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quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

GILBERTO


Nem sei que diga, tamanha é a tristeza. O Gilberto despediu-se hoje de nós e vai a sepultar amanhã à tarde em Rebordaínhos. Ontem tinha feito anos. 

Parece que custa mais a acreditar quando as pessoas são bem humoradas como ele, tendo sempre na ponta da língua uma graça para bem-dispor a todos. 

Recordo os inúmeros momentos, na nossa casa de Lisboa que ele frequentava por causa das muitas cirurgias a que teve de se submeter devido aos ferimentos sofridos em Moçambique;  momentos hilariantes apesar dos motivos ("Senhor Manuel, ainda tem pão de ontem?" perguntou ao padeiro. "Sim", respondeu este. "Bem feito, que o não vendeu todo!", rematou ele a conversa, recordando que, na véspera, o sr. Manuel lhe não vendera pão, alegando que o tinha reservado).

Recordo, sobretudo, e com enorme gratidão, que ele e a Dorinda  proporcionaram à minha tia Helena e aos meus pais um fim de vida em família e na sua terra. Deus lhe(s) pague.

À tia Delfina, à Dorinda, ao Hélder, ao Hugo e ao Edgar, as minhas mais sinceras condolências.
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A fotografia é de Junho de 2005: estávamos a festejar os anos do João, o meu marido.
Faz hoje 11 anos que o Zé Mateus, meu cunhado, faleceu.
Zé e João, dois bons amigos do Gilberto a quem Deus também já levou.
Quanto a mim, parece que estava a adivinhar, quando me pus a escrever sobre a Canteira.

sábado, 26 de novembro de 2016

TIA ISAURA

Tia Isaura
Porque Deus assim quis, hoje partiu para a eternidade. Que descanse em Paz.
Porque essa era a sua vontade vamos recordar para sempre a sua alegria.
Disse à filha que não queria lágrimas...
"Não chores por quem já está junto a Deus! Pense nos momentos felizes que passaram juntos e a Deus por deixar esta pessoa brilhar em sua vida."
Os meu pêsames a toda a família. Muita força, muita coragem, e perante a ineficácia de qualquer consolo na perda, relembrem quem foi a pessoa que partiu e na saudade, memória e amor dos que ficaram, ela viverá para sempre.

Paz à sua alma!
  O funeral é dia   28 segunda-feira às 10:00 horas na igreja de Rebordainhos.

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

LELE

Para nós, como para todo o povo, ele era o Lele, aquele "bom-serás" em paz com a vida e com o mundo. O sorriso da fotografia era o sorriso de todos os dias, rasgado em oferecimento a toda e qualquer pessoa. O Lele era esse sorriso onde cabia todo o afecto que distribuía sem cerimónias nem distinções, como bênção de Deus aos Homens. Nosso Senhor há-de agradecer-lhe e recompensá-lo pela bondade que repartiu. 

O Lele, meu primo, faleceu e foi hoje a sepultar. Deus sabe o quão difícil me é escrever esta notícia.

Para a Berta e para a Lurdes, o meu beijo e a minha pena.

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

O PASTOR VALENTE

Por: ORLANDO MARTINS

Eu soprava…, soprava… e nada, enrugava os beiços, metia os dedos na boca, pressionava a língua, fazia caretas,… mas o raio do assobio não saía. Por muitas lições que me dessem e por longos e repetidos ensaios que fizesse o meu assobio não era mais que um guinchozito incapaz de assustar o mais assanhado dos gatos.
Já quase todos os garotos da minha idade o faziam sem grandes dificuldades. O Amâncio, que era mais ou menos da minha idade, já assobiava há muito tempo, aprendera com o irmão mais velho, o Valente, que era pastor.

Esse sim, até vibratos fazia o que me deixava estupefacto e me motivava na minha aprendizagem que, diga-se em abono da verdade, poucos resultados obteve.

A vida do Valente não lhe permitia passar muito tempo com os amigos, guardava um rebanho de ovelhas e durante o dia raramente se via na aldeia, vivia uma vida de eremita tal como o seu colega Alfredo o “Aidinhas”, percorria o termo da aldeia rasteando os melhores pastos e quando alguma ovelha se tresmalhava logo a chamava pelo nome, ou recorria ao assobio próprio para que os seus cães a chamassem à razão de se manter na união do grupo.
 Mas, já noite, quando as ovelhas estavam recolhidas na curriça ou entre cancelas, com os seus dois fiéis cães pastores de guarda, e após uma bucha pelo caminho, lá ia ele até à taberna para desfrutar de um curto, e quase único, convívio com o resto da rapaziada.

Era um rapaz de poucas palavras, de estatura baixa e olhar arguto, muito enérgico e determinado e o seu gabarito de afouto seguia-o como uma sombra.

