MODO DE SUBSISTÊNCIA
por
ANTÓNIO BRAZ PEREIRAIlustrações:
peças de artesanato da autoria de Carlos Águeda
A BATATAVivia-se essencialmente da agricultura: batata, centeio, um pouco de trigo, linho, castanha, mas também da posse de gados de ovelhas, cabras ou vacas. A batata, cultivada nas terras mais férteis, ditas “fundas”, era semeada manualmente, trabalho da competência exclusiva das senhoras que as iam deixando cair, uma a uma, no espaço de um palmo, à medida que iam marcando o passo pelo sulco fora, rectificando alguma que ficasse menos alinhada, pois só assim condizia com o aprumo do lavrador. Deste, a grande proeza destacava-se no movimento lento e certo dos animais, bois ou vacas, a quem ensinara o ritmo e o passo.
Quatro meses depois surgia a arranca. No Largo do Prado, ao lado do tanque de duas bicas de água corrente onde tanta gente se refrescou e saciou a sede, o olmo e o freixo estavam repletos das sequelas deixadas pelos pregos espetados pelas mãos de sucessivas gerações. Era à sombra do olmo e do freixo que, aqueles que tinham uma safra de toneladas, esperavam o rancho de homens e mulheres, de proveniências diversas mas, sobretudo, de Caravelas (perto de Mirandela), a fim de os contratarem, já que o pessoal residente não chegava para as encomendas. Davam-lhes pousada durante os dias de serviço, num palheiro ou casa apropriada e, quando se acabava o que fazer, o mesmo rancho passava para outro patrão. As batatas eram minuciosamente escolhidas em três categorias: consumo, semente e miúda (para os porcos).
Para melhor conservação, a maior parte das batatas eram metidas em ”silos”: abriam-se covas com cerca de vinte centímetros de profundidade e metro e meio de largura, variando o comprimento de acordo com a quantidade a ensilar. As batatas eram depositadas em pirâmide e rigorosamente emparedadas, depois cobriam-se com a palha alta e direita do centeio, numa espessura de dez centímetros, e, por fim, acrescentavam-se três de terra por cima. As certificadas eram levadas para Rossas e as outras guardavam-se nos palheiros.

OS CEREAISCultivar o centeio e o trigo era mais um dos grandes acontecimentos da Aldeia. As segadas realizavam-se no Verão, durante o mês de Julho. Como acontecia para a apanha da batata, grandes ranchos de homens juntavam-se no Prado debaixo das duas árvores favoritas. Vinham equipados com seitoura, dedais, colete e camisa de quem se mostra disposto a trabalhar. Alguns calçavam uns tamancos abertos atrás e vestiam calças idênticas às dos cow-boys. Musculosos, apresentando um rosto severo ou ar alegre e juvenil, os que vinham pela primeira vez ofereciam os seus serviços e os outros reencontravam-se com os patrões antigos, se no ano anterior tinham deixado boa impressão e ficado referenciados como bons trabalhadores. A gente da terra chamava-lhes camaradas de segadores, havendo-as pequenas, médias e grandes, chegando estas a atingir os vinte homens. Entre eles havia alguns com funções bem definidas: aquele que animava o rancho, tocando concertina, realejo, viola ou guitarra e começava a cantoria, e aquele que dava de beber, levando vinho num pipo ou cabaça, ou água em bilhas de barro ou em remeias feitas de zinco.
Feita a distribuição pelos diversos patrões, quase sempre ao domingo, os segadores instalavam-se com os apetrechos que traziam e voltavam ao largo do Prado a tocar e a cantar até alta noite. Pela manhã, bem cedo, seguiam a pé, conduzidos pelos patrões, para o local da segada onde se organizavam rapidamente, metendo mãos à obra. Um ou dois de entre eles eram atadores, e não tinham tempo para se coçar. Juntavam as gabelas necessárias para fazer um molho, retiravam uma mão cheia de palha com espiga e, com ela, apertavam, pondo o joelho esquerdo por cima, para melhor unir: num virar de olhos, estava concluída a operação, que parece fácil, mas acreditem que era necessário muito exercício e força para ficar bem. O calor a apertar, o efeito do vinho, e outros factores, contribuíam para haver despiques entre eles, pois nenhum gostava ficar para trás. A água corria-lhes pelas faces e o cansaço notava-se nos rostos. Mesmo assim, cantavam versos dirigidos aos que não aguentavam aquele ritmo desenfreado! Quando terminavam e ceifa naquele prédio, juntavam o centeio numa “murnalheira” em forma de U: molhos ao alto, com a espiga para cima, contando as “pousadas”. Cada quatro molhos fazia uma pousada, que dava um alqueire de centeio, cujo peso correspondia a onze quilos, se não estou errado.
