domingo, 11 de maio de 2008

António Martins


Fotografia de Raul Coelho tirada de Olhares.com

Nesta belíssima fotografia, tirada em 2006, vemos o tio António Martins, ou António Piloto como todos o conhecem no povo, figura muito querida por toda a gente da aldeia.

O tio Piloto é casado com a tia Maria, que é da Graça, mas a quem todos chamam a Fecisma, alcunha que herdou do nome adulterado de sua mãe. Ambos trabalharam muito, cultivando as suas terras. Fizeram-no quase sempre sem recurso a máquinas, com as próprias mãos armadas de enxadas e amparados pela junta de vacas, numa labuta tremenda. Era na extensão do trabalho que se distinguiam dos vizinhos.

No Verão também eu me fazia vizinho e, quase sempre, antes das cinco da madrugada, era ouvi-los a falar um com o outro e com os animais (porcos, coelhos, galinhas):

- Reco, reco... anda lá p'ra trás, ladrão! Ó Antonho, ajuda-me aqui a abrir a porta dos porcos!

Pouco depois, já saíam com o carro para o trabalho e aquele chiar melancólico era, para mim, como o último toque do despertador.

Como todo o povo, cultivavam pão e trigo, linguagem que o aldeão transmontano sabe interpretar. Mas o seu orgulho maior eram as batatas. Terras e terras cheias delas certificadas.

- "Houve um ano em que fizeram um concurso e eu concorri. Fiquei em segundo lugar. Vê lá bem: em Portugal inteiro só houve um homem que produziu mais batatas do que eu. E éramos 800 a concorrer!

- "Era muito trabalho! Mas eu gostava daquilo!" – A luz que lhe ilumina o olhar confirma, uma por uma, cada palavra que profere.

O tio António, junto aos seus silos, no ano do concurso dos produtores de batata. Teve direito a uma deslocação da gente do cinema de Lisboa que lhe ofereceu a fotografia.

Hoje, o tio António já não tem a sua junta de vacas. Nem consigo imaginar o quanto lhe deve ter custado desfazer-se dos animais, ele que falava da cria como se de pessoas sábias e inteligentes se tratasse. "Compreendem tudo", dizia, "aprendem tudo; quase já não é preciso mandá-las!" Mas a idade, que dá passos mais largos do que as nossas pernas e chega mais depressa do que os sonhos concretizados, assim o exigiu e o tio António resignou-se a trabalhar menos.

O tio António foi Presidente da Junta de Rebordaínhos e nunca recebeu um tostão por isso. Chegada a idade, e tentando acrescentar alguma coisa à reforma, o regime, que devia ser justo para se chamar democrático, respondeu-lhe que, para poder acrescentar a reforma, tinha de proceder aos descontos devidos. De que vencimento, é que lhe não souberam dizer!

O tio António é homem de poucas letras mas de muito saber e argúcia. Onde outros viam obstáculos, ele tentava vislumbrar oportunidades. Por ser assim é que se decidiu, há mais de cinquenta anos, a escrever a Salazar. “Tu és maluco” – diziam-lhe – “ele nem vai ler a carta”; “nem sequer sabes a direcção para onde escrever!” Nenhum argumento o demoveu, convencido que estava desta verdade: “nada temos a perder.” Dando uso à perfeita caligrafia que os senhores professores sempre exigiram e que as circunstâncias impunham, lá disse ao Presidente do Conselho que a igreja paroquial de Rebordaínhos ruíra; que o povo tirou do descanso e do bolso magro o necessário para a reconstruir, que a obra, não lha podendo mostrar, acreditasse nele, embora sem luxos, orgulhava qualquer um, mas que faltavam cinquenta contos para dar o trabalho por findo. Pouco tempo depois, o dinheiro aparecia e o povo pôde voltar reunir-se com o Senhor num lugar digno de ambos.

O tio Piloto e a tia Maria criaram cinco filhos que mandaram estudar para Lisboa, que por lá ficaram, mas que visitam os pais sempre que podem, trazendo consigo os seus filhos.

Quem olhar atentamente para a fotografia que abre este artigo reparará que, entre a casa e o carro de bois, se vê a cabeça da tia Maria. Preocupado com o carro de bois, o mais certo é que o fotógrafo nem sequer tenha reparado que estava a captar uma realidade antiga, quase intemporal: a realidade da mulher aldeã, sempre a trabalhar, dividindo as horas do dia entre duas labutas, a da casa e a da terra.

Muito do êxito do tio Piloto vem-lhe da força e do querer da tia Maria, mulher que nunca andou devagar e cujas mãos nunca se viram paradas. Camisolas, meotes de lã ou de linha, vestidos das raparigas ou calções dos rapazes, tudo saía das suas mãos habilidosas e do seu muito bom gosto, tudo feito durante os longos serões de Inverno, em sua casa ou na dos Fouces seus vizinhos e parentes. E as mãos que davam corpo a tamanhas belezas eram as mesmas que, durante o dia, espalhavam estrume, apanhavam batatas e agarravam na enxada para arrancar ervas daninhas. Depois de muito bem lavadas, nos dias ou no tempo certo, coziam o pão e tratavam do fumeiro, alimentando a família com fartura.





