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sexta-feira, 30 de outubro de 2015

ECOS DO MEU SENTIR - XII

René Magritte, Le Modèle Rouge

DEFUNTO-VIVO 

por: FILINTO MARTINS        

            Aceite o desafio do Tonho, que na porta do seu quarto de “Lisboeta de passagem” afixou as suas boas-vindas: “Se bateres, bate devagar, senão bate com os cornos”. Português genuíno dum transmontano de cepa, mas como ele era culto dos escritos bíblicos, logo aparecia nova mensagem: “Senhor, livra-me dos cornos dos unicórnios”.
Convém lembrar que quem brinca com a memória arrisca-se a passar por saudosista, senão algo pior. Assim, para não ser insultado por algum incauto que como eu, apenas li umas cem páginas da tese de doutoramento “ A memória” do Prof. Custódio Rodrigues, quando a mesma tinha mais de 700 páginas, que eu deveria ter assimilado na Universidade, vou a uma gaveta da mesma citar Patrick Modiano (Prémio Nobel): “Na vida, o que conta não é o futuro, é o passado”.
            Não quero disfarçar as tristezas do presente com as ilusões do futuro – como fazem todos os nossos políticos sem excepção – vou tentar apimentar alguma lembrança que nos deixaram os nossos Rebordainhenses.
Se os Americanos falam da noite da abóbora, cuja tradição nasceu nas terras dos Celtas, meu pai, ao serão de Inverno, à lareira pois, ora descascando castanhas para os cevados (hoje os cevados são outros), rezando o terço, ora as “mulheres ganhando cabras” (depois queixam-se dos ossos) lá ia mais uma história para rir, que meu pai dizia ser verdadeira, porém a primeira vez que a ouvi fiquei sem respiração e não me lembro de ter rido.
 Assim começava meu pai: “… naqueles tempos não havia transportes, era à pata”, de vez em quando lá passava uma camioneta de carga, que até parava para dar uma boleia a algum desgraçado, que ia à chuva e ao vento. Um homem vinha para a aldeia, cansado, molhado, pois o sombreiro não era suficiente, quando ao longe surgiu o roncar duma camioneta de carga (se fosse o Nelzeira diria logo que era uma Scania Vabis), porém não adivinhou a boleia. Os transmontanos eram bons, ainda são e por isso o motorista parou ao lado do homem e disse-lhe:
- Suba, homem, vai todo molhado.
- Santo Deus, foi milagre, pois já vinha mesmo cansado. Agarrado à cabine para não cair, nem um quilómetro tinham andado, eis que olhou para a carga e reparou que na mesma iam duas urnas, que iriam servir para defuntos da aldeia, dado que na terra não havia stocks para tais luxos. De quando em vez o homem ia olhando para a estrada, porém sempre com um olho na carga.
A chuva continuava, mas não importava, não metia medo. Eis senão quando a tampa duma urna é levantada e uma mão aparece para ter a certeza que ainda chovia. A velocidade da camioneta podia agora ser elevada, porém mais rápido foi o salto da camioneta em andamento.
Chegados à aldeia o motorista admirou-se e perguntou ao “defunto-vivo”:
- Eu dei boleia a outro e só está aí você?
Talvez parte da carga já tivesse defunto certo. Qual abóbora, nem meia-abóbora. Os transmontanos têm “Halloween” que não foi importado dos “States”, pois os Celtas também andaram por estas terras.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

ECOS DO MEU SENTIR - XI

 II – NOVA GERAÇÃO? GERAÇÃO NOVA?

por filinto martins


“Na cidade não havia trigo para vender… No logar onde costumavam a vender o trigo, andavam homens e moços esgaravatando a terra, e se achavam algum grão de trigo metiam-n’o na boca sem tendo outro mantimento…” (1)


Quando em tempos íamos para a escola (ainda está no mesmo sítio) passávamos por um “monumento” que, ao contrário do outro fronteiriço à igreja, não se destinava ao castigo, mas antes era alívio das dores ou “calçado seguro”, sucedia que algum, com melhor pontaria, tentava acertar com uma pedra no monumento ou galinha que por aí andasse, logo o Patinge (boa pessoa…) dizia: “vou dizer ao senhor professor”. Por vezes era mais assertivo e enquanto com uma peliqueira cortava um carolo de centeio acrescentava: “prendo-vos no tronco e as pedras servem par vos dar com elas nos cornos”. Acho que a maioria optaria pela segunda opção.
Ora se muitos optaram por transformar Rebordainhos na vila que já foi, melhorando suas casas, o dito monumento mudou de poiso. Foi para o Outeiro… ainda pensei: “se o posto médico era ali, também ali deveria ser o “posto veterinário”. Mas hoje quase não há gente e muito menos “juntas” e se a forja também foi para o Cobelo, também o dito lá foi parar, à sombra de umas árvores. Não vá o dito parar à entrada da aldeia, pois aí é o local onde todos vão parar nesta passagem terrena… Quantas aldeias se podem orgulhar de monumento igual?

Como Rebordainhos está transformada…
Nessas eiras havia fartas medas de centeio que iam alimentar as gentes… onde ecoava o pregão do
Santa Combinha: “À eira que o bacalhau está na caldeira”. Bacalhau assado na brasa, cebola, azeitonas, nas travessas colocadas nas compridas toalhas de linho, onde cada um ia espetando o seu garfo e mastigando, enquanto algumas gotas de azeite iam escorrendo queixo abaixo à espera dum naco de trigo cozido no dia anterior, que servisse de guardanapo. O pipo ia passando de mão em mão para que o fiel amigo não secasse. Depois o “verde”… quem não se recorda do “verde”? (não era tinto, nem branco) A essas horas já a “canhona” estava no pote ao lume, para o almoço, acompanhada das saborosas e sorridentes batatas. O Santa Combinha era o homem da malhadeira que ia “aparelhando” com todo o gosto, acariciando as correias… era sempre o último a sentar-se num molho de palha ou de pé, olhando para a sua “amiga”. Não foi por ele, que malhadeira e motor foram também morar perto dele, mas antes porque seus donos ali moravam.

