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domingo, 2 de janeiro de 2011

CONTAS


EPIFANIA E LAVANDEIRAS


Celebra-se hoje a festa da Epifania. Nas leituras dominicais destaca-se a passagem do Evangelho de S. Mateus em que se narra a visita dos Reis Magos, gentios vindo do Oriente. É, precisamente, neste acontecimento que reside a epifania, ou seja, a manifestação de Deus que, através dos Reis Magos, Se revela a todos os povos da Terra.

Se bem vos recordais, o melífluo rei Herodes pediu aos Magos que, assim que encontrassem Jesus, lhe viessem dizer onde estava, para também O ir adorar. Na verdade, o que ele queria era matá-Lo, para não ter quem lhe disputasse o poder mas, avisados em sonhos, os Reis do Oriente foram-se embora sem nada contarem. Herodes, para cortar o mal pela raiz, determinou a matança dos inocentes. Jesus escapou com vida porque a Sagrada Família fugiu para o Egipto.

É aqui que entram os acrescentos que, em Rebordaínhos, fazemos ao texto bíblico.
Na nossa tradição, dizemos que S. José ferrou a burra ao contrário, de modo a enganar os que fossem em sua perseguição: quem olhasse para as pegadas pensaria que aquele animal estaria a entrar na terra, em vez de sair dela. Mesmo assim, os soldados do rei perguntavam:

- "Vistes passar Jesus por aqui?"
E as lavandeiras, limpando as pegadas com a cauda, respondiam:
- "Por aqui não passou! Por aqui não passou!"

Gostaria de saber a moral que cada um tira desta história (para poder acrescentar ao texto).
Eu deixo esta: o auxílio dos mais humildes é tão importante que até Deus beneficiou dele.

"O seguro morreu de velho",terão pensado as andorinhas, não fosse o diabo tecê-las e os soldados do rei começassem a questionar-se sobre as pegadas. É a máxima acrescentada pela Olímpia.

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O que eu aprendi sobre lavandeiras! Vejam lá bem que lhes chamam Motacilla alba e têm mais nomes vulgares do que nomes próprios os reis!

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A pintura da visita dos Reis Magos é de Grão Vasco, grande pintor português do séc. XV-XVI

domingo, 14 de novembro de 2010

CONTAS


PORCA OU VACA?


Era uma vez um homem que foi à feira e comprou uma porca muito grande. Saíram-lhe os ladrões ao caminho e roubaram-lhe a porca. Os ladrões eram os donos da casa onde tinha ficado ao ir para a feira, mascarados. Sem o saber, o homem decidiu pernoitar na mesma casa e os ladrões, para que ele se fosse embora, ao deitar-se, puseram-lhe uma abóbora, partida ao meio, dentro da cama. Mas o homem entendeu tudo! De noite, levantou-se e foi com uma moca à cama do capitão dos ladrões. Batia, batia, batia e dizia:

– É porca ou vaca? Ele dizia que era vaca.

O dono da porca não parava de bater e o chefe dos ladrões disse-lhe:

– Vá àquela gaveta e leve o dinheiro que quiser. Deixe-me!

O chefe e os companheiros, cheios de medo, fugiram para o campo e esconderam-se num nabal. Ficaram com a cabeça no chão e o cu no ar. O dono do nabal foi buscar nabos ao campo e pensava que aquilo eram pedras e sacudia-lhes os nabos no cu. O capitão ficou muito mal. Então, o dono da porca vestiu-se de médico e foi lá para o procurar. Levava um pau cheio de pregos. Continuou a bater e a perguntar:

– Porca ou vaca?

O chefe tornou-lhe a dizer que fosse à gaveta e levasse o dinheiro que quisesse.

O homem vestiu-se outra vez, mas de sacerdote, e a criada dos ladrões chamou o chefe para que se fosse confessar. Novamente lhe tornou a bater:

– É porca ou vaca? E assim continuou, até que lhe despejou todo o cofre.


Moral que eu tirei da história: assim se prova que o crime não compensa!
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Encontrei um artigo muito interessante sobre o porco bísaro na página da Confraria de Chaves. Transcrevo só um pedacinho:

J.F Macedo Pinto em 1878 no Compêndio de Veterinária escrevia:
(...) “1º Typo Bizaro ou Céltico – As raças deste typo descendem do javali comum e pertencem exclusivamente à Europa.
(...) “Em Trás-os-Montes, Minho, Beiras e na Estremadura ao norte do Tejo predomina este typo; distinguindo-se suas variedades pela corpulencia côr e maior ou menor quantidade de cerdas. Encontram-se porcos que medem 1,50 metros da nuca à cauda e quasi 1 metro de altura, dando em cevões 200 a 250 kilogrammos. (...)

