Sabe, tio, de vez em quando
aparecem na nossa História uns figuros que se esticam todos para aparecerem na
fotografia da guerra dos outros. Triste sina a deste povo que tem que obedecer
à súcia dos gabinetes! Assim foi com a Grande Guerra, como ficaria conhecida
aquela para onde o mandaram a si. Mal se percebeu que ia haver conflito, os
nossos governantes decidiram que o mesmo povo que considerava incompetente para
votar, por ser analfabeto, era competente bastante para manejar armas que nunca
vira e para ser abatido pelas armas mais modernas de que não dispúnhamos, mas
que os outros possuíam em abundância. Mesmo assim, no começo da guerra só
tivemos umas escaramuças com os alemães, no sul de Angola e no Norte de
Moçambique. Quanto à tão desejada intervenção na Europa, a Inglaterra pediu-nos
que esperássemos, embora o fizesse por motivos pouco abonatórios do seu
respeito para connosco. Mas a ideia da participação não desamparava aquelas
cabeças e foi por esse motivo que começaram a organizar expedições para África.
Imaginava o senhor a existência de tanta manha por detrás da sua mobilização? É
verdade que estava em causa a manutenção das colónias, mas a razão mais funda
residia na vaidade de querer que o regime republicano fosse reconhecido pela
Europa, quase toda monárquica. Seria uma espécie de “tomai lá, monarquias,
amanhai-vos com mais esta república mais radical do que a francesa!”
Folheio os jornais da época e nem
acredito. Páginas e páginas dedicadas à guerra na Europa e um silêncio, poucas
vezes quebrado, sobre aquilo que se passava em África. Soube, embora não pelos
jornais, que a expedição que o tio integrava levava dois objectivos: conquistar
Quionga, na foz do Rovuma, posto militar que os alemães ocupavam ilegalmente
desde o séc. XIX e, de seguida, conquistar território alemão a Norte do mesmo
rio. Talvez o senhor não soubesse mas, nessa altura, a Alemanha não tinha,
ainda, declarado guerra a Portugal. Nem nós à Alemanha.

O major de Artilharia, José Luís
Moura Mendes, chefiava a sua expedição e foi a ele que competiu decidir da
distribuição dos efectivos no terreno. Já referi que não pôde contar com
informações nenhumas, nem com estradas abertas, nem com telegrafia sem fios
(TSF) que assegurasse as comunicações entre os postos. Fez o melhor que soube,
certamente: pensou nos quase
900
Km de extensão do rio Rovuma de que, praticamente, só se
conhecia a costa, e decidiu-se pela constituição de dois sectores divididos por
três locais, embora com maior concentração na região que vai do rio Lugenda até
ao Oceano Índico. Entretanto, a soldadesca tinha motivos de sobra para se
queixar: a margem Sul do Rovuma é área pantanosa, má de habitar devido às
chuvas intensas que caem entre Novembro e Março e ao calor abrasador que se faz
sentir em grande parte do ano. A farda que lhes vestiram não contemplava
impermeáveis e as botas, de tão mau couro, rompiam-se com facilidade. Não
havia saúde que resistisse a tamanha insalubridade e as doenças provocavam
muitas baixas. A sede piorava tudo porque a água, que tinha que ser fervida e
desinfectada, exalava um cheiro nauseabundo e sabia tão mal que os soldados recusavam-se a bebê-la. Como lhe devia
lembrar a frescura e a pureza da água da Fonte Grande!
Não sei para onde o mandaram a
si, nem se participou na tomada de Quionga (11 de Abril de 1916) que os jornais
de Lisboa noticiaram como grande façanha, mas que a si o teria feito soltar
gargalhadas se não tivesse a alma tão desolada: a grande conquista foi, tão-só,
uma ocupação porque os alemães já se tinham retirado, sabe-se lá quando. Se
participou dos acontecimentos, significa que foi transportado de barco de Porto
Amélia até Palma, sob o comando do major Portugal da Silveira. Se não, talvez tenha
integrado o grupo daqueles que foram ocupando a margem Sul do Rovuma cujos maus
ares tornaram inaptos mais de 500 homens em pouco tempo. Não sei se alguma vez
se terá perguntado se aquilo que viu era a obra civilizadora de Portugal em
África… Talvez não, até porque a missão civilizadora precisava de ter começado
dentro de casa. O senhor certamente não se apercebeu disso, tais as diferenças
entre Lisboa e Rebordaínhos, mas a verdade é que Lisboa era um atraso de vida
quando comparada com as capitais europeias.



