O caminho terá pouco mais que 1m de largo, mas agora, com o uso escasso, limita-se à
dimensão das pegadas humanas. É a canada da canteira, talvez a mais pequena das
canadas que atravessam o povo, ou das que dele saem. Se fosse rua de uma cidade,
diríamos que desemboca numa praça ampla (a eira dos Pereiras/Fernandes, a
poente) e num largo (para onde se voltam as casas do sr. Bernardino, da sra.
Delfina, o palheiro do sr. Adriano e as traseiras do sr. Carlos “Chiote”, a
nascente). É sítio sempre húmido e absedo, porque encravado entre muros.
É da nascente que dá o nome à canada que me apetece falar: a fonte da canteira. Que é fonte nós
sabemos – afinal, da ferida aberta naquela fraga brota uma água fresquíssima
onde enchíamos os cântaros para dessedentar os animais. Mas, porquê «canteira»?
Efabulando:
Se canteira é “pedreira donde
se corta pedra para construções” (Dicionário de Moraes, fins do séc. XVIII),
seria toda aquela zona uma enorme pedreira onde os fundadores da nossa terra se
abasteceram para construir as suas moradas? As enormes pedras, erguidas como
menires à entrada da eira, poderão ter saído dali e fazem jus ao nome…
E se canteira for “pedra que
se põe nos cantos ou esquinas das paredes. Lapis
angularis”, conforme ensina Bluteau (início do séc. XVIII)? Atendendo à
primeira parte da entrada: terão saído daquele lugar as magníficas cantarias
que formam os cunhais das nossas casas?
Prefiro ater-me à segunda parte do verbete de Bluteau: Lapis angularis – pedra angular, a pedra que encerra a construção do arco e o sustenta . A pedra extraída do lugar da nascente é grande, destinada,
por certo, a um edifício que o povo visse, comummente, como merecedor de
desvelo maior: a igreja, único edifício que, na nossa terra, ostenta um arco,
um belíssimo e amplo arco romano todo ele feito de cantaria.

Será que, quando olhamos para a pedra angular, sobre a qual se ergue o
selo heráldico do bispo de Miranda a assegurar que a nossa paróquia lhe
pertence, conseguimos identificar a proveniência de tão delicada cantaria?
O arco delimita a entrada no altar-mor, o espaço mais sagrado das
igrejas, aquele onde se encontra Cristo consagrado; Cristo, a pedra que
os construtores rejeitaram e se tornou pedra angular. Será da canteira a pedra que, na nossa igreja, simboliza Jesus?
Da fenda aberta na rocha brotou água.
No deserto, durante o êxodo do Egipto, foi ordenado a Moisés: Ferirás a rocha e dela sairá água, e o povo
beberá. (Livro do Êxodo, 17, 6)
Que Moisés terá fendido as nossas fragas para que delas brotassem as
águas? Que construtor terá decidido não rejeitar a rocha e a levou para o
templo daquele que é fonte de vida?
Tudo quanto deixo escrito não passará de devaneio. Mas quis partilhá-lo
convosco.