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

AS TRÊS MAÇÃS DE OIRO


por

EMÍLIA DE SOUSA COSTA

Ilustrações de ALFREDO DE MORAES


Era uma vez um pai que tinha três filhos. Os mais velhos eram muito invejosos e maus. O mais novo, pelo contrário, duma bondade exptrema e generoso, só se sentia feliz, quando fazia bem a alguém. Viviam numa cabana, próximo da antiga cidade de Bragança, em Trás-os-Montes, e empregavam-se em apascentar gados.

O pai, o velho Rebordãos, já não podia trabalhar, pelo que os filhos o sustentavam. Os mais velhos, com má vontade de cumprir esse dever tão nobre; e o mais novo, sempre carinhoso e atento aos menores desejos de seu pai.

Os três rapazes, todos de baixa estatura, eram, por isso, conhecidos pelos Rebordaínhos (sic) - o diminuitivo do seu apelido.

Certa manhã em que estavam pastoreando os seus gados, passou por ali uma pobre que lhes pediu um bocadinho de pão.

Os Rebordaínhos mais velhos negaram-se desabridamente a atender a desgraçada. O mais novo, porém, desprezando as palavras escarnecedoras com que os irmãos comentavam a sua boa acção, sinceramente condoído, deu à pedinte metade do pão que trazia no bornal, e algum leite das suas cabras.

A mendiga, depois de regalada com tão bom almoço, agradeceu ao pastorinho e antes de retirar-se ofereceu-lhe, como penhor do seu reconhecimento, três maçãs de oiro, pedindo-lhe que as conservasse para se lembrar dela.

Os irmãos, roídos de inveja, pediram-lhas e, como ele se negasse a satisfazê-los, tentaram tirar-lhas à força. Não conseguindo os seus fins, nem pela ameaça, nem pela violência, encolerizarm-se e mataram o infeliz. Enterraram-no num monte e fingindo-se aflitos pelo desaparecimento do irmão, choraram com o pai e com este lastimaram tão grande desgraça. O velho Rebordãos não pôde sobreviver ao enorme desgosto causadopela perda do seu filho querido.

Passou tempo e, no monte em que o pstorinho foi vitimado pela inveja dos irmãos, nasceu uma cana, mesmo sobre a sepultura.

Um pastor que por ali fez caminho e tinha perdido a sua flauta, ao ver uma cana que se prestava para fabricar outra, cortou um pedaço e depois de, com o canivete, a preparar e transformar no instrumento predilecto, experimentou-o tocando a sua ária habitual.

Mas, com grande pasmo seu, em vez dessa ária, ouviu esta quadra:

.......................................Toca, toca, pastorinho,
.......................................Os meus irmãos me mataram,
.......................................Por três mçãzinhas de oiro,
.......................................E ao cabo não nas levaram.

Como até ali ninguém sabia o que fora feito do rapazinho, desaparecido sem deixar vestígios, as pessoas que ouviram a flauta pastoril dirigiram-se ao lugar em que o pastor cortara a cana, acompanhados das autoridades judiciais.

Cavaram e desenterraram-no, encontrando-o sem sinais de decomposição e com as três maçãzinhas nas mãos enclavinhadas, porque nem depois de morto os malvados conseguiram arrancar-lhas. ao tirarem-no para fora da sepultura, as maçãs soltaram-se-lhe das mãos e cairam duas sobre os olhos e outra sobre a boca e o rapazinho ressuscitou.

As suas primeiras palavras foram para pedir o perdão dos irmãos, já entregues à justiça.

Estes, apesar disso, foram castigados. Depois da sentença cumprida, comovidos pela generosidade do seu irmão mais novo que nunca os abandonara, enquanto estiveram presos, arrependeram-se sinceramente do seu horroroso crime e tornaram-se bons rapazes.

As três maçãzinhas de oiro continuaram na posse do seu dono até que, passando novamente por aqueles sítios a mulher que lhas oferecera, e informada dos factos sucedidos, lhe aconselhou a vendê-las e a aplicar o produto dessa venda no que lhe aprouvesse. Declarou-lhe ainda que nunca fora mendiga. Era uma fada benfazeja disfarçada em trajes humildes, para melhor conhecer as pessoas dignas de benefícios, pela bondade do seu coração.