No fim da malha havia uma surpresa: nas malhas que duravam um ou mais dias, era hábito dar a cada mulher um ou dois rebuçados (não mais) e aos homens um cigarro, repito, um cigarro e não um maço de cigarros. E ainda tenho presente o prazer que os mais novos ostentavam, levando o cigarro na orelha para que todos vissem que tinha sido da malha, sendo um certo sinal de maioridade.
Ainda soam aos meus ouvidos as palavras de minha mãe: “vou ali à eira, onde estava a malhadeira, ou no assento da meda, apanhar “penim”… as galinhas gostavam muito. Momentos depois chegava ela com o avental cheio e toda radiante com a maquia.

“Andavam os moços de três e quatro annos pedindo pão pela cidade, por amor de Deus, como lhe ensinavam suas madres… e se lhe davam tamanho pão como uma noz, haviam-n’o por grande bem…” (2)


O que há hoje na eira do Outeiro para não ir às outras? Não vi medas, antes um moderno ringue de Futsal. Infelizmente também não vi jovens. Se a tia Emília fosse viva poderia aí ter os seus perus, que alegravam quem passava com o seu andar vaidoso e “monca vermelha”. Ali parei uns momentos e pensei para com os meus botões: “Não há gente para jogar futebol, não há perus… seria um óptimo lugar para secar as “casulas”, porque mesmo em dias de vento da serra não iriam para longe e no inverno, cozidas e acompanhadas dum “pisperno” faziam esquecer o frio com o calor do verão passado.

“… a geração que depois veiu, o povo bemaventurado, que não soube parte de tantos males, nem foi quinhoeiro de taes padecimentos…” (3)    


__________
 (1),(2),(3) - Crónica d’El Rei D. João I – F. Lopes       

A fotografia do campo de jogos foi tirada daqui. A fotografia da eira do Outeiro foi-me enviada há já bastante tempo (e já usada) pelo Baptista do tio César.                                              

domingo, 18 de janeiro de 2015

ECOS DO MEU SENTIR - XI

I - QUEM TE VIU E QUEM TE VÊ
por: filinto martins

“Ora esguardae, como se fosseis presente, d’uma tal cidade assim desconfortada…”  (1)
18 de Novembro de 2014.


Acho que me enganei na estrada… à entrada da povoação cruzo-me com um carro da recolha do lixo… só faltava a placa identificativa “Rebordainhos City”, mas não, era mesmo verdade.
Parei no Prado, lugar amplo e de grandes desafios de fito e lançamento da relha nos meus tempos de miúdo. Que diferença! Não pude esquecer o senhor Ernesto, repito, senhor Ernesto, pois só o professor Ribom e o Carlos sapateiro eram assim chamados… acho que ele merecia tal distinção, porque na minha memória ficou o uso de suspensórios e não o cinto, como os demais homens de bem de Rebordainhos.

Para o senhor Ernesto, e outras casas de lavradores mais abastados, trabalhavam os moços da aldeia, que o dinheiro não abundava, porém ele era mesmo muito sovina, não apertava o cinto… que o diga o “Santa Combinha”. Após um dia de trabalho, diz-lhe:
- Um pingacho e dez tostões fica o menino bem pago…
Logo D. Denérida (santa mulher) acrescentou: “leve umas batatas”.
- Não, D. Denérida, batatinha não, D. Denérida. Um pingacho e dez tostões fica o menino bem pago.
Poucas vezes falei com D. Denérida, mas o seu falar e olhar eram uma doçura e penso que só não lhe deu as batatinhas às escondidas se não pôde.

Um azar nunca vem só. Quando o Santa Combinha andava a fazer um “apanhadouro” dum castanheiro do senhor Ernesto, teve necessidade de evacuar, como sucede com os caçadores que andam pelo mato. Nada melhor que junto ao tronco do castanheiro, embora o vento da serra não fosse nada agradável.
O senhor Ernesto, que gostava de ir ver os trabalhos feitos e contemplar o seu pombal, logo que deparou com tal situação exclamou:
- Ai menino, preferia que mo tivesse feito no prato!

Era assim naqueles tempos em que o adubo “nitremoncal” dos campos era substituído pelas “estrumeiras” que cada um fazia na rua em frente à sua casa, recolhendo folhas dos carvalhos e deitando palha dos medeiros a fim de com as neves e a chuva poder ser depositado nos campos… cultura biológica. Era aí que nós, miúdos, dávamos pulos, corríamos, jogávamos, dando “pincha-carneiras”. Hoje não. Ainda bem, pois até o carro da recolha do lixo vai a Rebordainhos e a civilização está aí.
Tempos idos e difíceis. Quando D. Denérida ia para Espadanedo onde era mestra na escola pública, o senhor Ernesto despedia-se num lamurio:
- Lá vai o meu “ganha-pãozinho”.

 “… a geração que depois veiu, o povo bemaventurado, que não soube parte de tantos males, nem foi quinhoeiro de taes padecimentos…” (2)
_______________________________________________________________________

½ (Crónica d’El –Rei D. João I – F. Lopes)

terça-feira, 10 de setembro de 2013

ECOS DO MEU SENTIR -X-

Não lhe dês um pássaro, ensina-o a caçar.


Por: FILINTO MARTINS



                         «Está o lascivo e doce passarinho
                         Com o biquinho as penas ordenando,
                         O verso sem medida, alegre e brando,
                         Despedindo no rústico raminho.
                         O cruel caçador, que do caminho
                         Se vem calado e manso desviando
                         Com pronta vista a seta endireitando,
                         Lhe dá no estígio lago eterno ninho.»
                                                                                       Luís de Camões

            Dos tempos da minha meninice recordo-me de grandes caçadores – o tio Moreno, espingarda debaixo do braço, um cigarro no canto da boca e sua cadela perdigueira, perito na caça às perdizes… o Zé Tiago que cedo foi para terras de Santa Maria… o tio Manuel Frade, com faro apurado para coelhos e lebres, com o furão escondido debaixo do casaco, não fosse ele o regedor… meu pai que era o seu comparsa, quer na caça quer na sueca, naqueles dias de névoa “como boca de lobo”, com um galgo que teve uma morte infeliz… e tantos outros que caçavam mais no prato que no mato.
            A caça era algo importante, ora para satisfazer os desejos da carne e nada melhor que um produto biológico, ora para matar o tempo. Hoje é um desporto para ricos, naquele tempo a finalidade era bem outra.
            Havia no entanto outros caçadores, sem arma nem furão, mas com uma visão apurada e atenta ao voo dos pássaros para os seus ninhos, onde as pequenas crias de bicos abertos estavam sujeitas à “ave de rapina humana”.      
            Tempos que já lá vão, trabalhava-se nos campos, à jeira e a seco, pois era bom poupar uns tostões para ir à feira comprar umas botas, um reco …. Com frequência ouvia de meu pai uma história a respeito dos “indefesos”, que lhe dava um prazer em repeti-la.
À hora do almoço que se levava par o campo, cada um ia-se dispondo da melhor maneira, sacando do seu manjar, sacudindo as moscas, que também elas apareciam sem serem chamadas.


