terça-feira, 29 de julho de 2014

Passeio - 2014

Sei que já passou mais que uma semana mas, apesar disso, não poderia deixar passar em branco aqueles momentos de puro e amável convívio onde as amizades se estreiam, se relembram episódios do passado e se ensinam tradições aos mais novos para que, também eles um dia as transmitam a outros.
Deixo algumas imagens para  aqueles que impedidos de estarem presentes possam aproveitar um pouco do que nós vivemos.

Guimarães









Braga











Viana do Castelo





















São Bento da Porta Aberta





Chaves





















Como habitualmente o passeio terminou com um jogo de roda. Em abono da verdade, até tentámos dançar mais, mas as letras das canções já não eram recordadas por muitos. Há que fazer um esforço para as recordar.                                                                                                                                                     

Nota: Estamos a planear outro passeio. Desta vez  a pé percorrendo "caminhos da nossa aldeia" para visitar e, mais uma vez apreciar a beleza das nossas fragas: a do gato, do teixugo, a fraga grande... etc, etc. QUEM NOS QUER ACOMPANHAR? 

segunda-feira, 21 de julho de 2014

PENA UM, PENA DOIS, PENA TRÊS...

Nota prévia: previne-se os leitores de que o conteúdo deste artigo poderá não passar de um monte de lérias.


A galinha de aa papona
põe os ovos a abanar:
pena um
pena dois
pena três
pena quatro
pena cinco
pena seis
pena sete
pena ocho
Lembrais-vos deste jogo da nossa infância em que um garoto, com um cipó na mão, ia tocando os pés dos restantes jogadores? O pé em que acertasse o “pena ocho” era recolhido e o jogo terminava com a derrota do jogador que ficasse com um pé por recolher (ou os dois). Eu, para acrescentar a conta das penas, digo que tenho pena de não poder traduzir pela escrita a cadência em que eram ditas as palavras.
Tem-me dado bem que fazer este joguinho infantil e já gastei um ror de horas a pensar nele. Cismava com o “pena ocho”: que faria ali aquele número castelhano no meio de uma conta tão portuguesa? Cismava sobre quem poderia ser a “papona”? Cismava com o significado de “pena” e cismava também com a escrita, mas nisso já vós reparastes. Aqui vos deixo algumas reflexões, para que cismeis comigo.
 1 – “Real de a ocho”(1) é uma moeda de prata mandada cunhar por Filipe II (o nosso primeiro), assim designada por valer oito reais. Tornou-se uma moeda tão importante e de tão ampla circulação que, no nosso tempo, só o dólar se lhe pode comparar.
Filipe II, para poder tornar-se rei de Portugal, acenou com riquezas e prebendas a quem se pusesse por ele, de tal maneira que terá dito sobre Portugal: “lo herdé, lo compré y lo conquisté". As consequências sabemo-las bem: os sonhos de grandeza dos nossos grandes, que se venderam, rapidamente se esfumaram, porque, com o rei longe, perderam o estatuto e a possibilidade de o recuperar.
2 – Imaginemos então:
A criança com o cipó representaria Filipe II a prometer os reales (“põe os ovos a abanar”, isto é: vai acenando com riquezas) mas os de “a ocho” só calham a alguns;
Sendo Filipe II o agente, então, a “papona” seria Castela: papona por ser insaciável a sua fome de territórios (além da Espanha, metade da Itália, os Países Baixos, a América… e depois, Portugal com seu império). Também é possível entender a criança da varinha como sendo um dos embaixadores que, após a morte de D. Sebastião, tudo negociaram em Portugal em nome de Filipe II. Nesse caso, a papona será o próprio Filipe II, tornando a nomeada ainda mais acintosa, porque no feminino;
Mas a criança, em vez de “reales”, distribui “penas” e é aqui que bate o ponto! Se pensarmos em pena como “pedra” ou como “dó”, perceberemos o profundo significado anti-espanhol desta brincadeira infantil: o rei de Espanha, aos portugueses, só atira pedras (ou/e faz sofrer), sendo raros aqueles a quem toca um pouco de riqueza (ocho) e, também para esses, a riqueza é promessa vã, porque é “pena " e não real de a ocho.
3 – Temos então que, para mim, este joguinho aparentemente inocente é um libelo contra o domínio filipino e contra os portugueses que quiseram ver nele a galinha dos ovos de ouro. Rebordaínhos não poderia desmerecer dos pergaminhos nacionais...  
Isto não passa de um alvitre e gostaria muito de conhecer outras propostas de interpretação.
4 – Hesitei muito na escrita da primeira linha e optei por aquilo que lestes: “A galinha de aa papona”, assim, à maneira medieval. Por regra, uma vogal dobrada(2) era uma vogal que se pronunciava aberta. Com a evolução da língua deu-se a contracção e no caso do duplo “a” passou a escrever-se “à”. Mas eu escrevia “de à papona” e não gostava porque, no caso, aquele “à” parecia-me que significava proximidade (como em “bairro de à Chave”). Tentei nova contracção, com o “de” anterior, mas ficou pior: “da papona” não permite pronunciar o “a” aberto e nós dizemos, de facto, “d’à papona”. Como me desgostasse de todas as formas modernas, acolhi-me à versão medieval que é, afinal, aquela que os nossos pais ainda falaram.

