém nos contou uma história relacionada com a missa, os ajudantes, e um ratito. Pelos vistos, o rato apareceu por baixo da lâmpada a azeite, no canto entre o granito e o altar-mor, e, com as suas idas e vindas, alheio aos olhares curiosos, despertou a atenção dos ajudantes. Parecia mesmo que se passeava com prazer, lentamente, como a saborear a sua timidez quebrada. De repent, o Sacerdote voltou-se para os presentes e, abrindo os braços, disse em voz alta: - “ Orate fratres”- O ratito desatou a correr, “enfusgando-se” no seu esconderijo, enquanto um dos ajudantes respondia em voz alta: “Porra que mo espantaste”!

Nesse dia, o da visita do Bispo, cujo cerimonial não podia falhar, aconteceu um caso similar: um ratito, como por magia, quis participar na festa. O primeiro a vê-lo foi o Moisés que, com um sinal discreto, nos apontou o animal descontraído a passear. Ainda estávamos no início da Eucaristia, mas já não conseguíamos conter o riso que, apesar de o tentarmos abafar, se ouvia por toda a Igreja. Outros galafates, conhecedores da história, entraram na sinfonia dos espirros, cada vez mais ruidosos. O Sr. P.e já se tinha voltado duas ou três vezes, com ar repreensivo, que pouco ou nada acalmou os entusiasmos. Chegou a frase fatídica (orate fratres), e desencadeou-se um alvoroço tão ruidoso, que o Sr P.e desceu as escadas, pegou-nos pelas orelhas, um de cada lado, e levou-nos para a Sacristia. Como não conseguíamos explicar os deploráveis acontecimentos, deu-nos um pontapé no rabo atirando connosco para o adro. Os ânimos nem por isso se acalmaram, porque na Igreja ficaram ainda o Moisés, o João cuco, o Pedro e outros que como nós conheciam a história, e cada vez que olhavam uns para os outros, recomeçavam a sinfonia de risos, enquanto ao fundo da Igreja a D. Graça e D. Maria murmuravam furiosas: “Que pouca vergonha!”

Fomos crescendo e a rebeldia acompanhava-nos humildemente, fiel como as conquistas amorosas. Nos amores, abordagem para dar o primeiro passo era um esforço colossal, invadidos que estávamos pela timidez e pelo receio de levar um “ chega para trás”. Na adolescência aprendíamos com os mais idosos, técnicas que, se podiam facilitar a tarefa, também podiam ajudar a distanciar a pretendida.

Um caso concreto aconteceu numa tarde, ao cair da noite, lá para os lados das Ribas, onde três “lafraus” nos deslocámos, a tornar a água no lameiro do tio João Santo. Ao fundo, havia outro que confrontava com este e pertencia ao pessoal dos Pereiros. Por coincidência, um rapaz mais velho que nós andava nas mesmas ocupações, e aproveitámos para lhe perguntar se sabia escrever cartas às “garinas”? Partiu-se em gabanços e, como tal, pedimos-lhe para nos escrever uma… que no dia seguinte nos entregaria. O envelope vinha colado! Manifestámos o desejo de ler o que vinha escrito, mas o sujeito justificou a negativa, como sendo um meio seguro para não aprendermos as suas técnicas. A carta foi entregue e mal interpretada, possivelmente por ignorância, e no primeiro encontro o rapaz recebeu como resposta uma grande bofetada.

A maioria dos casamentos era organizada segundo os haveres materiais de cada um, pelos pais e familiares próximos. Havia relativamente poucas possibilidades de casar fora da terra, pelo facto de não existirem transportes para os encontros e, namorar por correspondência era uma aventura incerta. O paga-vinho obrigatório para os forasteiros de outras terras era uma tradição temerária, embora engraçada para quem presenciava. As moças, que estavam limitadas a saídas com acompanhamento, aproveitavam a ida à fonte para trocar rápidos olhares, ou palavras fugitivas. Com todas estas restrições, ainda havia casos de resistência às imposições, à semelhança do que acontecia na literatura: “Rosa do Adro”, “Amor de Perdição” “Romeu e Julieta”.

Foi num caso similar que, um dia, fui abordado pelo meu melhor amigo que me pediu para o acompanhar a casa dos pais da namorada, a pedi-la em casamento. Sabia das divergências existentes mas, apesar de serem de maior idade, impunha-se o tradicional pedido. O meu amigo acabava de pôr à prova a minha amizade. Respondi afirmativamente, mas quando me disse que era para aquela noite, fiquei como paralisado… era principiante na matéria, e o pai da noiva não era de cócegas! Quando lhe entrámos em casa, já a noite caía, porém, talvez já sabedor da nossa visita, o chefe de família tinha-se ausentado. Sentámo-nos à lareira e esperamos. O meu coração batia a duzentos por hora, ansioso por que o homem chegasse, e receoso com a astúcia a adoptar. Para culminar o meu desespero, outra pessoa estava presente e, como é óbvio, adivinhou as razões da nossa visita, por isso não arredava pé. Já era alta noite quando apareceu o pai da moça. Sentou-se, mas o diálogo tornou-se num silêncio pesado, temeroso, indeciso. Tanto o rapaz como a rapariga olhavam-me vezes sem fim, como a implorar o meu pedido, mas a garganta apertava-se-me, e a língua bloqueada não balbuciava palavra. Impaciente, mas em vão, o meu amigo dava-me joelhadas em silêncio: da minha boca não saía palavra… Até que, por fim, já bastante tarde, enchi os pulmões de ar e, a gaguejar, consegui pedir a rapariga em casamento. Jurei a mim mesmo, nunca mais aceitar as funções de intermediário no que diz respeito a casamentos!

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

A MORTE DE UM ANJO

Por

ANTÓNIO BRÁS PEREIRA


Esta casa era semelhante a tantas outras, de Rebordainhos… sem conforto, cheia de buracos por onde entrava, sem pedir licença, o gelado vento de inverno e a neve fina e matreira atravessava o telhado, suavemente, em silêncio, esgueirando-se pelas fendas do “forro”, que a fumaceira da lareira pintara de negro. Depois, pousava levemente sobre as mantas de farrapos, um ou outro cobertor, feito artesanalmente de lã de ovelha, que os antigos tinham mandado tecer, pagando com produtos da terra, ou uns tostões amealhados com grandes dificuldades, guardados dentro de um lenço, e “enfusgados” no interior dos colchões, feitos de pano de sacas, ou de riscado, nas casas mais abastadas. Em qualquer caso, os enxergões eram enchidos de palha, escolhida minuciosamente no tempo das malhas e eram assentes sobre umas barras de ferro, ou madeira: as camas. Também a chuva entrava pelo telhado e caía gota a gota, estatelando-se ruidosamente contra o sobrado, molhando-o até ao apodrecimento, se não se colocavam recipientes (caldeiros, bacias, tachos etc.) no lugar exacto da pinga …

Nesta casa morava uma família, numerosa como a maioria das que residiam no Bairro da Portela, carenciadas, pobres famintas, cujos meios de sobrevivência se resumiam à colheita de uns alqueires de centeio semeados em pequenas parcelas de terreno árduo e de frágil fertilidade, entre rochedos, lá para os lados da Ladeira, ou terrenos magros para lá da Ribeira, onde nem os jericos se seguravam em pé… Mas, depois da colheita, sobrava apenas uma pequena quantidade porque no dia da malha, e na própria eira, os credores vinham recuperar os empréstimos. O magro sustento contava, ainda, com meia dúzia de sacas de batatas, lançadas à terra num canto baldio ou arrendado – tão poucas que não chegavam à mó de trás – e umas couves-galegas para fazer o caldo, duas vezes por dia, com um pedaço de unto pisado com sal quando se matava o porquinho. Umas jeiras a cinco escudos – tão raras e difíceis de arranjar – eram a fonte do dinheirito que entrava em casa.

Esta família era constituída pelo casal, dois filhos e quatro filhas. Ao cair da tarde de um dia cinzento e sangrento, ocorreu a tragédia que deixou a população em estado de choque e os familiares completamente destroçados. Era uma menina esbelta, radiante, alegre, que rejubilava de felicidade… Numerosas vezes a vi jogar à “pedrisca”, rindo e saltando com as irmãs e outras crianças da sua idade, em frente da sua casa. Lembro-me dela, a troçar dos porquinhos, como dizia, quando com alguns companheiros de escola, e por ordem dos professores, nos dirigíamos em grupo para o tanque do Prado a lavar correctamente as orelhas, até que ficassem vermelhas, limpas, pois na escola não se brincava com a higiene, e as condições nas nossas casas não eram as mais apropriadas… recordo-a também á janela da sala, a farejar o cheiro do pão que cozia no forno da tia Benigna… na rua, onde com seus irmãos, jogávamos à roça, à bilharda ou ao pingue; no “canelho” da tia Maria da avó, correndo para a casa da tia Assunção, ainda antes de abalarem para África de ser ocupada pelos do tio António Atilano, enfim… uma menina que respirava saúde e alegria, mas que a Justiça de Deus condenou e transformou numa mártir.

Aconteceu nas Ribas de cima (creio que é também conhecido por “Lavadouro”), numa propriedade que pertencia aos familiares do tio Amadeu, onde havia um poço de baixa fundura, improvisado com duas pedras de lousa para lavar a roupa. Enquanto os mais velhos estavam ocupadas na lavagem ou e estendiam a roupa, a menina brincava nas proximidades e aproximou-se da fogueira que alguém acendera para queimar as ervas daninhas – silvas etc. que afectavam a cultura de alimentos. Vestida com roupas de flanela e lã, a menina recuou demasiado na direcção da fogueira e, sem se aperceber, as vestimentas começaram arder-lhe nas costas. Quando os presentes se aperceberam, já esta se debatia com todas as sua forças, rebolando-se no chão e tentando apagar o fogo que alastrava por todo o seu corpo enquanto soltava gritos de dor e angústia. Acorreram de imediato a irmã mais velha que ela, e outros adultos que se encontravam nas proximidades, mas em vão tentavam retirar aquela mártir do inferno. Como nada resultava, optaram por meter a menina no poço, que, de facto, apagou a chama, mas as queimaduras eram já demasiado profundas. Conduzida de imediato para o hospital de Bragança, onde lhe administraram os primeiros socorros acabou por ficar internada.