«Destapámos o cesto de D. Esteban donde surdiu um bodo grandioso, de presunto, anho, perdizes e outras viandas frias, que o ouro de duas nobres garrafas de Rioja aquecia com um calor de sol andaluz.»
Eça de Queirós

            -Ai, senhor Adriano! – exclamou o Conicho.
            - O que foi, homem? – Retorquiu meu pai, pensando que se tinha esquecido de algo.
            - A minha mulher não meteu os passarinhos…
            Da sua ementa fazia parte uma omelete, com o possível recheio de uns passarinhos que ele teria surripiado a uns pobres e indefesos. Que amargura! Enquanto cavava as batatas já ele salivara que nem o cão de Pavlov… agora comia a omelete de “xixa” gorda e com o pensamento bem distante as palavras saíram-lhe em surdina: “a minha mulher comeu-me os passarinhos”.

«No século XVIII, os monges de Belley, como outrora os sacerdotes em Mênfis, guardavam em segredo os princípios da ciência e o verdadeiro método de comer passarinhos.»
                                                                                                                      Lucien Tendret

            Era precisamente nesta altura que a ganapada, e não só, gostava de depenar as pobres avezinhas e satisfazer os apetites, ora numa rica omelete, ora num arroz malandrinho. Que outros prazeres havia? Muito poucos, pois as cerejas ainda verdes não atraíam homens, nem gaios.
            Se na Primavera e Verão o tempo ainda ia passando, pois os trabalhos eram muitos e não havia muito para pensar, o mesmo não sucedia no Inverno. A passarada ia para outras terras… apenas os pardais, sempre desconfiados tentavam aqui e ali roubar os grãos de centeio das galinhas.

«…os rouxinóis os fez Deus para cantarem e não para serem cozinhados em plangana e comidos, dizendo ainda por cima os comensais, a palitar os dentes, uns, que estavam bons, outros, que não prestavam…»
António F. de Castilho

            No Inverno ouvia com frequência uma outra história que meu pai muito gostava de relembrar. Eram vários os trabalhadores sazonais e outros que no tempo da guerra civil de Espanha se deslocavam para o nosso país. Ele assim narrava uma história passada à noite, quando os patrões já estavam deitados:
            “- Meu amo, as perdizes del monte têm rabo?
            - Não.- Respondia-lhe o amo.
            - Esta, com o que tem de gordo, até o tem depenado. Assar e pingar, desta meu amo não há-de provar.
            - Ó meu amo, as perdizes del monte têm rabo?
            - Não.
            - Assar e pingar desta meu amo não há-de provar.
            - Ó meu amo, eu me marcho…
            - Ó mulher vai ver o que tem o criado… ele está mesmo mal.

            Não sendo eu espanhol, sabendo distinguir um perdigoto dum sapo, o que não sucedia com o dito espanhol, tentei ser um bom caçador de pardais, para ocupar os tempos de Inverno, tendo como companhia o meu sobrinho Orlando.
            Foi num desses dias de Inverno, que do Outeiro nem o Prado se avistava, que fixei os pardais no quintal a comer os grãos de centeio que minha mãe deitara às galinhas. Segredei para o meu sobrinho, como o Pilatos me ensinara a descobrir os ninhos de melro, quando andávamos com as vacas nas Bouças: “vamos ser caçadores sem espingarda nem furão”. Lá nisso o meu companheiro boieiro era um ás, como era na arte de ensinar a “capar grilos”.
            - Vamos ser mais espertos que os pardais, Orlando!
            - Como?
            Não havia tempo para explicações. Arranjámos baraços que atámos de forma a obter uma corda que desse para puxar de longe a porta do galinheiro, deixando-a entreaberta. Na entrada deitámos uns grãos de centeio, como isco, e dentro bem mais. De longe, quietos, vigiávamos os desconfiados que comiam o grão que ficou fora e depressa levantavam voo. Era preciso ter paciência… olho atento, silêncio… apenas o barulho das pingas que choravam das telhas. Até que enfim, acabou o grão fora, agora só dentro do galinheiro. Alguns entravam e imediatamente saíam desconfiados, poisando na rede que circundava o galinheiro. Como nada acontecia, voltam a encher o papo lá dentro… agora eram mais que as moscas. Foi neste momento que o baraço foi puxado e ficaram trancados dentro do mesmo. Era preciso entrar rapidamente e fechar a porta para os caçar à unha. A luta dentro era desigual, porém ao fim de pouco tempo já tinha em poder vários a que de imediato se apertava o pescoço, embora com as “botas engraxadas” tinha valido a pena.
            Agora era depenar, depenar… que muito aborrecia a Lúcia com tanta pena por ali espalhada.
O Orlando aprendeu, mas não comeu… caçou, depenou, destes ele não provou. 

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

ECOS DO MEU SENTIR - X -

“O meu rapaz…”  “O senhor António…” “ O piloto…”

por: FILINTO MARTINS

              
                Dia 31 de Janeiro faz precisamente 3 anos que o “senhor António” se encontrou novamente com a tia Felicíssima, tendo como prémio um dia lindo de sol como despedida, pois ela não estava disponível para lhe fazer uma fogueira ou aquecer as meias, como era seu hábito, quando o senhor António chegava a casa, molhado e com frio. Unidos e amigos em vida, unidos na mesma campa.
Há 33 anos vencera ele a morte, após uma delicada operação… “os meus garotos precisam de mim…”, confidenciou-me, precisamente no ano em que eu casei. Mas desta vez o tempo era dele, o tempo que nunca teve para descansar, concedeu-lho o Senhor.

