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quinta-feira, 3 de maio de 2012

UM CHEIRO ADOCICADO...


Por:
AIRES MARTINS


Começou por me dizer que o seu caso era igual a tantos outros e que de todos os lugares onde tinha estado, aquele era sem dúvida o seu preferido. Falou-me dos cheiros que sentia quando o galo cantava, cheiros adocicados, dizia ele, e acrescentava totalmente absorto nos seus pensamentos, era como se entrassem na alma e ali ficassem gravados para sempre. Entendes? Sim, respondi. Olhou-me no momento em que respondi, e como que à espera de sentir se a minha resposta era verdadeira, continuou. Sabes, no dia em que saí de lá, lembro-me de olhar para o lado, dentro de um autocarro, e ver lá no cimo duma pequena serra as casas, os telhados vermelhos, os imensos carvalhais e soutos que as envolviam, lembro-me de chorar por ter de abandonar a minha casa, a minha terra, os meus pais, os meus amigos…mas à medida que o autocarro avançava e as casas ficavam para trás, houve algo que me deu esperança, que acalentou o meu peito. Sabes o que foi? Não, respondi. O fumo que saía das chaminés das casas, e que cobria a aldeia de cheiros. Percebi que esse fumo ia continuar a sair das casas enquanto eu o conseguisse cheirar, estivesse onde estivesse. E hoje, passados estes anos todos, continuo a sentir aqueles cheiros adocicados da minha aldeia.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

O TEMPO

Por

AIRES MARTINS

Talvez nunca tenha doído…talvez tenha sido apenas a recordação…talvez tenha sido o cheiro dos carvalhos que impunham o verde do Verão nos montes que nos ladeavam.

Talvez a dor fosse minha e daqueles que ainda respiravam o ar de Rebordainhos. Talvez a dor pertencesse aos Santos que compunham a procissão de Domingo. Talvez o pesar fosse dos olhares mais profundos, engelhados, velhos, e das pessoas que os carregavam como se fosse parte do seu destino.

Talvez a dor existisse porque persistia a teimosia de não aceitar o tempo. O tempo que passou sem questionar ninguém, o tempo que passou por cima dos anos e atropelou as pessoas que faziam parte do analgésico da vida. O tempo que insiste em mudar a aldeia e as pessoas que nela cresceram, o tempo que desafia as memórias mais antigas e aceita as novas pessoas com uma condição prévia: a de aceitarmos o som do sino, o som que nos lembra que as horas passam…