No resto daquela tarde, numerosas pessoas se deslocaram ao local da tragédia, incrédulas. Como tal poderia ter acontecido? Não tive essa coragem;, limitei-me a vaguear pelos cantos do bairro, só, silencioso, revoltado com Deus por ter permitido tão grande injustiça, e ao mesmo tempo pedindo-lhe que a curasse. A passos lentos, ia andando e recordando a garotada do bairro, ao passar pela porta do tio António Juiz, da tia Laurinda e tia Dulce, onde tantas vezes nos sentávamos, à saída da escola, nas altas escadas de granito, para pôr a conversa em dia ou programar os jogos do dia seguinte… Aatravessei a rua e subi o ”barranco” até à casa do tio Zé foguete, mas não encontrei ninguém para desabafar… passei a casa da tia Isabel, a dos Galanduns, à do Morais; desci para o pátio do tio Zé Luís onde encontrei em lágrimas um dos filhos do António Norato, e mais dois ou três que se mantinham silenciosos, cabisbaixos, como quem oculta uma dor profunda que lhe martiriza a alma… a conversa foi curta, um trocar de olhares apenas, que diziam tudo. Regressei a casa já sem luz do dia, comi de imediato o caldito das couve, e fui-me refugiar na varanda onde me sentei a olhar a escuridão da noite. Deitei-me com a esperança e a fé de que no dia seguinte teríamos boas notícias do meu anjo mártir.

No dia seguinte, na escola, ninguém ousava evocar os acontecimentos, e, já depois do intervalo, ouviram-se os sinos tocar. Estremeci, e como paralisado, compreendi aqueles sinais… o anjo acabara de nos deixar. Depois de tanto sofrimento, voou para o céu.

Dirigi-me a passos largos para sua casa - já não ouvia os murmúrios de ninguém - entrei na sala, determinado a verificar com os meus próprios olhos, o que me parecia ser um pesadelo, mas não era… num pequeno caixão, coberto com um lençol branco, jazia um corpo, pintado de vermelho pelo mercúrio que tentou atenuar o sofrimento das queimaduras do grau da morte. Seu rosto desfigurado deixava transparecer nos lábios um sorriso amargurado, um adeus imerecido e injusto, a caminho do inferno para o céu.
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Observação informativa: este texto foi escrito por uma pessoa que não pretende candidatar-se a qualquer prémio literário, nem mendiga a compaixão de quem quer que seja… escrevo como sei e gosto, com jeito e sem pés, ou com pés, mas sem jeito, sem pena nem caneta… apenas lembranças de uma infância difícil, mesmo pobre… digo-o e não me envergonho e jamais trocaria o meu passado por qualquer outro. Contudo, consciente de que quem publica sujeita-se a comentários e julgamentos, positivos ou negativos, gostaria muito que quem comenta os meus textos o fizesse de cara descoberta.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

ARTESÃOS DE REBORDAINHOS




Por

ANTÓNIO BRAZ PEREIRA




Como diz a adágio: “filho de peixe sabe nadar”, e assim também é com o Carlos Águeda. Para quem se não recorda dele, é irmão do Avelino, tristemente falecido num acidente de moto em Bragança, e do “Birlau” que, como tantos outros desejosos de uma vida melhor, resolveu desertar da terra mãe, rumo à capital ou estrangeiro. O Carlos, com suas mãos de oiro, herdadas do pai que, no seu tempo, manobrava o zinco e com ele realizava peças úteis, dá asas à imaginação e cria obras de arte, miniaturas que iluminam a curiosidade de uns e provocam a inveja dos menos dotados.

Conheci-o miúdo, magricelas, espevitado quando, em tempos, acompanhava com o Sr. Carlos “Chiote”, ou passava por minha casa à procura do meu sobrinho seu amigo Vítor, para uma saída de rotina, que não passava do café, ou de um passeio em volta do povoado. Hoje, que é casado e pai de filhos, apareceu-me por acaso, numa rede social, e um homenzarrão, fisicamente bem constituído, com saúde e boa disposição como aliás sempre denotou. Não lhe tinha agradecido pessoalmente a maravilhosa ilustração de um dos meus textos e já ele me propunha outras peças, frescas de tão acabadinhas de fazer, referentes aos Rebordainhenses: o tractor do Nelzeira, a malhadeira do tio Alfredo Guerra ou do António Chiote e, sobretudo, o carro do macho da tia Emília do tio Aniceto. Sobretudo, por causa do muito respeito e afecto que lhe merece. Embora a não visite frequentemente, tem as suas raízes na nossa terra, aquela que o viu nascer. Na nossa conversa sublinhou o carinho e os sacrifícios da mãe e as vagas recordações que tem do pai que morreu sendo ele de tenra idade.

Apesar de considerada terra fria, Rebordainhos acolheu, carinhosamente, saltimbancos, mendigos e forasteiros que por lá se mantiveram: a Joaninha e seu saco de mão e um caldeiro repleto de coisas desnecessárias e o Camilo, de pele escura por ser africano, que, quando com um copito, tocava batuque com o que lhe vinha à mão. Certa vez em que houve fogo nos os montes, e ouvindo o sino tocar a rebate, dirigiu-se a correr para o local, acompanhando a maior parte da população, com o intuito de apagar as chamas que ameaçavam terrenos de centeio próximos. O Camilo, que seguia correndo à minha beira, ao chegar junto da casa do tio Couceiro viu a Adosinda à porta, dirigiu-lhe estas palavras:

– Ó Sra Adosinda, guarde-me para aí estes dez tostões não os vá perder no incêndio…

Havia também o “Rádio” que permaneceu longo tempo por lá. Penso que a alcunha lhe venha de tanto falar, ou porque trazia sempre com ele um rádio pequeno a emitir música. E o tio Guerra, homem trabalhador e de paz; os ciganos “Laregos” e os do tio Fernando, e tantos outros que, na sua passagem, nos empolgaram com a representação do “Amor de Perdição”, da “Rosa do Adro” e do “Zé do Telhado” nos palheiros do tio Alfredo "Guerra" e do tio João "Santo" apetrechados para tal.

Voltando ao artesanato, lembro o tio Graciano “Grilo” e os seus socos de amieiro aos quais aplicava brochas redondas, se fossem socas das senhoras, ou de duas orelhas se fossem para os homens. Estas ferragens não só impediam as escorregadelas como minimizavam o desgaste rápido do pau. As solas velhas de uns sapatos serviam para a parte superior. Lembro os dois sapateiros, tio Carlos e suas “candongas” e tio João, mais aprumado, já de outra geração. Recordo, também, o Fernando cigano e sua esposa, habilidosos na produção de cestas de verga. A verga tinha tratamento específico: era amolecida em água, depois era descascada e, finalmente, passada pela chama, tudo enquanto estivesse verde, para diminuir o risco de ruptura.

Tínhamos dois excelentes carpinteiros, o tio Hermenegildo e o Rafael, que não só eram peritos na construção de carros de bois, engarelas, caniços, arados, jugos, trasgas como, também, eram capazes de pôr telhados.

Para trabalhar o ferro, as tarefas eram entregues ao tio Ramos na forje de cima e ao "Doutor Carroucho” na da fraga grande do Prado. Os foles gigantes deixavam a miudagem boquiaberta, sobretudo se os via em funcionamento. Sacas e sacas de carvão, feito de cepos de urze e trazidos do Cabeço Cercado e dos Montes, eram despejados na grande pia de cantaria rija, azulada, onde o fole chegava com seu bico de assoprar para acender as brasas e trabalhar “bater” o ferro. O som propagava-se pelo bairro todo, enquanto as fagulhas deliciavam o olhar como se fosse fogo de artifício. Neste lugar, com o saber dos citados, eram apontados ferros de gaviar, pica-chão, ganchas, enxadões, ferragens para as rodas dos carros e respectivos pregos, enxadas, ponteiros, enfim, quase todo o material em ferro fundido.

Tecedeiras, da minha lembrança, tínhamos a tia Irene, com o seu tear de vai e vem, cruzando centenas de vezes, de um lado para o outro, os fios de lã ou de algodão e, mesmo, farrapos velhos recortados em peças sem serventia que seriam usados para fazer mantas de trapos.

Nestes tempos, em Rebordainhos, para além dos nomes de baptismo, quase toda a gente era identificada pela nomeada. O mais graduado, “Juiz”, estava uma certa noite na taberna de baixo, que o Álvaro tinha à sociedade com o tio Carlos “Chiote”, a presenciar um jogo de batota. A noite já ia alta quando um carro da GNR parou à porta. Alguns agentes cercaram o edifício enquanto outros entraram com rapidez e lançaram mãos ao dinheiro que permanecia sobre a mesa. Depois de ter identificados todos os presentes, um agente ouviu um barulhito por detrás de uma porta onde colocavam as pipas. Dirigiu-se lentamente para lá, abriu a porta e, com um foco de luz, apontou para um canto onde o tio Juiz se escondia. – Olha o vinhateiro!!! Disse o Guarda, enquanto este voltava cabisbaixo para junto dos outros, a fim de ser identificado.

O tio Juiz não julgava, nem o Doutor dava consultas, assim como o Engenheiro não assinava projectos, nem o coronel comandava nenhum Batalhão, mas eram pessoas que bem mereciam tais títulos de nobreza, pela dedicação respeitosa e humildade partilhada.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

BAIRRO DE À CHAVE [2.ª parte]

por

ANTÓNIO BRAZ PEREIRA

Dedico o meu texto aos filhos de Rebordainhos já falecidos, e aos seus entes queridos vivos, que não puderam visitá-los no dia dos Fiéis Defuntos.

O convívio, entre a população, apesar das diferenças sociais e financeiras existentes era, aparentemente, cordial. Só na aparência porque, na realidade, os pobres eram os que sempre vergavam diante dos que possuíam abundância alimentar, bens ou títulos, uns herdados, outros adquiridos pela labuta constante, árdua e ambiciosa.

Se sondássemos os agregados familiares de Rebordainhos, estes poderiam dividir-se em três categorias: abastança, remedeio e necessidade. Nestes, o provérbio, “casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão”, manifestava-se como uma evidência. Era uma luta constante pela sobrevivência, tendo em conta os magros meios que o destino impunha. Alguns submetiam-se; outros escolhiam o inconformismo; uns eram optimistas e outros pessimistas.

Havia os bons e os maus pais de família, todas elas numerosas devido à falta de meios contraceptivos, sem esquecer a grande influência da religião católica. A concepção de filhos era um automatismo. A submissão da mulher às obrigações de esposa e às exigências incontestáveis dos maridos, muitos deles machistas todo-poderosos, incontroláveis quando à noite, já tarde, voltavam a casa, embriagados e sem um tostão nos bolsos, após longas horas na taberna a jogar e beber copos de vinho, alheios aos sentimentos inerentes ao dever de pais. Revoltados e inconscientes, agrediam os seus: à esposa, fisicamente, com pancada forte; aos filhos, moralmente, pois viam-se chorosos, com fome, e impotentes perante tal besta feroz e capaz de tudo. Estes filhos, por força, haveriam de guardar sequelas e traumatismos para o resto das suas vidas.

