a cozinha

Se, por um desígnio qualquer, um
antepassado nosso do séc. XVII ressuscitasse na década de 60 do séc. XX e
entrasse no espaço daquela que fora a sua casa ficaria muito espantado? Duvido.
Prossigo, já se vê, com as casas.
Subindo a escaleira, que continua exterior, abriria o cancelo, aquela meia-porta que separa o espaço privado da casa do
espaço público. Se a casa não fosse sua, teria batido as palmas no fundo da
escaleira e gritado: “Ó da casa!” e
esperado pela eterna resposta: “Entre
quem é!”
Como no seu tempo, a velha porta de
tábuas mal unidas conservava-se aberta durante o dia, tendo a meio o carabelho de pau que serve para fechar
do lado de fora, anunciando que o dono está ausente. Entrando, e espreitando
para trás da porta, veria a tranca encostada
à parede e a tranca, porque fechava por dentro, continuava a ser o único
instrumento de protecção contra ladrões ou mandicantes de outro gabarito. Se,
no devir das gerações, algum descendente se quis mostrar mais rico do que os
vizinhos, no sítio do carabelho encontrou uma aldraba ou um garabito
de ferro e, talvez, também uma fechadura para chave grossa. Em todo o caso, uma abertura semi-circular no cancelo e na porta permitiam a livre entrada e saída do gato doméstico. Era a gateira.

Tal como outrora, mal transpôs a
porta, o nosso visitante viu-se na cozinha que o alto
escano dividia em duas partes: uma mais acolhedora, que era o
lar e outra de serviço. No lar pontuava
o lume aceso, fosse Verão ou Inverno. Sobre as brasas,
embarrado num cadeado ou num simples ferro suspenso da parede, o
caldeiro fumegava com a
bianda dos porcos. Estranharia o conteúdo,
porque batatas eram coisa que nunca tinha visto nos dias da sua vida, mas fora
isso quase tudo continuava familiar. Do escano largo, onde já ele se sentara e
onde fizera adormecer filhos e netos, pendia a mesa, embora se lembrasse que
era luxo que nem todas as casas possuíam. Em roda do lume, três ou quatro
trupeças. Um
rodilho de estopa sobre uma trupeça fazia dela a mesa das casas
menos abonadas. Em todas, no entanto, comia-se do mesmo prato redondo que era
de barro no seu tempo, mas agora era de esmalte, embora este que agora via se
mostrasse tão esbeiçado como aquele em que tomara as suas refeições. As
malgas, embora de barro vidrado,
continuavam com a mesma forma e a mesma função de dar a comer o caldo por último.
Embarrado na parede, e bem
enfuliçado pelo
muito uso, via o assador das castanhas e, ao lado, no
caniço, pilava-se uma saca de castanhas.
Encostada ao escano, na parte
mais próxima do lume, uma gabela de
lenha, ou uma mancheia de guiços, se
fosse tempo quente, asseguravam que o lume permaneceria aceso. O lume, atiçado pelo fole, fornecia
parte importante da luz que alumiava a noite, enquanto a outra parte era
fornecida pela candeia que, então,
cheirava a petróleo mas que, trezentos anos antes, cheirava a azeite. Em todo o
caso, continuava suspensa da parede ou pendurada num prego pregado no escano. Nas
noites longas de invernia, à luz das chamas e da candeia, feita a matança, os homens colocariam sobre os joelhos uma grossa gamela de madeira e, com um maço também de madeira,
pisariam o unto, o único tempero
para além do sal, que enrolariam numa bola branca perfeita. Enquanto isso, as mulheres fiavam o linho ou a lã, manobrando
agilmente a roca e o fuso, numa cadência ritmada e
extenuante para os braços. Porque a boca se secava de tanto molharem os dedos
que puxam o fio, as mulheres iam dando dentadas numa sumarenta maçã de inverno.