Foi numa dessas noites, na taberna do Álvaro, que enquanto “Patinge” e o tio Aniceto jogavam o chino, mostrando todas as suas perícias em atirar a moeda, e na única mesa de canto os parceiros de costume, o Adriano “Torto”, o “Frade”, o Juíz e o tio Arnaldo se debatiam numa jogatana de sueca interrompida no final de cada jogo por táticas e discussões de jogadas, onde alguns insultos e reprimendas ao parceiro se destacavam por este não ter destrunfado ou metido a bisca.
A noite lá fora estava escura como breu e o vento de norte assobiava com uivos sobrenaturais e fugidios como se fossem gritos longínquos de desespero. A ténue luz do gasómetro mal dava para iluminar as figuras das cartas espanholas da sueca e o vinho, servido a copo, só se distinguia se era tinto ou branco pelo sabor.

O assunto da conversa da rapaziada mais jovem centrou-se no cemitério,… nas campas,… nas cruzes e lápides,… nos defuntos que lá repousavam. O ambiente tornou-se sinistro e todos confessaram recear passar durante a noite em frente à “mansão celeste” onde baixavam os olhos para o caminho ou trauteavam uma moda que os ajudasse a estugar o passo.

O portão desta morada final estava ladeado por dois pequenos ciprestes que, com o vento e a luz difusa da lua, projectava sombras em movimento nos muros que se iam transformando, na imaginação de cada um, em imagens e recalcamentos de contos e lendas aprendidas nas longas noites de inverno.

Arrepios,… pele de galinha,… cabelos da nuca em pé,… olhos esbugalhados,… boca aberta,… um zumbido claustrofóbico,… respiração arquejante e uma aproximação física da ganapada, quase se abraçando, para sentirem um pouco mais de protecção contra qualquer alma que naquele dia andasse a vaguear procurando descendentes ou assuntos por resolver que deixara na sua vida.

A vontade que se agigantava de meter pés ao prado, fugir para casa e sentar-me ao lume junto à luz da candeia a petróleo para que esta lavasse os meus medos  era enorme, mas o tremer de pernas e alguma curiosidade mantinham-me no grupo.
Plim… Plash….  Zum… zummm… tlaque… e a moeda de dois vinténs parava.

- Três pontos, pinchei o chino. – Dizia o “Patinge”, deitando a língua fora e olhando para uma suposta assistência.

- Tá bem, mas se a minha ficar mais perto do chino tiro-te um ponto, num comeces já a festa. – Retorquia o Aniceto que também era um bom jogador, e cada partida era a um copo de vinho que o Álvaro ia controlando com uma espécie de numeração egípcia num resto amarelado de uma folha de papel almaço.





Aproveitando esta abertura na conversa densa da rapaziada, o Tonho e o Pintassilgo, atiçados pelo Tarcísio, desafiaram a ousadia do Valente.

- Oh Valente se fores ao cemitério sozinho, deixares uma marca em cima de uma campa e ficares lá pelo menos uma hora, damos-te duas coroas.

O Valente, afoito e habituado à noite respondeu logo: - Caracho, dais-me já uma e outra quando eu voltar, mas “esperaides” aqui por mim. 
Tal como o prometera assim o cumpriu e, no dia seguinte, todo o pessoal, mais livre e descontraído com a claridade da luz do sol, desabafava:

- Fosca-se, não é que o gajo foi mesmo lá, vi lá um ramo de giesta deixado por ele numa campa, e deve ter saltado o muro pela parte da cabecinha que é mais baixo.

O Valente, que não o era só de nome, tinha provado toda a sua bravura.

Muitos anos depois, já eu em terras de mouros, um título dum jornal nortenho captou toda a minha curiosidade e senti uns calafrios percorrerem-me o corpo todo.

                    “PASTOR TRANSMONTANO MATA LOBO COM AS PRÓPRIAS MÃOS” 
Comprei o pasquim, li a notícia até ao fim e, para meu espanto, tinha sido o Valente a perpetuar a sua fama.

Alguns anos mais tarde, no meu último encontro com ele, perguntei-lhe como tudo tinha acontecido, ao qual ele me respondeu:

- Sabes, … os cães é que o apanharam e me ajudaram, eu apenas o sufoquei com um braço na garganta e a outra mão metida pela garganta dele o mais que pude…

Mais uma lição de valentia e humildade que aquele amigo me deixou e agora recordo com alguma nostalgia.

Obrigado Valente e felicidades na tua vida.

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

SENHORA JULIETA E SENHOR EURICO

Sessenta anos! A feliz celebração de uma vida em comum.

Houve um tempo, certamente, em que cada um existia por si mesmo, mas esse tempo há-de esbater-se perante a dimensão do tempo comungado. É como se um tivesse estado sempre presente nos dias do outro, caminhando juntos. Talvez resida aí o mistério das vidas felizes, em que os dois se tornam um só, pisando o mesmo chão ao mesmo tempo e deixando como rasto uma só pegada.
O sr. Eurico e a sr.ª Julieta são dois corações abertos. Já vão em bisnetos, mas todas as gerações são tão próximas, que ninguém faltou à celebração do dia. Só um grande afecto permite que tais laços se prolonguem no tempo e no espaço.
Como amiga, quero agradecer à sr.ª Julieta e ao sr. Eurico pela dádiva que fazem de si aos outros e na qual têm a bondade de me incluir.
Bem hajam!