A todos desejo muito boas férias. Passado manhã já estarei em Rebordaínhos.
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(1) Se reparardes bem, os exemplares dos reales de a ocho que vos apresento já incluem as quinas portuguesas.
(2) Veja-se, a título de exemplo, esta passagem de Fernão Lopes: Em outro dia tornou NunAllvarez per alli aa tarde, e achouha corregida muito aa sua voomtade (…) in Crónica de D. João I, Parte I cap. XXXVI).
Aproveito Fernão Lopes e o mesmo capítulo para vos dar conta de uma expressão que só nós, creio, continuamos a usar: “ir contra” ou “falar contra” alguém com o significado de ir ou falar em direcção a algo ou alguém: (…) sahiu Nuno Allvarz a folgar pella praya afumdo, comtra a egreja de samta Eirea(…)

domingo, 13 de julho de 2014

AS NOSSAS PALAVRAS

os baixos

2:  reservas para o sustento do ano


No meio de muitos farragachos que serviam para tudo e não prestavam para nada, nos baixos também se guardavam, além daqueles que referi no artigo anterior, apetrechos da maior utilidade. Refiro-me àqueles que eram usados no tratamento do linho. Assim, o maço para o pisar e fazer soltar a camada exterior; o sedeiro, qual cama de pregos de faquir oriental, para soltar os filamentos; a espadela para o espadelar sobre o cortiço, separando o linho da estopa enquanto lhe amansava a aspereza; o sarilho para fazer meadas das maçarocas tiradas dos fusos e, finalmente, a dobadoura para transformar a meada em novelo. Talvez por serem mais frágeis, ou porque precisassem de estar à mão porque fiar era trabalho que se ia fazendo, à roca e ao fuso era costume guardá-los dentro de casa.

A função primordial dos baixos era, porém, a de acolher os frutos do trabalho da família. Conforme as dimensões da casa, assim as da tulha, espécie de grande cubo com paredes feitas de tábua onde se armazenava o pão, palavra que, para nós, significa centeio. A tulha ia-se enchendo à medida que os malhadores traziam da eira as sacas cheias de grão que despejavam lá para dentro. Como lembrou o Filinto, as tábuas, que eram numeradas em letra romana, iam-se acrescentando umas às outras, à medida do que era necessário. Até os analfabetos sabiam colocá-las por ordem. Quando a altura já era muita, uma rasa virada ao contrário servia de degrau. No entanto, havia tulhas a que se acedia por um alçapão e, nesse caso, os malhadores tinham que se baixar para verter o grão.  E, porque “o trabalho de menino é pouco, mas quem o não aproveita é louco”, enquanto houvesse sacas a despejar, a garotada da casa não saía de dentro da tulha, fazendo da ocasião uma oportunidade diferente de brincar, ao mesmo tempo que distribuía regularmente o grão pelo espaço disponível. Como sabia bem aquele pisar e deixar-se afundar enquanto se sentia no corpo o toque macio e fresco do grão! Um “Cuidado, garotos!” era tudo quanto bastava para, no meio dos risos, nos afastarmos de mais uma saca que seria despejada.

