No dia 10 de Janeiro, bem cedinho, preparei-me para percorrer os 15 km que me separam de Rebordainhos, onde, dias antes, após a Eucaristia Dominical, soube da realização do cantar dos Reis. Como em todos os anos, marcou-se a festa para o Domingo a seguir ao dia 6, que é o modo de encontrar a maior parte das pessoas nas suas casas, sem lhes perturbar os trabalhos.

Havia tantos anos que não presenciava pessoalmente… Cá fora, o termómetro marcava 4 graus negativos; contudo, de máquina fotográfica na mão e coberto até às orelhas, meti-me ao caminho. Ao chegar junto da Senhora dos Caminhos, à beira do tanque da Chave, vejo vir, estrada acima, o grupo de cantores: Chico, Casimiro, Ferreira, e Toninho Rodrigo; o mordomo das Almas, Zé da Lúcia; o careto, filho mais novo da Marquinhas e o Filipe Freixedelo. Regressavam já, àquela hora, da Quinta e de Arufe, aparentemente gelados e receosos do que os esperava para visitar toda a Aldeia. Entrei com eles em casa do Tonho da tia Julieta, onde, calorosamente, os esperava uma mesa repleta de vinhos variados, bolos e chocolates, salpicão e chouriça cortados aos pedaços, como em todas as casas sem excepção, mesmo naquelas mais modestas. Esse modo de receber impressionou-me profundamente: recepção digna de um rei, toalha fina, copos e bandejas, como não se encontram em hotéis de 3 ou 4 estrelas.

Na frente seguia o careto, vestido de vermelho, rosto tapado pela careta, foice numa mão e maçã na outra onde enterrava, até ao meio as moedas oferecidas. Batia à porta e, se fosse aceite a visita, seguia para outra casa, enquanto o resto do grupo entrava, atrás do primeiro da reza e iniciador dos versos cantados. Davam as boas-festas cumprimentando todos os residentes ou amigos presentes, seguidos da pergunta: canta-se ou reza-se?
Juntei-me a eles e cantei também, para matar saudades de tempos passados, e o Filipe fez a mesma coisa. Seguindo para outra casa, de olhos fixos nos paralelos gelados e marchando lentamente como em cima de ovos, durante o trajecto contavam-se histórias passadas, sobretudo referentes ao tio Leque, daquelas que fazem rir e deixam as pessoas bem dispostas e fazem sentir menos o frio que não parava de aumentar. Perguntaram se queria ir com eles, respondi afirmativamente, sobretudo porque me deslocara a Rebordaínhos com a intenção de assistir a tudo e tudo fotografar.

A recepção era de tamanha gentileza, sensibilidade e, sobretudo, alegria, que faria feliz um condenado. Por vezes, sobretudo nas casas onde alguém sofria por motivos de doença ou outra razão, rezava-se apenas, comovidos pelas lágrimas, e oferecia-se uma palavrinha de conforto.
Já no Covelo depararam-se-nos três casas fechadas: a do tio Alfredo Guerra, a do Carlos Chiote e a do Sr. Lopes. Pela minha mente, em silêncio, passaram tantas coisas por ali acontecidas…Mas lá vinha mais uma piada do Chico ou do Toninho, e o humor ultrapassava tudo.
Nesse dia, estavam em Rebordainhos pessoas vindas de Bragança, do Porto, de Lisboa, França e Alemanha. Mesmo entre os cantadores há quem não resida lá permanentemente, mas, estejam onde estiverem, lá vão cumprir uma devoção que, afinal, é mais um serviço prestado a todos. A casa do Valente situada já quase na chãera, pôs fim à primeira parte da visita. Era hora da missa e, só depois dela, retomaríamos a rota das boas-festas. No bairro das pedras visitámos a tia Maria seca, radiante de alegria. De uma lucidez desconcertante, mantém-se maravilhosamente conservada para a idade. Foi frente à casa do tio Leque, antes de visitar o tio Eduardo, que surgiram as anedotas mais picantes, daquele reputado de trocista.
Não posso deixar de frisar um facto passado na Portela, numa casa de emigrante, a do Sr. João Sapateiro. Deixou alguém entregue à chave de sua casa, mandou acender a lareira, pôr a mesa com o necessário, rezar pelas suas obrigações e uma cantilena bem botada. Mesmo ausente, o Sr. João estava connosco…e com as Almas, para as quais se não esqueceu de deixar esmola.

Chegámos, por fim, ao bairro do Outeiro onde, em casa do Mordomo, terminou a visita. Cantámos com toda a garra e rezámos pelas intenções dos donos da casa. Entretanto, de Lisboa, telefonou o Sr. Orlando e, pelo telefone, foi presenteado com o nosso último canto do dia. Uma grande e linda mesa composta com tudo do que há de melhor aguardava o grupo, mais os convidados e familiares. Enquanto comíamos, víamos a neve cair através dos vidros, com tanta vontade, que o Rui e o seu pai começaram a inquietar-se com a sua ida para a Faculdade no Porto. Falou-se, igualmente, do projecto de realizar um CD para que não se perca a tradição, e de que maneira se poderia concretizar tal projecto, juntamente com os novos, os quais, na noite anterior, tinham feito o mesmo trajecto, ensaiados por um pároco de Balsamão, e um músico, creio que de Bragança. Espero que o Município ajude a encontrar uma solução. Um grande bem-haja a todos aqueles que defendem tradições como esta, porque a nossa terra, apesar de fria e menos povoada agora, continua a vestir-se de branco para os filhos e amantes.