Enquanto e não, as coisas tinham
mudado: a pedido de Inglaterra, Portugal aprisionara os navios alemães
ancorados na nossa costa. A 9 de Março seguinte, a Alemanha declarou-nos guerra e Portugal
decidiu enviar soldados para a Flandres. Em África, a Alemanha tomou a
iniciativa, partindo ao ataque. Se a mim me pesa o voluntarismo da decisão e a
inconsciência daqueles que saíram à rua para a festejar (como em Bragança, por
exemplo), para si foi o pico da tragédia. Que saudarão aquelas pessoas que
vemos nas fotografias? Nunca conseguirei compreender tamanha insanidade.
Apesar das poucas comunicações, é
provável que o tio tenha sabido da incompetência (procuro palavra mais
adequada, mas não me ocorre) da actuação do cruzador Adamastor, chegado em Maio,
integrando a terceira expedição. Não sei se pensaram que bastaria o nome para
afugentar os alemães, ou que raio terá passado pela cabeça daquela gente do
comando: como se estivessem a atracar no Tejo em tempo de paz, procuravam as
embocaduras mais acessíveis sem cuidar de saber se, do lado de lá, havia
alemães. Claro que havia! Isto aconteceu uma vez e muitas mais, sempre com o
mesmo resultado: os nossos soldados eram mortos. Para que se há-de maçar quem
manda, com manobras de cautela, se não falta carne para canhão?
Se sobreviveu à incúria das
chefias e ao paludismo, apesar de enganado pelos comprimidos de farinha que a
corrupção criminosa substituíra ao quinino, é provável que tenha participado
dos avanços até Nevala e se tenha questionado sobre a razoabilidade de tudo
aquilo. Ninguém lhe confidenciou que estavam a cumprir o segundo objectivo da
expedição, mas a consciência forte de que as acções devem ter uma finalidade
útil, tão presente nos transmontanos, há-de tê-lo posto a matutar: que sentido
faz entrar na terra dos outros, desgastar os homens e fazê-los correr perigo, se
os lugares tomados são para abandonar? Para quê o sacrifício? O desconchavo das
ordens é desconsideração para com as pessoas. Imagino que sentisse muita raiva.
Eu teria sentido. Se escreveu para casa a falar desses assuntos, é provável que
as suas palavras tenham sido rasuradas, para que não pudessem ler-se, mas o
mais certo é que a carta nunca tenha chegado ao destino.
Os alemães avançavam, chefiados
pelo mítico Von Lettow que nunca sofreria derrotas porque sempre foi cuidadoso.
Ele conhecia as forças e as fraquezas do adversário e tomava precauções. A
confluência do rio Lugenda com o Rovuma serviu-lhe de ponto de partida para os
ataques, traduzidos em surtidas rápidas porque, da guerra contra os
portugueses, ele só queria não perder território e abastecer-se de alimentos e
de armas. A guerra a sério travava-a contra as forças inglesas, bastante mais a
Norte. Fomos, sistematicamente, desbaratados e Von Lettow, segundo o próprio afirma,
dava sepultura aos que morriam. Àqueles que se rendiam em vez de fugirem em
debandada, oficiais incluídos, desarmava-os e soltava-os sob a promessa de não
voltarem a combater contra ele. À saída das povoações, semeava a cizânia contra
os portugueses, convencendo a população indígena de que a Alemanha protegia o
islamismo.
De Lisboa e do Governo-geral não
cessavam as pressões. Queriam lá saber que as tropas estivessem famintas,
exaustas e doentes. Ignoravam a realidade e eram indiferentes às necessidades
dos soldados. Sei que o senhor, tio Honorato, tombou algures em Moçambique. Repugna-me
pensar que o seu pudesse ser um daqueles corpos espalhados pela praia de Porto
Amélia, mortos por falta de assistência médica, por entre os quais tiveram de
escolher caminho, ao desembarcar, os homens da terceira expedição. Tenho,
contudo, quase absoluta certeza de que, nem o senhor, nem os seus camaradas
receberam o amparo espiritual de um sacerdote por causa das proibições que a
República impôs à intervenção da Igreja nos assuntos do Estado. Os primeiros
capelães só seriam enviados em 1918, já no fim da guerra. À frente do seu nome está
aquela cruz alta da vida ceifada: † 1915-1916. Leio e fere-me que nem sequer haja
registo do lugar nem do modo como a sua juventude foi roubada. Nada sobre si, a
não ser a inscrição do seu nome sobre o obelisco de mármore que a cidade de
Bragança dedicou aos que tombaram na Grande Guerra (em desagravo pela euforia?) e a que chama “Principal”.

Às vezes, dou por mim a fazer um
exercício esdrúxulo: olho as escassas fotografias que existem e procuro por si,
como se pudesse identificá-lo! Exercício vão, mas que não contrario. E vou
persistindo na quimera, porque as tragédias são mais reais quando lhes pomos
rostos em cima.
Com muito carinho da sua sobrinha
Fátima
P.S. Cinquenta anos depois,
embora com outro desfecho, felizmente, três sobrinhos seus, meus irmãos, viveriam situações
semelhantes. O motivo era o mesmo, defender a Pátria, defendendo as colónias.
“Malhas que o Império tece”, diria um poeta pouco mais velho do que o senhor...