terça-feira, 10 de setembro de 2013

ECOS DO MEU SENTIR -X-

Não lhe dês um pássaro, ensina-o a caçar.


Por: FILINTO MARTINS



                         «Está o lascivo e doce passarinho
                         Com o biquinho as penas ordenando,
                         O verso sem medida, alegre e brando,
                         Despedindo no rústico raminho.
                         O cruel caçador, que do caminho
                         Se vem calado e manso desviando
                         Com pronta vista a seta endireitando,
                         Lhe dá no estígio lago eterno ninho.»
                                                                                       Luís de Camões

            Dos tempos da minha meninice recordo-me de grandes caçadores – o tio Moreno, espingarda debaixo do braço, um cigarro no canto da boca e sua cadela perdigueira, perito na caça às perdizes… o Zé Tiago que cedo foi para terras de Santa Maria… o tio Manuel Frade, com faro apurado para coelhos e lebres, com o furão escondido debaixo do casaco, não fosse ele o regedor… meu pai que era o seu comparsa, quer na caça quer na sueca, naqueles dias de névoa “como boca de lobo”, com um galgo que teve uma morte infeliz… e tantos outros que caçavam mais no prato que no mato.
            A caça era algo importante, ora para satisfazer os desejos da carne e nada melhor que um produto biológico, ora para matar o tempo. Hoje é um desporto para ricos, naquele tempo a finalidade era bem outra.
            Havia no entanto outros caçadores, sem arma nem furão, mas com uma visão apurada e atenta ao voo dos pássaros para os seus ninhos, onde as pequenas crias de bicos abertos estavam sujeitas à “ave de rapina humana”.      
            Tempos que já lá vão, trabalhava-se nos campos, à jeira e a seco, pois era bom poupar uns tostões para ir à feira comprar umas botas, um reco …. Com frequência ouvia de meu pai uma história a respeito dos “indefesos”, que lhe dava um prazer em repeti-la.
À hora do almoço que se levava par o campo, cada um ia-se dispondo da melhor maneira, sacando do seu manjar, sacudindo as moscas, que também elas apareciam sem serem chamadas.


«Destapámos o cesto de D. Esteban donde surdiu um bodo grandioso, de presunto, anho, perdizes e outras viandas frias, que o ouro de duas nobres garrafas de Rioja aquecia com um calor de sol andaluz.»
Eça de Queirós

            -Ai, senhor Adriano! – exclamou o Conicho.
            - O que foi, homem? – Retorquiu meu pai, pensando que se tinha esquecido de algo.
            - A minha mulher não meteu os passarinhos…
            Da sua ementa fazia parte uma omelete, com o possível recheio de uns passarinhos que ele teria surripiado a uns pobres e indefesos. Que amargura! Enquanto cavava as batatas já ele salivara que nem o cão de Pavlov… agora comia a omelete de “xixa” gorda e com o pensamento bem distante as palavras saíram-lhe em surdina: “a minha mulher comeu-me os passarinhos”.

«No século XVIII, os monges de Belley, como outrora os sacerdotes em Mênfis, guardavam em segredo os princípios da ciência e o verdadeiro método de comer passarinhos.»
                                                                                                                      Lucien Tendret

            Era precisamente nesta altura que a ganapada, e não só, gostava de depenar as pobres avezinhas e satisfazer os apetites, ora numa rica omelete, ora num arroz malandrinho. Que outros prazeres havia? Muito poucos, pois as cerejas ainda verdes não atraíam homens, nem gaios.
            Se na Primavera e Verão o tempo ainda ia passando, pois os trabalhos eram muitos e não havia muito para pensar, o mesmo não sucedia no Inverno. A passarada ia para outras terras… apenas os pardais, sempre desconfiados tentavam aqui e ali roubar os grãos de centeio das galinhas.

«…os rouxinóis os fez Deus para cantarem e não para serem cozinhados em plangana e comidos, dizendo ainda por cima os comensais, a palitar os dentes, uns, que estavam bons, outros, que não prestavam…»
António F. de Castilho

            No Inverno ouvia com frequência uma outra história que meu pai muito gostava de relembrar. Eram vários os trabalhadores sazonais e outros que no tempo da guerra civil de Espanha se deslocavam para o nosso país. Ele assim narrava uma história passada à noite, quando os patrões já estavam deitados:
            - Meu amo, as perdizes del monte têm rabo?
            - Não.- Respondia-lhe o amo.
            - Esta, com o que tem de gordo, até o tem depenado. Assar e pingar, desta meu amo não há-de provar.
            - Ó meu amo, as perdizes del monte têm rabo?
            - Não.
            - Assar e pingar desta meu amo não há-de provar.
            - Ó meu amo, eu me marcho…
            - Ó mulher vai ver o que tem o criado… ele está mesmo mal.

