terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

ENTRUDO

O dia iniciou-se com a seguinte questão: “Então que comemos hoje?”
Claro que são vários os dias a iniciarem-se com uma pergunta semelhante. Mas hoje, porque é entrudo, a pergunta adquire outro sentido. É que nos tempos da casa do pai e da mãe, hoje era dia de se comer a orelha, a queixada, um salpicão e uma ou duas chouriças do porco que se tinha matado no início do inverno. Noutras casas, comia-se o salpicão da língua e umas chouriças bocheiras a acompanhar um arrozinho de espigos.
No dia de hoje, enchia-se a barriga de chicha, pois a partir de quarta-feira de cinzas era (e ainda é para alguns) dia de comer peixe, como o haveriam e hão-de ser todas as sextas-feiras da quaresma.
Bom, mas como a tradição já não é o que era, o almoço transformou-se num delicioso rancho, caprichosamente cozinhado pelo cozinheiro cá de casa.

Mas o dia não estaria completo se não rumasse até Rebordainhos para ver se encontrava o entrudo. Imaginei que iria deparar-me com algumas raparigas enfuliçadas e enfarinhadas. Mas ... nada!
“Então já não há marafonas?”
“E onde estão as raparigas?”
Bem, marafonas não encontrei, mas a Lurdes da srª Áurea ainda deu um ar da sua graça, e, "como quem sai aos seus, não degenera", costurou uns disfarces que, apesar de influenciados por outras culturas e costumes, lá nos lembraram que hoje é dia de carnaval.
Depois de um passeio pelos caminhos da aldeia, regressei a Bragança com uma questão a bailar-me na cabeça: Será que ainda fazem o boneco do entrudo? E se a resposta for afirmativa, qual a será a bafejada pela sorte de o ver depositado durante a noite, na sua porta ou varanda?
... Um dia destes saberemos a resposta.
Agora, resta-nos esperar pelo meio da quaresma para conhecermos os novos casais da aldeia, e qual a serventia que os rapazes vão dar às velhas depois de as serrarem!
"Palhas alhas leva o veeeeeeeeeeento!"
Lembram-se?
Augusta Mata

19 comentários:

Fátima Pereira Stocker disse...

Que guapa ficas de marafona! Não reconheci nenhuma das outras, mas tu estás uma pimponaça!

Nem marafonas, nem caldeiros de cinza ou vasos de flores escaqueirados nos sobrados das desatentas, nem teatro de mangação... Carai, também vos digo: se não há novas para enfuliçar, enfulicem-se as velhas!

E façam lá o antrudo, se não, como se lhe vai fazer o enterro?

Não tenho a certeza do que vou dizer, mas creio que são poucas as terras em que o entrudo se prolonga pela quarta-feira de cinzas. Vá, ganapada, não deixeis perder isso!

Garota: bem hajas por teres escrito o artigo, trazendo o nosso entrudo à liça.

Beijos

Cata-Vento disse...

Por aqui também a tradição já não é o que era. No tempo dos pais e avós, comia-se galo estufado ao almoço( jantar naquele tempo) e ao jantar ( ceia) o lacão do porco,conservado desde Dezembro na salgadeira, cozido com repolho. Do caldo da cozedura do repolho fazia-se uma massinha temperada com hortelã.
O almoço de ontem, foi xarém com conquilhas, um prato tradicional algarvio da beira-mar. Aqui na serra fazia-se com chouriço frito ou com toucinho entremeado.
As marafonas já não as há. Eu não vi nenhuma. Assim como não vi as portas dos moços solteiros caiadas. Hoje é dia de comer peixe tal como em todas as sextas-feiras.

Bem-hajam por me terem recordado o entrudo tradicional.

Um abraço

Olímpia disse...

Augusta:
Obrigada por me teres avivado a memória.
Agradavelmente recordei esse entrudo, o serrar das velhas e os casamentos.Estes, obrigavam-nos a adiar a hora do sono para que ,num local bem posicionado, nos fosse permitido ouvir e perceber com quem casavam quem, o que lhes davam de dote e, por conseguinte,quem nos calhava por porta...
Julgo que estava um rapaz em cada extremo da aldeia e que, o microfone utilizado seria um funil (dos grandes).
Eram bem divertidas estas tradições as quais ,me fazem lembrar as cantigas de mal dizer, com sátiras bem directas.
Bjos
Olímpia

António disse...

Olá, Augusta:
Como desaninhei cedo de Rebordainhos e já vou ficando velhote e caduco, já pouco me lembro de vocês, as três manas, que ainda são umas meninas. Mas sabe-me tão bem recordar as coisas do antigamente em vias de extinção, como essa dos casamentos feitos por embudes transformados em megafones, um na desaparecida eira do sr. Lopes por detrás da nossa casa na Portela, outro na eira do Outeiro... a serração das velhas, os butelos do Entrudo que, parece-me, já quase ninguém faz... E assim me tornei num leitor assíduo, para não dizer compulsivo, do REBORDAINHOS.
Por isso os agradecimentos por este esforço em não deixar morrer o que levou séculos a gerar.
Abraços do
Tonho da tia Lídia

Augusta disse...

Fátima:
Ora observa lá bem, e vê se não reconheces pelo menos a Antónia e a Lúcia. Não te digo mais. Será que alguém reconhece? Alguém que lhe é muito querido costuma consultar o blog, embora não comente (estás a ler, joana?)
De costas em primeiro plano, é a Lena da tia Maria.
Beijos

Augusta disse...

