quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Actividades Económicas



I - AGRICULTURA

A FAMÍLIA DA SENHORA MARGARIDA




Hoje retomo o tema das actividades económicas da aldeia. Foram bastantes as pessoas que aceitaram falar comigo e, acredito, sentem-se um pouco defraudados por não verem nada publicado. A todos peço desculpa, lembrando, em minha defesa, que não foi por descaso e, muito menos, por desamor.

Porque a nossa terra faz parte do mundo rural, parece-me justo que inicie esta série referindo quem se dedica exclusivamente à agricultura e dela tira o seu sustento. De entre esses, destaco aqueles que devem ser os maiores proprietários: os herdeiros do sr. João Pires, ou sr. João Santo, como se preferir e a família não levará a mal.

Tudo somado, trabalham uma área de cerca de 62 hectares. A senhora Margarida é a cabeça de casal e tem no Toninho, o filho mais velho, o seu braço direito. Com eles, a tempo inteiro, também trabalha o Manuel, mas a Luísa e o Carlos não falham, ele nas férias porque está longe, em França; ela nas folgas e nas férias porque está mais perto, em Macedo.

Como acontece com todos na nossa terra, os muitos hectares desta família espalham-se por todo o termo da aldeia, o que acrescenta trabalho e despesa à produção. De acordo com a tradição, a castanha, a batata e o centeio são a principal fonte de rendimento, embora os tempos tenham dado nova feição ao trabalho. Possuem dois tractores, segadeira de feno, arrancadora de batatas, enfardadeira e outras máquinas que, se não substituem inteiramente a força humana, aliviam-na muito. Sem estas máquinas e sem poder contar com ninguém porque, no povo, quase só restam os velhos, seria impossível trabalhar área tão grande. Compensa ter tantas despesas com máquinas? Respondem que não, mas também não vêem grandes alternativas.

– “Ó mãe, está na hora de ir deitar as vacas!”, diz o Toninho, do cimo da magnífica escadaria de granito da casa. O cabelo revolto denuncia a sesta que acabou de dormir, costume há muito perdido nas cidades, mas tão necessário àqueles para quem o dia começa antes de o Sol arribar no céu. A senhora Margarida debagava uns erbanços que tinha a secar, pois é nessas tarefas, ou a fazer renda ou meia, que as mulheres de Rebordaínhos “dormem” a sesta, mas como os erbanços podem esperar e as vacas têm que comer, lá foi ela levá-las ao lameiro. Mal comparado, estas vacas são rainhas: da loje para o lameiro e do lameiro para a loje, percorrem as ruas da aldeia como majestades sereníssimas. Comem e descansam! Anda que no tempo do sr. João não era assim, não, que tinham que bulir muito! Estas são jungidas para semear nabal e batatas e para agradar a terra - meia dúzia de vezes, e pronto, está o ano feito!

O trabalho é muito. O Manuel ainda vai ao café, mas a mãe e os outros filhos nunca se vêem desocupados. Os dedos de conversa trocam-se enquanto descarregam o tractor, ou pelo caminho quando levam a vianda aos porcos. Mas não falham aos vizinhos se os encontram a braços com trabalhos mais pesados.

A casa, herdada do pai, foi arranjada e alargada, parecendo um palácio com as suas paredes brancas e janelas emolduradas em cantaria lavrada. O interesse de cada um confunde-se com o interesse de todos e, talvez por isso, vão conseguindo amealhar o bastante para terem conforto e desafogo. Se o mundo andasse direito, tanto esforço seria compensado com bastante lucro, mas como o mundo anda mais torto do que aquelas ervas engatadeiras que engatam pelos paus acima e lançam umas guias enroladas como rabo de porco, quem ganha são os intermediários que vendem caro como o lume aquilo que compraram por dez réis de mel coado.

“No tempo do meu pai, diz o Toninho e a mãe confirma, vendíamos o quilo do pão a 50$00 e a saca de adubo custava 600$00. Agora, pagam-nos o pão a 16 cêntimos e a saca de adubo custa 20 €! As batatas foram vendidas, este ano, a 10 cêntimos..." Basta fazer as contas para se perceber a dimensão do desprezo que tem sido dado à nossa agricultura. Devido a tais circunstâncias, aqueles que permanecem na terra, a trabalham e dela retiram o sustento merecem ser louvados e reconhecidos.

Fátima Stocker

8 comentários:

J. Stocker disse...

Fátima

Obrigado por não deixares parar os objectivos do blog, mesmo coma falta de tempo que eu melhor que ninguém sei que não chega.

J. Stocker disse...

Para a Srª. Margarida e família, os meus agradecimentos pela amizade que sempre demonstraram.

Um abraço grande para todosd

Augusta disse...

Aos vizinhos e amigos de sempre, um beijo. Nos momentos mais difíceis, souberam estar connosco, demonstrando uma enorme solidadriedade. Por tudo, um bem - haja a todos sem excepção.
Augusta

Olímpia disse...

Sempre tivemos muita sorte com os vizinhos e, a família da Srª Margarida, é um bom exemplo de como se consegue fazer boa vizinhança.
Apesar das inúmeras tarefas que sempre mantêm esta família ocupada, desde sempre souberam mostrar a sua solidariedade, mesmo nos momentos mais difíceis.
Por toda a amizade sempre demonstrada, o meu agradecimento para todos eles:
Srª Margarida,Toninho;Manel;Luísa e Carlos.
Mais uma vez, os parabéns à Fátima pelo seu constante empenhamento neste blog.
Bjos
Olímpia

Fátima disse...

João
Olímpia

Obrigada. Vai-se fazendo o que se pode na medida em que se pode.

António disse...

Olá Fátima:
Óptima ideia esta tua de começares a falar do presente e do que ainda se faz em Rebordainhos. Eu tenho falado do passado e dos ausentes, já que o presente se me tornou praticamente desconhecido, emigrante como sou, embora Bragança nem seja assim tão longe de Viseu.
É de continuar com a garra que te caracteriza. Força!

Ilda Martins disse...

Tomei conhecimento deste blog no "Artur" em Carviçais. O meu pai era de Rebordainhos, Acácio Martins, primo de António Pires. Cumprimentos para a Margarida e filhos. Parabéns por este espaço, gostei muito de navegar neste blog. Abraços, Ilda Martins.

Augusta disse...

Cara Ilda:
Quem é filho de gente de Rebordainhos, de Rebordainhos é. Por isso seja bem vinda a esta nossa casa. Espero que a partir de agora a veja tmbém como sua. Entregarei os seus cumprimentos à Sra Margarida.
Um abraço
Augusta Mata