Os dedos de uma mão devem bondar para contar aqueles que, em Rebordaínhos, não criaram os seus filhos na pouca fartura. A tia Laura e o tio Zé Foguete não fugiram à regra e foi por isso que o Armindo, tal como quase todos os da sua idade, precisou de se fazer cedo à vida, ganhando alguma coisa com que ajudar em casa.
Mal se viu aprovado no exame da quarta classe, largou os livros para ir pelos lameiros guardar os vitelos do tio Frade, o Sr. Manuel Martins, como respeitosamente se lhe refere. Como a tarefa não exigia esforço por aí além e a proibição do trabalho infantil ainda demoraria a chegar, nem ele nem ninguém sentiu que fosse precoce essa introdução na vida activa. O trabalho também não lhe sossegaria o ânimo irrequieto e brincalhão e continuou a ser um espalha-brasas, povo adiante, povo atrás. Depois, o Sr. P.e João, de quem o seu pai se tornaria caseiro anos mais tarde, abriu-lhe as portas, chamando-o como moço ao serviço de sua casa.
Os serviços que as crianças prestavam não eram mais do que uma iniciação à vida adulta, uma forma de as enrijecer e de lhes ensinar o valor do trabalho até que estivessem capazes de aprender um ofício. Assim, aos dezasseis anos, o Armindo sentiu-se apto a aprender a arte na qual fundaria a vida futura e partiu para Rossas, entregue ao saber do sr. Alexandre que, tendo apreciado o trabalho do rapaz, o chamaria ao seu serviço.
Ao Armindo calhou na rifa iniciar-se profissionalmente na pior altura de todas: os anos da revolução de Abril. Não sei se se lembram, mas faltava tudo: o cimento, os tijolos… até os pregos! Não sei foi por causa disso, mas rumou a Bragança como empregado do sr. Emílio Esteves. Bragança, porém, ficava à distância de muitos carreirões de Arufe e o Armindo, criado na liberdade dos espaços da serra, sentia-se entocado na cidade. Nem por mil diabos lá haveria de ficar! Regressou, por isso, a Rebordaínhos e arriscou estabelecer-se por conta própria.
Reunindo os magros tostões que amealhara, lançou-se na sua primeira obra: a reconstrução da casa de sua mãe, a tia Laura. As pessoas da terra, que souberam apreciar o gesto de amor filial, também gostaram do trabalho e começaram a acreditar nele, mostrando a sua confiança nas encomendas que lhe iam fazendo. A primeira, no entanto, chegara de Soutelo Mourisco. Começou-a sozinho e não teria mais de dezanove anos.

Ganhou nome, experiência e o dinheiro necessário para abrir uma empresa em nome individual, a
Armindo António Pais que, mais tarde, deu lugar à
Construções Pais e Veiga. Hoje possui mais duas empresas,
Mármores e Granitos Serra da Nogueira com a qual executa todo o tipo de obras que envolvam esses materiais e a
Construções do Fervença, que se dedica ao trabalho com alumínios e PVC e à compra e venda de imóveis. Em linguagem económica diríamos que o Armindo criou uma concentração horizontal de empresas, isto é, associou diferentes segmentos da mesma actividade, de modo a dominar o sector, diminuindo a concorrência e chamando a si os lucros que teria de pagar a terceiros se precisasse de lhes encomendar serviços. Não tirou nenhum curso universitário para aprender estas coisas, mas intuiu muito bem como elas devem funcionar.

Ao todo tem 22 empregados e conta, actualmente, com o auxílio do seu filho Pedro que já é arquitecto. A Ondina, sua esposa, é quem gere os escritórios, sendo a contabilidade feita por gente de fora. A
Construções Pais e Veiga é das empresas que mais encomendas tem na cidade de Bragança, mas a sua área de trabalho estende-se a Mirandela e ao Porto. E a França!
A história do Armindo é a história dos vencedores e dos resistentes que não deixaram a terra. A sua casa é a segunda que nos acolhe quando, passado o Navalho, percorremos o quilómetro de saudade até chegarmos à Pátria.
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As casas fotografadas correspondem a duas obras de reconstrução feitas pelo Armindo. A primeira, salvo quem está longe há muito tempo, todos a identificam: é a velha casa do tio Frade e que pertence, agora, à Natália e ao Guilhermino (Sortes). A segunda fica em Rossas.