Voltemos anos atrás.
Fazendo horas para ir regar as batatas e outros trabalhos, enxotando as moscas atrevidas, eis que meu pai diz para o tio Manuel Frade:
- Olha, vem aí “o meu rapaz”.
Andar apressado, como era seu hábito, atirou sem mais:
- Querem saber a melhor? “Cortaram as batatas” ao João Santo.
- Estava um batatal lindo! – ripostou o tio Manuel – ainda ontem lá passei.
Era um diálogo entre adultos, pois nos meus cinco, seis anos não percebia nada, mas disse para comigo: “hei-de ir ver”. E se melhor o pensei, mais depressa o fiz. Para meu espanto, as batatas estavam viçosas, com flor e a rama toda… ninguém as tinha cortado. (Para os esquecidos e mais novos, relembro que “cortar as batatas” significava reprovar a colheita das mesmas. O agricultor teria que as vender enquanto as aprovadas em classe A – B ou C seriam vendidas pelo estado que as pagava em função da classe e as exportava.)

“O meu rapaz” sabia mais de batatas que a maioria dos Agrónomos da época. Pelo menos fiquei esclarecido e nunca mais esqueci o número do meu pai, como agricultor de “batata certificada”. Era o número 28.
Muitos anos mais tarde, dizia-me ele, na sua sabedoria de agricultor de longa experiência, sem canudo universitário:
- Ó rapaz, os nossos governantes estão a dar cabo da agricultura. Não saem dos gabinetes e as batatas já lhes aparecem no prato e descascadas. Arruínam o petróleo da nossa terra. “Eu já cá não estarei, mas alguns terão que voltar à terra ou emigrar”.
Não se enganou o Piloto.

Quando eu nasci já o António andava na tropa. Só mais tarde, andava eu na Faculdade no Porto, pude ouvir muitas das suas histórias, que gostava de relembrar. Apenas uma: “Estava no Porto e um senhor de “trás da serra” pediu-me para lhe indicar uma rua. Quando íamos no elétrico, junto ao rio Douro, ele exclamou: Ena, o que aqui vai d’auga, rapaz. Isto é que dava jeito para regar as batatas lá da terra. Ó homem, ficou tudo a olhar para nós e eu fiz de conta que nem o conhecia.”
Demasiado desinteressado de si, nem a carta de condução renovou. Sendo censurado por tal, dizia para quem o queria ouvir: “para conduzir o carro das vacas não preciso de carta”. E se na agricultura era um ás, o mesmo não se pode dizer relativamente à arte da culinária. Estando a Maria adoentada, pediu ao António que fosse à cozinha aquecer-lhe um chá, que estava feito. Com todo o carinho, foi e aqueceu-lhe a água das alcaparras, que estavam no armário… provavelmente ainda foi melhor o xarope.

A alcunha de “piloto” ficou a devê-la ao primo Jaime, provavelmente devido à sua carta de condução. “Já que a carta não serve para conduzir o carro, vais pilotar algum avião”.
Naqueles tempos a obediência aos pais ou mais velhos era cega. Ouvi ao meu pai contar uma ida para o campo, ainda com estrelas, mal se via o caminho, como reagiu “o meu rapaz”. Eu disse-lhe, pois ia meio a dormir:
- Vai pró carro.
Passos andados, meu pai olhou para o carro e não o viu. Queres ver que caiu? Ao longe ouviu um barulho ofegante e chamou:
- António…
- Senhor – respondeu já longe.
- Onde vais?
- O pai mandou-me para casa.
- Não, homem.
A confusão carro e casa nem se questionava, mesmo que o medo fosse tal.
“O meu rapaz” era assim, obediente.
Provavelmente também não ouvia bem, ou fez-se desentendido, pois desta ficou a lucrar. Com alguma frequência acompanhava o Padre Filinto (deve ter sido daqui que herdei o nome) quando ia celebrar missa aos Pereiros e outras aldeias, que se deslocava no seu cavalo. Ter-lhe-á dito:
- Vai pelo cavalo.
Ele entendeu: “vai a cavalo”. Se bem o entendeu melhor o fez. Veio para Rebordainhos no cavalo e o Padre veio a pé, pois naqueles tempos não havia telemóveis, nem telefone. Provavelmente até foi um passeio saudável para o Padre Filinto.
O Piloto era assim, obediente e ainda não tinha carta de condução.
Contou-me a nossa mãe, se a memória não me atraiçoa, que ele foi a uma festa e ela disse-lhe:
- António, o que se põe no prato é para comer, não se deixa nada que é feio.
 Comeu e bem comeu. Só que a um dado momento, já ele não conseguia comer nem uma migalha, puseram-lhe no prato uma coxa de galinha. Como resolver o problema, agradando a gregos e a troianos? Quando chegou a casa deu a coxa à minha mãe e disse:
- Eu não podia comer mais, puseram-me a coxa no prato e como a mãe me disse para não deixar nada, eu vi-os todos distraídos e meti-a ao bolso.
Era assim o António, obediente e educado.

Numa ida à taberna do tio Eurico tomar uma bica, como era meu hábito nas idas à aldeia, nas férias do Verão, ele confidenciou-me:
- Ó Filinto, o teu irmão António não tem tempo, homem…
Não percebi a piada e perguntei-lhe porque é que não tinha tempo.
- Ó rapaz, ele vai cedo regar as batatas lá para Vila Seco e volta sempre num passo apressado. Há dias passou aqui, vinha de encerrar os cordeiros e perguntei-lhe pelas batatas.
- Espera aí. Meteu-se uma pedra numa bota lá em cima na serra e vem a magoar-me, tenho que a tirar.
- Estás a ver… o teu irmão é um mouro de trabalho, nem tempo tem para tirar a pedra da bota.
Era assim o António, não tinha tempo.
- António, o tempo agora é todo teu. Descansa em paz.

Do teu irmão Filinto 



sábado, 10 de novembro de 2012

ECOS DO MEU SENTIR - IX -

POR: FILINTO MARTINS

Há mais de cinquenta anos…
A primeira aula de audiovisual… e não só.

            
    Ao reler pela “… ésima” vez Trindade Coelho, vem-me à memória a passagem:
                “- Olha lá, Josezinho, tu queres ser militar, queres?
                - Corneta, mais quero ser corneta. Ou então como o senhor prior: dizer missa.
                - Corneta ou prior…?
                - Preferia ser prior…
                - Muito bem … Telha de Igreja!
                - Sempre goteja – concluiu Helena.” ….
             
