sexta-feira, 30 de outubro de 2015
ECOS DO MEU SENTIR - XII
sexta-feira, 23 de janeiro de 2015
ECOS DO MEU SENTIR - XI
“Na cidade
não havia trigo para vender… No logar onde costumavam a vender o trigo, andavam
homens e moços esgaravatando a terra, e se achavam algum grão de trigo
metiam-n’o na boca sem tendo outro mantimento…” (1)
Como Rebordainhos está transformada…
No fim da malha havia
uma surpresa: nas malhas que duravam um ou mais dias, era hábito dar a cada
mulher um ou dois rebuçados (não mais) e aos homens um cigarro, repito, um cigarro
e não um maço de cigarros. E ainda tenho presente o prazer que os mais novos
ostentavam, levando o cigarro na orelha para que todos vissem que tinha sido da
malha, sendo um certo sinal de maioridade.“Andavam os moços de três e quatro annos pedindo pão pela cidade, por amor de Deus, como lhe ensinavam suas madres… e se lhe davam tamanho pão como uma noz, haviam-n’o por grande bem…” (2)
“… a geração que depois veiu, o povo bemaventurado, que não soube parte de tantos males, nem foi quinhoeiro de taes padecimentos…” (3)
A fotografia do campo de jogos foi tirada daqui. A fotografia da eira do Outeiro foi-me enviada há já bastante tempo (e já usada) pelo Baptista do tio César.
domingo, 18 de janeiro de 2015
ECOS DO MEU SENTIR - XI
terça-feira, 10 de setembro de 2013
ECOS DO MEU SENTIR -X-
sábado, 10 de novembro de 2012
ECOS DO MEU SENTIR - IX -
Acho que o Fernando enquanto foi buscar vezes sem conta água à fonte, pensou na promessa, até que um belo dia, quando o pedido lhe foi novamente solicitado, ele retorquiu:
A Tia Maria era boa, mansa, sofrida e “manhosa”, na opinião da minha mãe que era “atraganada”, mas era mesmo boa. Que Deus as tenha em descanso e paz, pelo pouco descanso que tiveram nesta terra.
Mal dobrava a esquina, a minha mãe ria-se e exclamava:
terça-feira, 25 de setembro de 2012
ECOS DO MEU SENTIR -VIII-
sexta-feira, 11 de setembro de 2009
ECOS DO MEU SENTIR
A minha mãe estava ainda a acender a lareira e o fumo já enchia a cozinha, naquela manhã de invernia, não se vendo a porta da rua, que estava entreaberta para escoar aquela fumaraça, que a chaminé não conseguia engolir, senão quando se aproximou do cancelo e sussurra:
- Ó Adriano!
- O que é Manuel? – Perguntou a minha mãe, enquanto se levantou da tripeça e se dirigiu ao cancelo.
- Tome lá, Olímpia, é para arroz…
- Diga à Maria que à noite comem cá – retorquiu a minha mãe, que segurava o bicho pelas patas traseiras e acrescentou: é boa! Que lontra!
O dia foi mais um dia de neve e chuvisco e eu, nos meus cinco/seis anos, matava o tempo espreitando a preparação do dito pitéu, que era por todos muito apreciado, enquanto agarrava o gato pelo rabo ou atirava com uns guiços para o lume, que num clarão rápido iluminavam a cozinha, à falta de electricidade. Aproveitava para me espreguiçar no escano, que era todo meu, pois no rés-do-chão havia muitos socos grandes que eu de vez em quando experimentava para meu encantamento.
A noite chegou depressa e à mesa todos nos deliciávamos com a dita. Como não havia noticiário, as garfadas de arroz de lebre eram entrecortadas com diálogos dos adultos:
- Ó Adriano, sabes onde a matei?
- Aonde? Lá prá Penacan? – Alvitrou meu pai, erguendo o pescoço, enquanto se deliciava a chupar a cabeça da pobre defunta. Foi sempre um gosto que meu pai tinha e eu herdei: “fazer de comer”, lambendo aqueles restinhos.
Dando uma gargalhada e mostrando ao mesmo tempo a falta de dentes como a lebre, enquanto dos olhos vermelhos lhe escorriam lágrimas, devido ao fumo e talvez a Baco, acrescentou:
- Na cama, caranvas!
- A esta hora ainda o Moreno anda a pensar onde vai poder abatê-la – retorquiu meu pai.
