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domingo, 5 de fevereiro de 2017

SEM TÍTULO




Vejo-o-me assim
e nem me importa que me estranhem a construção
outros o fizeram antes de mim – e mais bem feito –
outros hão-de após mim soprar o pó das convenções restantes

Meus neurónios são livros publicados
livros que ainda não foram sonhados
livros vetados
livros ansiados
livros esquecidos

L I V R O S

Palavras escritas, frases desenhadas
que importa se contendem ou convergem
se são elas o tecido das minhas sinapses-ideias?

Não me zanguem a paciência com a pequenez
porque não tenho paciência – não sou de paciência
e renego a vilania
Não existe fel de peixe de Tobias
capaz de fazer-me ver aquilo para que não quero olhar
nem sequer sou o pai de Tobias
e a infâmia desmerece a providência de mim.

Des-tempo, des-espaço, des-paciência
oclusão
é tudo quanto reservo
na minha biblioteca-cérebro
para quem aspira a ser lombada
e nem chega a ser um nome.


sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

PAISAGENS DE NATAL II

Embora sempre espere e deseje a neve, a verdade é que, qualquer que seja o estado do tempo e a estação do ano, as paisagens da nossa terra provocam em mim o efeito de uma carícia na alma. Este Natal, de sol radioso e ar transparente, ofereceu-nos a paleta completa de um pintor naturalista, daqueles que, enfadados do estúdio, saíam para os campos e tingiam as telas com retratos que, ainda hoje, nos emocionam e apelam aos sentidos.

O ar limpo, ao amaciar o percurso da luz, permite que os nossos olhos descubram uma plêiade de cores e se alegrem com os tons contrastantes que sugerem frescura. A paz impõe-se aos espíritos mais inquietos. 
Bendito seja Deus pela Sua bondade.
Montes
Do sopé dos Montes para Rebordaínhos
Do sopé dos Montes para a Serra dos Pereiros



Do sopé dos Montes para a Serra dos Pereiros

Airoá

Começo do Atalho

Começo do Atalho

Começo do Atalho

Cruzinha
Cruzinha


Da casa do tio Benjamim para a Cabeça

Com este artigo, encerro o ciclo dedicado ao Natal. O próximo será da autoria do Orlando, para nos fazer rir.

domingo, 8 de janeiro de 2017

REIS

No Evangelho deste domingo (S. Mateus 2, 1-12) narra-se o episódio da visita dos reis magos a Jesus. Estes homens fizeram um percurso desconhecido, sabendo nós, apenas, que eles vieram do Oriente. Apesar de não serem de fé hebraica, prostraram-se perante o Menino e adoraram-nO. É o primeiro sinal de que o menino Deus se doa a toda a humanidade, rompendo com a velha tradição de que cada povo tem os seus deuses.

Na carta aos Efésios (2.ª leitura: Ef 3, 2-6), porque a verdade da revelação continua a ser estranha a muitos dos primeiros cristãos (que são judeus, importa lembrar), S. Paulo esclarece: "os gentios recebem a mesma herança que os judeus, pertencem ao mesmo corpo e participam da mesma promessa, em Cristo Jesus".

A ideia de que a humanidade é una em Cristo está bem patente, creio, no modo como celebramos os Reis. Ela é una no espaço (todas as casas são visitadas) e é una no tempo (todos os mortos são recordados, atendendo à paragem frente ao cemitério): somos com aqueles que estão connosco e somos com todos quantos nos antecederam, sendo Jesus quem nos liga uns aos outros e a todos a Si e ao Pai. 

A festa dos Reis é a prova de que compreendemos bem as Escrituras. Bem-haja quem persiste nela.


Este ano o careto foi o Frederico, filho do Rui e neto da tia Conceição e do sr. Frederico.

Os cantadores: Casimiro Pires; Francisco Martins; Manuel Ferreira e António Rodrigo.