Vendidas as três maçãs, o pastorinho comprou muitas terras que repartiu com os irmãos.

Todos casaram e construiram casas próximas umas das outras, fundando assim uma povoação, que chegou a ser vila e se chamou Rebordaínhos - nome dos seus fundadores.

Este conto foi-me gentilmente enviado pelo nosso leitor António Leite a quem muito agradeço o gesto. As ilustrações são as da própria obra.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

CONTAS

Toda a gente se lembra da conta das três maçãzinhas de ouro. Aqui a deixo, desta vez tal e qual como Teófilo Braga a transcreveu, ouvida em Rebordaínhos, nos seus Contos Tradicionais do Povo Português.

Já que estamos a comemorar o centenário da implantação da República, hão-de perdoar-me a achega: Teófilo Braga, além de notável homem das letras, foi o presidente do primeiro governo republicano (1910) e viria a ser Presidente da República em 1915


AS TRÊS MAÇÃZINHAS DE OURO
(Rebordainhos - Bragança)


Havia três irmãos; o mais novo tinha três maçãzinhas de ouro, e os outros para ver se lhas tiravam mataram-no e enterraram-no num monte. Depois nasceu na sepultura uma cana. Certo dia passou por lá um pastor, que cortou um pedaço da cana pra fazer uma frauta. O pastor começou a tocar, mas a gaita em vez de tocar dizia:

.................................Toca, toca, Ó pastor,
.................................Os meus irmãos me mataram,
.................................Por três maçãzinhas de ouro,
.................................E ao cabo não as levaram.

O pastor quando ouviu isto, chamou um carvoeiro, e deu-lhe a frauta. O carvoeiro começou também a tocar, mas a frauta dizia:

.................................Toca, toca, Ó carvoeiro,
.................................Os meus irmãos me mataram...

Assim foi a frauta andando de indivíduo para indivíduo, até que chegou às mãos do pai e mãe do morto. A frauta dizia ainda:

.................................Toca, toca, Ó meu pai...
.................................Toca, toca, Ó minha mãe,
.................................Os meus irmãos me mataram,
.................................Por três maçãzinhas de ouro,
.................................E ao cabo não as levaram.

Chamaram o pastor, que disse onde tinha cortado a cana. Foram lá encontraram o cadáver com as três maçãzinhas de ouro.

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Guardo uma surpresa para os próximos dias, relacionada com esta conta.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

CONTA

VIII: MUNDO DE TOLOS


Era uma vez um homem que andava a correr mundo. Passou ao pé de uma igreja e andavam muitos homens a apanhar punhados de sol para dentro da Igreja. O sacerdote já era velhinho e não via. O homem perguntou-lhes para que era aquilo e prometeu-lhes que metia o sol dentro da Igreja. Subiu ao telhado e tirou umas telhas. Contentes com o resultado, deram-lhe muito dinheiro. Ele trazia um galo e deu-lho, para que anunciasse a madrugada.

Chegou à frente e sentiu gritar:

- “Ou! senhor, Ou! senhor!, que é que come o animal?
-“Come o que come a gente!”
Eles entenderam que comia gente!... Meteram o galo dentro de um palheiro e chiscaram-lhe fogo!

O homem chegou a uma seara onde andavam a ceifar. Punham o centeio em cima de uma pedra e, com outra, cortavam-no. Ele trazia uma seitoura e ofereceu-lha para segarem: - “aqui têm esta bicha fera!” Um cortou logo um dedo e começou a sacudir: - “Hi! Hi! cá me mordeu a bicha fera!” – Atirou com a seitoura e deitaram fogo à seara.

Mais à frente, encontrou muitos homens para derrubarem uma parede, mas era com ovos... Ele deitou-lha abaixo com um ferro.

Ainda mais à frente, chegou a uma casa. O dono queria-lhe dar de comer e foi à adega buscar vinho, mas, assim que chegou à adega, viu lá uma serra dependurada. Matutou que, quando a filha se casasse e tivesse um filho, a serra caía e matava-o! Admirada com a demora, a mulher foi-se a saber do homem e perguntou-lhe o que estava a fazer. Pôs-se também a matutar naquilo que lhe disse... Foi a filha, e, na mesma...

sábado, 9 de janeiro de 2010

CONTA


Não sei porquê, mas na minha cabeça esta história passa-se no Inverno e foi por isso que me lembrei dela. Com as temperaturas tão baixas e a nevar (quase) como nos tempos da nossa infância, pode ser que alguém ainda pegue nela para a contar aos netos.