Eram essas humildes e dedicadas mulheres que carregavam e transportavam todas as culpas e responsabilidades. Ainda que inocentes, era sobre elas que caíam todas as injustiças e a elas é que era apontado o dedo da vergonha e do desprezo. Muitas foram mães solteiras, com seis, sete ou mais filhos, de variados pais incógnitos, como narravam naquele tempo as certidões do Registo Civil.

Vivia-se num País onde vigorava a lei do mais forte, do mais poderoso; onde os pobres só tinham direito ao silêncio, ao conformismo, à submissão, ao trabalho duro e penoso em troca de um pão de centeio ou de uma cesta de batatas que, à noite, levavam para casa, orgulhosos e felicíssimos por terem algo para matar a fome, pelo menos aquela noite, aos filhos numerosos …

As grandes propriedades pertenciam à classe das casas de “abastança,” que se contavam pelos dedos de uma mão. Vinham por herança, mantinham-se pela persistência no trabalho e acrescentavam-se por compra ou penhoras. Quantas terras penhoradas não puderam ser resgatadas por falta dos 10, 20, 30 ou 50 escudos impossíveis de amealhar! Certas casas, outrora fartíssimas, chamadas “grandes”, arruinaram-se por falta de empenho, zelo e coragem para gerir um trabalho árduo, consistente, embora avassalador. Os pais desleixavam-se, refugiando-se nos jogos e nos copos de vinho bebidos nas tascas, voltando para casa já a noite ia avançada, embriagados e mais endividados ainda, com dívidas que sabiam jamais poder pagar. Esta herança deixada aos filhos contaminou-os, e a maior parte deles seguiram os mesmos caminhos tortuosos de que só se arrependiam nas poucas horas que dedicavam à reflexão. Na sua dependência, o copo de vinho e a batota eram mais apetecíveis, de acesso livre e muito fácil. O choro das esposas e dos filhos já não os comovia, a violência transportava-os ao de lá do auto-controlo emocional, moral e físico, violência sem remorsos, por isso, sem remissão. A questão das dívidas teve, ao longo dos anos da minha lembrança, graves consequências no seio de uma população carenciada e dependente, encaminhada para a delinquência: furtos, assaltos à mão armada e, até, assassínios.

Ser pobre não significava, apenas, não ter nada; era também o desprezo, o abandono, a indiferença, a morte provocada por qualquer doença, ainda que fácil de curar. A doença era pior quando batia à porta daqueles que não tinham um tostão nem conhecimentos nas hostes da saúde pública, como foi o caso daquele miúdo que morreu à mingua, dia após dia, com uma broncopneumonia, por não aparecer no seu caminho uma alma bondosa que o levasse ao hospital, onde a administração de penicilina e dois ou três dias de repouso lhe teriam salvo a vida. Tempos depois, assim já não aconteceu com outro rapaz, com menos dois anos de idade, mas de família privilegiada, que foi salvo. Aos meus ouvidos, e durante toda a minha vida, soarão os gemidos daquele mártir, pedindo socorro! No coração, terei sempre a repugnância pela discriminação social!

No bairro de à Chave não havia ricos e, entre os moradores, existia uma cumplicidade de entreajuda e solidariedade. Também eles se contavam entre os jeireiros, contratados segundo as suas competências: coragem, fortaleza e dedicação para segar os fenos ou o centeios, arrancar batatas, etc., enchendo os palheiros, tulhas, cilos ou adegas daqueles que, tendo mais, poderiam vender o que lhes sobrasse.



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frases de Ben Zoma (04:01 Pirkei Avot)

" Quem é sábio?" - A pessoa que aprende a partir de todas as pessoas...

" Quem é poderoso?" - Aquele que domina a inclinação para o Mal...

" Quem é rico?"- O que se alegra em sua Parte...

" Quem é honrado?"- Aquele que honra os outros seres humanos...

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

BAIRRO DE À CHAVE


por

ANTÓNIO BRAZ PEREIRA


Sempre que nos ocorrem recordações dos tempos vividos, e à medida que o tempo vai passando (veloz a partir dos cinquenta anos, paciente entre os vinte e os quarenta, lento, muito lento, até chegarmos aos dezoito anos), elas actuam em nós de modo contraditório: ora assumimos conduta reticente à divulgação de um passado, feliz ou então amargurado, ora falamos orgulhosamente das coisas aprazíveis, enquanto tentamos, com manto de veludo, ocultar ou ignorar outras que a realidade dos tempos nos impôs, e que actualmente nos envergonham tendencialmente.

Conheci uma aldeia, a minha Aldeia, onde nasci e vivi e sempre carreguei no meu coração pelos muitos caminhos percorridos. Narrações diversas, divergentes, dissociações, tornaram-se lentamente, profundamente, uma realidade fictícia, que a imaginação pessoal e fértil arrasta pouco a pouco, como um pesado sentimento de culpa, de tolerância comprimida, misturando-se um remorso, saliência de vaidade orgulhosa, da completa realização imortalizadora dos sonhos.

Quando a minha avó (a quem chamávamos mãe Lana) faleceu, teria eu seis ou sete anos. Nessa altura viemos morar para sua casa, situada no bairro de baixo, na à Chave. Era a terceira casita, à esquerda de quem entra em Rebordainhos, vindo de Rossas. Por essa altura a Igreja tinha caído e, por causa das obras necessárias, procedeu-se à transferência, para o Cemitério, dos restos mortais das pessoas aí sepultadas sob o soalho de madeira apodrecida. Também o Cemitério fica no bairro de à Chave.

A primeira casa, caiada e baixa, com umas escadinhas de cimento transversais à rua e uma pequenina varanda que dava acesso à porta da cozinha, era a do tio Benjamim. Uma janelita que, voltada para a rua principal, deixava que a luz penetrasse na sala através dos vidros sujos, era o seu único luxo. Esta família, a quem a má sorte marcou com uma doença visual hereditária, teve, ainda, a desdita de ver um dos filhos, que tinha a minha idade, ser vítima de meningite que lhe trouxe gravíssimas sequelas. O José Augusto viria a falecer com uns vinte e poucos anos, por acidente, numa agueira de um lameiro, lá para os lados da Teixeira.

Montados num burro velho, com uma redução visual de 80%, o tio Benjamim, a tia Elvira e o Zé Augusto lá iam todos os dias, não importa se chovia e nevava ou se fazia sol, levar e trazer o correio, pelo caminho acidentado que era o carreirão de Arufe, num percurso de 4km até à Estação de Rossas. Abrigavam-se do frio e da chuva, ou esperavam a chegada da camioneta que trazia o correio, na tasca do “azeiteiro” junto à estrada nacional, tasca quase sempre cheia de homens jogando às cartas e bebendo uns copitos de vinho tinto. Depois da espera voltavam para Rebordaínhos, ensopados em água ou neve, gelados pelo vento forte e cortante que lhes dificultava o passo e tornava desgastante o caminho, exigindo tudo isso uma coragem extrema e um levar das forças ao limite. Cristão muito praticante, o tio Benjamim, quando em mortórios ou mesas de reza, rezava pelos santos, alguns com nomes um tanto estrambólicos, e até houve uma vez em que, não se lembrando de mais ninguém por quem rezar… rezou pelo “parreco”!

Encostada à do tio Benjamim (com parede meeira), de construção antiga, de pedra rija faseada para o alinhamento e telhado de caleira, ficava outra casa. Uma porta grande e velha dava acesso à cozinha térrea, e na outra extremidade, outra porta com dois degraus para se entrar na grande sala, pelo menos em comprimento, onde se realizaram numerosos bailes e outras reuniões. Essa casa, após a venda, era a casa do Fernando e família, ciganos muito estimados pela população, educados e trabalhadores cujos dois filhos eram amigos da rapaziada com quem conviviam sem complexos nem restrições.

A casa da “mãe-Lana” – a casa de meus pais – também era geminada com outra, que viria a ser doada às duas filhas menores da Assunção, em compensação pela morte do pai no trágico acidente ocorrido na curva dos roubões. Tinha umas escaditas de cantaria (que serviam as duas casas) e uma varanda onde era costume abrigar a lenha da chuva no Inverno.

Neste bairro bem povoado, havia uma encosta enlameada que, de curva tão apertada, foi sempre o cabo dos trabalhos para quem a queria subir com carro de bois ou a motor. Quantas vezes foi necessário rebocar os que ali chegavam e que se ficavam pelo meio da encosta, expostos aos olhares curiosos do Sr. Joaquim “Malino” do Emídio “Corrécio” e do tio “Cachulas” que espreitavam através de uma guarita feita na cantaria (talvez para esse efeito, já que a entrada da casa era por cima, assim como a do tio Carlos Sapateiro), ou nas escadas do tio César!