            Não sendo eu espanhol, sabendo distinguir um perdigoto dum sapo, o que não sucedia com o dito espanhol, tentei ser um bom caçador de pardais, para ocupar os tempos de Inverno, tendo como companhia o meu sobrinho Orlando.
            Foi num desses dias de Inverno, que do Outeiro nem o Prado se avistava, que fixei os pardais no quintal a comer os grãos de centeio que minha mãe deitara às galinhas. Segredei para o meu sobrinho, como o Pilatos me ensinara a descobrir os ninhos de melro, quando andávamos com as vacas nas Bouças: “vamos ser caçadores sem espingarda nem furão”. Lá nisso o meu companheiro boieiro era um ás, como era na arte de ensinar a “capar grilos”.
            - Vamos ser mais espertos que os pardais, Orlando!
            - Como?
            Não havia tempo para explicações. Arranjámos baraços que atámos de forma a obter uma corda que desse para puxar de longe a porta do galinheiro, deixando-a entreaberta. Na entrada deitámos uns grãos de centeio, como isco, e dentro bem mais. De longe, quietos, vigiávamos os desconfiados que comiam o grão que ficou fora e depressa levantavam voo. Era preciso ter paciência… olho atento, silêncio… apenas o barulho das pingas que choravam das telhas. Até que enfim, acabou o grão fora, agora só dentro do galinheiro. Alguns entravam e imediatamente saíam desconfiados, poisando na rede que circundava o galinheiro. Como nada acontecia, voltam a encher o papo lá dentro… agora eram mais que as moscas. Foi neste momento que o baraço foi puxado e ficaram trancados dentro do mesmo. Era preciso entrar rapidamente e fechar a porta para os caçar à unha. A luta dentro era desigual, porém ao fim de pouco tempo já tinha em poder vários a que de imediato se apertava o pescoço, embora com as “botas engraxadas” tinha valido a pena.
            Agora era depenar, depenar… que muito aborrecia a Lúcia com tanta pena por ali espalhada.
O Orlando aprendeu, mas não comeu… caçou, depenou, destes ele não provou. 

11 comentários:

Fátima Pereira Stocker disse...

Filinto

Cá temos outra(s) história(s) magnificamente contada e preciosamente enriquecida com saborosas citações.

O seu pai, benza-o Deus, era muito bem apanhado quando se punha com as suas contas! E o Filinto? Herdou da sua mãe o gosto em pregar partidas? É que esta que pregou ao Orlando fez-me dar boas gargalhadas.

Beijos e muito obrigada

Anónimo disse...

Olá Tio,
Obrigado por esta lição de vida, mas não desculpa esta água que ainda me cai pelos cantos da boca.
Os tordos do telhado da Graça e Herculano, cassdos com ajuda do Manuel,Albino e Fernando, também não eram maus.
Obrigado por este teu lindo texto.

Até sempre

Orlando Martins

elvira carvalho disse...

Uma história interessante e muito bem contada. Histórias de outros tempos.
Um abraço e uma boa semana

Idanhense sonhadora disse...



Bela história , bem urdida , bem traçada ...Gostei
Beijinhos

César disse...

Muito boa narrativa. Obrigado pelo compartilhamento.
Eram outros tempos. Os pássaros eram extremamente arredios. Ao menor movimento já voavam para bem longe e faziam seus ninhos o mais escondidos possível dos olhos dos humanos. Quando, há quase 38 anos, cheguei por estas terras, o pardal ainda não era conhecido por aqui. Hoje são aos milhares e nem ligam mais a mínima para a presença de humanos.

Rui disse...

Sr. Filito obrigado por esta tão bem contada história que permite a quem, como eu, não conheceu o apogeu de Rebordainhos, vislumbrar as pessoas, o modo de viver, a comunidade e principalmente a alegria que era patente no nosso povoado serrano.

Rui Freixedelo

A. Fernandes disse...

Olá Primacho:

Seu comedor de passarinhos!
Pois é, aqueles tempos não eram para brincadeiras e tudo o que pudesse passar ao estreito era bem vindo. Hoje terias todos os ecologistas à perna. Também o passaredo parece que debandou. Os pesticidas são bem mais perigosos para a conservação das espécies do que uma inocente fritada.
Gostei mnuito da tua narrativa cinegética e já andava com saudades de uma bela história. O que não significa que não tenha apreciado as belas reportagens sobre as coisas que ainda vão acontecendo por essa nossa terra e das quais vou coleccionando as fotografias. Parabéns a todos os que vão mantendo vivo este blog abençoado, com destaque, como é de justiça, para a Fátima, a sua alma mater.

A. Fernandes

Augusta disse...

Filinto:
Belos histórias as que nos contas. Ao Orlando acontecia-lhe cada uma! E que bem me lembro de quando o meu pai chegava a casa, metia a mão no bolso e tirava de lá uns passarinhos. Eu gostava deles assados nas brasas com uma areia de sal. Sabiam que regalavam.
Beijinho e escreve mais. Nós gostamos

Céu disse...


Filinto,

Mais uma bela narrativa com que nos presenteias.
Fizeste-me lembrar quando garota em casa do meu tio Jaime, ele os apanhava e me dizia sorrindo: Toma, agora depena-os e com a tia, amanhai-os.
Naqueles tempos, havia tantos, que tocávamos uns latos velhos à volta do trigal, para os espantar.

Gostei muito do teu texto.

Bejinhos
Céu

Filinto disse...

Escrevi este pequeno texto, como um lenitivo, para o meu sobrinho Orlando. Acho que ele merece.
Merecia igualmente estas palavras o João, que infelizmente não tive o prazer de conhecer, pelo que fez por Rebordainhos, mais do que eu.
Já agora aproveito: amanhã é o dia do Divino Senhor dos Chãos. Lembro-me de irmos a pé, numa novena para pedir chuva... pelas Santas Engrácias (perdoem-me se não é o nome correto). Quantas saudades da feira dos seio e vinte de cada mês... comer um molete, os bois a correr, a carne a ser vendida... os tendeiros.
Uma imagem vale mais que cem palavras, pelas lindas fotos da Senhora da Serra... "Olha, quem não malhou que malhasse" - dizia a minha querida mãe.

Anónimo disse...

Há men