Como os tempos mudaram! Será que mudaram? Mudaram. Já houve comboio e silos em Rossas. Já houve segada, malhas e moagem em Rebordainhos. E hoje? Há memórias de tudo isso. Naquele tempo, sem luz elétrica, era à luz da candeia que se aprendia. Oh! Se aprendia… Meu pai, como a maioria dos homens de Rebordainhos, aprendia muitas coisas nas feiras de Bragança, três vezes por mês e nos Chãos, por duas vezes. Nesta era uma reciclagem.

Certa noite, enquanto descascávamos as castanhas para dar aos cevados (eram biqueiros!), hoje os porcos (com sua licença) são outros. Era um desafio, a ver quem mais descascava. Sendo eu o mais pequeno, meu pai, às escondidas, deitava no meu monte algumas castanhas descascadas para eu me sentir encorajado e dizer no fim, às minhas irmãs, que eu tinha ganho. Ele não tinha estudado o condicionamento operante de Skinner, mas já sabia dar um reforço positivo ao citote.

Foi numa noite dessas, depois de uma feira em Bragança, não sei se foi na de 12 se na de 21, mas o conhecimento fora aí adquirido. Eis a explicação do audiovisual:
“Dizem que daqui a pouco vamos poder ver uma pessoa a falar, atrás dum vidro, como uma caixa. É mesmo assim e se a pessoa for à volta não vê ninguém atrás. Foi o que me contaram”. 
Nem sei o que pensei, mas no dia seguinte pus o Fernando ao corrente da “ciência”, mas a minha explicação de mestre não surtiu qualquer reação nele, pois ficou com dúvidas. E que dúvidas!

Estava eu a dar-lhe esta explicação quando apareceu a tia Maria dos Santos, sempre de mansinho e para pedir algum favor, que não tardou:
- Ó Fernando, vai buscar-me esta “remeia” de água, à fonte da Ribas. (Não sei se ainda existe).
- Ora… depois…
- Anda lá, Fernando! Olha, quando morrer deixo-te tudo. 

Lá foi o Fernando buscar a água… e muitas vezes mais, pois água só na fonte ou na bica do Prado. Que saudades desse chafariz! Ali devem ter ocorrido muitos namoricos, enquanto a bica chorava para os cântaros já cheios.

Acho que o Fernando enquanto foi buscar vezes sem conta água à fonte, pensou na promessa, até que um belo dia, quando o pedido lhe foi novamente solicitado, ele retorquiu:
- Ó Tia Maria, a senhora nunca mais morre!
Resposta pronta e carinhosa:
- Malandro! Deixa lá, anda que eu não posso…

A Tia Maria era boa, mansa, sofrida e “manhosa”, na opinião da minha mãe que era “atraganada”, mas era mesmo boa. Que Deus as tenha em descanso e paz, pelo pouco descanso que tiveram nesta terra.
Muitas vezes aparecia junto à nossa porta, encostada ao cancelo, ali desfiava as suas mágoas com a minha mãe. Mãos debaixo do avental, olhar distante aparecia sempre o diálogo:
- O teu Adriano também está lá?
- A igreja não lhe cai em cima. – Acrescentava a minha mãe.
- Eu não os socorria, podia vir quem viesse…

Palavras ditas da boca para fora, pois mal chegavam a casa tratavam logo de lhes aquecer a comida.
O diálogo era sempre o mesmo. Era um martírio para elas, mas à distância, que outros divertimentos tinham aqueles homens dobrados pelo trabalho duro do campo? Nenhuns. Vem a propósito aquele provérbio espanhol:

                “Beber até tombar é de censurar;
                Beber até cambalear tão pouco é de aprovar;
                Uns golitos de vez em quando e vamos andando.”

Era nestas alturas que também aparecia a “atraganada” com as suas:
- Ó Maria, queres uma laranja?
- Elas são doces?
- Amargas que nem rabo de gato.
- Come-as tu… ainda se fossem docinhas – enquanto se afastava e dirigia no seu calvário diário em passos lentos para casa, olhando para o caminho a ver se o seu Manuel vinha para casa. Mas não, não vinha… Vinha quando o sol se punha.
Mal dobrava a esquina, a minha mãe ria-se e exclamava:
- Olha a “Checha”, tinham que ser doces! As amargas que as coma eu…

No dia seguinte, depois da partida, as duas amigas lá comiam as laranjas que o Cortês mandava da Rede para a minha mãe. Tempos belos, mas de sofrimento.


terça-feira, 25 de setembro de 2012

ECOS DO MEU SENTIR -VIII-

POR: FILINTO MARTINS



Habituados à civilização deixámos as caminhadas, preferindo o automóvel, mas como os combustíveis estão pela hora da morte e as pernas necessitam de exercício, pois os anos vão pesando e alguma “neve vai na serra”, sacudida pelo vento deixa livre uma autoestrada, tento umas pequenas deambulações. Eis senão quando, olhando bem para o chão, não há por aqui vacas nem bois, mas há cães a mais, deparei na berma do caminho com umas figueiras-do-diabo.
Há quanto tempo as não via!... Há mais de cinquenta anos…

Calor, moscas, monotonia… aragem fresca de vez em quando. Ainda não havia televisão e as bibliotecas estavam à mão de semear, pois meu pai embora analfabeto era uma biblioteca-viva do saber. Como eu gostava de o ouvir contar pequenas histórias da sua infância, do seu saber adquirido pelos anos de trabalho a fio, agarrado a um pau, que servia de bengala, sentado no carro dos bois, com o queixo sobre a mesma, ora enxotando as moscas, ora coçando a barba rara que havia de cair às mãos do Armindo da Eira, semana a semana, me contou:

- Sabes, uma vez havia um patrão muito rico que era cego e disse ao criado:
- Amanhã, bem cedo, quero ir ver um terreno… aparelhas o melhor cavalo.
Logo eu atalhei:
- Se era cego como ia ver o terreno?
- Espera…

Com a mão calejada matou uma mosca que o não deixava livre no seu discurso… “Já foste, carai…”

- A terra era longe, pai?
- Se era… mas o cavalo andava bem. Olha que havia bons cavalos naquele tempo. Depois de muito andarem o criado parou e disse-lhe:
- Meu amo, estamos na terra que queria ver.
- Está bem. Olha: vais contar os passos da terra na largura… o comprimento não interessa.
- Vou começar, mas o meu amo segure a arreata. – Disse o criado.
- Não. Prende-me antes o cavalo a uma figueira-do-diabo.
O criado olhou à volta e disse-lhe:
- Patrão, aqui não há nenhuma figueira-do-diabo!
- Então escusas de contar os passos, vamos embora.