No pátio do tio Aníbal “Fuseiro”, dividido com outros herdeiros (tia Aninhas e D. Lurdes), raramente nos era permitido brincar, mas, logo por cima da encosta medonha, havia um pequeno largo ocupado em parte pelo sequeiro do tio Francisco “Moreno” onde nos juntávamos para dar ao tagarelo com seus numerosos filhos, ocupando o tempo com jogos tradicionais: Rou-Rou, pedrisca, bilharda, palmada, cepo, roça, pingue, pião, fito, etc. Outros, por precisarem de mais espaço, jogavam-se no Adro da Igreja, cerca de 100m mais adiante, ou na eira frente às casas da tia Gaudência e do tio Júlio “Jarrete”. Do outro lado da rua morava o Tio João “Picarete” com a família. As suas escadas e varandinha de granito, paralelas à rua, deixavam que se subisse por um lado e descesse pelo outro e eram um brinquedo para os garotos que, quando por ali passavam, se divertiam a subir e descer, mas que fugiam apressados assim que, atrás deles, surgia a dona da casa, danada e ameaçadora, com uma vassoura na mão, a dar valente reprimenda por lhe sujarem as escaleiras. Várias vezes entrei nesta casa e me quedei tempos infindos a ouvir o tio João contar histórias da França, da linguagem francesa que tanto amava, escapando-se-lhe uma frase para aqui, outra para ali, mas sobretudo da Guerra de 1914 na qual participara activa e orgulhosamente. Os seus dois filhos nascidos em França guardaram sempre o sotaque. Um deles, o Joaquim, tinha por nomeada o “Malino”, alcunha que lhe assentava como uma luva, como se pode confirmar pela história que se segue:

Certo dia, estava um grupo de rapazes na tasca a conversar sobre as festas e bailes que estava a haver nas aldeias vizinhas. Naquele tempo, todos nos lembramos, fora os próprios pés, quase ninguém tinha outro meio de transporte. Mas o “Malino” tinha já o seu automóvel e, não querendo fazer o caminho a pé, os mais atrevidos arriscaram-se a pedir-lhe:

– Podia-nos levar-nos à festa?
Olhou para eles de soslaio e, sem reflectir, respondeu:
– Levo! Claro que levo!!! Ide-vos lá a vestir…

Os moços não se fizeram rogados. Correram para suas casas, lavaram-se e assearam-se segundo as possibilidades de cada um, enquanto na tasca os mais velhos, vendo que o “Malino” continuava ali descontraído e com roupa de trabalho, suspeitando da malandrice, perguntaram:

– Tu vais assim, rapaz?...
Com um sorriso malicioso, palavras arrastadas e carregadas no rrrr, respondeu:
– Calma ainda não chegarrram…
Dizendo isto, saiu porta fora em direcção à sua residência. Os rapazes voltaram momentos depois e, não o vendo, tomaram a mesma direcção. Chegados à porta da sua casa, como não ouviam qualquer rumor, resolveram esperar. A espera foi longa e, como já começavam a desesperar, bateram à porta. De dentro respondeu uma voz masculina:

– ide-vos à cama que eu já cá estou!

O Emídio “Corrécio” era um dos residentes de Rebordainhos a quem eu, como garoto, mais temia. Também os cães e gatos o conheciam à légua, pelas suas atraganices, bem como o Cesário, seu padrasto, que era pastor dos fidalgos da Quinta. Com o Cesário, o “Corrécio” tem uma história que ficou gravada nos anais da terra. Certo dia, a mãe mandou-o levar-lhe o almoço. O Cesário, tendo já comido as magras batatas acompanhadas de umas cangas e peles de bacalhau, aprestava-se para atacar a malga do caldo de couves, quentinho e saboroso, que a “Magrila”, sua esposa, sempre fazia. Mexia o caldo com vagar e, à medida que ia mexendo, ia ficando perplexo com a cor avermelhada que via. Não tirava os olhos do caldo, mas o seu rosto ia ficando tenso e o gesto trémulo. Decidiu-se pela pergunta:

– A tua mãe cozeu chouriça no caldo?
– Cozeu, cozeu! Respondeu o rapaz, enquanto se ia afastando, não fosse o padrasto dar pela marosca.

O Cesário que, enquanto perguntava, levou a colher ao fundo da malga, viu aparecer à tona uma grande e gorda vaca-loura, como se fosse um camarão cozido.

– Ah ladrão que me querias matar! …
O moço não quis palha nem grão, desatou a correr e fugiu. O casal já dormia quando, muito tarde, o Corrécio se atreveu a entrar em casa.

Continua...

domingo, 17 de janeiro de 2010

CANTO TRADICIONAL DOS REIS


EM REBORDAINHOS, PASSO A PASSO


por

ANTÓNIO BRAZ PEREIRA


No dia 10 de Janeiro, bem cedinho, preparei-me para percorrer os 15 km que me separam de Rebordainhos, onde, dias antes, após a Eucaristia Dominical, soube da realização do cantar dos Reis. Como em todos os anos, marcou-se a festa para o Domingo a seguir ao dia 6, que é o modo de encontrar a maior parte das pessoas nas suas casas, sem lhes perturbar os trabalhos.

Havia tantos anos que não presenciava pessoalmente… Cá fora, o termómetro marcava 4 graus negativos; contudo, de máquina fotográfica na mão e coberto até às orelhas, meti-me ao caminho. Ao chegar junto da Senhora dos Caminhos, à beira do tanque da Chave, vejo vir, estrada acima, o grupo de cantores: Chico, Casimiro, Ferreira, e Toninho Rodrigo; o mordomo das Almas, Zé da Lúcia; o careto, filho mais novo da Marquinhas e o Filipe Freixedelo. Regressavam já, àquela hora, da Quinta e de Arufe, aparentemente gelados e receosos do que os esperava para visitar toda a Aldeia. Entrei com eles em casa do Tonho da tia Julieta, onde, calorosamente, os esperava uma mesa repleta de vinhos variados, bolos e chocolates, salpicão e chouriça cortados aos pedaços, como em todas as casas sem excepção, mesmo naquelas mais modestas. Esse modo de receber impressionou-me profundamente: recepção digna de um rei, toalha fina, copos e bandejas, como não se encontram em hotéis de 3 ou 4 estrelas.

Na frente seguia o careto, vestido de vermelho, rosto tapado pela careta, foice numa mão e maçã na outra onde enterrava, até ao meio as moedas oferecidas. Batia à porta e, se fosse aceite a visita, seguia para outra casa, enquanto o resto do grupo entrava, atrás do primeiro da reza e iniciador dos versos cantados. Davam as boas-festas cumprimentando todos os residentes ou amigos presentes, seguidos da pergunta: canta-se ou reza-se?

Juntei-me a eles e cantei também, para matar saudades de tempos passados, e o Filipe fez a mesma coisa. Seguindo para outra casa, de olhos fixos nos paralelos gelados e marchando lentamente como em cima de ovos, durante o trajecto contavam-se histórias passadas, sobretudo referentes ao tio Leque, daquelas que fazem rir e deixam as pessoas bem dispostas e fazem sentir menos o frio que não parava de aumentar. Perguntaram se queria ir com eles, respondi afirmativamente, sobretudo porque me deslocara a Rebordaínhos com a intenção de assistir a tudo e tudo fotografar.

A recepção era de tamanha gentileza, sensibilidade e, sobretudo, alegria, que faria feliz um condenado. Por vezes, sobretudo nas casas onde alguém sofria por motivos de doença ou outra razão, rezava-se apenas, comovidos pelas lágrimas, e oferecia-se uma palavrinha de conforto.

Já no Covelo depararam-se-nos três casas fechadas: a do tio Alfredo Guerra, a do Carlos Chiote e a do Sr. Lopes. Pela minha mente, em silêncio, passaram tantas coisas por ali acontecidas…Mas lá vinha mais uma piada do Chico ou do Toninho, e o humor ultrapassava tudo.

Nesse dia, estavam em Rebordainhos pessoas vindas de Bragança, do Porto, de Lisboa, França e Alemanha. Mesmo entre os cantadores há quem não resida lá permanentemente, mas, estejam onde estiverem, lá vão cumprir uma devoção que, afinal, é mais um serviço prestado a todos. A casa do Valente situada já quase na chãera, pôs fim à primeira parte da visita. Era hora da missa e, só depois dela, retomaríamos a rota das boas-festas. No bairro das pedras visitámos a tia Maria seca, radiante de alegria. De uma lucidez desconcertante, mantém-se maravilhosamente conservada para a idade. Foi frente à casa do tio Leque, antes de visitar o tio Eduardo, que surgiram as anedotas mais picantes, daquele reputado de trocista.

Não posso deixar de frisar um facto passado na Portela, numa casa de emigrante, a do Sr. João Sapateiro. Deixou alguém entregue à chave de sua casa, mandou acender a lareira, pôr a mesa com o necessário, rezar pelas suas obrigações e uma cantilena bem botada. Mesmo ausente, o Sr. João estava connosco…e com as Almas, para as quais se não esqueceu de deixar esmola.

Chegámos, por fim, ao bairro do Outeiro onde, em casa do Mordomo, terminou a visita. Cantámos com toda a garra e rezámos pelas intenções dos donos da casa. Entretanto, de Lisboa, telefonou o Sr. Orlando e, pelo telefone, foi presenteado com o nosso último canto do dia. Uma grande e linda mesa composta com tudo do que há de melhor aguardava o grupo, mais os convidados e familiares. Enquanto comíamos, víamos a neve cair através dos vidros, com tanta vontade, que o Rui e o seu pai começaram a inquietar-se com a sua ida para a Faculdade no Porto. Falou-se, igualmente, do projecto de realizar um CD para que não se perca a tradição, e de que maneira se poderia concretizar tal projecto, juntamente com os novos, os quais, na noite anterior, tinham feito o mesmo trajecto, ensaiados por um pároco de Balsamão, e um músico, creio que de Bragança. Espero que o Município ajude a encontrar uma solução. Um grande bem-haja a todos aqueles que defendem tradições como esta, porque a nossa terra, apesar de fria e menos povoada agora, continua a vestir-se de branco para os filhos e amantes.



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Se há quem se não lembre, aqui fica o link para o artigo que publicámos o ano passado e onde estão alguns vídeos.

sábado, 12 de dezembro de 2009

A MATANÇA

por

ANTÓNIO BRAZ PEREIRA


O acto da matança será barbaresco para os defensores dos animais, mas era útil e necessário para a sobrevivência nos meios rurais, sobretudo quando o talho mais próximo se localizava na capital de distrito, a uma distância de vinte e seis quilómetros, quatro deles percorridos a pé, por carreiros de terra batida, até chegar à estação de caminhos de ferro onde o Sr. Azevedo, por duas coroas, passava o bilhete que dava acesso ao comboio a carvão, (mais tarde automotora) que demorava mais ou menos uma hora para chegar à cidade. Tempo e dinheiro gastos para comprar carnes que, ao fim e ao cabo, também eram abatidas por alguém, não justificavam que se não fizesse a matança.

Enquanto puto, a matança do porco, em Rebordainhos, era, para mim, um dia de alegria, abundância e harmonia. Em se aproximando o Natal, o porco entrava na engorda e passava a ser mais mimado com castanhas descascadas, batatas e centeio granulado, cozidos num grande caldeiro posto sobre a lareira que também era aproveitada para encostar os pés molhados e, até, as roupas vestidas que fumegavam como quando se cozia pão! Nesta altura, porque o frio apertava mais e as geadas deixavam vestígios nas poças e tanques de água, o tempo adequava-se à conservação e, por isso, marcava-se uma data, quase sempre aos domingos, para o dia fatal do animal.

A diferença que existia entre as famílias remediadas e as pobres, como noutros aspectos, também se notava neste. Primeiro, pelo número de convidados e, depois, pelo número de animais: de nenhum a três.