Deus pague aos cantadores e ao careto, assim como ao mordomo das Almas que, este ano é o Zé Maria.
____
Nota: agradeço à minha irmã Augusta o envio da fotografia e do filme. Contudo, gostaria de publicar mais. Alguma alma caridosa poderá fazer o favor de enviar algumas? Agradeço desde já.



terça-feira, 3 de janeiro de 2017

PAISAGENS DE NATAL


A nossa terra parecia uma ilha de luz no meio de um mar de névoa – os olhos deslumbram-se com a vista, mas o corpo agradece as carícias do sol. Estava frio, asseveraram os termómetros, mas só na noite de passagem de ano nos fez agasalhar mais.
Nascente
Sul: da serra de Bornes só se vê o cocuruto
Sul: o vale do Azibo submerso em névoa
Sul: S. Frutuoso, em Teixedo, não conseguia ver o céu

Sul: a névoa cresce em direcção aos Pereiros

Apesar de a água das poças congelar à superfície, a geada escondia-se nos cantos abrigados, salvo em dois dias, em que, para baixo do Nabalho, tudo era um mar de brancura, mitigando as saudades dos amantes da neve. 
Na Afonsim, destacando-se os efeitos do incêndio do Verão passado
Na Afonsim



Urze colhida em Vila Seco e rosas colhidas no horto de casa.
Ao lado do destempero das pascoelas e das urzes floridas (e das rosas), nas hortas, as pencas eram um louvar a Deus de tamanho, doçura e macieza.

Pérolas de orvalho sobre as pencas
Espigos de penca




sábado, 17 de dezembro de 2016

DESEJO DE NATAL

– Acorda, que o Menino Jesus já veio. Anda, levanta-te para veres o que deixou para ti!
Para trás ficara a ceia – de bacalhau com pencas e rabas, tudo muito bem regado com fios de azeite, encostado ao lume para descoalhar. Depois, filhós e rabanadas a brilhar…
A geada debruara o vidro da janela da cozinha e o gato Bernardo, que já entrara pela gateira, aninhava-se ao meu colo. Chegara a vez de olhar os ovos que a galinha chocava, aninhada no cesto debaixo do escano: encostados à luz da candeia deixavam perceber o crescimento do embrião e a senhora, mãe, ia-nos explicando tudo. Faltava pouco para os pintainhos nascerem e a senhora deixaria que cada uma de nós escolhesse um para ser o “seu”, para assumirmos com ele a responsabilidade de colhermos as urtigas, amassarmos os farelos e dar-lhe de comer enquanto ele não fosse capaz.
Nessa noite não haveria velada, pois cada família estava em sua casa. Rezado o terço, lembrava-nos que puséssemos os sapatinhos encostados ao lume e mandava-nos dormir.
E era com uma voz sussurrada, como se não quisesse assustar o Menino Jesus, que a senhora nos despertava em chegando a meia-noite:
– Acorda, que o Menino Jesus já veio. Anda, levanta-te para veres o que deixou para ti!
E nós levantávamo-nos, excitadas com a expectativa da surpresa. Eu dava-lhe a mão – não sabia andar sem a sua mão arrochada à minha – e, depois de atravessarmos a salinha, entrávamos na cozinha que parecia mais iluminada do que o prado no Verão.
De dentro do sapatinho tirávamos um rebuçado, uma laranja, ou qualquer outra pequena coisa e ficávamos felizes. Os nossos risos enchiam a casa e era esse o presente que o Menino Jesus lhe dava a si e ao pai. O brilho do vosso olhar era o agradecimento mais terno que Ele escutava nessa noite. Também eu o via e guardava-o.

Mãe, venha despertar-me outra vez!




segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

CANTEIRA


O caminho terá pouco mais que 1m de largo, mas agora, com o uso escasso, limita-se à dimensão das pegadas humanas. É a canada da canteira, talvez a mais pequena das canadas que atravessam o povo, ou das que dele saem. Se fosse rua de uma cidade, diríamos que desemboca numa praça ampla (a eira dos Pereiras/Fernandes, a poente) e num largo (para onde se voltam as casas do sr. Bernardino, da sra. Delfina, o palheiro do sr. Adriano e as traseiras do sr. Carlos “Chiote”, a nascente). É sítio sempre húmido e absedo, porque encravado entre muros.
É da nascente que dá o nome à canada que me apetece falar: a fonte da canteira. Que é fonte nós sabemos – afinal, da ferida aberta naquela fraga brota uma água fresquíssima onde enchíamos os cântaros para dessedentar os animais. Mas, porquê «canteira»?
Efabulando:
Se canteira é “pedreira donde se corta pedra para construções” (Dicionário de Moraes, fins do séc. XVIII), seria toda aquela zona uma enorme pedreira onde os fundadores da nossa terra se abasteceram para construir as suas moradas? As enormes pedras, erguidas como menires à entrada da eira, poderão ter saído dali e fazem jus ao nome…
E se canteira for “pedra que se põe nos cantos ou esquinas das paredes. Lapis angularis”, conforme ensina Bluteau (início do séc. XVIII)? Atendendo à primeira parte da entrada: terão saído daquele lugar as magníficas cantarias que formam os cunhais das nossas casas?
Prefiro ater-me à segunda parte do verbete de Bluteau: Lapis angularis –  pedra angular, a pedra que encerra a construção do arco e o sustenta . A pedra extraída do lugar da nascente é grande, destinada, por certo, a um edifício que o povo visse, comummente, como merecedor de desvelo maior: a igreja, único edifício que, na nossa terra, ostenta um arco, um belíssimo e amplo arco romano todo ele feito de cantaria.
Será que, quando olhamos para a pedra angular, sobre a qual se ergue o selo heráldico do bispo de Miranda a assegurar que a nossa paróquia lhe pertence, conseguimos identificar a proveniência de tão delicada cantaria?
O arco delimita a entrada no altar-mor, o espaço mais sagrado das igrejas, aquele onde se encontra Cristo consagrado; Cristo, a pedra que os construtores rejeitaram e se tornou pedra angular. Será da canteira a pedra que, na nossa igreja, simboliza Jesus?
Da fenda aberta na rocha brotou água.
No deserto, durante o êxodo do Egipto, foi ordenado a Moisés: Ferirás a rocha e dela sairá água, e o povo beberá. (Livro do Êxodo, 17, 6)
Que Moisés terá fendido as nossas fragas para que delas brotassem as águas? Que construtor terá decidido não rejeitar a rocha e a levou para o templo daquele que é fonte de vida?