- O Moreno é bom para as perdizes!... Caranvas, olha que a cadela dele é mesmo boa, mas para a lebre não há como a minha…
Acho que estremeci e até a chama da candeia se contorceu toda, não sei se com o vento que assobiava, se com o mesmo medo que eu. Aquela noite custou-me a adormecer, pois não tinha televisão para ver os desenhos animados. Meti a cabeça debaixo dos cobertores e pensava: "E se aqui na minha cama há uma lebre?" Com o ouvido bem à escuta, não ouvi nada, até que Morfeu tomou conta de mim.
Mesmo assim continuei a gostar de lebre… Só alguns anos depois soube em que cama a dita foi abatida.
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Fotografia retirada daqui
Embora só indirectamente tenha a ver com o assunto, esta página é muito interessante, sobretudo para quem tem crianças.
quarta-feira, 8 de julho de 2009
ECOS DO MEU SENTIR

III – Escola… Ritual de Iniciação
FILINTO MARTINS
"Outro dia, viste, levei aquelas reguadas, porque não sabia fazer aquela conta de dividir… eu, também prefiro ficar com tudo, do que dividir!" – confidenciava-me o meu "mestre"…
Voltemos à escola.
Estava a chover… "frio e vento de Mogadouro, água até ao couro". À volta da braseira estavam dois colegas dos Pereiros a aquecer as mãos, depois do sinuoso percurso por eles percorrido diariamente, encharcados da cabeça aos pés. Ao meio-dia, a cantina que os esperava era um naco de pão de centeio de oito dias, com um pedaço de queijo de cabra, ou carne gorda de porco cozida, dos cevados que todos se orgulhavam de criar e engordar com castanhas, pois naqueles tempos eram eles que as comiam em grande quantidade. Hoje são outros, que tal sorte têm. "Mudam-se os tempos, mudam-se os costumes".
Naquela manhã fria, cor de chumbo, o senhor professor, sentado à braseira, enfiado no seu capote alentejano, enquanto os da segunda palreavam a tabuada em voz monocórdica, lembrava solenemente que alguns ainda não tinham entregue os 2$50 para as brasas… (ia dizendo, por dizer, pois nunca cumpria…) Aquela braseira estava perto da mesa do senhor professor, para ele poder ter os pés quentes, pensávamos nós. De quando em vez, após pedirmos licença, íamos aquecer as mãos. Sempre era melhor que o "aquecimento artificial".
Lembro-me, como se fosse hoje, que num ditado dei um erro, escrevendo "muinto". Até recebi um elogio, pois era caso raro em mim tal suceder… mas era um erro muito grave. (Hoje penso que a palavra deveria ter esta ortografia…. Nem com o acordo ortográfico!). Muito grave mesmo, de palmatória… Disse para com os meus botões: “aguenta, depois aqueces as mãos na braseira”. O pior estava para vir. A régua estava na sala das raparigas, pois naquele tempo a separação de sexos era um facto que ninguém colocava. "Vai buscar a régua à sala das raparigas". Ordem dada, missão cumprida e comprida…
Entrei na sala e não via ninguém… Tremia que nem varas verdes. Os olhares complacentes das minhas colegas, que noutras circunstâncias muito gostaria de ver, aumentavam o meu rubor nas faces, que nesta altura do ano eram sinal dum rijo transmontano. Não me vi ao espelho, nem precisava, mas devia estar mais corado que qualquer miúdo a assar o rabo do porco em dia de matança, nas brasas entre os grandes potes que faziam as delícias das cozinheiras.
Gaguejei para a senhora professora: "… era a régua…"
- Mas não é para ti, Filintão? Questionou a Dona Maria, por cima dos óculos.
- É sim – balbuciei.
- Eu sabia que tu eras muito esperto! (Hoje … acho que a Dona Maria teve pena de mim).
Só se ouviam os pardais, dado que naqueles dias a comida não abundava, através da porta entreaberta e os meus socos nas tábuas molhadas do soalho. Não olhei para ninguém, até encostei a porta sem olhar matreiro, que noutras ocasiões poderia suceder. Doeram-me menos as reguadas que o olhar condoído das minhas colegas.
Não havia melhor remédio que o tempo
Certo dia o Jorge, mais nosso conhecido por Pilatos, chamou os rapazes da quarta classe. Logo se seguiu a ordem do mestre: "Amanhã faço anos… vamos ter aqui uma cigarrada".
O mestre nunca faltava com a palavra. No dia seguinte, lá pareceu muito pontual, com um maço de Definitivos. A caixa dos cigarros tinha umas riscas azuis e outras vermelhas. Alguns de nós, perante aquele aparato já exercitavam a caixa torácica enquanto ele os retirava, com muito cuidado, distribuindo a cada comparsa o seu quinhão, qual lobo segura a presa.