P.S. O meu muito obrigada ao João Manuel, que fez o favor de me enviar as fotografias.



quarta-feira, 5 de outubro de 2016

NEM SEMPRE O QUE PARECE É

(Van Gogh)

Nem mesmo a teoria heliocêntrica de Nicolau Copérnico veio alterar, naquela terra, o ciclo das colheitas. Depois da acarreja, e decidindo-se a ordem de entrada das malhadeiras pelas eiras cravejadas de medas, dava-se início às Malhas.

Para animar apregoava-se “à eira que o bacalhau está na caldeira”. De todos os caminhos convergiam, uns mais lestos que outros, aqueles que queriam a torna-jeira ou os que por afinidades ou favores lá tinham que dar uma ajudinha.

Por vezes ouvia-se em surdina, “nesta só fico até ao jantar (leia-se a parte da manhã) que a minha só dura meio-dia”. Mas no final tudo acabava por se realizar.

Numa dessas Malhas, cuja meda invariavelmente de forma rectangular, e que durava… durava… até o sol se deitar e por vezes acabava-se no dia seguinte, era o caso da malha do “Santo”, à qual muita gente torcia o nariz…, questionou-se seriamente Copérnico e a sua teoria do séc. XV.

Ainda ao raiar do sol, e depois do mata-bicho, o Amador vira-se para o Fernando do tio Zé “Çuca” e diz-lhe – “Aguenta aqui no carro e nos molhos, que eu vou descansar um pouco ali atrás do palheiro”.

As horas passaram e o Amador lá ficou, sonhando…, quem sabe com o bacalhau, com azeitonas e com o pão molhado em azeite… ou, por outras razões desconhecidas, o sono tinha-se tornado mais pesado que o devido.

Já à tardinha, quando o sol se preparava para se ir embora lá para os lados de Soutelo, e enquanto ainda espreitava através do cume da serra, o Fernando lembrou-se de ir ver do Amador. Ainda ressonava. “Amador… Amador… Acorde que em breve se faz noite”, e o Amador nada… “Amador, acorde”, e elevava cada vez mais a voz.

O Amador esfrega os olhos em sobressalto, abre as pálpebras pesadas da longa soneca, olha em redor e murmura para o Fernando:
– “Fernando…, parece-me que o sol hoje nasceu ao contrário, não te parece…?”
– “Oh Homem dum caraças, está-se a pôr! Vamos embora antes que dêem por si!”
E assim, todas as tardes, tal como Copérnico previra, o sol deitava-se para os lados da serra, … ainda hoje assim é.

domingo, 25 de setembro de 2016

TIA ZULMIRA

    “ - O rapaz já podia começar a servir… Eu, com a idade dele, guardava cabras… Queres tu deixá-lo comigo? - propôs o Lopo.
     - Deixá-lo?!
     Pelo caminho fora a palavra soava-lhe como um zumbido atroz nos ouvidos escandalizados.
     - Deixá-lo! Há cada uma! Ia agora deixar-lhe o menino!”

Miguel Torga, Mariana, in novos contos da montanha



Não sei se alguém, alguma vez, terá feito esta pergunta à tia Zulmira. Se sim, a resposta teria sido a de Mariana: “Há cada uma!”

Deve passar-se alguma coisa de muito especial na cabeça das mães, para que sejam mais agarradas aos filhos do que a elas próprias. Parece que lhes dói mais tocarem-lhes nos filhos do que terem o corpo coberto de chagas e nunca sentem fome desde que os filhos estejam saciados. As mães só sentem fome de terem os seus filhos – e de os terem consigo, sem precisarem de mais ninguém.

Há mulheres que são mães e que não prescindem de ser mulheres. Não sei se são heroínas, ou vítimas do tempo em que nasceram. Sei, contudo, que são seres especiais a quem Deus dotou da capacidade de, pelo seu agir, pôr à prova a nossa capacidade de amar e de aceitar quem não trilha os mesmos caminhos que nós. Parafraseando Jesus: a regra foi feita para o homem, não o homem para a regra!
Ela não o saberia, nem cuidaria em tal, mas mulheres como a tia Zulmira foram precursoras da liberdade que hoje vivemos: rasgaram caminho a pulso, sentiram na pele o aviltamento de uns, a vilania de outros, enfim, a perfídia de muitos, mas sobreviveram, amparadas a si próprias; acolhidas por quem, sem vãs filosofias nem entendimento errado da fé, sabe que o mais importante é o amor.
A tia Zulmira deixou-nos durante este mês de Agosto. Partiu para o Céu tão lúcida como sempre viveu. Nosso Senhor deve tê-la acolhido feliz, porque ama aqueles que souberam amar e exercer a humana condição da liberdade.
Bem-haja, tia Zulmira.

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

ANO ABENÇOADO



Há  tantos anos que não assistia a um Verão assim! Vi a nossa igreja muitas vezes ocupada para celebrar baptismos e dei por mim a sentir-me feliz por isso. Deus abençoou-nos através da dádiva que são as crianças e a elas há-de abençoá-las sempre, para que tenham uma vida plena.


Gostaria de perpetuar essa alegria:



Maria, filha do Edgar e da Tânia.

A Tânia é de Bragança e o Edgar é filho da Dorinda e do Gilberto (da tia Delfina).

Tomás, filho da Sandrina e do Pedro.