Noutros dias, as mesmas mulheres encheriam os potes com as partes certas do porco para delas fazerem os rijões (folhelhos ou de carne) que conservariam para todo o ano
mergulhados no próprio pingo, tudo isso colocado em altos barrinhões. Noutros dias ainda, debulhariam o milho que seria moído
em milhos no moinho mais próximo, ou
se conservaria em semente para semear no ano seguinte. Isto, o nosso visitante
achou mudado, porque no seu tempo, e em Rebordaínhos, de milho só havia o painço.
O que ele não estranhou nada, foi perceber que, durante as beladas, se contavam aos mais novos uma série de histórias
extraordinárias, nem que se continuavam a reunir os vizinhos das casas mais próximas
e a família mais chegada, mesmo que morasse noutro bairro. Tal como no seu
tempo, era assim que se transmitiam os ensinamentos necessários à vida em
comum e era da mesma forma, com uma singela oração, que se dava por terminado o serão.
Saindo do lar dirigiu-se para o lançadouro. Era coisa mais elaborada
do que o simples toco de pau do seu tempo: sobre uma plataforma que servia de
tapume à parte de baixo, as mulheres, usando uma colher comprida e funda lançavam
o caldo cozido ao lume num pote. Não se surpreendeu de ver colheres, que eram usuais, mas soltou um assobio de espanto ao reparar que, numa espécie de gaveta, além das navalhas havia garfos! É verdade que eram garfos de ferro, mas no tempo em que vivera, garfo era luxo só ao alcance das casas nobres ou dos burgueses endinheirados! Quando terminasse a refeição, sobre o lançadouro, seria colocado um barrinhão
de boca larga que serviria para lavar a louça, em água aquecida num caldeiro
sobre o lume. Essa água seria aproveitada para a bianda dos porcos, já porque a
fonte fosse longe de casa e os cântaros
e as romeias fossem difíceis de
alombar, já porque a água, que ficava engordurada, condimentava um pouquinho
mais o alimento das criaturas que moravam no andar de baixo. O lançadouro tinha
por cima uma prateleira com divisórias para os pratos e, acima dela, divisórias
com portas. Àquelas divisórias protegidas com porta de rede de malha fina chamávamos
mosqueiras, está-se mesmo a ver
porquê. Se sobrasse espaço por cima, duas ou três caldeiras de cobre bem luzentes faziam as vezes de atavios porque só esporadicamente eram usadas. Na parte de baixo do lançadouro, escondidos por detrás de uma cortina
garrida, guardavam-se todos os cacarelhos da
cozinha: os potes, os barrinhões dos rijões, o barrinhão de lavar a louça… Os
potes maiores, como os das alheiras, e os barrinhões de as fazer - ou a larga caldeira de cobre que também servia para o mesmo efeito -, por não
caberem naquele espaço, jaziam encostados a um canto. Talvez tenha sido isso
que mais surpreendeu o nosso antepassado do séc. XVII: então aquela novidade do
seu tempo, as alheiras, continuavam a fazer-se? E que bem cheiravam, assadinhas sobre a grelha de ferro, com pequenos pés para fazerem altura, colocada directamente sobre as brasas que a dona da casa, servindo-se da tenaz, puxara para fora do lume! E nem se esqueceram dos reizinhos para a a garotada!
Nas cozinhas maiores, do lado oposto ao do escano, havia ainda um banco baixo comprido que, embora servisse de assento quotidiano, era usado como base para a masseira onde se amassava o pão (e por pão sempre entendemos o centeio). Nessas cozinhas, uma embocadura tapada e saída da parede denunciava a presença do forno onde os enormes pães eram cozidos para sustentarem a família durante toda a semana. Um carolo de pão acabado de cozer (de preferência, a carocha), temperado com um fiozinho de azeite, era o manjar mais delicado que se podia comer.
_______________
Notas
1) Foi com enorme alegria que
escrevi este texto para o qual tive sempre presente a casa dos meus avós, a
casa de meus pais e a da tia Maria - enfim, as casas que povoam as minhas memórias
mais ternas. Enquanto escrevia, foi como se o tempo se tivesse suspendido e eu
estivesse, de novo, a conviver com todos eles.
2) Não falei do chupão porque já
o fiz no artigo anterior.