O trigo, em vez de despejado, era conservado nas sacas de estopa que se punham em carrèlo encostadas à tulha. Era desse trigo que, uma vez moído, se faria o pão para as alheiras, a farinha para o folar e o pão alvo para os dias de festa.

Lá por Setembro era preciso abrir espaço para guardar as batatas, produto sensível que não quer ver luz, e que continuam a dar trabalho depois de arrecadadas. É preciso espalhá-las, i-las virando para que não apodreçam e ir-lhes tirando os grelos. Trabalho bem merecido, porque não há batatas que se comparem às de Rebordaínhos!

Embora a sua presença seja fugaz, porque quanto mais cedo for vendida menos peso perde e maior será o lucro do dono, a castanha também se arrecada no baixo à medida que é apanhada. Espera-se pelo comprador como por ave de arribação, e ele chega regateando o preço, insensível à desmesura do cansaço de quem as apanhou. É sempre ele quem leva a sua avante, sabedor da necessidade de quem quer vender.
A um canto encostava-se a salgadeira, em que a carne dos cevados da matança era posta a curar, depois de lhe serem retiradas todas as partes conservadas com método diferente (a dos enchidos e a dos rijões). Por vezes, o presunto saía da salgadeira para o fumeiro, mas, quer o presunto, quer a espádua e restante carne, acabavam embarrados nuns espetos de ferro cravados numa trave do baixo e protegidos com uma espécie de carapuço de lata para que os leirões (1) lhes não pudessem chegar. A chicha gorda era a que mais tempo se conservava naquele sal de pedras grossas, comprado às sacas.

Nos baixos de Rebordaínhos nota-se a ausência dos lagares do vinho e do azeite, pois a terra é tão agreste que os não produz. Contudo, porque a casa de um lavrador se não compadece com a falta desses bens, grandes pipas de vinho comprado nas terras mais quentes guardavam os almudes necessários aos gastos do ano. Perto do vinho, o azeite era mantido em cântaros que se enchiam daquele que se comprava ao azeiteiro que por lá passava amiúde.

Um baixo farto era o sossego das famílias de Rebordaínhos e a recompensa visível do muito trabalho de todo o ano. Quanto a mim, se estas coisas escrevo, é em louvor e agradecimento a nossos pais, os últimos de uma cepa de que já não somos feitos. 

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(1) Os forasteiros, por favor, não acreditem em qualquer dicionário: leirão é, para nós, um rato grande.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

CARTA A UM TIO QUE NÃO CONHECI [parte II ]



Sabe, tio, de vez em quando aparecem na nossa História uns figuros que se esticam todos para aparecerem na fotografia da guerra dos outros. Triste sina a deste povo que tem que obedecer à súcia dos gabinetes! Assim foi com a Grande Guerra, como ficaria conhecida aquela para onde o mandaram a si. Mal se percebeu que ia haver conflito, os nossos governantes decidiram que o mesmo povo que considerava incompetente para votar, por ser analfabeto, era competente bastante para manejar armas que nunca vira e para ser abatido pelas armas mais modernas de que não dispúnhamos, mas que os outros possuíam em abundância. Mesmo assim, no começo da guerra só tivemos umas escaramuças com os alemães, no sul de Angola e no Norte de Moçambique. Quanto à tão desejada intervenção na Europa, a Inglaterra pediu-nos que esperássemos, embora o fizesse por motivos pouco abonatórios do seu respeito para connosco. Mas a ideia da participação não desamparava aquelas cabeças e foi por esse motivo que começaram a organizar expedições para África. Imaginava o senhor a existência de tanta manha por detrás da sua mobilização? É verdade que estava em causa a manutenção das colónias, mas a razão mais funda residia na vaidade de querer que o regime republicano fosse reconhecido pela Europa, quase toda monárquica. Seria uma espécie de “tomai lá, monarquias, amanhai-vos com mais esta república mais radical do que a francesa!”

