
Por:
AIRES MARTINS
AIRES MARTINS
Começou por me dizer que o seu caso era igual a tantos outros e que de todos os lugares onde tinha estado, aquele era sem dúvida o seu preferido. Falou-me dos cheiros que sentia quando o galo cantava, cheiros adocicados, dizia ele, e acrescentava totalmente absorto nos seus pensamentos, era como se entrassem na alma e ali ficassem gravados para sempre. Entendes? Sim, respondi. Olhou-me no momento em que respondi, e como que à espera de sentir se a minha resposta era verdadeira, continuou. Sabes, no dia em que saí de lá, lembro-me de olhar para o lado, dentro de um autocarro, e ver lá no cimo duma pequena serra as casas, os telhados vermelhos, os imensos carvalhais e soutos que as envolviam, lembro-me de chorar por ter de abandonar a minha casa, a minha terra, os meus pais, os meus amigos…mas à medida que o autocarro avançava e as casas ficavam para trás, houve algo que me deu esperança, que acalentou o meu peito. Sabes o que foi? Não, respondi. O fumo que saía das chaminés das casas, e que cobria a aldeia de cheiros. Percebi que esse fumo ia continuar a sair das casas enquanto eu o conseguisse cheirar, estivesse onde estivesse. E hoje, passados estes anos todos, continuo a sentir aqueles cheiros adocicados da minha aldeia.
