domingo, 13 de julho de 2014

AS NOSSAS PALAVRAS

os baixos

2:  reservas para o sustento do ano


No meio de muitos farragachos que serviam para tudo e não prestavam para nada, nos baixos também se guardavam, além daqueles que referi no artigo anterior, apetrechos da maior utilidade. Refiro-me àqueles que eram usados no tratamento do linho. Assim, o maço para o pisar e fazer soltar a camada exterior; o sedeiro, qual cama de pregos de faquir oriental, para soltar os filamentos; a espadela para o espadelar sobre o cortiço, separando o linho da estopa enquanto lhe amansava a aspereza; o sarilho para fazer meadas das maçarocas tiradas dos fusos e, finalmente, a dobadoura para transformar a meada em novelo. Talvez por serem mais frágeis, ou porque precisassem de estar à mão porque fiar era trabalho que se ia fazendo, à roca e ao fuso era costume guardá-los dentro de casa.

A função primordial dos baixos era, porém, a de acolher os frutos do trabalho da família. Conforme as dimensões da casa, assim as da tulha, espécie de grande cubo com paredes feitas de tábua onde se armazenava o pão, palavra que, para nós, significa centeio. A tulha ia-se enchendo à medida que os malhadores traziam da eira as sacas cheias de grão que despejavam lá para dentro. Como lembrou o Filinto, as tábuas, que eram numeradas em letra romana, iam-se acrescentando umas às outras, à medida do que era necessário. Até os analfabetos sabiam colocá-las por ordem. Quando a altura já era muita, uma rasa virada ao contrário servia de degrau. No entanto, havia tulhas a que se acedia por um alçapão e, nesse caso, os malhadores tinham que se baixar para verter o grão.  E, porque “o trabalho de menino é pouco, mas quem o não aproveita é louco”, enquanto houvesse sacas a despejar, a garotada da casa não saía de dentro da tulha, fazendo da ocasião uma oportunidade diferente de brincar, ao mesmo tempo que distribuía regularmente o grão pelo espaço disponível. Como sabia bem aquele pisar e deixar-se afundar enquanto se sentia no corpo o toque macio e fresco do grão! Um “Cuidado, garotos!” era tudo quanto bastava para, no meio dos risos, nos afastarmos de mais uma saca que seria despejada.

O trigo, em vez de despejado, era conservado nas sacas de estopa que se punham em carrèlo encostadas à tulha. Era desse trigo que, uma vez moído, se faria o pão para as alheiras, a farinha para o folar e o pão alvo para os dias de festa.

Lá por Setembro era preciso abrir espaço para guardar as batatas, produto sensível que não quer ver luz, e que continuam a dar trabalho depois de arrecadadas. É preciso espalhá-las, i-las virando para que não apodreçam e ir-lhes tirando os grelos. Trabalho bem merecido, porque não há batatas que se comparem às de Rebordaínhos!

Embora a sua presença seja fugaz, porque quanto mais cedo for vendida menos peso perde e maior será o lucro do dono, a castanha também se arrecada no baixo à medida que é apanhada. Espera-se pelo comprador como por ave de arribação, e ele chega regateando o preço, insensível à desmesura do cansaço de quem as apanhou. É sempre ele quem leva a sua avante, sabedor da necessidade de quem quer vender.
A um canto encostava-se a salgadeira, em que a carne dos cevados da matança era posta a curar, depois de lhe serem retiradas todas as partes conservadas com método diferente (a dos enchidos e a dos rijões). Por vezes, o presunto saía da salgadeira para o fumeiro, mas, quer o presunto, quer a espádua e restante carne, acabavam embarrados nuns espetos de ferro cravados numa trave do baixo e protegidos com uma espécie de carapuço de lata para que os leirões (1) lhes não pudessem chegar. A chicha gorda era a que mais tempo se conservava naquele sal de pedras grossas, comprado às sacas.

Nos baixos de Rebordaínhos nota-se a ausência dos lagares do vinho e do azeite, pois a terra é tão agreste que os não produz. Contudo, porque a casa de um lavrador se não compadece com a falta desses bens, grandes pipas de vinho comprado nas terras mais quentes guardavam os almudes necessários aos gastos do ano. Perto do vinho, o azeite era mantido em cântaros que se enchiam daquele que se comprava ao azeiteiro que por lá passava amiúde.

Um baixo farto era o sossego das famílias de Rebordaínhos e a recompensa visível do muito trabalho de todo o ano. Quanto a mim, se estas coisas escrevo, é em louvor e agradecimento a nossos pais, os últimos de uma cepa de que já não somos feitos. 