Tudo quanto deixo escrito não passará de devaneio. Mas quis partilhá-lo convosco.

terça-feira, 1 de novembro de 2016

JÁ FLORIRAM OS CRISÂNTEMOS


Já floriram os crisântemos

Corolas abertas ao céu, agremiadas em tufos,
miríades de pequenas flores – roxas e brancas –
que as mulheres colhem para o regaço
serão pontos de cor, depostos um por um,
ao correr das arestas avivadas da sepultura.
No centro formarão uma cruz.

Em cada flor depositada vai o beijo;
no silêncio está o carinho que se sente e não se sabe dizer.

E assim ficam as campas,
como grandes tufos dessas corolas voltadas ao céu,
afirmando que é essa a morada das almas
daqueles que nos preenchem a memória.

Já floriram os crisântemos.
Um dia florirão para nós.



A festa de Todos-os-Santos foi instituída em 610 pelo papa Bonifácio IV com o objectivo de homenagear todos aqueles que sofreram o martírio pelas mãos dos romanos, fixando-se a data da celebração no dia primeiro de Novembro. Simbolicamente, a Igreja assinala no dia seguinte a solenidade dos Fiéis Defuntos, que é uma forma de os colocar sob a protecção dos santos. Com as cerimónias nos cemitérios e as nossas orações junto das sepulturas assumimos que os vivos e os mortos fazemos parte da mesma comunidade. Isso é profundamente reconfortante.

domingo, 23 de outubro de 2016

A PROPÓSITO DE UMA LENGALENGA

Esta também saiu da memória da tia Delfina:


Gri, gri, sai, sai
Que aí vem teu pai
Com faca de latão
Espetada no coração,
Ou então,
O grilinho
Sai à porta
Que a cabrinha
Está na horta.


Nós dizemos lengatenga, não é verdade?

- A esta não a conhecia, mas acho-a ternurenta.
- Mesmo com aquilo da faca espetada no coração?
- Sobretudo por causa da faca espetada no coração!
- Não poderia dizer-se “com a mão no coração”? É menos violento e rima na mesma!
- Pois rima, mas não faz rir! Uma faca de latão não é uma palaçoula! Se é de latão, dobra-se toda, não espeta nem mata! Imaginar uma lâmina que se torce e se dobra, a espetar-se no coração, faz rir, porque é um disparate! Assim como faz rir imaginar que um bicho, tão pequeno como o grilo, possa andar com uma faca espetada no coração, caminhando sobre ela enquanto a arrasta!

A parte educativa vem a seguir: se a cabra está na horta e o grilo está em casa, então a cabra come tudo e o grilo fica sem nada. Enquanto repete este disparate, a criança vai aprendendo uma grande lição de vida: "guarda o que te pertence" (Gén. 33,9). Ou, em alternativa, "guarda-te dos mais fortes" (ou dos mais lestos).

E foi isto que me aprouve dizer a propósito da lengatenga, com a devida ressalva de uma interpretação excessivamente livre do texto do Livro do Génesis.

Um bom domingo para todos.

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

SENHORA JULIETA E SENHOR EURICO

Sessenta anos! A feliz celebração de uma vida em comum.