VII
CORRE, CORRE CABACINHA

Era uma vez uma velhinha que tinha uma filha. Um dia, a filha casou-se noutra aldeia e convidou a mãe para lá ir. A velha, ao ir, encontrou dois lobos no caminho e eles, quando viram a velha, fizeram-se logo para ela e disseram-lhe:

– Olá, velhinha, nós vamos-te a comer!
–Não me comais agora, que estou muito magrinha! Eu vou ao casamento da minha filha. Quando voltar já venho mais gorda e depois já me podeis comer!

E a velhinha seguiu. Muitas festas no casamento! Ao chegar o dia da partida, a velhinha andava muito triste e a filha perguntou-lhe:

– Que é que tem, minha mãe, que anda tão triste?
– Olha, minha filha, é porque ao vir encontrei dois lobos e queriam-me comer e eu disse-lhes que me não comessem, que ao voltar já ia mais gorda e, agora, tenha medo!
– Ó minha mãe, não se aflija, pegue lá esta cabacinha, meta-se lá dentro e vá para casa sossegada!

A velha assim fez. Meteu-se na cabaça e pôs-se a caminho. Ao passar pelos lobos, os lobos perguntaram-lhe:

– Ó cabacinha, tu não viste para aí uma velhinha?
– Eu cá não vi nem velhinha nem velhão! Corre, corre, cabacinha, corre, corre, cabação!

sábado, 10 de outubro de 2009

CONTA

VI


Porque sei que se o meu pai, a minha mãe, o Zé Mateus e o João Stocker estivessem entre nós, partilhariam connosco a felicidade que hoje sentimos, esta conta verdadeira é-lhes dedicada.

Aconteceu entre o meu pai - João Fouce - e o meu tio António - Pincha.

Pois bem, contava o meu pai que no tempo das acarrejas, era costume dormirem nos palheiros, para acomodarem as vacas bem cedo, e bem cedinho partirem para os campos, para acarrejarem os molhos de centeio para as eiras onde faziam as medas.
Ora o tio Pincha, sendo um homem que acreditava que as bruxas existiam, numa dessas noites, botou-se a sonhar com elas. Durante o seu sono, agarrou o pulso do meu pai acreditando que tinha agarrado uma por uma perna.

-"Ó João, risca um lume, ca…, agarrei uma por uma perna! Ca… , e olha que a tem bem grossa!”

O meu pai puxava o braço, tentando libertar-se. Quanto mais o meu pai puxava, mais o meu tio apertava, e gritava:

- “Risca aí depressa ca…, que a gaja quer fugir!”

Finalmente, quando o meu pai se conseguiu libertar e “riscar o lume”, diz-lhe o tio Pincha:

-“Risca o ca…, agora que a gaja já fugiu!”


Augusta Mata

terça-feira, 8 de setembro de 2009

CONTA

V: O ROSÁRIO


Olhai que esta é verdadeira e foi-me contada pelo Rafael!

Era tempo de segada. O sr. Alfredo de Arufe, mais conhecido por Carabunhas, estava numa camarada de segadores que fazia a segada de um amo que devia ser muito religioso.

O Carabunhas, querendo fazer boa figura perante o amo, no fim do primeiro dia da segada disse-lhe:

- Eu gostava de rezar o terço, mas esqueci-me do rosário...

Aquilo passou, mas no segundo dia voltou à mesma e nos outros a seguir também. O amo, farto de ouvir as mesmas coisas, atalhou-lhe:

- Ouça lá, se quer rezar o terço não precisa do rosário! Guia-se pelas nozes da espinha: começa cá em cima e quando chegar ao cu é glória!

Imagem copiada daqui

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

CONTAS

Vamos lá ver se ainda conseguimos rir-nos com os disparates ouvidos na infância...

IV

JOÃO BURRO

Era uma vez um rapaz muito tolo. Um dia, a mãe mandou-o com o padrinho à feira comprar um porco. Ele prendeu-o ao carro do padrinho e chegou com ele morto. A mãe disse-lhe porque o não tinha posto no carro do padrinho e como não teve resposta, disse-lhe:
__”Ó João, sempre és um burro!"

A mãe mandou-o novamente à feira comprar umas agulhas. O padrinho trazia um carro cheio de feno e ele pôs as agulhas em cima do feno. Chegou a casa e a mãe perguntou-lhe por elas. – "Vêm no carro do padrinho!"
__”Ó João, sempre és um burro!”

