
A eloquência do autor deste artigo deixa-me impressionada e gostaria muito de conhecer o nome que se esconde por detrás da sigla: G. E. - o mesmo que assinou a crónica sobre Rebordaínhos. Nesta escrita existe grandeza porque o pensamento foi amadurecido e as palavras escolhidas com critério. Tudo tão longe da jactância e da pouca gramática que os jornais nos oferecem hoje em dia! Este homem (suponho que seja homem...) bem merecia ver reunidas e publicadas em livro as maravilhas que assinou sob o título genérico de "Pelourinho".
Agora, os Pereiros, povoação onde reside o único fidalgo do concelho (estou pronta a alterar esta frase se me provarem que o Sepúlveda morava na "Quinta"). Era dia da festa de Santo Amaro. Há cinquenta anos, talvez fosse, ainda, o Sr. P. Amílcar a presidir à missa em honra do santo padroeiro. Ou seria, já, o Sr. P. João? O sino tocava no mesmo "timbre honrado e limpo" que hoje lhe conhecemos mas, se o tempo estava de dilúvio, é provável que se não ouvisse em Rebordaínhos.
A igreja dos Pereiros sempre me encantou. Tem uma arquitectura sóbria mas de estilo seguro, escapando à construção tradicional das redondezas. A arquitectura e a dimensão - grande para o número de pessoas da aldeia - mostram que, ali, ou houve abundância, ou existiu algum patrono dedicado. Mesmo assim, a terra continua a dar "a pedir de boca"; só não há gente, porque essa não nasce da terra, apesar de nos dizerem que viemos do pó.
Novidade, para mim, é o uso extemporâneo do adro como cemitério. Essa prática foi proibida em meados do séc. XIX e até deu origem a uma guerra-civil, que foi a Maria da Fonte, e a um romance ternurento que é A Morgadinha dos Canaviais de Júlio Dinis. É caso para fazer pensar muito!
Os garotos dos Pereiros (e, já agora, os dos Vales) eram verdadeiros heróis. O que eles tinham que trepar para chegar à escola! Aquela estirada, serra acima, é de cortar o fôlego e os caminhos assustam em certos dias de Inverno, quando a água corre brava pelos barrancos e o vento do Norte assobia medos por entre as carvalheiras. Mas eles tudo venciam e metiam-se a caminho, segurando os livros numa mão e a sacola da merenda na outra. Só a neve de mais de metro os fazia faltar. Eram uns valentes e bem merecem o elogio.
A gente dos Pereiros distingue-se pelo azul dos olhos. É um azul profundo e intenso como o céu dos dias mansos de Verão. Olhos assim tão belos, só me lembro que fossem os do meu avô. Como poderia não lhes querer bem?
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Nota de edição: se alterar aquilo que escrevi, os comentários ficam sem sentido. Faço aqui a devida ressalva: o "Fidalgo" dos Pereiros era-o, tão-só, de nomeada e as pessoas tratavam-no por "Sr. Imbertinho", alfaiate de profissão. Talvez daí lhe viesse a fidalguia, do não sujar as mãos na terra.
Nova ressalva - o Carlos Pereira corrigiu o nome do "fidalgo": é sr. Emílio! Desta vez não há que duvidar, porque antes de fazer esta emenda consultei o povo de Rebordaínhos (actual. em 20/04/2010).
De ascendência verdadeiramente fidalga era o Sr. Sepúlveda cujos avoengos são referidos por Camões em Os Lusíadas (e também na História Trágico-Marítima). Pelos vistos, tinha residência fixa na Quinta de Vila Boa e era pessoa dada ao convívio com toda a gente.
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Reparo que ninguém me corrigiu num erro que cometi propositadamente: queria "provar" como, nas nossas cabeças, Rebordaínhos continua a existir com a ancestralidade de concelho. Nenhum de nós (nem os nossos pais) vivemos essa realidade que, apesar disso, está vincada em nós com o valor das certezas. Registe-se, assim, que o tempo das nossas ideias está desfasado século e meio do tempo político da divisão administrativa do País. Isto não faz de nós seres estranhos, pelo contrário, demonstra uma certeza da História, a de que não existe um tempo, mas sim vários tempos em simultâneo. Queiram desculpar a rasteira e a prelecção.