Certo Janeiro fomos convidados para casa do tio João Santo que matava os seus três porcos. Saí de casa bem cedo e nem esperei pelos demais familiares – eles sabiam o caminho e, além disso, mal tinha cerrado olho durante a noite, ansioso pelo amanhecer. O dia estava frio e gelado e, de noite, tinha caído uma camadita de neve. Passei diante das poças da Fonte Grande e do Espinheiro cujo gelo, apesar de convidar à patinagem, me deixou indiferente, tal era a apressa de chegar. Mais adiante, perto do pelourinho, dirigi-me para a rua que dava acesso à casa do Bagueixe, com a intenção de passar pelo atalho que desembocava, direitinho, nas escadas do lado da adega, as quais me levariam directamente ao destino. Ia avançando lentamente, escorregando aqui e ali, quando, da Casa do tio Leque, que mantinha a porta fechada, ouvi chamar:

Ó Bagueixe, tens muitas mulheres?...

Como não obtivesse resposta do vizinho cujas paredes eram meeiras (e a comunicação se fazia através dos buracos que nelas havia ou, então, pelas janelas que eram próxima uma da outra), repetiu a mesma pergunta, levantando ainda mais a voz. Do outro lado, em resposta, ouviu-se uma blasfémia acompanhada da seguinte frase:

– Tenho as mulheres no…
– Pois olha, diz o Leque, cornos não te faltam!
– Raios partam o homem que é maluco como os carros!... Não se pode estar sossegado na cama!

Levantando-se em ceroulas e camisola de flanela, o Bagueixe foi direitinho à janela e, mal a abriu, viu à sua esquerda o outro, debruçado sobre a sua, a rir às gargalhadas enquanto apontava para as telhas das quais caíam, longos e cristalinos, muitos candeolos de gelo. Ficaram os dois tagarelando por mais algum tempo, enquanto eu, receoso de perder o mata-bicho da matança, corria para a grande cozinha do tio João Santo.


A mesa enorme estava repleta de presunto, bacalhau passado por ovos, figos e nozes secos. Também não faltava a garrafa de aguardente, queijo e café migado. Alguns convidados esperavam, já, sentados no escano. Junto da grande lareira estavam dois potes grandes, um destinado à canja onde uma galinha velha cozia durante horas; o outro, para o arroz do almoço. Todas estas tarefas caseiras eram entregues às mulheres que iam buscar o fígado fresco para refogá-lo. Outras três ou quatro, porque era necessária água corredia, iam lavar as tripas lá para as Ribas, Fonte da Vila, ou mesmo à Ribeira. Voltavam geladas dos pés à cabeça.


Os homens, após o mata-bicho, preparavam-se para enfrentar os bichos. Alguns eram grandes e fortes que nem toiros, razão pela qual eram os mais jovens com “cabedal” e os trintões pujantes os primeiros a ter que arregaçar as mangas. Não podendo deixar transparecer o receio que lhes ia na alma, um após outro, lentamente, com alguma apreensão, iam-se aproximando da porta, por detrás da qual, o manso animal se transformava em fera brava, como que adivinhando as intenções daquela quantidade de homens. O Matador, com grande experiência, visto serem raros a possuírem coragem e saber, entrava na loje logo depois do primeiro homem, que levava uma corda na qual fizera um laço. Logo atrás vinham os mais corajosos: dois deles deitavam as mãos às orelhas do animal, para este abrir a boca onde era introduzido o laço da corda que lhe prendia o focinho, fixando-a nos caninos do animal. Conduziam-no assim para a rua e, a partir daqui, numerosas, engraçadas e verdadeiras passagens podiam ser contadas. Nesse dia da matança do tio João Santo apenas aconteceu que, enquanto alguns agarravam o terceiro porco (pesava duzentos quilos, limpo), parte dos homens preparavam-se para a chamusca do segundo que… pega a correr pela canada da casa do Ferreira e só parou no lameiro do tio António Trocho, perante a estupefacção dos que presenciaram a cena, mais o gozo do tio Leque que gritava às gargalhadas:

– Agarrai-o! Agarrai-o!... Ó Bagueixe, o Santo só chama gente fraca para a matança! …
– Chegavam-lhe os dois que ficaram; a esse fazíamos-lhe nós o fado, respondeu o outro.

Enquanto se fazia a preparação dos cevados sobre bancos largos e resistentes, os garotos costumavam cortar o rabo, prepará-lo e assá-lo nas brasas com duas areias de sal.

A quem não passava despercebida qualquer matança, era ao Hermínio Russo nem ao seu colega, o Carlos Chiote. Começavam por rondar o local quando os animais estavam em fim de preparação e, aproveitando qualquer distracção dos matanceiros, puxavam da peliqueira afiada e cortavam um pedaço magro, junto da espádua e iam, depressa, assá-lo. Nesse dia, era em casa do Bagueixe, de mecha com eles.

De porta fechada, os três comparsas preparavam-se para petiscar, assando o isco nas brasas, com sal e um pedaço de malagueta. Mas o tio Leque, malandro como as raposas, tinha farejado já qualquer coisa, para além do fumo que lhe entrava pelas narinas. O Bagueixe saíra com uma garrafa de quartilho e meio, vazia, nas mãos e voltara momentos depois com ela cheia…

– Cheira-me a comeninzana! … Mas introduzir-se em casa do Bagueixe não era tarefa fácil, sobretudo porque não devia estar só. O Leque precisava de arranjar uma artimanha!… De repente, lembrou-se das bombas que sempre guardava em casa: – E vai ser uma dos foguetes que bota muito fumo e eles são obrigados a abrir. Meu dito meu feito: um grande estrondo, fumo a sair pelo buraco do gato… e os três perto da porta aberta, tossindo, enquanto rogavam pragas ao engenhoso e desenrascado homem com quem foram obrigados a partilhar o quinhão!

– Tende lá paciência, mas nem o pão posso trazer… não o tenho!

Só se almoçava depois de terminados todos os preparativos. Os cevados eram pendurados de cabeça para baixo, para que as geadas lhes dessem a forma adequada. Os muitos convivas sentavam-se à mesa repleta de chouriças, alheiras, presunto e pratos variados. O convívio prolongava-se por todo o dia e os mais idosos só voltavam para casa à noite e, por entre o pipo do vinho e o estômago bem recheado, vinham ao de cima discussões que, por vezes, aqueciam. Nesse dia não pude esperar pelo fim porque eu, o meu primo Tarcísio e o Pintassilgo fomos com as vacas para a Galiana, onde me pus a jogar à queda com o Pintassilgo. Resultou num braço deslocado e no pedido ao Sr. padre João que me levasse a Paçó onde havia um compodor de ossos.



(A esta hora, o fumeiro já começa a corar em casa do Tonho)


No texto da mensagem em que me mandou as fotografias, o Tonho escreveu mais:

É sempre agradável recordar o dia das alheiras que era um festim, o encher das chouriças (e os bocadinhos a assar e cair na cinza), dos palaiotos (impressionantes aquelas tripas do intestino grosso cheias de massa, e até a bexiga redondinha, fazendo inveja aos jogadores de futebol). Também havia os butelos, que os novos mal conhecem, enchidos com carne e ossos e, quando abertos, depois de cozidos e tostados na lareira, acompanhados com grelos, eram uma delícia por alturas do Entrudo.

sábado, 24 de outubro de 2009

TERRA AMADA

MUDAM-SE OS TEMPOS...
por

ANTÓNIO BRAZ PEREIRA


Também em Rebordaínhos se foi instalando a mudança. Chegavam os primeiros tractores. Isto foi pouco depois da reconstrução da igreja, ainda sob a responsabilidade do Padre Amílcar (as ossadas encontradas foram levadas para o novo cemitério). Primeiro, o do tio Sebastião, um Ford Dextra e o do tio Alfredo Guerra, da mesma marca. Mais tarde, o do Basílio e outros mais. O primeiro automóvel, creio, foi o Anglia do Sr. Padre João, seguido de um Ford-Taunnus – o espadinha - do Sr. Professor, e outro idêntico do Sr. Herculano.

O telefone tinha acabado de chegar, e o primeiro rádio fazia também a sua aparição, para a felicidade
de quem gostava ouvir música, notícias, as novelas da “Maria” mas, sobretudo, o relato de futebol. Creio que o tio João Santo foi o primeiro a comprar um Grundig grande, com quatro ou cinco teclas como as dos acordeões.

Tempos antes começaram as explorações de água, junto da casa da tia Laura, e as canalizações feitas pelo povo, para junto das casas. Aparecia igualmente a electricidade, mas só tempos depois foi comprado um televisor para a casa do povo do Outeiro, obra do Sr. Professor e do Basílio, e mais jogos, como: pingue-pongue do qual se faziam grandes disputas, dominó e damas, para ocupar os domingos chuvosos. Entretanto, para ver jogos de futebol da selecção, fomos várias vezes a pé, pelos Montes, até Bragada, onde uma senhora amável nos acolhia e permitia que os víssemos.

Hoje, é com grande nostalgia que recordo a minha linda terra de outrora e as maravilhas que o progresso derrubou, como a fonte do Espinheiro, onde tantos jovens se sentaram, conversaram e, até, namoraram, fingindo as moças, à noitinha, que vinham buscar água de que nem precisavam, mas tinham a certeza de que, ou pelo caminho, ou junto da fonte, encontrariam jovens das suas idades, e o fingimento devia-se à severidade dos pais e à pouca liberdade com que éramos educados naquele tempo. Também chegou a vez à minha vizinha, a Fonte Grande. Nela, as mulheres vinham encher, de água fresquinha, as “bilhas de barro” compradas nas feiras, porque em Rebordainhos apenas havia a Olaria do “Tio Vento” do livro da terceira classe. Também neste lugar se podem contar histórias verdadeiras, de um viver simples, natural, sem vergonhas ou invejas.

O prado tinha uma magia encantadora. Não era um largo qualquer, construído por arquitecto de renome, pois, nele, apenas o tanque de duas bicas e o poço de lavar deviam a homens bem inspirados a sua construção. As duas árvores magníficas foram plantadas por dois estudantes que, talvez, já tivessem partido quando elas caíram, mas os que ficámos, pequenos e grandes, sentimos um vazio imenso, porque elas faziam parte integrante da nossa vida real. Por sua vez, também a fraga desapareceu: por se encontrar no lugar errado, ou talvez por ser de granito natural, grande demais; quem sabe porquê?...