Como o meu pai tentou matar outra mosca e ficou calado, eu perguntei-lhe:
- Porque é que ele já não quis que contasse os passos?
Após um curto silêncio, sorriu, fechou os olhos e acrescentou:

- Ó burrinho, terreno onde não há figueira-do-diabo, não presta… Percebeste tu agora, como é que ele viu o terreno e era cego?


sexta-feira, 11 de setembro de 2009

ECOS DO MEU SENTIR




VII

"NA CAMA…"

por

FILINTO MARTINS




A anatomia diz-nos que para sorrir entram normalmente em acção 18 músculos, enquanto para enrugar a fronte são necessários 99. Ora, em tempo de crise, devemos aproveitar para sorrir, quanto mais não seja, por economia. Além disso, nunca as tristezas pagaram dívidas.

A minha mãe estava ainda a acender a lareira e o fumo já enchia a cozinha, naquela manhã de invernia, não se vendo a porta da rua, que estava entreaberta para escoar aquela fumaraça, que a chaminé não conseguia engolir, senão quando se aproximou do cancelo e sussurra:

- Ó Adriano!
- O que é Manuel? – Perguntou a minha mãe, enquanto se levantou da tripeça e se dirigiu ao cancelo.
- Tome lá, Olímpia, é para arroz…
- Diga à Maria que à noite comem cá – retorquiu a minha mãe, que segurava o bicho pelas patas traseiras e acrescentou: é boa! Que lontra!

O dia foi mais um dia de neve e chuvisco e eu, nos meus cinco/seis anos, matava o tempo espreitando a preparação do dito pitéu, que era por todos muito apreciado, enquanto agarrava o gato pelo rabo ou atirava com uns guiços para o lume, que num clarão rápido iluminavam a cozinha, à falta de electricidade. Aproveitava para me espreguiçar no escano, que era todo meu, pois no rés-do-chão havia muitos socos grandes que eu de vez em quando experimentava para meu encantamento.

A noite chegou depressa e à mesa todos nos deliciávamos com a dita. Como não havia noticiário, as garfadas de arroz de lebre eram entrecortadas com diálogos dos adultos:

- Ó Adriano, sabes onde a matei?
- Aonde? Lá prá Penacan? – Alvitrou meu pai, erguendo o pescoço, enquanto se deliciava a chupar a cabeça da pobre defunta. Foi sempre um gosto que meu pai tinha e eu herdei: “fazer de comer”, lambendo aqueles restinhos.
Dando uma gargalhada e mostrando ao mesmo tempo a falta de dentes como a lebre, enquanto dos olhos vermelhos lhe escorriam lágrimas, devido ao fumo e talvez a Baco, acrescentou:

- Na cama, caranvas!
- A esta hora ainda o Moreno anda a pensar onde vai poder abatê-la – retorquiu meu pai.
- O Moreno é bom para as perdizes!... Caranvas, olha que a cadela dele é mesmo boa, mas para a lebre não há como a minha…

Acho que estremeci e até a chama da candeia se contorceu toda, não sei se com o vento que assobiava, se com o mesmo medo que eu. Aquela noite custou-me a adormecer, pois não tinha televisão para ver os desenhos animados. Meti a cabeça debaixo dos cobertores e pensava: "E se aqui na minha cama há uma lebre?" Com o ouvido bem à escuta, não ouvi nada, até que Morfeu tomou conta de mim.

Mesmo assim continuei a gostar de lebre… Só alguns anos depois soube em que cama a dita foi abatida.

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Fotografia retirada daqui

Embora só indirectamente tenha a ver com o assunto, esta página é muito interessante, sobretudo para quem tem crianças.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

ECOS DO MEU SENTIR



VI


III – Escola… Ritual de Iniciação

por
FILINTO MARTINS




Andava com as vacas nas Bouças e o meu companheiro de desgraça era o Pilatos. Este era o meu segundo professor… e que "mestre"!
"Outro dia, viste, levei aquelas reguadas, porque não sabia fazer aquela conta de dividir… eu, também prefiro ficar com tudo, do que dividir!" – confidenciava-me o meu "mestre"…

Voltemos à escola.
Estava a chover… "frio e vento de Mogadouro, água até ao couro". À volta da braseira estavam dois colegas dos Pereiros a aquecer as mãos, depois do sinuoso percurso por eles percorrido diariamente, encharcados da cabeça aos pés. Ao meio-dia, a cantina que os esperava era um naco de pão de centeio de oito dias, com um pedaço de queijo de cabra, ou carne gorda de porco cozida, dos cevados que todos se orgulhavam de criar e engordar com castanhas, pois naqueles tempos eram eles que as comiam em grande quantidade. Hoje são outros, que tal sorte têm. "Mudam-se os tempos, mudam-se os costumes".

Naquela manhã fria, cor de chumbo, o senhor professor, sentado à braseira, enfiado no seu capote alentejano, enquanto os da segunda palreavam a tabuada em voz monocórdica, lembrava solenemente que alguns ainda não tinham entregue os 2$50 para as brasas… (ia dizendo, por dizer, pois nunca cumpria…) Aquela braseira estava perto da mesa do senhor professor, para ele poder ter os pés quentes, pensávamos nós. De quando em vez, após pedirmos licença, íamos aquecer as mãos. Sempre era melhor que o "aquecimento artificial".

