domingo, 4 de janeiro de 2015

NOTÍCIAS DO NATAL

Quem viveu estes dias pouco se há-de preocupar em vir ver os registos fotográficos. Sei, contudo, que aqueles de nós que não puderam estar presentes, mitigam as saudades vindo aqui. É, pois, para eles que escrevo, para que possam compartilhar da alegria intensa que se vive - e não sei se diga "apesar do trabalho", ou se diga "por causa do trabalho" que os mordomos têm, assim como todos aqueles que a eles se associam, de que devo destacar a Maria, esposa do Casimiro no trabalho do amassar das roscas.

Estão de parabéns, tanto as mordomas (Dorinda, Lurdes do tio Sebastião e Lurdes do tio Hermínio), como os mordomos (Artur, Tonho da tia Julieta, Duarte sapateiro, Zé Tó e Carlos da tia Amélia). A eles, o nosso agradecimento por manterem viva esta tradição da nossa terra.

 


 




domingo, 14 de dezembro de 2014

"Deus quer, o homem sonha, a obra nasce"

Hoje vali-me de Fernando Pessoa para vos dar conta do que andámos a fazer na tarde de hoje.
Porque o Natal se aproxima a passos largos, urgia pensar, e fazer o presépio da nossa Igreja.

E, com um verdadeiro sentido de comunidade pelas mãos e ideias que se uniram, a obra nasceu.




A ponte que o Beto construiu













As cancelas do Rafael lá permanecem

Oa mordomos-aqueles que moram todo o ano na terra- definem estratégias futuras

E o carreto do pastor também não podia faltar




E, se comecei com Fernando Pessoa, termino também com mais uma citação dele.


"O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem."

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

BOM PROVEITO


O verbo comer é um verbo engraçado e  vem a propósito do muito que manducamos(1) nesta época festiva.
O Latim clássico tinha o verbo edere e só no Latim tardio surgiu comedere, ou seja, “edere” com alguém: as refeições só satisfazem quando se está acompanhado, digo eu.
Em Latim também existia um tempo verbal que nós não temos: o Particípio Presente. No caso que nos interessa, aquele que come será o commens e daí virá o nosso “comensal”, embora com alguma alteração do significado.

O que me traz aqui é a nossa comenência, vocábulo que não vejo registado em lugar nenhum. Mas eu acho-lhe tanta graça que gastei um ror de tempo à procura da sua origem e, confesso, andaria perdida se não fosse uma proveitosa conversa com o meu irmão Evaristo que me alertou para a sua relação com “comer”.

Voltemos ao Latim, onde o sufixo “entia” (entre outros) se originou a partir do Particípio Presente acrescido de “ia”: confidens / confidentia; credens /credentia, etc. No nosso caso: commens / commenentia. Em suma, do verbo nasceu o substantivo.

Tendo o sufixo “ência” valor de “estado”, “qualidade” ou “resultado de acção”, então a nossa “comenência” significará “estado ou qualidade daquele que comeu”. Ora, se comer é uma coisa boa, de grande valor, tal significado parece esbarrar com a acepção que costumamos dar à palavra: coisa pouca, sem importância nenhuma. A alguém que recebeu um presente sem valor nenhum dizemos “deram-te cá ũa comenência!

Tenho, para mim, que a ironia é um dos traços mais marcantes do nosso modo de ser. Lembremos, por exemplo, que lamentamos quem sofreu um grande prejuízo, exclamando: “tebe cá ũa esmola, o pobre!” Creio que se passa o mesmo com a comenência: profere-se, querendo afirmar o seu contrário. Eu metia-me com o Gilberto, chamando comenência a um cão minúsculo que ele tinha… “Onde está a comenência? – perguntava-lhe.

Em abono do significado de comenência como coisa boa ou importante lembrei-me que, às vezes, usamos a expressão sem ironia. Nos dias que correm, posso afirmar sem sombra de dúvida que o meu ordenado não é comenência nenhuma!
_____


(1) Manducar, apesar de alguns dicionários referirem que é verbo de utilização popular, entrou no Português por via erudita, tão próximo que está do original: mandūcāre.