O Pedro é de Bragança e a Sandrina é filha do Paulo (do tio António “Atilano”) e da Glória (da tia Fernanda).

Carolina, filha da Clotilde (“Tilinha”) e do Juan.

O Juan é da Madeira e a Tilinha é filha da Lurdes (da tia Zulmira) e do Manuel (do tio Zé Çuca).

?     filha do Nuno e da Celina.

O Nuno é filho da Bárbara (da tia Aida) e do Manuel “Lhé”.

A Celina é filha da Mercedes e do Carlos (da tia Irene e do Vítor “Labaredas”).

Tomás, filho da Paula e do Nelson.
O Nelson é do Porto e a Paula é filha do tio Hermínio e da tia Luísa.

Peço encarecidamente ao Carlos, ou a alguém que o saiba, o favor de me dizer o nome da menina, para que o possa escrever também.

A todos, o meu muito obrigada pela bênção que recebi por vosso intermédio.
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Imagem retirada daqui

domingo, 4 de setembro de 2016

OS FERNANDES

Assim como nossos avós fizeram, também nossos pais e nós fomos embarrar o pote onde Deus quis. A vida separa as gerações, tornando algumas delas desconhecidas entre si.
Contudo, olho as fotografias e comovo-me: os rostos das pessoas que não conheço falam-me ao coração e identifico neles traços que me são familiares, como se a memória fosse transmitida pelo sangue.
E é de sangue que falo – o sangue dos Fernandes, com origem em Vilar d’Ouro / Cabanas, embora só poucos dos presentes continuem a assinar assim, em consequência da via masculina de transmissão dos apelidos.
O encontro dos Fernandes realiza-se há já alguns anos, por iniciativa do nosso muito querido P.e David. É sempre no primeiro sábado de Setembro e, este ano, calhou em Rebordaínhos (dia 3) onde se realizará também o próximo. Nesse, espero estar presente, para poder distribuir abraços e recolher memórias, porque a cabeça e o coração têm a virtude de não possuírem limites.

Deus pague ao P.e David a bondade e o sentido de família que sempre demonstrou. Obrigada a todos quantos respondem ao chamamento.
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As fotografias que publico foram tiradas pela minha irmã Augusta, motivo pelo qual ela nunca aparece., mas a quem agradeço o envio.

sexta-feira, 13 de maio de 2016

JOÃO


A daninha corta cerce por entre nós; passa por cima das leis da natureza e arranca da vida quem da vida viveu metade.

Não devia ser assim. Não devia!

É o marido que perdemos,
O pai que nos é tirado,
O filho que nos é arrancado.

Domingo foi o João, filho do meu primo Zé Luís, genro do meu primo Rafael. Foi sepultado ontem. Nós ficámos a chorá-lo.

Que Deus o acarinhe e ampare toda a família.

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Francisco António Ochôa

Este artigo pretende dar a conhecer uma ilustre figura natural da freguesia de Rebordainhos, mais propriamente do lugar dos Pereiros. Estando esquecida e desassociada à sua terra natal julgo que é dever dar a conhecer um pouco do seu percurso, ainda que de uma forma sucinta.

Francisco António Ochôa (1839-1912), nasceu nos Pereiros a 04.03.1839, filho do Padre Alexandre José Ochôa (1806-?), natural do mesmo lugar dos Pereiros e de Balbina Ermelinda Romariz.

Apesar de presbítero, o seu pai foi professor de instrução primária na escola de Rebordainhos, tendo pedido aposentação em 18641 após “vinte anos de serviço”. A confirmação régia da legitimação por seu pai aconteceu em 12.06.1855 .

Frequentou o curso de Direito na Universidade de Coimbra entre 1864 e 1869 obtendo o grau de bacharel em Direito. No início da sua carreira começou por exercer advocacia, estando durante nove anos nas comarcas de Macedo de Cavaleiros, Vinhais e Bragança. Nesta altura filiou-se no partido regenerador, tendo sido vereador e administrador do concelho de Bragança. Seguiu a carreira de magistratura, tendo sido nomeado juiz de direito da comarca de Bicholim (Índia Portuguesa) a 03.02.1879. Regressado ao continente foi nomeado juiz da comarca de Vinhais a 16.12.1887 . A 16.09.1888, foi promovido à 2.ª Instância tomando posse como juiz da Relação de Nova Goa, onde permaneceu até 23.08.1897.

Em Goa, acabou por fazer parte do 29º e 30º Conselho de Governo do Estado da Índia nos anos de 1894 e 1897 respetivamente.

Foi então agregado à Relação de Lisboa por decreto de 02.12.1897, passando a juiz efectivo por decreto de 12.06.1901. Ascendeu a presidente desta instituição por decreto de 8 de Março de 1910, tendo tomado posse a 12 de Março do mesmo ano como o seu 42º presidente. Ainda como magistrado, foi nomeado juiz conselheiro do Supremo Tribunal de Justiça por decreto de 24 de Agosto de 1910.

Republicano, foi eleito deputado à Assembleia Constituinte de 1911 pelo círculo eleitoral de Bragança após a revolução republicana de 5 de Outubro do ano anterior. Findos os trabalhos desta assembleia que culminaram na constituição Portuguesa de 1911, tomou posse como senador da Republica Portuguesa, tendo presidido interinamente à primeira sessão deste órgão.