Folheio os jornais da época e nem acredito. Páginas e páginas dedicadas à guerra na Europa e um silêncio, poucas vezes quebrado, sobre aquilo que se passava em África. Soube, embora não pelos jornais, que a expedição que o tio integrava levava dois objectivos: conquistar Quionga, na foz do Rovuma, posto militar que os alemães ocupavam ilegalmente desde o séc. XIX e, de seguida, conquistar território alemão a Norte do mesmo rio. Talvez o senhor não soubesse mas, nessa altura, a Alemanha não tinha, ainda, declarado guerra a Portugal. Nem nós à Alemanha.

Distribuição dos efectivos portugueses na II expedição (no mapa estão representados os principais lugares do conflito em volta do RovumaO major de Artilharia, José Luís Moura Mendes, chefiava a sua expedição e foi a ele que competiu decidir da distribuição dos efectivos no terreno. Já referi que não pôde contar com informações nenhumas, nem com estradas abertas, nem com telegrafia sem fios (TSF) que assegurasse as comunicações entre os postos. Fez o melhor que soube, certamente: pensou nos quase 900 Km de extensão do rio Rovuma de que, praticamente, só se conhecia a costa, e decidiu-se pela constituição de dois sectores divididos por três locais, embora com maior concentração na região que vai do rio Lugenda até ao Oceano Índico. Entretanto, a soldadesca tinha motivos de sobra para se queixar: a margem Sul do Rovuma é área pantanosa, má de habitar devido às chuvas intensas que caem entre Novembro e Março e ao calor abrasador que se faz sentir em grande parte do ano. A farda que lhes vestiram não contemplava impermeáveis e as botas, de tão mau couro, rompiam-se com facilidade. Não havia saúde que resistisse a tamanha insalubridade e as doenças provocavam muitas baixas. A sede piorava tudo porque a água, que tinha que ser fervida e desinfectada, exalava um cheiro nauseabundo e sabia tão mal  que os soldados recusavam-se a bebê-la. Como lhe devia lembrar a frescura e a pureza da água da Fonte Grande!


Não sei para onde o mandaram a si, nem se participou na tomada de Quionga (11 de Abril de 1916) que os jornais de Lisboa noticiaram como grande façanha, mas que a si o teria feito soltar gargalhadas se não tivesse a alma tão desolada: a grande conquista foi, tão-só, uma ocupação porque os alemães já se tinham retirado, sabe-se lá quando. Se participou dos acontecimentos, significa que foi transportado de barco de Porto Amélia até Palma, sob o comando do major Portugal da Silveira. Se não, talvez tenha integrado o grupo daqueles que foram ocupando a margem Sul do Rovuma cujos maus ares tornaram inaptos mais de 500 homens em pouco tempo. Não sei se alguma vez se terá perguntado se aquilo que viu era a obra civilizadora de Portugal em África… Talvez não, até porque a missão civilizadora precisava de ter começado dentro de casa. O senhor certamente não se apercebeu disso, tais as diferenças entre Lisboa e Rebordaínhos, mas a verdade é que Lisboa era um atraso de vida quando comparada com as capitais europeias.

 Enquanto e não, as coisas tinham mudado: a pedido de Inglaterra, Portugal aprisionara os navios alemães ancorados na nossa costa. A 9 de Março seguinte, a Alemanha declarou-nos guerra e Portugal decidiu enviar soldados para a Flandres. Em África, a Alemanha tomou a iniciativa, partindo ao ataque. Se a mim me pesa o voluntarismo da decisão e a inconsciência daqueles que saíram à rua para a festejar (como em Bragança, por exemplo), para si foi o pico da tragédia. Que saudarão aquelas pessoas que vemos nas fotografias? Nunca conseguirei compreender tamanha insanidade.

Apesar das poucas comunicações, é provável que o tio tenha sabido da incompetência (procuro palavra mais adequada, mas não me ocorre) da actuação do cruzador Adamastor, chegado em Maio, integrando a terceira expedição. Não sei se pensaram que bastaria o nome para afugentar os alemães, ou que raio terá passado pela cabeça daquela gente do comando: como se estivessem a atracar no Tejo em tempo de paz, procuravam as embocaduras mais acessíveis sem cuidar de saber se, do lado de lá, havia alemães. Claro que havia! Isto aconteceu uma vez e muitas mais, sempre com o mesmo resultado: os nossos soldados eram mortos. Para que se há-de maçar quem manda, com manobras de cautela, se não falta carne para canhão?
  