Aquele espaço do Prado foi sempre considerado suficiente para a realização de jogos ou, simplesmente, trocar impressões junto das tascas, em volta de um “quartilho” de vinho. Os mais novos tinham a Eira do Outeiro para jogar à bola, mesmo sabendo das barafundas do tio Zé Çuca porque lhe partiam as telhas do telhado da casa. O polidesportivo, construído nesse lugar, retirou o encanto de se percorrer a distância que o separa do campo da Cabeça que, de tão pisado, se ia cuidando da invasão das carvalheiras.
Recordo-me de uma aposta feita entre o Sr. Arnaldo e o Carlos Chicheiro que tinha vindo fresquinho dos pára-quedistas. O Carlos partia do Prado e o Arnaldo da eira do Outeiro. Ambos tinham que ir ao campo da bola e voltar ao lugar de partida, para ver quem ganhava. Apesar da grande diferença de idades, o mais novo perdeu, para grande espanto dos presentes, que tinham votado nele!
***
Apesar de haver lugares mais costumeiros, jogava-se e brincava-se em qualquer sítio: ao cepo, ao pingue, à relha, ao bate-cu... mas isso fica para a próxima!

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

TERRA AMADA


MODO DE SUBSISTÊNCIA

por

ANTÓNIO BRAZ PEREIRA


Ilustrações: peças de artesanato da autoria de Carlos Águeda


A BATATA

Vivia-se essencialmente da agricultura: batata, centeio, um pouco de trigo, linho, castanha, mas também da posse de gados de ovelhas, cabras ou vacas. A batata, cultivada nas terras mais férteis, ditas “fundas”, era semeada manualmente, trabalho da competência exclusiva das senhoras que as iam deixando cair, uma a uma, no espaço de um palmo, à medida que iam marcando o passo pelo sulco fora, rectificando alguma que ficasse menos alinhada, pois só assim condizia com o aprumo do lavrador. Deste, a grande proeza destacava-se no movimento lento e certo dos animais, bois ou vacas, a quem ensinara o ritmo e o passo.

Quatro meses depois surgia a arranca. No Largo do Prado, ao lado do tanque de duas bicas de água corrente onde tanta gente se refrescou e saciou a sede, o olmo e o freixo estavam repletos das sequelas deixadas pelos pregos espetados pelas mãos de sucessivas gerações. Era à sombra do olmo e do freixo que, aqueles que tinham uma safra de toneladas, esperavam o rancho de homens e mulheres, de proveniências diversas mas, sobretudo, de Caravelas (perto de Mirandela), a fim de os contratarem, já que o pessoal residente não chegava para as encomendas. Davam-lhes pousada durante os dias de serviço, num palheiro ou casa apropriada e, quando se acabava o que fazer, o mesmo rancho passava para outro patrão. As batatas eram minuciosamente escolhidas em três categorias: consumo, semente e miúda (para os porcos).

Para melhor conservação, a maior parte das batatas eram metidas em ”silos”: abriam-se covas com cerca de vinte centímetros de profundidade e metro e meio de largura, variando o comprimento de acordo com a quantidade a ensilar. As batatas eram depositadas em pirâmide e rigorosamente emparedadas, depois cobriam-se com a palha alta e direita do centeio, numa espessura de dez centímetros, e, por fim, acrescentavam-se três de terra por cima. As certificadas eram levadas para Rossas e as outras guardavam-se nos palheiros.

OS CEREAIS

Cultivar o centeio e o trigo era mais um dos grandes acontecimentos da Aldeia. As segadas realizavam-se no Verão, durante o mês de Julho. Como acontecia para a apanha da batata, grandes ranchos de homens juntavam-se no Prado debaixo das duas árvores favoritas. Vinham equipados com seitoura, dedais, colete e camisa de quem se mostra disposto a trabalhar. Alguns calçavam uns tamancos abertos atrás e vestiam calças idênticas às dos cow-boys. Musculosos, apresentando um rosto severo ou ar alegre e juvenil, os que vinham pela primeira vez ofereciam os seus serviços e os outros reencontravam-se com os patrões antigos, se no ano anterior tinham deixado boa impressão e ficado referenciados como bons trabalhadores. A gente da terra chamava-lhes camaradas de segadores, havendo-as pequenas, médias e grandes, chegando estas a atingir os vinte homens. Entre eles havia alguns com funções bem definidas: aquele que animava o rancho, tocando concertina, realejo, viola ou guitarra e começava a cantoria, e aquele que dava de beber, levando vinho num pipo ou cabaça, ou água em bilhas de barro ou em remeias feitas de zinco.

Feita a distribuição pelos diversos patrões, quase sempre ao domingo, os segadores instalavam-se com os apetrechos que traziam e voltavam ao largo do Prado a tocar e a cantar até alta noite. Pela manhã, bem cedo, seguiam a pé, conduzidos pelos patrões, para o local da segada onde se organizavam rapidamente, metendo mãos à obra. Um ou dois de entre eles eram atadores, e não tinham tempo para se coçar. Juntavam as gabelas necessárias para fazer um molho, retiravam uma mão cheia de palha com espiga e, com ela, apertavam, pondo o joelho esquerdo por cima, para melhor unir: num virar de olhos, estava concluída a operação, que parece fácil, mas acreditem que era necessário muito exercício e força para ficar bem. O calor a apertar, o efeito do vinho, e outros factores, contribuíam para haver despiques entre eles, pois nenhum gostava ficar para trás. A água corria-lhes pelas faces e o cansaço notava-se nos rostos. Mesmo assim, cantavam versos dirigidos aos que não aguentavam aquele ritmo desenfreado! Quando terminavam e ceifa naquele prédio, juntavam o centeio numa “murnalheira” em forma de U: molhos ao alto, com a espiga para cima, contando as “pousadas”. Cada quatro molhos fazia uma pousada, que dava um alqueire de centeio, cujo peso correspondia a onze quilos, se não estou errado.

Tanto esforço requeria boa alimentação e em grande quantidade. Pelas nove e meia matavam o bicho com salpicão, chouriça, bacalhau frito ou desfiado, queijo e café. Ao meio-dia, lá ia a dona da casa, ou uma pessoa contratada, levar o almoço bem recheado em colorias, num grande cesto feito de verga e transportado à cabeça. Outras vezes, metia-se o almoço em alforjes e carregava-se um burro com elas. Matava-se uma canhona, ovelha das mais velhas, que se refogava e acompanhava com batata cozidas. Também se preparava arroz com galinha, e muitas outras coisas que ficariam para a merenda, programada para as quatro da tarde. Á noite, era uma alegria vê-los voltar a casa. Tocavam, cantavam e dançavam, como se voltassem de uma excursão ao Algarve. Qual fadiga, qual carapuça! Eram rijos como o ferro!

As malhas eram mais uma obra de entreajuda. Muitas vezes ia-se à torna jeira, mas contava-se também com os que vinham ajudar porque deviam favores. Apesar do sacrifício para suportar o calor intenso e a poeira, nunca havia queixas. As pessoas punham-se nos lugares cujas funções desejavam desempenhar. O lugar mais procurado era o dos sacos, pois havia quase sempre vinho doce, às vezes com ovos batidos.
A arquitectura, tanto das medas como dos medeiros, era outro dos orgulhos dos Lavradores. Havia um pormenor que não passava despercebido: quando a meda estava quase no fim, e se o patrão tivesse filhas solteiras, iam dois ou três rapazes buscar uma delas, para ser transportada, até à malhadeira, nos quatro molhos do começo da meda. Levada no virgo, assim se dizia! No final do almoço, a menina transportada distribuía rebuçados às senhoras e cigarros aos homens.

Pelo ano fora, os cereais seriam moídos nos moinhos de água, com um rodízio e duas pedras devidamente colocadas e picadas segundo a qualidade das farinhas. Do centeio saía apenas farinha e farelo; do trigo extraía-se, o “relão” de cor mais negra, a sêmea, farinha mais fina, e um pouco de farelo. O milho moído fazia igualmente parte dos alimentos desse tempo, assim como os”cussecos”, hoje especialidade dos Países Árabes, feitos da farinha do trigo, amassada e enrolada em pequenas porções, para depois cozer no forno, dentro de cântaras de zinco perfuradas com centenas de buracos.


ACTIVIDADES ARTESANAIS

Profissões exercidas eram várias: havia dois sapateiros. O mais idoso era o Sr. Carlos, homem simpático e brincalhão, com a sua sovela que, de tempos a tempos, passava na bola de cera, para melhor perfurar a sola, batida sobre um seixo, o seu avental de couro, e as cicatrizes deixadas pelas linhas nas mãos, quando as puxava, enquanto realizava com proeza um belo par de sapatos. O Sr. Carlos contava histórias que nunca me cansava de ouvir. Estávamos uma vez à braseira, quando um rapaz, filho de agricultor abastado, lhe veio encomendar uns sapatos em nome do pai. Ouve lá ó rapaz...Tu queres que os sapatos chiem? O puto reflectiu e respondeu: Claro!... Então tens que dizer ao teu pai que me mande uma posta boa de bacalhau, se não, não chiam.
Havia, ainda, um soqueiro, três carpinteiros, um “chicheiro”, cesteiros, latoeiros, tecedeiras, ferreiros dois, alfaiates e costureiras, etc. Figura inesquecível era o tio Hermenegildo Caixeiro que fazia os carros de bois desde eixo ao pinalho, passando pelas rodas e ferragens, engarelas, arado, trasga e até o jugo! Este homem fazia tudo na perfeição, não esquecendo as tarraxas que, bem apertadinhas, eram o orgulho dos que, ainda longe, se ouviam chiar, como a querer dizer que aquele carro vinha carregado com alimentos ou coisa no género. O tio Hermenegildo tinha, também, o dom de saber cantar o fado à desgarrada, como poucos, e a sua reputação era tão grande como a de carpinteiro.