- Ó Pilatos, são do teu tio? Perguntou o Pintassilgo.
O Pilatos quase que o fulminava com o olhar… mesmo assim teve direito a um, mas não se livrou da reprimenda: "Abre o bico, Pintassilgo, e vais ver a gaiola!"
Os senhores professores tinham ido almoçar e nós aproveitámos para nos servir da sala para fumar… como se fosse uma esplanada… e o "mestre" mandava. Santa inocência…- "Olhem que vem ali a professora" – gritaram as raparigas, mais aflitas do que nós. Ordem do "mestre": "apaguem os cigarros e nada, bico calado."
Mal a professora entrou, qual raposa farejando galinha, exclamou: "Cheira-me a tabaco… cheira-me a tabaco…"
Agora é que o silêncio era sepulcral!
- Quem é que esteve a fumar?
Cada um fazia que fixava algo nos livros, recitava em surdina a tabuada, outros mexiam-se sem saber o que fazer.
- Ai ninguém se acusa?! Então os rapazes todos aqui para a frente.
Revista às tropas. Dirigindo-se a uma das nossas colegas, ordenou:
- Tu… Vê se algum dos teus colegas tem cigarros nos bolsos.
O Pilatos tinha guardado a "prisca" na orelha, debaixo do cabelo comprido, que não cortava há meses e havia de cair às mãos do Armindo. O Pintassilgo meteu-a nos socos que eram do irmão, do Domingos… ficavam-lhe grandes… eu, grande parvo, meti a minha "prisca" no bolso das calças, que, por sinal, estava roto. Enquanto estávamos na parada, à frente das raparigas, caiu-me aos pés. Nem foi preciso continuar a revista. Já nem sei quantas reguadas levámos, pois a bênção foi igual para todos. Só me recordo que na altura ainda não havia telemóveis e quando cheguei a casa levei um enxerto de porrada da minha mãe, pois alguma linguaruda já lhe tinha dado a novidade.
Razão tinha eu, quando há vinte anos atrás, encontrando-me com o meu "mestre", na taberna de cima lhe dizia:
- Pilatos, tu foste o culpado dos nossos vícios!
Abrindo bem as pernas, para não cair, dado que tinha areia na asa, respondeu:
- Ainda te apetece um cigarrinho, ó Filinto?
- Ó Pilatos, olha que tu, às vezes, lembras-me o tio Rasca dos Pereiros!
- Carai! Ele tinha mais sorte do que eu. Já viste que eu para ir para a Portela, ao fim do dia, é sempre a subir e o tio Rasca para os Pereiros era sempre a descer, homem!
- Ó Pilatos, mas tu hoje andas aos ziguezagues? É do vinho?
- És mesmo burro! Afinal o que é que tu andaste estes anos todos a aprender lá para o Porto? Os ribeiros não vão também aos ziguezagues? Não é água que eles levam? Se vires um com vinho, diz-me, que eu vou lá. Estou mesmo a ver que te faltaram mais umas reguadas… a professora bateu-te pouco.
O meu "mestre" lá tinha a sua razão…
Enquanto ele fazia o seu lento raciocínio e o meu filho, ainda pequenote, se ria do seu bom humor, eis que um cão do gado nos fitou longamente. "Ó rapaz, aprende comigo, já que o teu pai só te ensina nos livros e pouco!" Agarrou na primeira pedra que encontrou e atirou-a ao bicho que deu à perna…
É que eu vi dois e atirei ao outro.
Um grande abraço, "mestre" Pilatos, do teu companheiro da farra.
Filinto
quinta-feira, 25 de junho de 2009
ECOS DO MEU SENTIR

por
FILINTO MARTINS
Já rareava o folar… o recheio da tarde passava a ser outro – "horas de compensação". Os mais espertos tiveram a vantagem de um reforço especial em casa dos senhores professores – a Bernardete, o Pilatos, eu e outro companheiro para “jogar sueca”, varreu-se-me da memória. A sessão decorreu no corredor, sentados num banco onde nos íamos acomodando.
O senhor Carlos saiu aligeirado do seu quarto, que era à direita de quem entrava, saudando estes heróis. E que artistas! Acho que ele saiu com pena de ver aquelas criaturas indefesas, quais ovelhas badanas às mãos do tosquiador.
O treino costumava ser na escola, mas para nós, como os exames estavam à porta era preciso algo mais, para a grande final que se realizava em Bragança, sede de concelho.