A ilustração é uma iluminura do livro de horas do duque do Berry (séc. XV).

domingo, 30 de novembro de 2014

MODO DE VIDA: UM OLHAR EXTERIOR



     “Não há, talvez, nada mais absurdamente demagógico no Portugal Salazarista dos anos 30 do que o discurso ideológico, conservador e agrarista sobre o mundo rural e a vida camponesa.” É desta forma que o historiador Fernando Rosas inicia um capítulo dedicado ao mundo rural durante o Estado Novo. A certa altura, referindo-se à região do Barroso, e citando o Inquérito à habitação Rural que lhe serviu de fonte, escreve: (…) “as casas dos camponeses menos pobres, «simples quanto possa imaginar-se», eram cobertas de colmo, sem chaminés (…) «janelas quase as não há», com um andar térreo para a «corte dos porcos» e um primeiro andar só com uma cozinha e um «sobrado». O mobiliário da primeira resumia-se a «uma mesa e dois ou três bancos», os «escanos», e os utensílios eram «tão-só os precisos e bem primitivos». «O sobrado é o dormitório colectivo da família. Aí estão as camas, as mais das vezes tarimbas de madeira, onde dormem pai e mãe, filhos, genros, noras e avós. (…) Algumas cadeiras, mesas toscas, um ou dois lavatórios nos mais abastados são toda uma mobília. (…) Obviamente, não há electricidade, nem água canalizada ou sistema de esgotos. As «necessidades» dentro de casa eram feitas para um buraco que ligava a cozinha à pocilga.
     Passavam-se as coisas desta forma «na camada mais elevada». No caso das famílias mais pobres, os «cabaneiros», as casas só tinham rés-do-chão, e as duas divisões (cozinha e sobrado) davam lugar a um compartimento que ocupa toda a extensão da habitação, a qual é de pavimento térreo.” (1)
     Mais adiante apresenta um quadro com algumas estatísticas. Poupo-vos à leitura, deixando-vos com as médias (estando os valores actualizados para 1994):

Rendimento anual: 2 526$61
Valor do recheio da habitação:
Móveis – 222$84
Utensílios – 50$70
Louças – 17$55
Roupa – 227$34
Total – 508$44

Metade de um conto de réis era quanto valia tudo quanto se possuía em casa! 

Do rendimento anual diz-se que entre 80% e 87% era consumido com a alimentação; cerca de 13% com o vestuário e 2% com a habitação; somente 1% com a higiene.

Tal rendimento só permitia a sobrevivência e, mesmo essa, limitada ao não passar fome.
A realidade descrita será muito diferente daquela que nós conhecemos e vivemos?

Para todos uma boa semana
 _______
(1) Fernando Rosas, História de Portugal, sétimo volume, dir. de José Mattoso, Círculo de Leitores, 1994

domingo, 23 de novembro de 2014

ARES DA SERRA

a mosca

por antónio augusto fernandes


Mais mês, menos mês, o pai metia-nos (quer dizer, a mim, o menos desastrado) cinco c’roas na mão e: ─ Ala, cortar essas repas!

Era uma caminhada toda cheia de peripécias e de largos rodeios ─ seguindo o preceito de Eça de Queirós que diz que a distância mais curta entre dois pontos é uma curva vadia ─ desde o Prado até à Cabecinha, onde se situava o estabelecimento do Fígaro da aldeia. Subíamos até à Fonte Grande, onde, por desfastio se molhavam os beiços e reciprocamente nos encharcávamos. A corrida, passando pela Fonte do Espinheiro, com o seu belo arco de pedra lavrada, ia dar nuns saltos aos ramos mais baixos da amoreira do Sr. Lopes Direito, saltos mais que inúteis, pois os ramos baixos estavam mais colhidos que ramo de cerejeira no mês de Janeiro. Outra corrida à poça do Covelo, onde os parrecos da tia Ana Costa levantavam grasnido de esparvoar o povo inteiro. Passávamos em deslado da casita da avó Tonha (hoje totalmente refeita pelo Gilberto, e já estávamos na Eira da Cabecinha. Antes do corte ainda íamos bisbilhotar o que acontecia lá em baixo, em Rossas, se adregava de passar o misto espirrando novelos de fumaça ou quantos carros se avistavam na estrada de Bragança... Por fim, lá subíamos a escada que conduzia ao suplício.