Também se cultivava linho em Rebordaínhos. Semeado em terras mais ou menos férteis, existiam, segundo me consta, duas variedades: o Mourisco, que crescia mais, e o Galego. No tempo da recolha, era arrancado e posto ao alto, em pequenos ”molhos”, para acabar de secar. Depois seria levado para os ribeiros e metido debaixo de água até estar curado. Terminado este processo, levavam-no para junto das casas, ou eiras, onde permanecia mais algum tempo para voltar a secar. Seguidamente era maçado com uns maços feitos de madeira rija, em forma de “quilhas” de “bowling”, sobre cantarias apropriadas. Depois de bem maçado, era passado num “sedeiro para lhe ser extraída a estopa, a qual por sua vez, seria fiada, servindo para tecidos mais grosseiros, como tapetes, meias, panos de limpar etc.. O linho, mais fino e delicado, era tecido em teares, de onde saíam lindas toalhas, lençóis, cortinados e muitas outras coisas indispensáveis ao viver desse tempo. Sobejavam os “tascos” sem utilização, que eram postos em montes e queimados, fazendo a alegria dos mais novos, que os levantavam ao ar, enquanto ardiam. Quase parecia fogo de artifício!
Os Teares eram manuais, ouvindo-se, de longe, a funcionar. A tia Irene, naquela casa do Pelourinho, foi, talvez, uma das últimas tecedeiras a exercer na Aldeia.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

TERRA AMADA


IN ILLO TEMPORE

por

ANTÓNIO BRAZ PEREIRA


Rebordainhos já foi vila e, ainda hoje, lá para os lados da Chãera, as gentes de trás da serra falam dos “Cancelos da Vila”. Era um aglomerado bastante significativo de pessoas e a maior parte dos lares eram constituídos, bem à vontade, por uma dezena de familiares próximos. A maior parte das casas não possuíam o mínimo conforto: poucas divisões, telhados e paredes com buracos, por onde a ratazana fazia os seus passeios diurnos e nocturnos, com tranquilidade desavergonhada. O gatito que por lá andava tentava, de vez em quando uma astúcia heróica, pretensiosa, que resultava ou não, mas era do seu abnegado trabalho que dependia a sua sobrevivência. Havia, também, as chamadas casas “ricas”, as quais se contavam pelos dedos das mãos. Estas diferenciavam-se das outras, tanto pela arquitectura, como pela abundância, na recolha dos géneros, no seu devido tempo.

Falava-se de uma Igreja que em tempos teria existido no Lombo de à Igreja, pelo facto de ainda se encontrarem pedaços de telhas ao lavrar e, também, pelo nome dado ao lugar. Houve aí grandes pegas de touros a que nós chamávamos luta. Existia uma rivalidade orgulhosa, tremenda, entre os proprietários dos touros: todos diziam ser o deles o mais forte, o mais bonito, o maior... O Ramiro Alves e o Francisco Martins tinham dois bichos grandes e lindos. Lutaram no Lombo de à Igreja, mas já me não recordo qual deles ganhou. Também o Cândido Pires e o Fernando Jarrete participaram com os seus touros em lutas semelhantes. Outro pretexto de rivalidade era a rua que divide ao meio a povoação: sempre que se organizavam jogos, era o bairro de Baixo contra o de Cima, Cubelo, Espinheiro e Portela contra à Chave, Bairro das pedras e Outeiro.

Da nossa Freguesia fazem parte integrante os lindos Vales, um pequeno aglomerado de casas, mas com gente de grande franqueza e bondade, não esquecendo a coragem, tanto dos mais novos, para virem à escola, como dos mais velhos, que se deslocavam quando a necessidade se fazia sentir. Os Pereiros ficam mais perto e têm maior número de habitantes do que os Vales. A sua festa grande é dedicada ao Santo Amaro, no mês de Janeiro, creio, e fazia o orgulho dos que lá moravam. Porque Pombares também fazia parte da paróquia, realizávamos a Romaria ao S. Frutuoso em Teixedo, local magnífico para repouso, com a sua paisagem esplendorosa, parques em estado selvagem, onde à sombra de numerosas e diversas árvores, junto da corredia e silenciosa ribeira, se comiam copiosas merendas, partilhadas entre amigos e familiares, vindos com fé, assistir à missa anual, mas igualmente para relaxar, conviver, admirar e saborear, numa harmonia de paz e amor. Arufe também tem a sua Capela e o seu encanto, tanto na localização como na terra fértil, sabendo os seus moradores explorar e partilhar o que lá havia de melhor. A Quinta do “ Sepúlveda” rica, airosa e de grandes dimensões, dava muito trabalho, "jeiras" para a subsistência de algumas famílias.

Nesse tempo não existia na Aldeia, nem alcatrão nem calcetamentos No Inverno, pelas ruas cheias de lama e águas, espalhava-se palha ou folhas de carvalho, para melhor se passar, e essa mistura serviria, mais tarde, para estrume. Também não havia energia eléctrica, pelo que as candeias a petróleo, com sua torcidinha, faziam a felicidade dos da boa vista. Outra fonte de energia, a do carvão por exemplo, era feita directamente no monte. Primeiro arrancavam-se os “cepos” (toros, ou o que se lhe queira chamar), raiz da urze. Depois, cavava-se uma poça em circunferência com um diâmetro de um metro e a profundidade de trinta centímetros, onde se metia a urze. Chegava-se-lhe fogo e ficava a arder noite e dia, mais ou menos durante quarenta e oito horas. Quando o carvão estava em ponto, para que se apagasse lentamente, punham-se-lhe em cima bocados de terra com erva, cortados com uma enxada.
Regularmente, realizavam-se os "dias de concelho", ordenados pelo Presidente de Freguesia, para arranjos de caminhos, limpeza das poças de rega e o demais respeitante à comunidade.

Também não havia automóveis. As pessoas deslocavam-se a pé ou a cavalo e, para irem à cidade, apanhavam o comboio a carvão na estação de Rossas. No regresso de Bragança havia um túnel onde os putos costumavam fazer apostas, para ver quem tinha coragem de o percorrer; outras vezes, punham sebo e pregos nos carris, para que o vagaroso comboio não fosse capaz de subir a encosta próxima.

Nas noites rudes e bravias de Inverno, ia-se velar para casa do vizinho ou amigo, onde se contavam histórias, umas verdadeiras outras imaginárias, e as de “ficção científica”, que incluíam bruxas, lobos, ladrões etc. Em casa do meu avô paternal, pegava ele num cajado, com o qual jogava o” Rectemol “ indo de cabeça em cabeça, e só parava quando acabava a cantilena. Na da tia Aninhas, na Portela, podia-se ouvir até bem tarde, cantar desgarradas e fados, obra do Octávio das Cabanas, irmão da tia Ester, que tinha maravilhoso timbre de voz. O povo entretinha-se do modo que podia. Às vezes, junto das tascas, os homens mediam forças entre si. Contavam que o tio António Trocho levantava do chão, a braços, uma pedra redonda, junto da sua taberna, que pesaria por volta dos duzentos quilos. Eu vi o Ramiro dos Pereiros pegar em dois sacos de centeio, debaixo de cada braço, e transportá-los numa distância de duzentos metros.

Por estes tempos, costumavam visitar a Aldeia algumas "troupes" de circo mas, sobretudo, de teatro. Da minha lembrança foram representados A Rosa do Adro, o Amor de Perdição e o Zé do Telhado. As sessões realizavam-se no palheiro do tio João Santo, frente à casa do tio Jaime, e também no cabanal do tio Alfredo Guerra, junto da casa. A mocidade dos seus vinte e mais anos aterrorizava os mais pequenos, com o "bate-cu" (de onde veio a alcunha do Orlando, quando uma vez foi apanhado, e como do outro lado o rapaz era mais pequeno, então diziam que ele dava “pinotes”). Grande mocidade, em quantidade e qualidade! Pôncio, Ricarte, Víctor, Chico, Fernando, Zequinhas, Cândido, Corrécio, Frederico, Carlos e Duarte Chicheiro, Manuel e Américo Pereira, Mário Couceiro, Nuno e Manuel Caminha, Hermenegildo e Brotas, Manuel e Rafael e outros que não cito por me não lembrar, mas que davam vida e ser à nossa terra. Todos estes galafates se reuniam quando qualquer estranho, vindo das aldeias vizinhas, tentava namorar com moças da terra, fazendo-lhe pagar o vinho. Caso recusasse, era atirado para dentro de um tanque ou agredido. Pedir uma moça em casamento não era tarefa fácil, sobretudo se os seus familiares discordavam de tal casamento. Aliás, a maior parte dos casamentos realizavam-se por conveniência, sendo os pais a escolher e organizar tudo. Os que realmente se amavam, mas que infelizmente encontravam barreiras pelo caminho, aguardavam a maioridade para se casarem, mas eram desprezados pelo agregado familiar, sofrendo graves consequências afectivas e financeiras.

No mês de Setembro era a grande festa da Aldeia, cuja animação e entusiasmo se via retratada, mesmo, nos rostos mais pacatos e silenciosos. Dois ou três foguetes, (lançados pelo fogueteiro da Aldeia, se faz favor!) anunciavam o início das festividades, seguidos da Banda, (quase sempre a de Pinela) que, depois de dar a volta ao povoado, parava no largo do Prado debaixo dos famosos freixo e olmo. Os músicos já tinham patrões determinados para o almoço, esperando apenas pela hora da missa e procissão. As doceiras faziam o encanto dos mais jovens que se contentavam com umas amêndoas caseiras, doces económicos, ou uns rebuçaditos, porque o dinheiro também não abundava. Pela tarde, já findo o almoço melhorado, dançava-se ao toque do “auto-falante” saboreando os momentos felizes e harmoniosos dedicados a Nossa Senhora do Rosário.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

O PUTO DE VALE DOS AMIEIROS

Por

ANTÓNIO BRAZ PEREIRA

2.ª parte


- Tu gostavas ir a estudar?

Pela minha mente passaram tão rápidos sentimentos que não conseguia descortinar. Contudo, foi a Sra. D. Denérida quem quebrou o silêncio dizendo: Sabemos perfeitamente que és inteligente e...
A Sra. Virgínia não deixou a filha terminar a frase.
- Ó rapaz dos diabos, diz que sim!
Continuava silencioso, confuso, sem saber que responder. Desejei tão profundamente que esta proposta me fosse feita, esperei por ela dia após dia, e ela nunca chegou; e agora que me davam a possibilidade de realizar sonhos já quase adormecidos, não conseguia balbuciar palavra. Vendo-me tão embaraçado, o Padre João apressou-se a dizer:

Não é necessário dar já uma resposta. Contudo devo dizer-te que a minha irmã está disposta a pagar todas as despesas com a condição de seres Padre.
Retirei-me daquela sala tão baralhado, tão confuso, tão decepcionado, talvez, pelo facto de me ser imposto algo sem que as condições requeridas pudessem dar garantias absolutas… não sendo daqueles que não cumprem; também pelo peso da responsabilidade.

Andei vários dias a pensar. Se, por um lado, se me apresentava uma maravilhosa ocasião de realizar os meus sonhos de miúdo, por outro, achava que vinha demasiado tarde. Tinham já voltado dois seminaristas, abandonado, quaisquer que fossem as razões.