Mal entrávamos em casa dos senhores professores e víamos, na mão da Dona Maria, um livro com uns morangos vermelhos, apetitosos, que ilustravam a capa, logo o Pilatos dizia, em surdina: "Ai que hoje é ditado e contas de reguadas…" agora era a sério, pois cada erro valia uma.
Da cozinha, que era mesmo ao lado, vinha muitas vezes um cheirinho e não raras vezes, seguia ao seu encontro uma ordem da Dona Maria. Enquanto ditava e nós escrevíamos, alguns eram mais lentos, o recado da professora para a criada: "Sara, esse arroz já deve estar cozido!" O Pilatos, que ia sempre atrasado, só não ia na idade e na malandrice, confundia o ditado com a ordem e perguntava:
- Senhora professora, arroz é com um z com um sê?
A Dona Maria, furiosa logo ripostava:
- O arroz é para a Sara!
O Pilatos, em voz baixa, resmungava: "Então escrevo batatas, eu até gosto mais!" No fim do ditado era um arraial de reguadas.
Dado que a porta não estava calafetada e os vidros não eram duplos, ouvia-se a tia Teresa chamar: "Ó Augusta…" e logo o Pilatos acrescentava: "Já comes!"
Noutras alturas, ao fundo desse corredor, à esquerda havia uma sala com uma alcofa, donde vinha um cheirinho a maçãs e fruta, que os manos primavam pela sua apresentação e conservação. À direita era o quarto da Dona Maria… amplo… arejado.
Uns meses antes o cenário, para mim, tinha sido outro.
Com os meus irmãos, a Lucinda e a Sofia fomos cantar-lhes os reis. Receberam-nos muito bem-dispostos. Junto à lareira estava um forno único na aldeia, que a mim me seduzia, porque era pequeno, redondo, diferente dos outros. A Dona Maria começou por servir-nos uns bolos que pareciam muito apetitosos. Como não podia deixar de ser, eu dei logo uma dentada num e resmunguei em voz baixa: “são farelos!” Os meus irmãos não se atreveram a dizer tal e lá iam tentando engolir, lembrando-me os perus da tia Emília ao engolirem as “porretas” das cebolas, até que num sorriso amplo e bondoso a Dona Maria exclamou: “só ele é que acertou”. Assim eu acertasse nas contas! A seguir é que nos serviu uns mimos, enquanto o senhor professor, mesmo com um ar mais sério, deu um rasgado sorriso, pois não era dado a muita exteriorização, mas o senhor Carlos procurava servir e ria-se a bom rir.
É bom recordarmos, recordarmos… Quando abro uma gaveta das recordações, gosto de ver a assinatura do senhor Francisco Joaquim Fernandes Ribom, com aquela letra pequenina, certinha, em que as maiúsculas se destacam das minúsculas de forma clara e evidente (eu não sou perito em grafologia – fica o desafio…) e o registo civil é de Santa Comba de Rossas, sendo do mesmo o ajudante.Somos feitos de memória e esquecimento, portanto desenvolvamos a memória afectiva, esquecendo as ofensas que foram por amor. Aqui recordo aquela data de 11 de Julho de 1960, quase meio século… Não "exijo" que os meus companheiros de carteira tenham esta memória positiva, mas esforcemo-nos por recordar o positivo e esquecer a página negativa. Aqui recordo como éramos em crianças… com pouco, éramos felizes…
Para aqueles que gostam: o nosso mestre escreveu Rebordainhos, sem acento e o Delegado Escolar apôs-lhe o “maldito acento” – prenúncio do acordo ortográfico!?

Hoje, tão longe no tempo, tenho que agradecer e admirar o profissionalismo destes irmãos que sabiam distinguir a escola, a rua, a casa onde sempre fui bem recebido e jamais alguém poderá dizer, que não levei umas boas reguadas por serem tão meus amigos. Até tive um prémio: reprovei um ano, porque era inteligente. Para que conste, segue cópia do meu exame de 2.º grau que tem a data de mil novecentos e sessenta. Faz no próximo dia 11 de Julho quarenta e nove anos.
Chegou o grande dia. Parecia que íamos para uma festa… Apanhámos o comboio em Rossas. Uma vez chegados a Bragança, lá fomos que nem cordeirinhos para a escola da Estacada, onde se realizavam os exames.
No largo fronteiriço, autênticos cachos de alunos bebiam as últimas recomendações dos seus mestres. Os nervos eram muitos, mas tudo ia correr bem. Provas de manhã e de tarde. Mesmo assim, ainda deu tempo para comprarmos com os olhos, lindos brinquedos nas montras das lojas, pois na aldeia só havia duas tabernas e rebuçados bons, só na festa da Padroeira.
