A galinha de aa papona
põe os ovos a abanar:
pena um
pena dois
pena três
pena quatro
pena cinco
pena seis
pena sete
pena ocho
…
Lembrais-vos deste jogo da nossa infância
em que um garoto, com um cipó na mão, ia tocando os pés dos restantes
jogadores? O pé em que acertasse o “pena ocho” era recolhido e o jogo terminava
com a derrota do jogador que ficasse com um pé por recolher (ou os dois). Eu,
para acrescentar a conta das penas, digo que tenho pena de não poder traduzir
pela escrita a cadência em que eram ditas as palavras.
Tem-me dado bem que fazer este joguinho
infantil e já gastei um ror de horas a pensar nele. Cismava com o “pena ocho”: que
faria ali aquele número castelhano no meio de uma conta tão portuguesa? Cismava
sobre quem poderia ser a “papona”? Cismava com o significado de “pena” e
cismava também com a escrita, mas nisso já vós reparastes. Aqui vos deixo
algumas reflexões, para que cismeis comigo.
Filipe II, para poder tornar-se rei de Portugal,
acenou com riquezas e prebendas a quem se pusesse por ele, de tal maneira que
terá dito sobre Portugal: “lo herdé, lo compré y lo conquisté". As consequências sabemo-las bem: os sonhos de
grandeza dos nossos grandes, que se venderam, rapidamente se esfumaram, porque,
com o rei longe, perderam o estatuto e a possibilidade de o recuperar.
2 – Imaginemos então:
A criança com o cipó representaria Filipe II a prometer
os reales (“põe os ovos a abanar”, isto é: vai acenando com riquezas) mas os de “a ocho” só calham a alguns;
Sendo Filipe II o agente, então, a “papona” seria
Castela: papona por ser insaciável a sua fome de territórios (além da Espanha, metade
da Itália, os Países Baixos, a América… e depois, Portugal com seu império). Também
é possível entender a criança da varinha como sendo um dos embaixadores que, após
a morte de D. Sebastião, tudo negociaram em Portugal em nome de Filipe II. Nesse
caso, a papona será o próprio Filipe II, tornando a nomeada ainda mais
acintosa, porque no feminino;
Mas a criança, em vez de “reales”, distribui “penas” e
é aqui que bate o ponto! Se pensarmos em pena como “pedra” ou como “dó”,
perceberemos o profundo significado anti-espanhol desta brincadeira infantil: o
rei de Espanha, aos portugueses, só atira pedras (ou/e faz sofrer), sendo
raros aqueles a quem toca um pouco de riqueza (ocho) e, também para esses, a
riqueza é promessa vã, porque é “pena " e não real de a ocho.
3 – Temos então que, para
mim, este joguinho aparentemente inocente é um libelo contra o domínio filipino
e contra os portugueses que quiseram ver nele a galinha dos ovos de ouro. Rebordaínhos não poderia desmerecer dos pergaminhos nacionais...
Isto não passa de um alvitre e gostaria muito de conhecer outras propostas de interpretação.
Isto não passa de um alvitre e gostaria muito de conhecer outras propostas de interpretação.
4 – Hesitei muito na escrita
da primeira linha e optei por aquilo que lestes: “A galinha de aa papona”, assim, à
maneira medieval. Por regra, uma vogal dobrada(2) era uma vogal que
se pronunciava aberta. Com a evolução da língua deu-se a contracção e no caso
do duplo “a” passou a escrever-se “à”. Mas eu escrevia “de à papona” e não gostava
porque, no caso, aquele “à” parecia-me que significava proximidade (como em “bairro
de à Chave”). Tentei nova contracção, com o “de” anterior, mas ficou pior: “da
papona” não permite pronunciar o “a” aberto e nós dizemos, de facto, “d’à papona”.
Como me desgostasse de todas as formas modernas, acolhi-me à versão medieval
que é, afinal, aquela que os nossos pais ainda falaram.
A todos desejo
muito boas férias. Passado manhã já estarei em Rebordaínhos.
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(1) Se reparardes bem, os exemplares dos reales de a ocho que vos apresento já incluem as quinas portuguesas.
(2) Veja-se, a título de exemplo, esta passagem de Fernão
Lopes: Em outro dia tornou NunAllvarez
per alli aa tarde, e achouha corregida muito aa sua voomtade (…) in Crónica
de D. João I, Parte I cap. XXXVI).
Aproveito Fernão Lopes e o
mesmo capítulo para vos dar conta de uma expressão que só nós, creio,
continuamos a usar: “ir contra” ou “falar contra” alguém com o significado de
ir ou falar em direcção a algo ou alguém: (…) sahiu Nuno Allvarz a folgar pella praya afumdo, comtra a egreja
de samta Eirea(…)