Cara Isabel:
Pois é, as tradições vão sofrendo mutações (o que em minha opinião, constitui uma perda enorme)mas, e como a tradição já não é o que era, ainda havemos de trocar receitas e, qualquer outro dia de carnaval, estaremos a comer comida tipicamente algarvia em Trás-os Montes e vice-versa.
Bem haja pela força que nos transmite.
Um beijo

Augusta disse...

Olímpia:
O funil grande tem nome. Estou mesmo a ver que não te lembras.
Mas lembro-me eu que a nossa mãe, estava sempre à espreita para, no dia seguinte, pelo telefone, nos dizer quem nos tinha calhado na sorte.
A ver vamos o que se consegue transmitir este ano acerca dos casamentos.
Beijos, e olha que andas bem desaparecida!

Augusta disse...

Tonho:
Sim, eram exactamente esses lugares. E ainda te consegues lembrar dos dotes que davam às raparigas? Lembro-me dum que era mais ou menos assim: "a p.... dum cão p'ra fazer de sobiote"!...
Pois é, isto está a tornar-se numa grande dependência. A consulta compulsiva atinge-nos a todos, embora alguns andem bem fugidos.
Por onde andará a Céu? Agora que se reformou, é só "boa baiela"! Amanhã tentarei saber o que se passa com a menina
Beijos

EC disse...

Augusta,
Tens de desfazer o mistério!
Afinal quem são as marafonas da foto antiga?
E já agora, onde foi cair o entrudo?
Beijos

Augusta disse...

Milita:
Se tu não sabes, como vou eu saber?
Isso é sinal de que o entrudo não foi feito. É pena porque, apesar das raparigas não gostarem muito, por causa das quadras maliciosas que lhe colocavam, não deixava de ser engraçado.
Beijinhos, e diz-me: desta vez não houve tempo para reportagem dos javalis?

Olímpia disse...

É verdade Augusta, tenho andado bem desaparecida mas... muito ocupada.Ossos do ofício com responsabilidades acrescidas.Tu sabes.
Em relação às marafonas, será que a primeira da fila (a da saia aos quadrados)não é a tia Maria?E a que tem um alguidar de plástico, não é a nossa mãe?
Beijos
Olímpia

Olímpia disse...

Tem na cabeça um trapo, com o alguidar em cima.

Augusta disse...

Olímpia:
Nada disso. A do alguidar na cabeça, é a Tonha. A da Saia aos quadrados, já não me lembro bem, mas penso que será a Lucinda.
A mãe e a tia Maria, estavam regaladas de nos verem.
Beijos

Anónimo disse...

Augusta

Por incrível que pareça, nesta nova fase da minha vida, nem tenho tido quase tempo para visitar esta casa virtual.
Este ano Rebordainhos teve o privilégio de reviver a época das marafonas e com muita pena minha de não ter podido participar. Não faltará ocasião.
Lembro-me que em anos já longínquos até se fazia uma espécie de teatro de eira em eira, vestidas de marafonas, às vezes fardados pela tia Emília do senhor Amadeu.
Os filhos do tio Arnaldo eram os ensaiadores e tinham grande queda para o teatro e para cantar.
Obrigada por me teres feito recordar algo que já estava esquecido.
Beijinhos
Céu

Céu disse...

Augusta

Por incrível que pareça, nesta nova fase da minha vida, nem tenho tido quase tempo para visitar esta casa virtual.
Este ano Rebordainhos teve o privilégio de reviver a época das marafonas e com muita pena minha de não ter podido participar. Não faltará ocasião.
Lembro-me que em anos já longínquos até se fazia uma espécie de teatro de eira em eira, vestidas de marafonas, às vezes fardados pela tia Emília do senhor Amadeu.
Os filhos do tio Arnaldo eram os ensaiadores e tinham grande queda para o teatro e para cantar.
Obrigada por me teres feito recordar algo que já estava esquecido.
Beijinhos
Céu

Fátima Pereira Stocker disse...

Ou estou pitosga ou já não vejo bem... demorei que tempos a perceber que alguidar tu e a Olímpia víeis. Essa do alguidar não me parece a Tonha, mas tem cara de ser alguém da família. A Tonha parece-me mais a última da fila do lado direito.

Vá, desvenda lá o mistério das outras marafonas (e dos raparigos, que também não identifico nenhum).

Beijos

Augusta disse...

Fátima:
Como poderias ver tu um alguidar, se ele nunca existiu? Aquilo era um chapéu vermelho!
E, como queres tu que eu desvende, para além do que já desvendei? A cara ainda lha vou reconhecendo, mas... reconhecer as costas (ou o final das mesmas), já me parece uma missão impossível. Achas que eu me ia lembrar de tudo o que aconteceu há mais de 30 anos?
Solicita-se então a ajuda a quem no-la puder fornecer. Não damos alvíssaras, mas que ficamos agradecidas, lá isso ficamos!
Beijos

Raffa disse...

Só a trenga da minha mãe... :P

Augusta disse...

Raffa:
Graças a Deus ainda temos mães como a tua que se despem de preconceitos e sabem viver a vida com a alegria que lhe é característica.
Beijinhos para ti e para os teus pais.
Augusta