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(1) Os forasteiros, por favor, não acreditem em qualquer dicionário: leirão é, para nós, um rato grande.

8 comentários:

antonio disse...

Fátima: é mais um texto elucidativo das coisas simples, mas de tão grande utilidade, para os agricultores dos tempos das nossas recordações! A descrição é perfeita; quantas saudades nos deixam essas tulhas, (dos que as tinham) os mais pobres eram arcas que não davam para “nadar”… O pipo, simboliza apenas, ( até parece nunca ter sido usado) as grandes pipas que entravam para a taberna do tio António (trocho) e do Álvaro, com 50 ou 60 “almudes”… ainda guardamos uma de 70 na adega do meu sogro que foi trocada na taberna de cima por três de 20, porque as dificuldades eram grandes para a colocar na retaguarda da taberna…
Quanto aos restantes utensílios, é bom revê-los, apesar de guardar apenas recordações da roca do fuso e da “dobadoura”, mas todos os outros ainda existem num canto perdido legado à minha esposa.
Como dizes, apesar de não ser terra de vinho nem de azeite, beberam-se uns “quartilhos” bem bebidos nas tascas, enquanto se jogava a sueca ou chincalhão, nas tardes e noites invernais, contando os tostões e gracejando entre pessoas de honra…
O azeiteiro também passava regularmente com a mula e os “botos” de pele, nas “alforges” nos quais transportavam a azeite, vendendo-o segundo as posses do comprador…
Gostei. Parabéns e obrigado. Beijos

Fátima Pereira Stocker disse...

Tonho

Infelizmente, tive de me socorrer da Internet para ter uma imagem da pipa. Tem ar de nova, sim, mas as alternativas usadas que encontrei tinham um ar tão mauzinho que as não quis.

Tens razão naquilo que dizes: infelizmente, nem todas as casas tinham tulha, e eu às vezes esqueço-me disso.

Em casa da tua avó Francisca havia, de certeza, os artefactos do linho. Naquele tempo, toda a gente o fabricava (informação da minha irmã Amélia), embora eu só me lembre de ver a minha mãe a trabalhá-lo.

Beijos e obrigada

Rebordas disse...

Obrigado Fátima por seres uma enciclopédia viva e atuante e nos fazeres relembrar tantas coisas que estavam entulhadas num lugarzinho meio obscuro da massa encefálica!!! Lembro de todos esses objetos, mas os nomes deles já estavam esquecidos.
Também lembro de ter visto o linho no terreno que existe por cima da fonte do pelourinho quase logo que nos mudámos para Rebordainhos. Eu tinha no máximo uns seis ou sete anos.
Grato pelas lembranças e também por partilhares conosco teus conhecimentos e tempo.
César

Fátima Pereira Stocker disse...

Rebordas

Esse linho espalhado que vias já devia estar a secar, depois de demolhado. Escrever sobre os trabalhos é uma ideia que tenho: logo se vê se e quando a concretizo.

Sou eu que te agradeço.

Beijos

Filinto disse...

Belo texto, Fátima, como já vem sendo hábito. Se no Porto há um "linguajar" próprio, tu ajudas a reviver os nossos pais e avós, com os farragachos de então. As tulhas então eram um centro escuro de brincadeira e ... Quando se levava com o saco em cima era uma alegria.
Enquanto andei a apanhar sacos para a tulha do que mais gostava era daquelas em que se despejava por um alçapão. Não era preciso subir à rasa que púnhamos quando as tábuas numeradas em letra romana começavam a subir. Até os analfabetos sabiam colocá-las por ordem.
Saudações dum conterrâneo que da última vez que andou a apanhar sacos foi na malha do tio Eurico e o Toninho e o tio Hermínio foram parar à urgência do hospital de Bragança.
Filinto

Chanesco disse...

Fátima

Mais uma lição de "usos e costumes" na linha das anteriores.

Digo que entre nós, Beirões, por pão, na generalidade, é designado o trigo.

Abraço

Fátima Pereira Stocker disse...

Filinto

Estou-te muito grata pelos acrescentos que fizeste e de que me tinha esquecido: as tábuas que se iam acrescentando e a rasa a servir de degrau. Vou acrescentar ao texto.

Suponho que a ida ao hospital terá sido por causa do vinho com ovos, não?

Beijos

Fátima Pereira Stocker disse...

Chanesco

Efectivamente, cada terra com seu uso.

Beijos e boas férias