À noite, cada um foi para o seu quarto que a família alugara, ou para casa de algum amigo ou familiar, porque no dia seguinte havia provas orais e os transportes não permitiam as tais comodidades. Eu fui para casa da senhora Aurora, na rua dos Batoques.
Que o diga a filha do Raul dos Vales, acho que se chamava Alzira…
Naqueles dias de invernia, nevoeiro de meter medo, lá chegava ela… Hoje seria uma heroína, naqueles tempos uma aluna como qualquer outra. Lá onde estiveres, Alzira, ao fim de quase meio século, permite-me que te elogie pela tua coragem, dedicação. Sinto orgulho de ter sido teu colega de escola. Hoje serias condecorada no dia dez de Junho. Não quero esquecer outra colega de Arufe, a Olívia e aqueles companheiros dos Pereiros, que não raras vezes faltavam porque não conseguiam passar na ribeira que transbordava.
Saíram os resultados… Todos aprovados. Cá fora esperavam-nos os professores todos orgulhosos, sorrindo para os colegas, diziam em voz baixa: “Eu sabia que os meus alunos estavam preparados!” Hoje, estariam lá os repórteres dos diferentes canais de televisão. “A Prova de Aferição” até foi fácil…
Chegámos à aldeia, como os cordeiros que regressam ao redil, numa tarde-noite de Verão. A prenda foi o calor do lar e as últimas horas de fato, mãos nos bolsos puxando as calças para mostrar os sapatos novos, que era preciso guardar para a festa que estava próxima.
domingo, 22 de março de 2009
ECOS DO MEU SENTIR

IV - VOLTEMOS À NOSSA ESCOLA PRIMÁRIA
FILINTO MARTINS
Uma escola reflecte o passado, o presente e o futuro.
O passado está patente na plêiade de antigos alunos que mesmo criados com carolos de centeio, carne gorda “rijada” e torradas de pão de quinze dias com unto, olharam mais além. O presente está neste blogue de Rebordainhos de que nem todas as aldeias, quase desertas, se podem orgulhar. O futuro que só a Deus pertence, está na semente que todos vamos lançando aqui e acolá, mesmo que o terreno tenha fragas, urzes, giestas… estará sempre como recordação naquela escola branca, com seis janelas, linda, grande… plantada no lugar mais arejado da aldeia, isolada… noutras aldeias seria ali o cemitério… o culto dos vivos dará sempre mais frutos que o dos mortos, merecedores do nosso respeito e admiração.
Suponho que tive sorte, nascendo a 3 de Outubro para a 7 entrar para a escola, como ditava o calendário de então. Agora começa um mês antes e termina um mês depois… Provavelmente porque já não é preciso sacudir a rama na apanha das batatas, virar o feno, ir com as vacas… novas tecnologias. Ainda bem, sem a mínima ironia. Não é preciso aprender de cor os rios e os seus afluentes e muito menos as linhas dos extintos caminhos-de-ferro. Basta consultar a NET e até horários e preços estão disponíveis.
7 de Outubro de 1955 – o sino da igreja nunca mais tocava… já estávamos à porta da Escola, onde nunca tinha entrado, quando umas leves badaladas ecoaram naquela manhã, efeito das mãos da Sara, que puxara o cadeado do sino, mais tarde, o mesmo, serviria para tocar a rebate e ir para a enxertia, no dizer do tio Leque… É claro que se tivesse sido duzentos anos antes, pensar-se-ia que era o terramoto de Lisboa.
Entrámos numa sala muito grande, com carteiras compridas, janelas muito amplas, um quadro negro, uma braseira, uma mesa, uma cadeira, alguns livros a um canto. Ao fundo, encostados à parede, dois armários onde se destacavam um carro de bois com “engarelas”, um arado, uma grade, tudo em madeira… que bonitos eram… ai se nós pudéssemos mexer neles!
Após esta primeira descoberta, eis que surge o senhor professor, Joaquim Francisco Ribom. Ninguém na aldeia ousava pronunciar o seu nome, mas o seu “ofício – Senhor Professor”. E quando passava a caminho da escola, de casa ou da Igreja, todo o ancião descobria a cabeça e com uma leve vénia, dizia: “Bom dia, Senhor Professor”, qual biblioteca ambulante.
Aquela figura esguia, alta, cabelo branco, olhos perscrutadores, fato e gravata, porte aristocrático, parecia o epítome do conservadorismo agressivo da época. Tirava um lenço branco do bolso das calças vincadas e com ele limpava a saliva dos cantos da boca. Com um olhar fixo e fulminante, acomodou-nos nas longas carteiras. Silêncio sepulcral.