Faleceu na cidade de Lisboa com 73 anos no dia 22.12.1912.

Link para o artigo completo: http://freixedelo.com/repository/francisco_antonio_ochoa.pdf

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

DAR

por
ANTÓNIO AUGUSTO FERNANDES


Naquele tempo, no tempo em que o destino deu connosco em Rebordainhos, a tia Lídia, que tinha a quarta classe (das primeiras alunas que o Sr. Professor Francisco Ribom levou a exame em Rebordainhos) fazia de enfermeira porque … sabia dar injecções. Como ainda não tinha chegado o tempo do desperdício e das seringas descartáveis, a mecânica da injecção tinha o seu quê de complicado. A seringa (de vidro) e a agulha (porque tanto uma como a outra tinham que durar muito tempo) eram ambas transportadas numa caixinha inox com um pequeno cavalete metálico. Na altura do seu uso, voltava-se a tampa do avesso e servia de reservatório onde se deitava um pouco de álcool e se colocava o cavalete. Sobre este punha-se o resto da caixa com a seringa e a agulha mergulhadas em água. Incendiava-se o álcool que ardia até a água ferver e assim se esterilizava o material.

Ora um dia, pelos começos do Verão, aparece lá em casa um homenzinho cabisbaixo, torcendo nas mãos nervosas o chapéu velho, muito apoquentado: ─ “Se a Sr.ª Lídia lhe podia fazer um grande favor, que a mulher estava muito malzinho… O Doutor tinha-lhe receitado meia dúzia de injecções… mas quem lhas havia de dar?!”

A minha mãe, coitada, que era (quase) uma santa, lá lhe disse que sim, pois o que é que lhe havia de dizer?. Só que o homem era dos Vales, e de Rebordainhos aos Vales ainda é um estirão de respeito pelos velhos caminhos traçados para os carros de bois. No dia seguinte, lá nos metemos a caminho. E digo ‘nos metemos’, porque, como já não havia aulas, eu fora destacado para acompanhante na empresa sanitária. Até à Ribeira a coisa ainda ia: era caminho sobejamente conhecido, pois que para ali ficavam os lameiros para onde arranchava com os meus primos do Outeiro atrás das vacas, e era um regalo para os olhos aquele manto verde dos lameiros pelo vale acima por onde coleava o renque de freixos acompanhando a ribeira que nascia logo ali acima, no Pórto. Depois é que era o dianho: o calor começava a apertar e aquela subida, rasgada em diagonal nos costados áridos do Ladeirão , nunca mais acabava. Para quem não sabe ou não se lembra, os Vales eram um cu de Judas de meia dúzia de casotas encravadas numa prega a caminho dos cumes da serra, por onde não se ia para lado nenhum. O carreiro e o mundo acabavam ali.

Lá chegados, aquilo era um silêncio de cemitério. Quer dizer, não era bem, porque dois ou três miúdos brincavam espolhinhados no chão, no meio das galinhas que esgaravatavam a leiva, mas uns e outras num silêncio de convento cartuxo. Minha mãe chamou-os para que lhe indicassem a casa da tia Maria doente. Levantaram o nariz do chão e, mais selvagens que botocudos e mais lestos que perdigotos, evaporam-se em segundos, em absoluto mimetismo com a terra e os ramos dos sequeiros em torno.

Lá teve a enfermeira que gritar o nome da enferma até que, de um janelo rasgado na pedra nua, surdiu a cabeça desgrenhada da própria: ─ Estou aqui, Sr.ª Lídia!
Esperei sentado ao fundo da escaleira, esmagado por tanta quietude e tamanha solidão, olhando os montes ermos e quedos, a fraga grande da Ladeira ao longe, de sentinela à aldeia e adivinhando os três pares de olhos assombrados a espreitarem entre os ramos do sequeiro. Rebordainhos não era propriamente a capital, mas ao pé daquilo, bem fazia de metrópole.

As viagens ainda se prolongaram por uma semana, mas como a tia Maria dos Santos disponibilizou a sua burrica como meio de transporte para a enfermeira, fiquei dispensado da tarefa de acompanhante; por isso essa primeira impressão que tive dos Vales foi também a última e tão funda me ficou que me definiu a convicção de que não estava mesmo talhado para cenobita.

Passaram-se umas semanas e, um dia, quando me entretinha naquela varanda dos tempos da minha avó Adriana, uma mulherzinha pálida e magra, com o lenço pela cabeça sombreando-lhe ainda mais as olheiras fundas, subiu as escadas com uma cesta de vime enfiada no braço. Minha mãe acudiu da cozinha.

─ Ó Senhora Lídia, eu vinha-lhe agradecer a trabalheira que teve comigo. ─ E, isto dizendo, ia destapando a cesta e de dentro sacou pelas orelhas um coelho taludo, bem mais gordo que a dona, coitada.
─ Ó rapariga, guarda lá isso. Olha, leva-o e trata de ti, a ver se ganhas forças, que tu inda andas bem fraquinha.