Se sobreviveu à incúria das chefias e ao paludismo, apesar de enganado pelos comprimidos de farinha que a corrupção criminosa substituíra ao quinino, é provável que tenha participado dos avanços até Nevala e se tenha questionado sobre a razoabilidade de tudo aquilo. Ninguém lhe confidenciou que estavam a cumprir o segundo objectivo da expedição, mas a consciência forte de que as acções devem ter uma finalidade útil, tão presente nos transmontanos, há-de tê-lo posto a matutar: que sentido faz entrar na terra dos outros, desgastar os homens e fazê-los correr perigo, se os lugares tomados são para abandonar? Para quê o sacrifício? O desconchavo das ordens é desconsideração para com as pessoas. Imagino que sentisse muita raiva. Eu teria sentido. Se escreveu para casa a falar desses assuntos, é provável que as suas palavras tenham sido rasuradas, para que não pudessem ler-se, mas o mais certo é que a carta nunca tenha chegado ao destino.
 
Os alemães avançavam, chefiados pelo mítico Von Lettow que nunca sofreria derrotas porque sempre foi cuidadoso. Ele conhecia as forças e as fraquezas do adversário e tomava precauções. A confluência do rio Lugenda com o Rovuma serviu-lhe de ponto de partida para os ataques, traduzidos em surtidas rápidas porque, da guerra contra os portugueses, ele só queria não perder território e abastecer-se de alimentos e de armas. A guerra a sério travava-a contra as forças inglesas, bastante mais a Norte. Fomos, sistematicamente, desbaratados e Von Lettow, segundo o próprio afirma, dava sepultura aos que morriam. Àqueles que se rendiam em vez de fugirem em debandada, oficiais incluídos, desarmava-os e soltava-os sob a promessa de não voltarem a combater contra ele. À saída das povoações, semeava a cizânia contra os portugueses, convencendo a população indígena de que a Alemanha protegia o islamismo.

De Lisboa e do Governo-geral não cessavam as pressões. Queriam lá saber que as tropas estivessem famintas, exaustas e doentes. Ignoravam a realidade e eram indiferentes às necessidades dos soldados. Sei que o senhor, tio Honorato, tombou algures em Moçambique. Repugna-me pensar que o seu pudesse ser um daqueles corpos espalhados pela praia de Porto Amélia, mortos por falta de assistência médica, por entre os quais tiveram de escolher caminho, ao desembarcar, os homens da terceira expedição. Tenho, contudo, quase absoluta certeza de que, nem o senhor, nem os seus camaradas receberam o amparo espiritual de um sacerdote por causa das proibições que a República impôs à intervenção da Igreja nos assuntos do Estado. Os primeiros capelães só seriam enviados em 1918, já no fim da guerra. À frente do seu nome está aquela cruz alta da vida ceifada: 1915-1916. Leio e fere-me que nem sequer haja registo do lugar nem do modo como a sua juventude foi roubada. Nada sobre si, a não ser a inscrição do seu nome sobre o obelisco de mármore que a cidade de Bragança dedicou aos que tombaram na Grande Guerra (em desagravo pela euforia?) e a que chama “Principal”.

Às vezes, dou por mim a fazer um exercício esdrúxulo: olho as escassas fotografias que existem e procuro por si, como se pudesse identificá-lo! Exercício vão, mas que não contrario. E vou persistindo na quimera, porque as tragédias são mais reais quando lhes pomos rostos em cima.
  
Com muito carinho da sua sobrinha

Fátima


P.S. Cinquenta anos depois, embora com outro desfecho, felizmente, três sobrinhos seus, meus irmãos, viveriam situações semelhantes. O motivo era o mesmo, defender a Pátria, defendendo as colónias. “Malhas que o Império tece”, diria um poeta pouco mais velho do que o senhor...