Naquele tempo, comprar fiado era condição de sobrevivência. As leiras de cada um davam as batatas e o feijão, alimento de todo o ano, cozinhados com uma lambedura de toucinho criteriosamente racionado desde a matança do cevado até à matança do ano seguinte. Os filhos eram muitos e dinheiro vivo só quando se vendiam as castanhas – quem as tinha – ou quando se recebia a paga de uma jeira em casa mais abastada. Nessas alturas, quem tinha o nome a enci

mar uma folha do “Deve” no livro do tio Trocho, apressava-se a ir saldar a conta ou a pedir para abater. Mas havia quem nunca o fizesse. Mesmo assim, continuava a aviar a todos com a mesma gentileza. Nem que fosse tabaco! – “Coitado, deixai lá, que tem o vício!” O hábito de tudo assentar para ter contas certas vinha-lhe do sogro. Nos livros de ambos tanto se regista a venda dos artigos como, por exemplo, a compra de uma porca a meias com alguém ou de uma mobília ao Adriano Oliveira, natural do Porto e tio e padrinho de quem assina este escrito, pela quantia de 3 550 000 Réis. Estava-se no ano de 1945 e, apesar de haver o Escudo desde 1911, os valores ainda se registavam em Réis. Não há revolução que vença o costume! Quem não souber as equivalências, divida por mil e obtém o resultado em escudos.

Tal como as outras – e chegou a haver três – a taberna de cima era um lugar onde havia de tudo para bastar às necessidades aldeãs. Pregos, relhas para a charrua, meias, bacalhau miúdo e graúdo, açúcar, pano a metro de cotim, chita e riscado que as costureiras, a tia Maria da Avó e a sr.ª Laura primeiro ou, mais modernamente, a Cândida e a senhora Julieta transformariam em calças, vestidos e camisas com que todos cobriam o corpo. O vinho não poderia faltar, servido a copo na própria taberna ou vendido ao garrafão para consumo caseiro quando secava a pipa comprada no Inverno. O tio Trocho abastecia-se de tudo em Bragança onde tinha fornecedores habituais, também eles na posse de livros de dívida, pois quem vende sem receber não pode comprar e pagar logo. Ia de comboio e, à volta, o filho Eurico esperava-o em Rossas com o carro de bois para carregar os fardos das mercadorias.
A certa altura, a Taberna de Cima acrescentou aos afazeres normais os deveres de posto público dos CTT. Era lá que, todos os dias, o tio Benjamim e a tia Elvira depositavam o saco do correio que iam levantar ao comboio a Rossas. Quem esperava notícias punha-se à coca de os ver passar e, em passo ligeiro, dirigia-se ao prado.

Quem, normalmente, abria o saco era a senhora Angélica ou, nas férias escolares, a filha Maria Teresa que estudava para professora. Uma e outra iam chamando, à vez, os destinatários, em recriação serôdia de uma das mais belas cenas de Júlio Dinis na sua
Morgadinha dos Canaviais. Eram quase todas cartas de longe, Brasil e França, algumas com o debrum colorido da “Via Aérea” e outras, emolduradas a preto carregado, anunciavam a tragédia. Nos anos assustados da guerra, muitos ansiavam pelos aerogramas de Angola, Guiné e Moçambique. Muitas pessoas ficavam para o fim, de carta na mão, à espera que mãe ou filha lhe decifrassem as letras que elas não sabiam ler. Outras procuravam familiares e vizinhos a quem a vida não obrigara a arredar da escola.
O serviço dos telefones era cumprido em quaisquer circunstâncias. Chovesse ou nevasse, fosse de dia ou de noite, a senhora Angélica lá ia dar o recado, a dizer que fulano telefonara e que voltava a telefonar dali a meia hora. Quando as forças lhe começaram a faltar era aos netos que incumbia de desempenhar a função. O telefone, inventado em boa hora, transformava-se muitas vezes em arrelia.
Estou? Estou sim? Está lá? Ó diacho de telefone! E dava à manivela, zumba, zumba, às vezes até se cansar. Verificava a cavilha, mudava-a de posição. Zumba, zumba, zumba e nada. Quantas vezes nada, a não ser um barulho indecifrável sinal de avaria na linha.
Deixe estar, tia Ingelca! Rendidas à evidência da ineficácia dos esforços, as pessoas guardavam os anseios de falar com a família até que o telefone voltasse a dar.
A par do soto, a família do Sr. António Rodrigo ainda tinha a fazenda e o gado para tratar. –
Carai, que burros éramos! – desabafa o filho Eurico.
Olha que íamos a lavrar com a cria e à vinda, para não cansar as vacas, trazíamos nós o jugo às costas! E no Inverno? À entrada do povo, que era tudo lodo, descalçávamos os sapatos para os não sujar, nem à casa. Que brutinhos, carai! Eu não sei se eram brutinhos, mas tenho a certeza que tamanho respeito pelos animais deveria envergonhar muitos ecologistas encartados.
Era o gado que mais lhes dava que fazer. Pai e filho não tinham mãos a medir: encerravam o gado às duas da manhã e às cinco já estavam a pé, prontos para o levarem para o pasto. Mesmo assim não deixavam de cumprir os seus deveres cristãos. O senhor padre Caminha, que sempre gostou de educar pelo exemplo, contava aos netos do tio Trocho que aos domingos, para poder ir à missa, o avô espetava uma vara no chão e embarrava-lhe o casaco em cima. Quando voltava ao sítio do pasto, o gado continuava lá todo, confiante de que aquele pau vestido era o seu pastor. Ajuda nestas lides só a tiveram já o filho Eurico se casara com a formosa Julieta da tia Glória. Esse pastor, bom homem não fora a mania de se esconder de quem lhe levava o almoço, esteve lá em casa durante vinte e três anos.

A quem tanto labuta para sustentar os seus ninguém pode levar a mal que se torne cioso do que granjeou. Não era assim o tio António Trocho a quem a vida, se feria, não azedava. Se lhe roubavam lenha era com um
Deixai lá, se roubou é porque precisava… que aplacava a indignação da família. Ninguém que demandasse Rebordaínhos ficava sem abrigo. No seu cabanal chegaram a juntar-se para cima de vinte homens a quem fornecia cobertores com que enganassem o frio das noites.
Ó Ingelca, faze lá um pote de caldo a estes homes que não têm que comer! Alguns tornavam-se amigos. Outros iam-se embora e levavam o cobertor.
Deixai lá, é porque precisavam!
O senhor António legou aos herdeiros a gentileza, o bem servir e a amizade. Deles falaremos depois, na rubrica dedicada às actuais actividades económicas da freguesia.