Mandou-o comprar manteiga. Ele meteu-a entre as ceroulas e o corpo. Chegou a casa com ela derretida.
__”Ó João, sempre és um burro!”

Os pais queriam que casasse com a filha do padrinho. Olha, disse-lhe a mãe, vais falar à filha do padrinho, mas atira-lhe com palavras doces!
Ele arranjou açúcar e atirou-lhe com ele.

A mãe mandou-o atirar-lhe com pedrinhas doces. Atirou-lhe com uma pedra e quebrou-lhe um braço.

domingo, 12 de julho de 2009

CONTAS

III

Lembram-se de como nos ríamos com estes disparates?

Era uma vez um gato que não estava satisfeito com o dono. Resolveu ir correr mundo. Encontrou um cão. Chamou-o. Encontrou um burro, também o chamou. Encontrou um galo. Também. Chegaram à porta de uma estrebaria. O gato foi para o borralho, o cão para detrás da porta, o burro foi para a estrebaria e o galo para o telhado.

Vieram os ladrões. Um foi a chiscar o fósforo nos olhos do gato. O gato arranhou-o na cara. O ladrão deitou a correr e despertou o cão que o mordeu numa perna. Foi para a estrebaria, o burro zurrou e o galo começou a cantar.

Ele foi desvairado para ao pé dos companheiros, a dizer que estava lá o medo, detrás da porta, que o tinha arranhado na cara, o ferreiro que lhe tinha deitado as tenazes às pernas, o burro que lhe deu quatro coices e o galo cantou do alto do telhado, córicócó!
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Lembro que escrevo as contas, tal e qual, como as ouvi.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Conta

Prometi e aqui fica para nos fazer rir um bocadinho.


II - O ENFORCADO


Cansados de uma manhã inteira a escavar batatas na Teixeira, João Fouce e a filha Amélia, mais conhecida por "Ruça" ou "Chocha", subiam o carreirão da Covinha. O ritmo calmo dos passos embalava-lhes a conversa que devia ir animada porque a Chocha tem sempre duas larachas para dizer e o João Fouce gostava de a espevitar para se rir com as maluqueiras da filha. A certa altura estacaram, pasmados. Do ramo de uma nogueira tombava e balançava o corpo de um homem.

- Ó fulano! O que é que fazes aí dependurado pelas patas? Perguntou, incrédulo, o João Fouce.
- Estou-me a enforcar!
- Ai tu queres-te enforcar pelos pés em vez de ser pela cabeça?
- Ora! Pela cabeça firo-me! Rematou o outro que encerrou a conversa e nos deu o mote para mais uma conta.
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Foi a melhor imagem que encontrei . Foi roubada daqui e um bocadinho aldrabada também.

quarta-feira, 4 de março de 2009

Contas

Aquele lume do lar de Inverno, tenho a certeza, continua a acender a memória e a aquecer a saudade de todos quantos frequentam o nosso Rebordainhos. Eram longos os serões, ou assim me pareciam. Certas noites debulhava-se o milho, maçaroca contra maçaroca, mãos pequeninas a tentarem imitar os gestos dos grandes. Noutras, o homem da casa pisava o unto enquanto a mulher fazia malha: meotes e camisolas que calçavam e vestiam toda a família. Ora, porque o gesto da mão não é impeditivo da palavra, à medida que as agulhas puxavam a lã e a maça batia na banha branca, lá se iam contando histórias, naquela forma de dizer tão própria da oralidade. Que idade terão as contas da nossa infância?

Inicio aqui a publicação de uma série de contas no exacto registo em que as ouvi da boca de minha mãe, meu pai e tia Helena, cheia de pena de que a escrita não possa mostrar sorrisos e trejeitos nem fazer ouvir o riso nem o tom de voz de quem as ia dizendo. Quem se lembrar de mais faça o favor de ir acrescentando!

I - O ALFAIATE

Era uma vez um alfaiate. Ia de noite para a aldeia dele e passou numa canada. Uma silva prendeu-o. Esteve toda a noite:

– "Ó senhor, deixe-me, por favor, não trago dinheiro!"

Toda a noite a dizer isso! Trazia um cruzado no bolso e deitou-o para trás, para ver se o homem que ele julgava que o estava a prender, se ia embora.

De madrugada sentiu falar de trás dele. Olhou para trás e viu que estava preso pela silva. Tirou a tesoura do bolso e cortou-a. Ao fim disse:

- "Se fosses um homem fazia-te na mesma!"