Estava ansioso, acho que sem candeia no nariz, em abrir a sacola de pano de serapilheira, tirar o livro único e a pedra ainda limpinha, que tinha comprado na taberna do tio Trocho. Naquele tempo não distinguia uma única letra, a minha pré-primária foi ir com as vacas, andar aos pássaros, ir aos guiços para a lareira… Fiquei imenso tempo à espera… não apareceu nada escrito na minha lousa, todavia regressei a casa todo radiante porque já vinha da escola! Aquele livro com a águia, a égua, a igreja, o ovo, as uvas… decerto folheado vezes sem conta, sem identificar o significante, mas era aluno…
Os dias sucediam-se aos dias.
Já licenciado em Psicologia, o meu ego saiu muitas vezes recompensado com as palavras doces que a senhora Dona Maria, que visitava sempre que ia a Rebordainhos, me dizia passeando no seu quintal, junto a uma biquinha… um relógio de sol… confidências! “Olha, Filintão, uma vez a aluna… estava a aprender a juntar sílabas obtendo a palavra final, associada a uma imagem. Eu dizia-lhe: pa – pa e to - to. Ora lê. Resposta pronta: parreco.” Hoje digo eu: excelente resposta. Noutra ocasião a mesma aluna, tentando juntar a + pi + to, respondeu: subiote. O significante era o que menos interessava, todavia o significado era fruto duma socialização primária, ainda sem o Magalhães.
Estas recordações com a senhora Dona Maria e o senhor professor, tendo como testemunha o senhor Carlos, eram como o perfume das peras e maçãs que tão bem guardava na memória, na alcofa da sala de jantar da sua casa junto à Igreja. Voltaremos lá noutra ocasião.
O tratamento “Filintão”, que eu achava ser depreciativo e sinónimo de burro, naquela época, hoje recordo-o com carinho e saudade, pois o primeiro brinquedo que tive foram eles que mo ofereceram – uma gaita de foles - que a minha mãe guardava com carinho e especial atenção, dizendo sempre: “Foram os senhores professores e o senhor Carlos que te ofereceram”.
O Senhor Carlos, não sendo professor, era uma pessoa muito querida e respeitada. Estou a vê-lo passar para Vale-das-Vinhas, com um sachinho ao ombro e saudando tudo e todos. Jogando à sueca, ao “xincalhão”, na taberna do tio Trocho, saboreando o seu cigarrinho. A cada passo, mais atento ao tempo que ao jogo, puxava do seu relógio de bolso do seu colete, que muito prezava usar, a curta distância conferia as horas. “…
é o último jogo…” bebia apressadamente o seu Sumol para iludir o cheiro do tabaco e ei-lo, em passo aligeirado, a caminho de casa… por ele não vinha mal ao mundo.Obrigado, senhor professor, obrigado senhora Dona Maria, sinto orgulho de ter sido vosso aluno. Ela, lá onde se encontra, sabe que eu não gostava de chamar “senhora professora”, pelo carinho que sentia, gostava e gosto, pois para mim será sempre “senhora Dona Maria”. A autoridade era “professor”, ela era mais que professora. Até a sua terra natal – Carrapatas – que nunca visitei, continua na minha mente como algo diáfano, pois quando à saída de Macedo, vejo a placa Carrapatas, o meu espírito tem sempre presente os três grandes amigos.
Paz às suas almas.
segunda-feira, 8 de dezembro de 2008
ECOS DO MEU SENTIR
FILINTO MARTINS
Cheguei à Princesa do Tua numa manhã primaveril, não de comboio, mas como fidalgo de outros tempos. Entrei no Mercado, melhor, no edifício, pois as vendedoras eram apenas três, porém suficientes para comprar uma “raba” e uma couve… Fez-se luz: ao lado um sapateiro, como noutros tempos, tinha o calfe de umas botas na forma pregado com “cerzetas”, como outrora fazia o senhor Carlos.
Onde nasci? Suponho que em casa, no Covelo, e talvez a parteira tenha sido a tia Antónia… Tive sorte, fui registado vinte e dois dias depois da data do nascimento, com a assinatura do professor Francisco Joaquim Fernandes Ribom, que escreveu Rebordainhos sem acento (desculpa lá, Fátima) e rubricou as páginas da minha cédula, que guardo religiosamente, com a palavra Ribom a tinta azul, provavelmente daquela que nós mais tarde também usámos na escola. Tem sessenta anos a minha cédula (só as mulheres não dizem a idade). Ao folheá-la verifiquei que tive mesmo sorte, porque não fui daqueles que na mesma página tinham à esquerda a data do nascimento e à direita, na mesma página, morreu… (não fui de anjinho). Hoje, as cédulas omitem esse pormenor, sinal do progresso, do bem-estar, da esperança de vida, da diminuição da natalidade… menos zorros, mais prevenção.