─ Boa gente, esses da Cabecinha! ─ dizia-se pela aldeia.

E eram-no de facto. Desde os pais, o tio António da Eira e a tia Laurinda até aos três manos: o Horácio que ainda apanhei na escola, a Aninhas a nossa amorável catequista e o Armindo, babeiro em chefe. Ao que recordo, todos eles cordatos e mansos como a terra.

Lá íamos para o quartinho onde o Armindo executava a sua arte: máquina, tesoura, navalha e a malguinha de alumínio onde repousava o pincel com a codeazinha de sabão azul.

Primeiro entrava o mano, o mais insofrido. E não havia maneira de parar quieto o raio do miúdo, a coçar a nuca, a sacudir-se por causa dos pelos que lhe entravam pelas costas e que mais entravam quanto mais se sacudia.

─ Está quieto, Zé, que inda te corto uma orelha! ─ acudia o Armindo com toda a paciência deste mundo.

Estava lá agora!

Ora a saleta tinha um janeleco virado a norte, que dava para um horteco do tio Alfredo Guerra. E era aí que me colava em contemplação: colados na vidraça havia três ou quatro desenhos a lápis cujo tema já não recordo. Mas, entre eles, salientava-se uma mosca desenhada na perfeição, distinguindo-se os dois olhos enormes, as patecas peludas e até as nervuras das asas. E tal mosca nunca mais me saiu do entendimento. Alguém me disse, ou sonhei, que a mosca era da autoria do Horácio. E eu longamente invejei a arte do Horácio, esse rudimento de um Miguel Ângelo a vir.

Já lá vão mais de sessenta anos e ainda hoje vejo a mosca do Horácio com a nitidez da Mona Lisa.

Ó Horácio, se leres estas linhas, tira-me lá desta dúvida. Sempre foste tu quem desenhou a dita mosca? Se sim, palavra que devias ter ido para Belas Artes e não para a GNR que, tanto quanto sei, é mais dada à arte da multa que à arte do desenho.
_____
Imagem daqui

terça-feira, 28 de outubro de 2014

PELO TERMO [Versão 2]

É a "versão 2" porque a primeira foi publicada em Outubro do ano passado. O grupo, bem maior este ano, era animado e plural.

O Carlos pediu-me que reforçasse a informação que dei no primeiro artigo: a receita realizada com a exploração da área do "Projecto" reverte inteiramente para o povo. Ou seja, não há lugar a percentagens divididas como foi alvitrado.

O Carlos também me tinha ensinado uma tradição antiga: se meter um seixo na boca, da primeira vez que se vai a um lugar, aprende-se o caminho para poder voltar. Eu assim fiz e o regresso a estes espaços trouxe a possibilidade de aprofundar conversas e de deleitar a vista na contemplação da paisagem avistada de cima. Quantas vezes me atrasei para ficar a mirar uma carvalheira carregadinha de bulharacos, as ervas do caminho ou, simplesmente, para inspirar profundamente aquele arzinho perfumado! Este contacto com aquilo que é nosso enternece-me e dá-me forças para suportar a ausência. Bendita terra!
Muito obrigada à Olímpia que me disponibilizou as fotografias.







terça-feira, 14 de outubro de 2014

AGRADECIMENTO




"Aqueles que amamos nunca morrem, apenas partem antes de nós."


À Fátima, sempre atenta e solícita a tudo o que se passa com as gentes de Rebordainhos, um especial agradecimento pelas palavras simples e singelas  da triste notícia da morte do nosso irmão Orlando.