Lembro-me, como se fosse hoje, que num ditado dei um erro, escrevendo "muinto". Até recebi um elogio, pois era caso raro em mim tal suceder… mas era um erro muito grave. (Hoje penso que a palavra deveria ter esta ortografia…. Nem com o acordo ortográfico!). Muito grave mesmo, de palmatória… Disse para com os meus botões: “aguenta, depois aqueces as mãos na braseira”. O pior estava para vir. A régua estava na sala das raparigas, pois naquele tempo a separação de sexos era um facto que ninguém colocava. "Vai buscar a régua à sala das raparigas". Ordem dada, missão cumprida e comprida…

Entrei na sala e não via ninguém… Tremia que nem varas verdes. Os olhares complacentes das minhas colegas, que noutras circunstâncias muito gostaria de ver, aumentavam o meu rubor nas faces, que nesta altura do ano eram sinal dum rijo transmontano. Não me vi ao espelho, nem precisava, mas devia estar mais corado que qualquer miúdo a assar o rabo do porco em dia de matança, nas brasas entre os grandes potes que faziam as delícias das cozinheiras.

Gaguejei para a senhora professora: "… era a régua…"
- Mas não é para ti, Filintão? Questionou a Dona Maria, por cima dos óculos.
- É sim – balbuciei.
- Eu sabia que tu eras muito esperto! (Hoje … acho que a Dona Maria teve pena de mim).

Só se ouviam os pardais, dado que naqueles dias a comida não abundava, através da porta entreaberta e os meus socos nas tábuas molhadas do soalho. Não olhei para ninguém, até encostei a porta sem olhar matreiro, que noutras ocasiões poderia suceder. Doeram-me menos as reguadas que o olhar condoído das minhas colegas.
Não havia melhor remédio que o tempo

Certo dia o Jorge, mais nosso conhecido por Pilatos, chamou os rapazes da quarta classe. Logo se seguiu a ordem do mestre: "Amanhã faço anos… vamos ter aqui uma cigarrada".

O mestre nunca faltava com a palavra. No dia seguinte, lá pareceu muito pontual, com um maço de Definitivos. A caixa dos cigarros tinha umas riscas azuis e outras vermelhas. Alguns de nós, perante aquele aparato já exercitavam a caixa torácica enquanto ele os retirava, com muito cuidado, distribuindo a cada comparsa o seu quinhão, qual lobo segura a presa.

- Ó Pilatos, são do teu tio? Perguntou o Pintassilgo.
O Pilatos quase que o fulminava com o olhar… mesmo assim teve direito a um, mas não se livrou da reprimenda: "Abre o bico, Pintassilgo, e vais ver a gaiola!"
Os senhores professores tinham ido almoçar e nós aproveitámos para nos servir da sala para fumar… como se fosse uma esplanada… e o "mestre" mandava. Santa inocência…
- "Olhem que vem ali a professora" – gritaram as raparigas, mais aflitas do que nós. Ordem do "mestre": "apaguem os cigarros e nada, bico calado."

Mal a professora entrou, qual raposa farejando galinha, exclamou: "Cheira-me a tabaco… cheira-me a tabaco…"
Agora é que o silêncio era sepulcral!
- Quem é que esteve a fumar?
Cada um fazia que fixava algo nos livros, recitava em surdina a tabuada, outros mexiam-se sem saber o que fazer.
- Ai ninguém se acusa?! Então os rapazes todos aqui para a frente.
Revista às tropas. Dirigindo-se a uma das nossas colegas, ordenou:
- Tu… Vê se algum dos teus colegas tem cigarros nos bolsos.

O Pilatos tinha guardado a "prisca" na orelha, debaixo do cabelo comprido, que não cortava há meses e havia de cair às mãos do Armindo. O Pintassilgo meteu-a nos socos que eram do irmão, do Domingos… ficavam-lhe grandes… eu, grande parvo, meti a minha "prisca" no bolso das calças, que, por sinal, estava roto. Enquanto estávamos na parada, à frente das raparigas, caiu-me aos pés. Nem foi preciso continuar a revista. Já nem sei quantas reguadas levámos, pois a bênção foi igual para todos. Só me recordo que na altura ainda não havia telemóveis e quando cheguei a casa levei um enxerto de porrada da minha mãe, pois alguma linguaruda já lhe tinha dado a novidade.

Razão tinha eu, quando há vinte anos atrás, encontrando-me com o meu "mestre", na taberna de cima lhe dizia:
- Pilatos, tu foste o culpado dos nossos vícios!
Abrindo bem as pernas, para não cair, dado que tinha areia na asa, respondeu:
- Ainda te apetece um cigarrinho, ó Filinto?
- Ó Pilatos, olha que tu, às vezes, lembras-me o tio Rasca dos Pereiros!
- Carai! Ele tinha mais sorte do que eu. Já viste que eu para ir para a Portela, ao fim do dia, é sempre a subir e o tio Rasca para os Pereiros era sempre a descer, homem!
- Ó Pilatos, mas tu hoje andas aos ziguezagues? É do vinho?
- És mesmo burro! Afinal o que é que tu andaste estes anos todos a aprender lá para o Porto? Os ribeiros não vão também aos ziguezagues? Não é água que eles levam? Se vires um com vinho, diz-me, que eu vou lá. Estou mesmo a ver que te faltaram mais umas reguadas… a professora bateu-te pouco.

O meu "mestre" lá tinha a sua razão…
Enquanto ele fazia o seu lento raciocínio e o meu filho, ainda pequenote, se ria do seu bom humor, eis que um cão do gado nos fitou longamente. "Ó rapaz, aprende comigo, já que o teu pai só te ensina nos livros e pouco!" Agarrou na primeira pedra que encontrou e atirou-a ao bicho que deu à perna…
- Não lhe acertou! – riu-se o meu filho.
É que eu vi dois e atirei ao outro.

Um grande abraço, "mestre" Pilatos, do teu companheiro da farra.

Filinto

quinta-feira, 25 de junho de 2009

ECOS DO MEU SENTIR



V


TREINO A VALER, Pilatos e companhia Lda.

por
FILINTO MARTINS


Calor… moscas… ninhos… ovinhos… passarinhos… 1960…
Já rareava o folar… o recheio da tarde passava a ser outro – "horas de compensação". Os mais espertos tiveram a vantagem de um reforço especial em casa dos senhores professores – a Bernardete, o Pilatos, eu e outro companheiro para “jogar sueca”, varreu-se-me da memória. A sessão decorreu no corredor, sentados num banco onde nos íamos acomodando.

O senhor Carlos saiu aligeirado do seu quarto, que era à direita de quem entrava, saudando estes heróis. E que artistas! Acho que ele saiu com pena de ver aquelas criaturas indefesas, quais ovelhas badanas às mãos do tosquiador.