Houve um tempo, certamente, em que cada um existia por si mesmo, mas esse tempo há-de esbater-se perante a dimensão do tempo comungado. É como se um tivesse estado sempre presente nos dias do outro, caminhando juntos. Talvez resida aí o mistério das vidas felizes, em que os dois se tornam um só, pisando o mesmo chão ao mesmo tempo e deixando como rasto uma só pegada.
O sr. Eurico e a sr.ª Julieta são dois corações abertos. Já vão em bisnetos, mas todas as gerações são tão próximas, que ninguém faltou à celebração do dia. Só um grande afecto permite que tais laços se prolonguem no tempo e no espaço.
Como amiga, quero agradecer à sr.ª Julieta e ao sr. Eurico pela dádiva que fazem de si aos outros e na qual têm a bondade de me incluir.
Bem hajam!

P.S. O meu muito obrigada ao João Manuel, que fez o favor de me enviar as fotografias.



domingo, 25 de setembro de 2016

TIA ZULMIRA

    “ - O rapaz já podia começar a servir… Eu, com a idade dele, guardava cabras… Queres tu deixá-lo comigo? - propôs o Lopo.
     - Deixá-lo?!
     Pelo caminho fora a palavra soava-lhe como um zumbido atroz nos ouvidos escandalizados.
     - Deixá-lo! Há cada uma! Ia agora deixar-lhe o menino!”

Miguel Torga, Mariana, in novos contos da montanha



Não sei se alguém, alguma vez, terá feito esta pergunta à tia Zulmira. Se sim, a resposta teria sido a de Mariana: “Há cada uma!”

Deve passar-se alguma coisa de muito especial na cabeça das mães, para que sejam mais agarradas aos filhos do que a elas próprias. Parece que lhes dói mais tocarem-lhes nos filhos do que terem o corpo coberto de chagas e nunca sentem fome desde que os filhos estejam saciados. As mães só sentem fome de terem os seus filhos – e de os terem consigo, sem precisarem de mais ninguém.

Há mulheres que são mães e que não prescindem de ser mulheres. Não sei se são heroínas, ou vítimas do tempo em que nasceram. Sei, contudo, que são seres especiais a quem Deus dotou da capacidade de, pelo seu agir, pôr à prova a nossa capacidade de amar e de aceitar quem não trilha os mesmos caminhos que nós. Parafraseando Jesus: a regra foi feita para o homem, não o homem para a regra!
Ela não o saberia, nem cuidaria em tal, mas mulheres como a tia Zulmira foram precursoras da liberdade que hoje vivemos: rasgaram caminho a pulso, sentiram na pele o aviltamento de uns, a vilania de outros, enfim, a perfídia de muitos, mas sobreviveram, amparadas a si próprias; acolhidas por quem, sem vãs filosofias nem entendimento errado da fé, sabe que o mais importante é o amor.
A tia Zulmira deixou-nos durante este mês de Agosto. Partiu para o Céu tão lúcida como sempre viveu. Nosso Senhor deve tê-la acolhido feliz, porque ama aqueles que souberam amar e exercer a humana condição da liberdade.
Bem-haja, tia Zulmira.

domingo, 4 de setembro de 2016

OS FERNANDES

Assim como nossos avós fizeram, também nossos pais e nós fomos embarrar o pote onde Deus quis. A vida separa as gerações, tornando algumas delas desconhecidas entre si.
Contudo, olho as fotografias e comovo-me: os rostos das pessoas que não conheço falam-me ao coração e identifico neles traços que me são familiares, como se a memória fosse transmitida pelo sangue.
E é de sangue que falo – o sangue dos Fernandes, com origem em Vilar d’Ouro / Cabanas, embora só poucos dos presentes continuem a assinar assim, em consequência da via masculina de transmissão dos apelidos.
O encontro dos Fernandes realiza-se há já alguns anos, por iniciativa do nosso muito querido P.e David. É sempre no primeiro sábado de Setembro e, este ano, calhou em Rebordaínhos (dia 3) onde se realizará também o próximo. Nesse, espero estar presente, para poder distribuir abraços e recolher memórias, porque a cabeça e o coração têm a virtude de não possuírem limites.

Deus pague ao P.e David a bondade e o sentido de família que sempre demonstrou. Obrigada a todos quantos respondem ao chamamento.
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As fotografias que publico foram tiradas pela minha irmã Augusta, motivo pelo qual ela nunca aparece., mas a quem agradeço o envio.