quarta-feira, 23 de maio de 2012

MEMÓRIAS DE UMA ZELA [II]


2: DA FÉ E DO NABALHO

Escutai-me com atenção, vós que começais a deixar-vos seduzir pelas novidades trazidas pelos invasores. Porque vos sentis diminuídos quando vos chamam “barbari”, desejais assemelhar-vos a eles, vestindo como eles se vestem, falando como eles falam e sacrificando aos deuses deles. Existe algo de muito estranho nos romanos que, mal chegaram à nossa terra, trataram de dizer que os nossos deuses eram os mesmos que os deles, só que com outro nome. Não acrediteis e cessai, por isso, de sacrificar a Marte cuidando que homenageais Bandua.

Meditai bem nas histórias que contam sobre os seus deuses e concluireis que são terríveis, sempre irados e em guerras constantes uns com os outros. Se somos um povo de paz, como poderíamos ter como deus alguém que promove a guerra e só com ela se satisfaz? Bandua(1), o nosso deus, defende-nos dos perigos que surgem nos caminhos escuros; acompanha-nos quando caçamos, protegendo-nos das investidas do porco montês quando se vê acossado, ou da violência do urso que não teme o ser humano. Bandua está na natureza, não está no gládio!

Aerno(2)– não Júpiter – é o nosso deus maior. Só nosso, dos Zelas! Sempre a ele recorremos e homenageámos no devir das estações, fosse quando nascia para os dias longos, fosse quando se deitava para dormir noites compridas. E porque a morte é a noite dos Homens que não termina, gravávamo-lo em pedra como um disco solar com braços(3), para que iluminasse a escuridão da sepultura. Assim me ilumine ele a mim, pois descreio de todos os deuses que vieram de fora mas que vós, agora, já seguis.

O Sol, a Lua e as estrelas são instrumento da vontade do grande deus que quer e permite que a vida aconteça ao ritmo certo:

noite-dia, Inverno-Verão, infância-velhice
/
trevas-luz, frio-calor, nascimento-morte.

Agradecemos-lhe a luz intensa do dia tanto quanto o brilho ténue do luar ou a sublime opulência do céu estrelado, mormente quando nos mostra aquele caminho que parece feito de leite e o atravessa de lés a lés.

Foi para Aerno que esculpimos o grande berrão que está naquela fraga que se avista daqui. Os romanos consideraram-no tosco, mas que sabem eles das nossas intenções? Aquele berrão representa, para nós, o próprio deus da vida na posição de fecundar a Terra(4). É um símbolo, sabemo-lo bem, mas como nos tem valido!

De tudo quanto fizeram, o que mais me custa perdoar aos romanos diz respeito a Nabia(5). Nabia, a senhora dos vales plenos de vegetação, dos vales fundos por onde correm veios de água, dos vales que, desenhados entre encostas, se assemelham a berços ou a navios; Nabia que faz brotar a água das fontes que mata a sede e cura as enfermidades; Nabia que dá vida aos bosques!

Quem vem de nascente e se encaminha para o lugar que habitamos agora, há-de reparar naquela encosta à sua direita, mal se inicia a subida. Está aí um lugar destruído. Era o altar de Nabia! Altar singelo que, todos os dias, enfeitávamos com delicados ramos de teixo colhidos nos lugares cujo nome nasceu da abundância dessa árvore: Teixedo e Teixeira. Apesar da morte, o teixo lembra-nos que a vida, enquanto tal, é perene, e por isso oferecíamos os seus ramos à deusa que faz jorrar a água, essência dessa vida. Ela retribuía-nos, povoando as nossas terras de arvoredo e de animais e abençoando aquele estreito rio que corre junto a Teixedo. Pois não é aí que, ainda hoje, levamos os nossos animais e os banhamos nas suas águas para serem curados das maleitas que os afectam?

Nabia é uma grande deusa, fecunda e benfazeja, mas o seu altar foi arrasado! Conspurcaram o seu espaço sagrado, calcando-o com os pés tingidos do sangue de quem a adora. Afirmaram que era falsa, que a verdadeira pertencia a povos diferentes, que a nossa era outra, que aquele lugar não era de Nabia. Na sua língua arrevesada, juntaram tudo. Já começam a chamar-lhe Nabalho(6)!

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(1)Bandua; Bandue; Bandueli são formas, ainda discutidas, de grafar o nome do deus. Pensa-se que terá sido equiparado a Marte, o deus romano da guerra. Contudo, são tão escassos os dados disponíveis sobre tal divindade, que as informações possíveis advêm somente da análise linguística do nome, que são muitas e divergentes entre si.

(2)Sabe-se muito pouco sobre os deuses Zelas mas, seguramente, que Aerno é um deles e que lhes é exclusivo. Segundo recentes estudos linguísticos, Aerno poderá ser um adjectivo formado a partir de “
ayer/ ayen” com o significado de dia e, se usado como advérbio, significaria “pela manhã”. Este raciocínio conduz à conclusão de que o deus seria o próprio Sol. Outras leituras sustentam que seria um deus relacionado com a vegetação. No entanto, devido ao carácter especulativo destas interpretações, a maior parte dos historiadores limita-se a considerar Aerno como um deus tutelar da comunidade Zela.

(3)Como se pode observar na imagem aqui publicada e naquela que ilustra o artigo anterior, são muito variadas as formas das suásticas solares que, tudo indica, dizem respeito a Aerno.

(4)Nada me permite fazer tal associação. O significado dos berrões é ainda um mistério, mas salta à vista a quase coincidência entre a sua distribuição geográfica e o território dos Zelas, em justaposição com o deus Aerno.

(5)Nabia é uma deusa omnipresente – salvo na região de Bragança. Olhando para a distribuição dos achados, essa ausência parece-me estranha, porque a deusa está representada a toda a volta, saltando apenas a nossa zona. Pergunto-me se tal ausência não resultará, somente, do quase nulo trabalho arqueológico na nossa terra?

(6)Estou aqui a propor uma leitura etimológica para Nabalho, assumindo que poderá ter nascido de Nabia + “alteru” que significa “outro" em latim. Assim: Nabia alteru > Nabi(a)alteru > Nab(i)alt(e)ru> Nabaltru > nabal(t)u > Nabalho.
Quer dizer: o processo há-de ter sido bem mais complexo…
Concordo que é um atrevimento, mas confesso que me seduz!

Agradeço ao Tonho da tia Lídia as correcções que me sugeriu. Só não sei se as acatei bem.

1 comentário:

elvira carvalho disse...

Gostei da história. Costuma-se dizer que quem não tem cão caça com gato.
Na ausência da História dos Zelas, a amiga "inventou" uma história que tenho a certeza, anda à volta dos poucos factos históricos conhecidos.
Um abraço