O tempo era de pressas, outro rapaz preparava-se também para ir, mas eu não conseguia tomar uma decisão. Cabisbaixo, procurava a resposta em tudo quanto era sagrado, mas a consciência ditava-me sempre e sempre, a mesma: é tarde demais. Aquele rapaz que toda a gente conhecia, alegre e cheio de vida, andou vários dias, tristonho. Não participava nos numerosos jogos ao fim da tarde, evitava falar com quem quer que fosse, isolava-se para melhor meditar, chegou a sonhar que tinha partido e nunca mais o deixaram voltar. Cada vez que se cruzava com o Sr. Padre, baixava a cabeça, enquanto este procurava, certamente, uma resposta no seu olhar. Também a D. Denérida esperava uma resposta urgente. As férias estavam a acabar, era necessário comprar tudo quanto necessitava para o colégio, e a resposta nunca mais chegava. Já tinha decidido, mas parecia-me que quanto mais tempo passasse menos sentida seria a sua resposta.

Para aliviar um pouco o meu cérebro baralhado, escolhi uma visita ao moinho de Teixedo, propriedade adquirida pelo Sr. Padre recentemente. Teixedo era um lugar paradisíaco, embora bastante distante, onde apenas se ouviam cantar os passarinhos e a água a correr lentamente ribeiro abaixo, sem pressas, rodeado de árvores selvagens e erva verdinha convidativa ao descanso e à reflexão, e a roda do moinho dando voltas sem fim enquanto a água corresse e lhe caísse em cima, provocando a sua rotação, contínua mas discreta. Sem ninguém saber para onde tinha ido, percorri aquele trajecto bastante longo, onde permaneci todo o dia, sentado, a olhar a água que caía sobre a grande roda de madeira. Quando voltei, já à noitinha, esperava-me o Sr. Guerra, tão inquieto que não conseguia perguntar nada. Olhei para ele com olhar triste, denunciando certos remorsos, e disse: não posso, é tarde de mais...

Enlouqueceste rapaz! Nunca é tarde demais. Põe pés a caminho; ou queres acabar como o velho Guerra sem eira nem beira?...
– Só eu compreendo as verdadeiras razões.

E foi assim que respondi a quem queria fazer de mim um Padre. Eu limitei-me a fazer o que me ditou a consciência. Ficar-lhes-ei grato para o resto do meu viver, que Deus lhes pague, lá onde se encontram. Quando passo junto daquela casa grande e branca, no largo do Prado, recordo com nostalgia aqueles bons tempos, mas entristece-me constatar que já não existe ali vida. Vou visitá-los ao cemitério, e a Sra. Virgínia continua a sorrir-me e a convidar-me com favores do Céu. Permaneci naquela casa por mais algum tempo, mas tinha crescido demais para os recados.

Entretanto, esquecera este episódio, e dedicava-me a muitas outras coisas que gostava de fazer, na minha terra amada. Marchas no Carnaval, vestido de marafono, cantigas populares e danças na segunda de Páscoa, e até teatro improvisado, ou ensaiado e representado no Prado, na Escola e também na casa do povo do Outeiro. Participava na “Serra das Velhas” e casava as novas no meio da Quaresma. Ia aos bailes, tão populares nessa altura, feitos com os primeiros gira-discos vindos de França. A Mavilde, irmã do Ferreira, era a que mais vezes organizava.

Recordo-me de um dia ter ido, mais o José Maria, visitar uma prima que residia em Pombares, vinda de Espanha, trazendo com ela um gravador, coisa rara nesse tempo. Pelas duas da manhã, voltávamos os dois para casa trazendo connosco o ditoso gravador. Parámos entre Teixedo e os Pereiros, sentados junto de uma parede: eu cantava “O xaile de minha mãe” de Isabel de Oliveira e a “Carmencita” a viva voz, enquanto o amigo gravava.

De França, voltava também o Artur da tia Teresa, de férias. Lembro-me de um pequeno aparelho que ele trouxera onde se viam slides com os lindos monumentos de Paris. Foi com estes slides que começou a nascer o meu desejo de ir para o estrangeiro.

Tinha quase dezoito anos quando dei, também, o salto para Paris. Empreguei-me durante seis meses na construção civil, a fim de obter papeis de permanência no País, mas brevemente compreendi que não era a profissão que desejava para o meu futuro. Fui, então, bater à porta de uma reputada fábrica de automóveis, onde permaneci durante quatro anos. Entretanto, nos tempos Salazaristas, a PIDE colhia nas fronteiras aqueles que não cumpriam o serviço militar, e como eu não desejava embarcar para África e lá deixar os ossos, numa emboscada, tirava passaporte, mas não o utilizava na Fronteira de Portugal e Espanha, passando ao lado, a pé: a salto.

Um dia, vinha no carro do meu irmão, combinámos parar uns quinhentos metros antes da fronteira, para eu passar ao lado e ser recuperado depois da fronteira Portuguesa, cujos sinais eram ramalhos de carvalho na estrada. Mesmo sendo a primeira vez que passava sozinho, não tive medo de enfrentar o caminho acidentado e cheio de monte, não sabendo o que me esperava. Em baixo, o rio levava muita água e para atravessar, só a nado. Também não foi problema, aprendera a nadar no poço do tio Jaime, só que as roupas ficaram ensopadas e sujas ao passar pelo monte. Chegado à estrada esperei, como combinado, escondido nuns arbustos, mas o carro nunca mais chegava. Lembrei-me de que, naquele tempo, as fronteiras de Quintanilha fechavam à meia-noite, por conseguinte, o carro deve ter ficado do lado de lá

Como não podia esperar ali todo molhado até de manhã, resolvi ir andando estrada fora, na esperança de encontrar uma boleia e, ao fim e ao cabo, Bragança também não seria muito longe. Não sabia, deveras, o caminho que tinha pela frente! Trinta quilómetros separavam a cidade da fronteira pela estrada nacional! E que estrada! Mete medo de dia, quanto mais às três da manhã!... Nascia o Sol quando cheguei a Bragança, e como não levava um tostão comigo, esperei à entrada a chegada do carro. Quantos passavam, olhavam-me de soslaio, talvez pelo aspecto das roupas sujas, mas eu via em cada um que passava um agente da PIDE.

Era sempre tão emocionante e estimulante voltar àquela terra tão querida, onde gozava sempre um mês e dezasseis dias de férias: mesmo não sendo permitido, metia atestado médico e só voltava passada a festa do Chãos, que as peripécias passadas ficavam apenas para a história, a qual poucas vezes foi contada.

Passados três anos, sempre a dar o salto, comecei a ficar cansado e resolvi, talvez um pouco influenciado por alguém, ir à inspecção ao Porto. Tinha apenas chegado a Paris, recebi um telefonema onde meus pais me anunciavam o dever de me apresentar em Lamego o mais rapidamente possível. Poucos dias depois, voltava a passar a fronteira, desta vez legalmente, pois vinha cumprir o dever cívico, imposto pelo regime, embora já em condições de compelido. Aconselharam-me a ir ter com um sargento, filho do tio Amadeu, creio que se chama Eduardo, o qual tratou de tudo e mandaram-me para casa até ser chamado. Só demorou um ano e tal...

Como não gostava de estar quieto, resolvi ir para o Porto, onde fui alojado por familiares, e com uns tostões que trazia, inscrevi-me no Instituto Pedro Nunes, para estudar, e na “Tecla”, empresa que dava formação por detrás da Av. dos Aliados, onde tirei o curso de dactilografia e contabilidade. Podia não servir para nada, mas era sempre bom aprender.

Em Maio do ano seguinte, fui chamado para a tropa. Tinha-se dado o 25 de Abril, do qual me ficaram recordações de pessoas a correr por todos os lados, grupos de polícias refugiando-se como podiam nos quartéis, transportes parados, e o anúncio dos instrutores dizendo que fechavam pois havia uma grande revolução pelas ruas. Também a correr, passei a ponte em direcção a Gaia, junto da qual se situava o Quartel da Pesada, que os Soldados tentavam armadilhar.

Tinha cancelado os estudos, embora levasse comigo o Diploma do curso já referido. Obra do destino, dois meses depois voltava ao Porto, onde fui colocado no Quartel de Engenharia de Transmissões, para tirar a especialidade, durante um ano. Foi o ideal para voltar ao Pedro Nunes, passando o dia no quartel, estudando à noite. Perante aquela gente mais jovem, sentia-me um tanto ou quanto fora do meu lugar, mesmo assim fiz o segundo ciclo, embora me tenham surgido vários problemas, como por exemplo: tinha o exame de matemática marcado para um dia em que o quartel estava de prevenção. Fui pedir ao Comandante, explicando-lhe a situação, mas respondeu-me categoricamente: nem pense... Contudo, não deixei de o fazer, saltando o muro e escondendo-me de cada vez que enxergava a P.M.

Três anos de tropa é, realmente, muito tempo perdido, embora tentasse aproveitá-lo da melhor maneira, e concluído com propostas bastante interessantes, da Marconi, ou dos serviços aduaneiros. Precisava mexer. Cheguei a recear não poder sair do País durante cinco anos, como exigiam as leis antigas. Felizmente, o 25 de Abril aboliu tudo isso e voltei para tantos amigos que tinha deixado em Paris.

Voltei à fábrica, enquanto não tirava um Certificado de Aptidão Profissional para motorista de táxi, profissão a que dediquei 14 anos. Foram 14 anos vividos a fundo. Enquanto, durante a semana, transportava personagens mais ou menos importantes do cinema, da canção, do futebol e, até, o Abbé Pierre, ao Louvre, Montmartre, Notre Dame, Tour Eiffel, Champs Élisées, pensava na terra onde nasci e nas coisas tão simples mas adoráveis que lá vivi. Nos fins-de-semana, jogava futebol, saía com amigos de várias nacionalidades, sobretudo espanhóis e italianos, os quais me emprestavam livros na sua língua, para ler à noite, ou enquanto esperava pelos clientes. Li igualmente muitos livros Franceses: "Os Miseráveis", de Victor Hugo nos seus cinco volumes, e tantos outros que ia buscar à Biblioteca Municipal. Os livros Portugueses, comprava-os numa livraria Portuguesa junto do Consulado. Camilo Castelo Branco, Eça de Queirós e Manuel de Oliveira eram os meus autores preferidos. Gostei ler "Os Maias", "O Trigo e o Joio" e tantos outros. Tudo me encantava, nunca mais pensei em diferenças entre uns e outros. O meu maior fracasso julgo ter sido um curso de Inglês, mesmo assim, ficou bem assente na minha cabecita que querer é poder!

Passo hoje em Rebordainhos e, apesar de não ver parte daqueles seres queridos, recordo-os com muitas saudades, e alegro-me, pensando que onde quer que se encontrem, estimularam o meu crescimento e estimulam o meu viver, sabendo-os felizes junto dos entes mais queridos.