O treino costumava ser na escola, mas para nós, como os exames estavam à porta era preciso algo mais, para a grande final que se realizava em Bragança, sede de concelho.

Mal entrávamos em casa dos senhores professores e víamos, na mão da Dona Maria, um livro com uns morangos vermelhos, apetitosos, que ilustravam a capa, logo o Pilatos dizia, em surdina: "Ai que hoje é ditado e contas de reguadas…" agora era a sério, pois cada erro valia uma.

Da cozinha, que era mesmo ao lado, vinha muitas vezes um cheirinho e não raras vezes, seguia ao seu encontro uma ordem da Dona Maria. Enquanto ditava e nós escrevíamos, alguns eram mais lentos, o recado da professora para a criada: "Sara, esse arroz já deve estar cozido!" O Pilatos, que ia sempre atrasado, só não ia na idade e na malandrice, confundia o ditado com a ordem e perguntava:

- Senhora professora, arroz é com um z com um sê?
A Dona Maria, furiosa logo ripostava:
- O arroz é para a Sara!
O Pilatos, em voz baixa, resmungava: "Então escrevo batatas, eu até gosto mais!" No fim do ditado era um arraial de reguadas.

Dado que a porta não estava calafetada e os vidros não eram duplos, ouvia-se a tia Teresa chamar: "Ó Augusta…" e logo o Pilatos acrescentava: "Já comes!"

Noutras alturas, ao fundo desse corredor, à esquerda havia uma sala com uma alcofa, donde vinha um cheirinho a maçãs e fruta, que os manos primavam pela sua apresentação e conservação. À direita era o quarto da Dona Maria… amplo… arejado.

Uns meses antes o cenário, para mim, tinha sido outro.
Com os meus irmãos, a Lucinda e a Sofia fomos cantar-lhes os reis. Receberam-nos muito bem-dispostos. Junto à lareira estava um forno único na aldeia, que a mim me seduzia, porque era pequeno, redondo, diferente dos outros. A Dona Maria começou por servir-nos uns bolos que pareciam muito apetitosos. Como não podia deixar de ser, eu dei logo uma dentada num e resmunguei em voz baixa: “são farelos!” Os meus irmãos não se atreveram a dizer tal e lá iam tentando engolir, lembrando-me os perus da tia Emília ao engolirem as “porretas” das cebolas, até que num sorriso amplo e bondoso a Dona Maria exclamou: “só ele é que acertou”. Assim eu acertasse nas contas! A seguir é que nos serviu uns mimos, enquanto o senhor professor, mesmo com um ar mais sério, deu um rasgado sorriso, pois não era dado a muita exteriorização, mas o senhor Carlos procurava servir e ria-se a bom rir.

É bom recordarmos, recordarmos… Quando abro uma gaveta das recordações, gosto de ver a assinatura do senhor Francisco Joaquim Fernandes Ribom, com aquela letra pequenina, certinha, em que as maiúsculas se destacam das minúsculas de forma clara e evidente (eu não sou perito em grafologia – fica o desafio…) e o registo civil é de Santa Comba de Rossas, sendo do mesmo o ajudante.

Somos feitos de memória e esquecimento, portanto desenvolvamos a memória afectiva, esquecendo as ofensas que foram por amor. Aqui recordo aquela data de 11 de Julho de 1960, quase meio século… Não "exijo" que os meus companheiros de carteira tenham esta memória positiva, mas esforcemo-nos por recordar o positivo e esquecer a página negativa. Aqui recordo como éramos em crianças… com pouco, éramos felizes…

Para aqueles que gostam: o nosso mestre escreveu Rebordainhos, sem acento e o Delegado Escolar apôs-lhe o “maldito acento” – prenúncio do acordo ortográfico!?


Hoje, tão longe no tempo, tenho que agradecer e admirar o profissionalismo destes irmãos que sabiam distinguir a escola, a rua, a casa onde sempre fui bem recebido e jamais alguém poderá dizer, que não levei umas boas reguadas por serem tão meus amigos. Até tive um prémio: reprovei um ano, porque era inteligente. Para que conste, segue cópia do meu exame de 2.º grau que tem a data de mil novecentos e sessenta. Faz no próximo dia 11 de Julho quarenta e nove anos.

Chegou o grande dia. Parecia que íamos para uma festa… Apanhámos o comboio em Rossas. Uma vez chegados a Bragança, lá fomos que nem cordeirinhos para a escola da Estacada, onde se realizavam os exames.

No largo fronteiriço, autênticos cachos de alunos bebiam as últimas recomendações dos seus mestres. Os nervos eram muitos, mas tudo ia correr bem. Provas de manhã e de tarde. Mesmo assim, ainda deu tempo para comprarmos com os olhos, lindos brinquedos nas montras das lojas, pois na aldeia só havia duas tabernas e rebuçados bons, só na festa da Padroeira.

À noite, cada um foi para o seu quarto que a família alugara, ou para casa de algum amigo ou familiar, porque no dia seguinte havia provas orais e os transportes não permitiam as tais comodidades. Eu fui para casa da senhora Aurora, na rua dos Batoques.

Que o diga a filha do Raul dos Vales, acho que se chamava Alzira…
Naqueles dias de invernia, nevoeiro de meter medo, lá chegava ela… Hoje seria uma heroína, naqueles tempos uma aluna como qualquer outra. Lá onde estiveres, Alzira, ao fim de quase meio século, permite-me que te elogie pela tua coragem, dedicação. Sinto orgulho de ter sido teu colega de escola. Hoje serias condecorada no dia dez de Junho. Não quero esquecer outra colega de Arufe, a Olívia e aqueles companheiros dos Pereiros, que não raras vezes faltavam porque não conseguiam passar na ribeira que transbordava.

Saíram os resultados… Todos aprovados. Cá fora esperavam-nos os professores todos orgulhosos, sorrindo para os colegas, diziam em voz baixa: “Eu sabia que os meus alunos estavam preparados!” Hoje, estariam lá os repórteres dos diferentes canais de televisão. “A Prova de Aferição” até foi fácil…

Chegámos à aldeia, como os cordeiros que regressam ao redil, numa tarde-noite de Verão. A prenda foi o calor do lar e as últimas horas de fato, mãos nos bolsos puxando as calças para mostrar os sapatos novos, que era preciso guardar para a festa que estava próxima.