A todos aqueles que pessoalmente, por ms, mail, telefone se uniram na despedida do nosso irmão, um obrigado sincero dos irmãos

Lúcia, Clara e Filinto

domingo, 12 de outubro de 2014

HÁ DIAS ASSIM


Há dias em que, sem o saberem, as pessoas nos enviam mensagens que, mais do que nos alegrarem, nos reconfortam e nos permitem recuperar a fé na dignidade e na generosidade humana. Bem-hajam todos aqueles que se cansaram por mim, sem sequer me dizerem que o iriam fazer. Aqui distante, marejaram-se-me os olhos de lágrimas. Nem imaginam o bem que me fizeram. Que Deus vos pague.

sábado, 4 de outubro de 2014

SÓ PARA NÃO DIZER QUE


 REGRESSO

                                          Regresso às fragas de onde me roubaram.
                                          Ah! Minha serra, minha dura infância!
                                          Como os rijos carvalhos me acenaram.
                                          Mal eu surgi, cansado, na distância.

                                          Cantava cada fonte à sua porta:
                                          O poeta voltou!  
                                          Atrás ia ficando a terra morta
                                          Dos versos que o desterro esfarelou.

                                          Depois o céu abriu-se num sorriso,
                                          E eu deitei-me no colo dos penedos
                                          A contar aventuras e segredos
                                          Aos deuses do meu velho paraíso.
Miguel Torga
________________
Enquanto mão amiga me conserta o computador, emperrado vai para uma semana, sirvo-me do seu portátil e do meu disco externo para que esta página tenha alguma coisa de "novo" a oferecer. Certamente, todos os leitores conhecem este poema de Torga, mas como sabe sempre bem relê-lo, aqui vo-lo deixo com os desejos de um bom fim-de-semana.

sábado, 27 de setembro de 2014

SR. ORLANDO

Para mim, era o senhor do sorriso terno e da palavra amável, e assim o conservarei na lembrança.

Deixou-nos hoje de madrugada. Ourém, terra de Nossa Senhora, acolherá o seu corpo amanhã.

Eu fiquei com uma dívida para com ele: por acanhamento, nunca fui capaz de lhe bater à porta a fim de ouvir o que tinha para me ensinar. Que ele, na sua generosidade, tenha a bondade de me perdoar.

À D. Lucinda, sua companheira de vida, aos filhos, o Mário, a Zeza, o Zé Tó, a Ana, o Jorge e o Miguel, aos irmãos e restante família quero manifestar os meus mais sentidos pêsames.


domingo, 21 de setembro de 2014

FRAGAS - 8 [ALTOS ALTENTES]

Lameira Longa... Tantas vezes por lá passei, quando tinha os meus 12 anos, acompanhando o pe. João nas suas caçadas cuja rica merenda comíamos sentados, talvez, junto de alguma dessas fragas misteriosas?! (...) Gostava imenso "engatar" por elas acima para melhor saborear a beleza que as ladeava! Como é triste constatar que as cidades engoliram as aldeias e parte do prazer dos aldeões... “que reste-t-il de ses beaux jours?” cantava Trenet, e eu pergunto-me também se ficarão na história de um pobre diabo, momentos de imensa preciosidade, passados num canto perdido longe dos olhares venenosos, onde a neve caía levemente, os ventos sopravam as desventuras, e os "candeolos" pendiam dos telhados como cristais, surgindo por magia do nada ou do pouco... (...)

Foram estas palavras, prenhes de poesia e de saudade, que o Tonho Brás deixou escritas num comentário. Ele tem razão: em todos nós, a nostalgia da terra assume, ao mesmo tempo, a qualidade de nostalgia da infância. Regressemos, pois, à nossa infância, revendo as paisagens.

Desta feita, o percurso vai para os lugares cimeiros, às fragas guardiãs da nossa terra: Anta, Berrão e Pena Mourisca. Ora vede como tudo é belo e amplo quando de lá se avista! Pode um transmontano adaptar-se aos espaços confinados se está habituado a tocar no céu?

As fotografias são da Augusta, a quem agradeço o envio. Mas como ela tirou tantas, criei outro álbum que pode ser visto aqui.

(Da) Anta


(Da do) Berrão (que foi roubado pelos de Parada, e a sua porca, roubada para Murça, segundo reza a tradição oral, mais os sete leitõezinhos que ninguém sabe dizer para onde foram...)


(Da) Pena Mourisca


Serão as marras do concelho (pouco à frente da fraga do Berrão)?



Quem queira, pode acompanhar o percurso com a sugestão do Tonho.