Tanto esforço requeria boa alimentação e em grande quantidade. Pelas nove e meia matavam o bicho com salpicão, chouriça, bacalhau frito ou desfiado, queijo e café. Ao meio-dia, lá ia a dona da casa, ou uma pessoa contratada, levar o almoço bem recheado em colorias, num grande cesto feito de verga e transportado à cabeça. Outras vezes, metia-se o almoço em alforjes e carregava-se um burro com elas. Matava-se uma canhona, ovelha das mais velhas, que se refogava e acompanhava com batata cozidas. Também se preparava arroz com galinha, e muitas outras coisas que ficariam para a merenda, programada para as quatro da tarde. Á noite, era uma alegria vê-los voltar a casa. Tocavam, cantavam e dançavam, como se voltassem de uma excursão ao Algarve. Qual fadiga, qual carapuça! Eram rijos como o ferro!
As malhas eram mais uma obra de entreajuda. Muitas vezes ia-se à torna jeira, mas contava-se também com os que vinham ajudar porque deviam favores. Apesar do sacrifício para suportar o calor intenso e a poeira, nunca havia queixas. As pessoas punham-se nos lugares cujas funções desejavam desempenhar. O lugar mais procurado era o dos sacos, pois havia quase sempre vinho doce, às vezes com ovos batidos.
A arquitectura, tanto das medas como dos medeiros, era outro dos orgulhos dos Lavradores. Havia um pormenor que não passava despercebido: quando a meda estava quase no fim, e se o patrão tivesse filhas solteiras, iam dois ou três rapazes buscar uma delas, para ser transportada, até à malhadeira, nos quatro molhos do começo da meda. Levada no virgo, assim se dizia! No final do almoço, a menina transportada distribuía rebuçados às senhoras e cigarros aos homens.
Pelo ano fora, os cereais seriam moídos nos moinhos de água, com um rodízio e duas pedras devidamente colocadas e picadas segundo a qualidade das farinhas. Do centeio saía apenas farinha e farelo; do trigo extraía-se, o “relão” de cor mais negra, a sêmea, farinha mais fina, e um pouco de farelo. O milho moído fazia igualmente parte dos alimentos desse tempo, assim como os”cussecos”, hoje especialidade dos Países Árabes, feitos da farinha do trigo, amassada e enrolada em pequenas porções, para depois cozer no forno, dentro de cântaras de zinco perfuradas com centenas de buracos.
ACTIVIDADES ARTESANAIS
Profissões exercidas eram várias: havia dois sapateiros. O mais idoso era o Sr. Carlos, homem simpático e brincalhão, com a sua sovela que, de tempos a tempos, passava na bola de cera, para melhor perfurar a sola, batida sobre um seixo, o seu avental de couro, e as cicatrizes deixadas pelas linhas nas mãos, quando as puxava, enquanto realizava com proeza um belo par de sapatos. O Sr. Carlos contava histórias que nunca me cansava de ouvir. Estávamos uma vez à braseira, quando um rapaz, filho de agricultor abastado, lhe veio encomendar uns sapatos em nome do pai. Ouve lá ó rapaz...Tu queres que os sapatos chiem? O puto reflectiu e respondeu: Claro!... Então tens que dizer ao teu pai que me mande uma posta boa de bacalhau, se não, não chiam.
Havia, ainda, um soqueiro, três carpinteiros, um “chicheiro”, cesteiros, latoeiros, tecedeiras, ferreiros dois, alfaiates e costureiras, etc. Figura inesquecível era o tio Hermenegildo Caixeiro que fazia os carros de bois desde eixo ao pinalho, passando pelas rodas e ferragens, engarelas, arado, trasga e até o jugo! Este homem fazia tudo na perfeição, não esquecendo as tarraxas que, bem apertadinhas, eram o orgulho dos que, ainda longe, se ouviam chiar, como a querer dizer que aquele carro vinha carregado com alimentos ou coisa no género. O tio Hermenegildo tinha, também, o dom de saber cantar o fado à desgarrada, como poucos, e a sua reputação era tão grande como a de carpinteiro.
Também se cultivava linho em Rebordaínhos. Semeado em terras mais ou menos férteis, existiam, segundo me consta, duas variedades: o Mourisco, que crescia mais, e o Galego. No tempo da recolha, era arrancado e posto ao alto, em pequenos ”molhos”, para acabar de secar. Depois seria levado para os ribeiros e metido debaixo de água até estar curado. Terminado este processo, levavam-no para junto das casas, ou eiras, onde permanecia mais algum tempo para voltar a secar. Seguidamente era maçado com uns maços feitos de madeira rija, em forma de “quilhas” de “bowling”, sobre cantarias apropriadas. Depois de bem maçado, era passado num “sedeiro para lhe ser extraída a estopa, a qual por sua vez, seria fiada, servindo para tecidos mais grosseiros, como tapetes, meias, panos de limpar etc.. O linho, mais fino e delicado, era tecido em teares, de onde saíam lindas toalhas, lençóis, cortinados e muitas outras coisas indispensáveis ao viver desse tempo. Sobejavam os “tascos” sem utilização, que eram postos em montes e queimados, fazendo a alegria dos mais novos, que os levantavam ao ar, enquanto ardiam. Quase parecia fogo de artifício!
Os Teares eram manuais, ouvindo-se, de longe, a funcionar. A tia Irene, naquela casa do Pelourinho, foi, talvez, uma das últimas tecedeiras a exercer na Aldeia.