A moça baixou os olhos embaraçada, acerejaram-se-lhe as faces pálidas, tremeu-lhe o beiço e futurei que se ia pôr a chorar:

─ Eu bem sei que é pouco… mas eu não tenho paga para o que fez por mim. E num arranco suspirado: ─ Ai! Era um favor quer me fazia se… ─ e desatou num choro manso com as lágrimas borbulhando, grandes e mudas.
E minha mãe, já a pontos de chorar também:
─ Está bem, Maria, está bem. Pronto. Deixa lá ver o bicho.

Bem, talvez não fossem santas as pessoas da nossa terra na nossa infância, mas tiravam bem as medidas ao sentido do serviço e da gratidão.

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

ROSTOS

Tenho esta fotografia guardada...Vamos lá ver se identificamos bem toda a gente.


1 - Tia Zulmira Pereira
2 - Tia Francisca Pires
3 - 
4 - Tio Pereira [filho da tia Francisca e do tio Pereira]
5 - Tio Pereira [pai]
Lugar: Fonte Grande

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

O COELHO CHINO

POR: 
ORLANDO DOS SANTOS MARTINS    
  
Olímpia da Natividade Afonso & Adriano Santos Martins

Não se via vivalma na rua.
O dia amanhecera gélido, e um leve nevoeiro pardacento vindo da serra pairava sobre o manto de neve que se abatera há já alguns dias.
A pureza da paisagem era centralmente manchada pelo vulto mais brilhante do dorso do muro que delimitava o prado das hortas repletas de montículos de neve que escondiam algumas couves, nabos e grelos e mais longe, quebrando a branca monotonia, os gravetos enregelados das árvores nuas e o recorte das montanhas.

Junto ao muro lá vinham, arrastando os socos, dois pinguins encasacados e muito ciosos no caminho a seguir, deixando as suas pegadas frescas na neve.
Eram o Tio Manuel Frade o “Caranvas” e o Adriano “Torto” com os seus dois cãezinhos, mais de estimação que animais de caça.
Iam à caça da lebre e do coelho, lá para os lados da Ribeira, cada um com a caçadeira de dois canos ao ombro, aberta para segurança, e um cinto repleto de cartuchos preparados à lareira no dia anterior. Naquela idade, bastante avançada para ambos, já pouco caçavam e não era raro a Olímpia “Maneta” temer que um dia ficassem por lá os dois enregelados.

Já a tarde lançara alguma penumbra na aldeia quando as duas figuras faziam o seu caminho de regresso, tão leves quanto tinham partido, sem qualquer troféu, tinha sido o habitual fiasco.

- Carajo Manel, aquela lebre foi por um triz…
- Eu penso que ainda acertei num coelhito, mas deve ter sido de raspão pois nem os cães deram com ele.
- A neve está dura sabes, e eles fogem…

O tio Adriano “Torto” chegado a casa, ensopado e enregelado, sentou-se em frente ao lume mortiço e, atiçando uns paus no trasfogueiro, começou a matutar, coçou a careca e notou a ausência da patroa.
- É agora, tenho que arranjar um coelho prá Olímpia, e amanhã convido o Manel pró petisco. – juntos na caça, juntos nos troféus -.

Tal como o pensou, assim o realizou: dirigiu-se ao galinheiro de arma em punho, onde havia alguns coelhos e galinhas que coabitavam em cubículos separados e escolheu um coelho branco com manchas negras no focinho e no lombo, a quem a Olímpia chamava  “chino”. Não esteve para demoras e, gastando apenas um cartucho, “Pum!…” resolveu o insucesso do dia.

Levantou o seu troféu de caça que colocou na mesa larga da cozinha, bem visível a qualquer um, aguardando satisfeito o regresso da patroa.

- Olha Olímpia, e dizes tu que não caço nada, quero que trates deste coelhito prá manhã, fá-lo com arroz e convida o Manel.

- Estafermo dum caralho, este é o meu chino, foste-me ao galinheiro, maldito!… Quem merecia um tiro eras tu…

Entre palavrões e injúrias lá foi a Olímpia passando o resto da tarde sem se calar, resmungando e amaldiçoando a sorte e a ideia do marido.
- Ora, Olímpia, já que está morto, temos de o comer carai.

Esta é uma das poucas histórias que recordo do meu avô “Torto” e da minha avó “Maneta”.
                        


domingo, 10 de janeiro de 2016

LENGALENGA



Tiroliro-liro
Meu pai matou um grilo
P’rà festa do Rodrigo
Todo o bicho convidou
Só a mosca deixou
E o piolho com a risa
Esfourou-se na camisa
Assubiu-se a ũa janela
A tocar na caravela
Caiu de lá abaixo
E partiu ũa costela


Esta foi-me contada pela tia Delfina, que se ria a bom rir enquanto imaginava a costela partida do piolho: "ora vede lá, a costela de um piolho, que taluda seria!"

Bem-haja tia Delfina!
_____
A imagem é de uma série de desenhos animados, intitulada "The Animals of Farthing Wood"

e foi retirada daqui.

domingo, 18 de outubro de 2015

A VINGANÇA DO BACALHAU

POR: ANTÓNIO AUGUSTO FERNANDES


Vocês lembram-se do Sérgio, aquele tontinho que aparecia lá por Rebordainhos, quando as searas lourejavam e já se afiavam as seitouras? Lembram lá agora!

