
Já que estamos em maré de memórias…
Janeiro de 1975. A sigla PREC mal começava a ouvir-se porque o "Verão quente" do "companheiro Vasco" ainda demoraria alguns meses. Na imprensa as palavras acusam o tom da revolução que florira não havia, ainda, um ano. Os jornalistas buscam marcas da opressão salazarista pelos quatro cantos de Portugal e, no canto do Nordeste, chegam a Rebordaínhos, uma das terras que dera luta aquando da expropriação dos baldios durante os idos de 1958. Escrevem: “O que foi a repressão sobre a resistência heróica dum povo que lutou sozinho, mas unido, conta-no-lo Jaime Fernandes, que se manteve fiel à vontade dos seus vizinhos e irmãos de trabalho e

Para que serviam os baldios?
Quando os baldios eram do povo nós vivíamos bem. Serviam para cultivarmos a batata de semente (de superior qualidade), o centeio, para pasto do gado e para cortar lenha. A Junta de Freguesia arrendava ao povo por parcelas de terreno. Com o dinheiro dessa renda melhorávamos os caminhos, a igreja, o cemitério (tio Jaime).
Esta casa do Povo foi feita com esse rendimento. Custou-nos aí cem contos há 25 anos (Sr. Carlos Chiote).

Só gados eram nove de ovelhas e treze de cabras (tio António Atilano).
A revolta contra o confisco dos baldios:
O povo reagiu quando o Estado se quis apoderar dos baldios, depois de estar tudo arroteado à força de enxadão e arado. O povo reagiu e foi lá escacar tudo. Partiram-se aí dezoito mil pinheiros (tio Jaime).
Fomos todos a Bragança, mas nada se resolveu (Sr. Carlos).
Foi uma medida para desgraçar a povoação. O engenheiro Matos foi o pior. Prendeu

Fui preso pela PIDE porque não quis declarar quem tinha tocado o sino – e também nunca ninguém o declarou –, por ter acompanhado o povo na luta e, também, porque fui denunciado pelo guarda. Ele tinha má vontade contra mim, porque eu tinha um comércio e queria que eu lhe fiasse e eu não lhe fiava. A PIDE veio por mim e levou-me e ao Raul Pereira no jeep para a esquadra em Bragança. Ali nos tiveram dois dias e depois levaram-nos para o Porto (tio Jaime).

Esperanças
Não tenho coragem de pegar naqueles pedaços de texto. Leia cada um e conclua para si. Tanto lutou a gente por terra para, agora, haver tanta terra sem gente para a ter ! Atente-se nas fotografias. Quantos são os sobrevivos? Eu nem sei o que dói mais, se as saudades dos que partiram, se a constatação de um futuro que não veio.

Quem me diz onde foi tirada aquela fotografia publicada na pág. 4? É que não faço a mínima ideia!