Enquanto deambulava por Mirandela, cidade linda, com uma área de lazer que dá gosto, ouvi tocar os sinos de três igrejas, de forma monótona e repetitiva, mas com leve atraso uns dos outros, como o povo Português.
Segui viagem, vendo aqui e além uma ponte, um troço da antiga linha do caminho-de-ferro, porém não vislumbrei qualquer cantoneiro. Antigamente, quais estátuas, embelezavam a paisagem de Rossas até Bragança e ajudavam os condutores, nomeadamente o professor Ribom, que tocava em toda e qualquer curva que aparecesse, acenando para se ir à vontade e assim descansarem da sua monotonia. Este, para entrar na garagem, necessitava da ajuda do irmão, senhor Carlos, que lhe fazia um risco no chão para ele poder entrar. Excepto uma vez, em que passou ao lado do risco e o carro ficou sem pintura dum lado. Logo a Dona Maria acudiu: “não faz mal”. A que o senhor professor ripostou: “Ó Carlos, se tinha seguido o risco não batia”. Fazia agora falta o cantoneiro, pois nesta altura já não ia ao lado o Tio Jaime, que foi o seu mestre, por diversas vezes, para uma simples viagem a Bragança. Eu, no banco de trás, enquanto o Tio Jaime aconselhava o mestre: “mais à esquerda, mais à direita”, tremia, e a Dona Maria acrescentava: “Temos muito tempo, até vamos muito bem”. O senhor Carlos, bem cochichava: “Ah! Se fosse eu a conduzir”.
Ao atravessar Rossas, na passagem da linha de outrora, olhei para a estação, mas não vi o senhor Pinto, com a sua bandeira vermelha enrolada num pau, o “subiote”… aquele boné que ele só colocava para a passagem da automotora, constituíam apetrechos que para mim tinham muita importância na altura … Para que é serviriam? Pois atrás do guichet quando se comprava o bilhete, o último que comprei custou 101$50, para a longa viagem até ao Porto, ele nunca tinha boné?
Cheguei finalmente a Rebordainhos e logo verifiquei que afinal a casa do Tio Aníbal Fuseiro não se esborralhara por completo… não atropelei nenhum galináceo, tendo encontrado apenas o Alfredo, mais conhecido por Aidinhas, encostado à parede da casa da tia Joana do Outeiro, por quem o tio Benjamim, homem profundamente religioso, encomendou um padre-nosso pela alma dos parrecos da tia Joana, que tinham morrido, dado que já não havia mais por quem rezar. No curto trajecto que faltava não foi preciso travar, porque já não havia galinhas, nem os parrecos da tia Perpétua, que outrora eram música em qualquer poça de água, mesmo numa simples pegada de uma vaca.
Não ouvi qualquer chiar de carro de bois, como em tempos… O Alfredo gostava de apertar as “tarrachas” a fim de os vizinhos ouvirem bem e irem buscar as sacas das castanhas que aqui e além, de pé, esperavam pelo tractor ou jipe que as transportasse.Regressei ao Porto, ao parque do Museu de Serralves, onde dias antes pude ver a realidade de outros tempos e ocorreu-me: “agora são os jovens das aldeias que têm que ir às cidades, para observar in loco, as vacas e as ovelhas”. Já que não fiz a viagem como o Jacinto e o Zé Fernandes, pude contemplar o silêncio, a paz, o sossego, o ar puro da serra de Nogueira. Que se passa? Afinal há mais vacas e vitelos ao lado da Avenida da Boavista que em Rebordainhos! Civilização?
Olhei para as escadas da casa da minha irmã e não vi, como sempre via, o meu pai apoiado a um cajado e descer, mal via o carro. Enquanto subia, para meu espanto, ouvi um toque de sino, só um e logo o Bino me elucidou: “é o relógio da Igreja”. Mas não se vê o relógio…
Fui até Bragança, tinha os meus dezoito anos, pimpão, sapato preto engraxado, calça com vinco, talvez com alguma brilhantina… parei na Sé. “O meu amigo pode dizer-me que horas são?” Resposta pronta de estudante: “olhe para o relógio da Sé!” Retorquiu-me o transmontano, que provavelmente viera à feira dos 12: “Se eu soubesse ler não lhas perguntava… eu até tenho relógio!”