Coitado! Manso como a terra; nos olhos um luaceiro de bondade e de permanente pasmo perante as coisas, os bichos, as gentes… Sempre descalço, mas de chapéu, de fato abotoado, ou melhor, de fatos, dos fatos que lhe iam dando, normalmente de cotim, os dos pobres, já que são os pobres quem mais dá aos pobres, e, quando as circunstâncias o pediam, de gravata, muitas vezes directamente atada sobre as peles do pescoço, que nem sempre calhava trazer camisa. Ora aperreando-o, de muito apertados, o que era raro por ser miudito e enxuto de carnes, ora pingões, a sobrarem-lhe, dobrados nas mangas e enrolados nas canelas. Às vezes a caridade andava mais distraída e a ida ao algibebe atardava-se. Então as pernas das calças mingavam, ripadas das poeiras e lamas dos caminhos, e ficavam-se pelo meio das tíbias escanzeladas. Com tal físico e com o treino que se impusera, era um andarilheiro infatigável. Não parava quieto. Aparecia e desaparecia como um trasgo. Dizia-se que, nas suas deambulações, já tinha descido até ao Porto. Da sua mudez, nunca foi possível tirar a limpo tal informação. Mas é de crer que sim.

Era pobre, mas não pedia. Aceitava o que lhe davam com aquele olhar manso de cão perdido sem coleira. E o mais comum era vê-lo a refeiçoar sentado na soleira das portas, migando um carolo de centeio para dentro duma malga de caldo, o passadio mais corrente para os aldeanos nessa altura. Rapado o fundo da malga, entregava-a à dona de casa, mudo, como se as palavras o cansassem, erguendo para quem lhe matara a fome os olhos vagos inundados de gratidão. Nos tempos livres, que eram todos, percorria as ruas da aldeia recolhendo trapos e papéis velhos. Mas poucos, muito poucos. Poucos papéis, porque pouco se lia em Rebordainhos e os escassos jornais ─ do Sr. Padre, do Sr. Professor ─ eram reciclados para recortar e forrar os armários da louça. Poucos trapos, porque os trapos era para serem usados até ao fio e, quando já não tinham préstimo para cobrir o esqueleto, ainda se guardavam para tecer uma hipotética manta de trapos no tear da Antonieta ou da Perpétua. Hoje acredito que o pobre nenhum proveito tirava de tal recolha e o seu gesto assentava apenas em preocupações de higiene e limpeza. Tinha muito de ecológico avant la lettre, o Sérgio. Sim, o Sérgio era um visionário incompreendido. Se não, escutem.

Andasse lá por onde andasse, na festa de Santa Maria Madalena (em Julho, para quem ande de candeias às avessas com o calendário hagiográfico) era tido e achado em Rebordainhos. Mas era uma tragédia. Sendo a festa do orago, com convite feito a familiares e amigos das redondezas, era ocasião azada para imolar toda a casta de animaizinhos que pudessem ajudar à santa trincadeira. O que constituía uma aflição indizível para a alma sensível do Sérgio. Perturbado no seu amor por todo o ser vivente, descalço como sempre, arrimado ao seu bordão de caminheiro, deslaçava-se-lhe a voz, clamando em altos brados pelas ruas da aldeia, como os profetas bíblicos na Babilónia pecadora apelando à conversão dos perversos:
─ Não mata pitinha! não mata cordeirinho! não mata cabritinho!... ─ E estacava esbaforido, retomando o fôlego, com o ar alucinado dos profetas que pregam para orelhas moucas. E retomava:
─ Come pão, come couve, come batata!... Mas não mata cordeirinho!... Come nabo, come bacalhau, mas não mata cabritinho!...

Como se vê, além de ecologista avant la lettre, o Sérgio era também vegan avant la lettre, é claro, sem o saber. E se ele nomeava o bacalhau como iguaria possível na celebração festiva, era por apenas conhecer o gadídeo (como ensina o José Quitério) das mercearias, no seu aspecto de múmia triangular salgada, ignorando que, antes disso, ele fora também ser vivo e livre nos oceanos. A tanto não chegavam as suas informações no capítulo da zoologia.

Ora, a última vez que vi o Sérgio, era já eu estudantinho de terceiro ou quarto ano. Eu estava de férias e o Sérgio comparecia, com a regularidade habitual, para as celebrações da Santa Maria Madalena. Tinha havido a missa solene com solene sermonata, mais a procissão circunvagando a aldeia, aformosentada pela banda (de Pinela, suponho), tinha-se papado o lauto jantar festivo, iniciava-se a possível passeata pós-prandial, e quem havia de aparecer, espavorido, aos berros?... O Sérgio. O pobre já tinha corrido meio povo gritando esgazeado. O que fora, o que não fora. O desgraçado trazia uma espinha de bacalhau atravancada na garganta e não encontrava quem lhe acudisse. E, espavorido, de boca escancarada, apontando com dedo aflito as goelas, agarrava-se a mim como pessoa culta que até andava nos estudos, que lhe encontrasse salvatério para a aflição. E eu, quase tão aflito como ele, espequei, esparvoado! Até que alguém, ali ao lado, receitou: ─ Ó homem, bebe uma colher de azeite e engole uma côdea mal mastigada! Remédio santo! O Sérgio estava salvo.

Nunca mais o vi. Que Deus lhe fale à alma, que nela não havia o mais leve resquício de maldade.

Dir-me-ão que não, que é maluquice. Mas a mim ninguém me tira da ideia que aquilo foi maldição do bacalhau pela desconsideração em que o pobre do Sérgio incorrera ao não o incluir no seio dos seres viventes com direito a serem salvos da deglutição humana.

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

AO JOSÉ AUGUSTO

Pintura de Catherine Blackwell

Só há pouco soube que não nasceste assim, o "Batitá", ou "Batitã", que existe nas nossas memórias.  

Adoeceste, certamente na infância, e teres sobrevivido já foi um milagre. Se a meningite ainda hoje é temível, de tão perniciosa, como seria em Rebordaínhos lá pelos idos da década de 50?! Depois disso, o mundo viu-te crescer o corpo, que se tornou possante. Contudo, a constituição física era a única prova de que o tempo também passara por ti e te tornara homem. Em tudo o resto permaneceste menino – ou regrediste a menino, pois não sei ao certo em que idade a tragédia sobreveio sobre ti.

É penoso descrever-te, por não querer traçar de ti um retrato que caiba na categoria do grotesco. Porém, era assim que parecias, pelo modo como andavas, arrastando os sapatões (flectias pouco os joelhos) e projectando a cabeça para diante, ao mesmo tempo que recolhias o peito para dentro. São consequências psicomotoras da doença.

A tua presença constante junto dos teus pais, o tio Benjamim e a tia Elvira, fazia lembrar uma fidelidade quase canina. Abraçavas a ambos com os gestos descoordenados de uma criança e, quando caminháveis, invariavelmente seguravas a mão da tua mãe, ou ela a tua. Se estavas contente, rias e pulavas à volta deles; se te querias queixar, apontavas para o autor do motivo e balbuciavas um hããã prolongado e choroso.

Eras incapaz de pronunciar uma só palavra que fosse. Apenas "mãe" e "pai" te saíam próximos – "mã"; "pa", sendo tudo o mais balbuceios e esgares, a isso se limitando a tua capacidade de comunicares com o mundo – e de o mundo te entender. Os especialistas chamam a isso afasia: perda da capacidade de falar.

De vez em quando, enrolavas ambos os braços à volta da cabeça, contorcias-te e gritavas tanto que se ouvia longe. Outras vezes, desatavas a correr como um possesso, sem reparar naquilo que se te atravessasse no caminho. Talvez tenha sido daí que nasceu o medo por ti e, quiçá, o teu apodo: Batitã. De “bater” + “hã”?

Quem pudesse, escondia-se à tua passagem, ou desviava caminho se não avistasse a tua mãe por perto. Não havendo alternativa, era certo e sabido que teria de fugir à tua frente, tentando escapar da lapada, sempre certeira, que lhe irias atirar. E, porque acertavam sempre, as tuas pedradas eram guiadas pelo diabo, o único capaz de tamanha pontaria, assim o afirmava convictamente o sr. Carlos Sapateiro. Para quem se aproximasse desprevenido, reservavas o cipó. A minha tia Helena era uma das tuas vítimas de eleição, mas para os anais da nossa terra ficou a resposta do sr. Lopes Direito: “Ó rapaz, ele a malha é a seco ou a comer?”

Tinhas fama de mau e, para aqueles que argumentavam que não sabias o que fazias, vinha a resposta invariável: “ai não, que não sabe! Quando se põe, sentado no altar-mor, a-pu-ti-ti-ti, a apontar para as pernas das mulheres, é de quem não sabe? E não sabe o que faz quando se esconde ao pé da pia da água benta, ali no escuro, a furar com os dedos os olhos de quem entra na igreja?” É verdade que as mulheres não gostavam do a-pu-ti-ti-ti, e aviavam-se a entalar a saia entre as pernas, mas também é verdade que toda a gente se ria à socapa, disso e dos dedos nos olhos dos outros.

Não eras assim para todos. De algum modo, aprendeste a respeitar uns e a tratar mal os outros. Ou seja, alguma coisa do funcionamento do mundo chegou à tua capacidade de o compreenderes e agias, provavelmente, em função dessa compreensão. E é isso que me leva aos prolegómenos que escrevi no artigo anterior: o teu comportamento espelhava aquilo que tu eras, a tua essência (e, nesse caso, serias poucochinho), ou, pelo contrário, o teu corpo era uma prisão intransponível onde vivia enclausurada uma mente semelhante à minha?

Um dia morreste. Na minha lembrança habita um rapaz de camisa branca abotoada até ao colarinho, a roupinha de ver a Deus que a tia Elvira te vestia aos domingos. Nesses dias, sou capaz de jurar, percebias a necessidade do aprumo e, por isso, sorrias mais e andavas mais direito. Alguns dos teus sorrisos eram para mim.

Tenho tanta pena, Zé Augusto, de não saber o tamanho da tua dor!

Anti-retrato, pintura de Adrian Ghenie