Aquele simples toque levou-me ainda mais longe. Recordo, com saudade, o toque das Trindades, para o Terço, para a Missa, deram sinais, a concelho, incêndio, “morreu um anjinho” e aquele toque para as aulas, que a Sara dava tão bem…
Ainda pequenote, brincando ao pingue, à bilharda, ao pião, ao fito, com uma junta de bois feita de “bulharacos”, enfim, ao “rou-rou” – internet e Play Station da nossa actualidade – lembro-me de uma promessa do meu pai: “se apanhares a água para os pedreiros fazerem a “massa” para o palheiro, mandamos fazer umas botas ao Sr. Carlos sapateiro”. Lembro-me perfeitamente de apanhar a água da fonte das Ribas de cima, fonte pequenina, que hoje deve estar seca, com uma “remeia”, calculo.
Trabalho feito, promessa cumprida, pois o meu pai era homem de palavra. Só havia uma coisa que eu detestava que ele me mandasse fazer – ir com as vacas para o lameiro. Lá ia, mas sempre contrariado, a não ser que fosse para as Bouças e lá andasse o Pilatos. Com ele aprendia-se muito… se aprendia, cá voltaremos.
A ânsia de conseguir tão almejado prémio ajudou-me a esquecer as brincadeiras e a arranjar força para apanhar água. Ter umas botas como “os homens grandes” e não uns socos que o tio Grilo, artesão da terra, tão bem fazia e em determinados jogos e lutas eram uma arma poderosa nas canelas do mais atrevido.
Chegou a ordem: «Vai ao senhor Carlos para te tirar as medidas». Suponho que não falei com ninguém, era segredo, para depois aparecer com umas botas novas junto dos meus amigos de brincadeiras, mãos nos bolsos (era possível que estivessem rotos) para poder puxar as calças e assim mostrar a obra de arte.
«Senhor Carlos, o meu pai mandou-me vir tirar as medidas para umas botas. Olhe que são para a festa!». Resposta pronta do senhor Carlos: «Já devias ter vindo, pois tenho que as levar a Bragança para coser e pôr a sola de molho… isso demora». Pegou numa folha de papel seguida de ordem: «põe aqui o pé». Com um lápis obteve o desenho perfeito dos meus delicados pés.
No nosso tempo, tínhamos uma admiração especial por algumas pessoas da terra – Pe Amílcar, Professores, Armindo (barbeiro), que dava em dez minutos dez anos de rejuvenescimento e o senhor Carlos, ilustre sapateiro da aldeia, sem concorrência no negócio, deambulava pelas ruas com maior frequência, na altura das matanças. Pressentia, qual galgo a lebre ao longe, o cevado morto que no banco era presa fácil – «boas cedas» … arrancava sem o mínimo queixume do defunto. Nestas deambulações acompanhava-o sempre o seu avental de cabedal, aqui e ali com as marcas da navalha afiada que errara o alvo e, no seu andar aligeirado, meneava as nádegas salientes, efeito do seu banquinho de trabalho. Aquele seu lábio descaído, pensávamos nós, seria de molhar a linha para que após o furo com a sovela, melhor deslizasse aquela, mas não, era de nascença. Era uma pessoa que metia respeito e medo aos mais novos, desde que vissem os seus apetrechos – sovela, turquês, ‘luvas’, martelo e aquela faca tão afiada… Chamávamos-lhe «senhor Carlos» e não «tio Carlos». Porque seria? Respeito? Profissão ou medo? Mas era um homem bom.
Com o aproximar do prémio faltava um pormenor: «Senhor Carlos, mas eu queria daquelas botas que chiam!»
«Ó rapaz, isso não é fácil. Tens que ir à tua mãe que te dê (deve ter dito deia) duas fatias grossas de presunto magro, bem magro, rapara bem, para meter no meio das solas. Vais ver como chiam!»
E lá foi o ignorante pedir as ditas fatias de presunto, que embora analfabeta, a minha mãe prontamente me disse: «seu brutinho, o sapateiro quer é comer o presunto!».
Inocência ou ignorância?
Responda quem quiser, sei apenas que tive umas botas novas, por medida! Hoje, a civilização tem todos os modelos e mais alguns… cores e feitios à disposição de todos os pés mas, por medida, será para uma minoria…
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À excepção da primeira fotografia (enviada pela Céu) e da última (roubada daqui), as fotografias que ilustram o artigo são do próprio Filinto