A Tia Maria e o seu delicioso fumeiro

Fotografia tirada pela Olímpia (Natal de 2007)





No passado dia 15 de Março, o tio António completou 81 anos. Num gesto pleno de beleza, o seu filho Zé (que fazia anos no dia seguinte) decidiu homenagear o pai e convidou a família e os amigos para o jantar de inauguração do seu hotel em Mondim de Basto, data que fez coincidir com a do aniversário do pai. A emoção foi geral e constante. Hotel com tais começos, bem merece que o futuro lhe sorria!

O tio António, a tia Maria e três dos seus filhos: Orlando, Maria Augusta e Zé (sentado). Fotografia tirada pela neta Ana.

Nota: as palavras sublinhadas são ligações. Basta um clique sobre elas para que se abra a página sugerida. Em todo o caso, fica aqui o endereço do hotel do Zé em Mondim de Basto:

http://www.aguahotels.pt/


Fátima e João Stocker

20 comentários:

J. Stocker disse...

Gostaria de dar o seu a seu dono!

A ideia e a estruturação do Post foi minha, mas a publicação só foi possível com a ajuda da Fátima.

Obrigado Fátima

Anónimo disse...

O tio António e a tia Maria são pessoas muito queridas para nós. Desde sempre nos habituàmos a conviver com eles, a entrar e sair de sua casa, a passar o serão à sua lareira, enquanto eles o passavam na nossa.
Os filhos bem podem ter orgulho nos pais que ainda têm (e eu sei que, do mais velho ao mais novo, esta é uma verdade incontestável).
naqueles tempos, o bairro das pedras era cheio de gente, e de alegria. Hoje...entristece-nos ver tantas casas de portas fechadas!
Bem, mas permitam-me lançar um desafio às gentes de Rebordaínhos - e sei que já são vários a visitar este blog -: todos nós conhecemos histórias de vida que não ficavam nada mal aqui publicadas, e que de certeza ilustram muito bem a força, a vontade e a persistência das gentes da nossa terra.
Parabéns, mana e cunhado.
Parabéns aos cinco filhos do tio António e da tia Maria
Augusta

Fátima disse...

O artigo refere-se essencialmente às pessoas que são o tio António e a tia Maria. Mas muito haveria para acrescentar.

Da tia Maria, só os ditos que arranja eram bastantes para um livro inteiro. "Mas como caçar-lhe" a voz e a expressão?

Do tio António, Presidente da Junta, ficou por dizer que foi da sua responsabilidade e iniciativa, o processo de canalização da água, mais uma vez a expensas do povo, embora contasse com os materiais da Câmara; que foi num dos seus mandatos que se iniciou o processo de electrificação da aldeia, etc.

É de destacar que o tio António sucedeu na Presidência da Junta ao Sr. Professor que, provavelmente, ainda o via como o "seu aluno". Contou-me ele que não foi só uma, nem duas, as vezes em que teve que lhe dizer: "Sr. Professor, olhe que o Presidente, agora, sou eu!"

É também por estas que se vê o carácter de uma pessoa.

Anónimo disse...

Quebrei-me neste profundo olhar do ser Transmontano, verguei-me à realidade de tantos que o viveram.
Com uma lágrima, salgada e fria, pela transparência destes olhares, recordei um poeta que, em parte, o citarei por eles, não na condição de emigrantes, mas tão só pela realidade da vida.

"VÃO-SE OS HOMENS DESTA TERRA

Vão-se os Homens desta terra
Aqui fumavam seu tabaco
Aqui esperavam desesperavam
Aqui bebiam seu vinho
Tinham mulheres. Batiam-lhes. Amavam-nas
Com o corpo mais que com palavras
Com ternura com raiva
Que são assim os Homens desta terra:.........

Para que a terra fosse verde
As mãos envelheceram:
Ficaram da dor da terra
Ficaram da cor do vento.
Aqui moravam.
Fluíam no fluir das estações.
Com seus arados lavravam ternamente ferozmente
Assim como quem ama
Assim como quem morre
Gota a gota espiga a espiga.
........"

Manuel Alegre

Antimor Gladius
2008-05-12

Augusta disse...

Para além disso, convém também referir que, pelo menos parte do terreno onde foi construída a nossa escola, foi doada pelo tio António e pela tia Maria. Desconheço, se foi todo o terreno, ou se foi apenas parte dele. Não importa. Importa sim, é que a atitude altruista que tiveram, possibilitaram-nos o início da nossa escolaridade. Também por isso, publicamente, lhes endereço os meus reconhecidos agradecimentos
Augusta

Fátima disse...

Augusta

Pois tens muita razão. Esqueci-me e não devia! Foi apenas parte do terreno (conversei com o Orlando há dias), mas a atitude é de uma generosidade enorme. Obrigada pelo reparo.

Augusta disse...

perdão pelo português.
em vez de possibilitaram-nos, leia-se possibilitou-nos.
Será do acordo?

Fátima disse...

Ex.mo sr. Antimor Gladius

Ora bem-haja porque em vez de digladiar acrescentou. E logo Manuel Alegre!

Do poema citado não gosto deste verso: "Tinham mulheres. Batiam-lhes. Amavam-nas...". É verdadeiro para grande parte do País, mas em Rebordaínhos os da minha geração conviveram pouco com essa triste realidade. Que me lembre, só três homens batiam em suas mulheres e eram criticados pelo povo todo.

O bater nos filhos, aquele bater ruim (diferente do sacudir do pó), no dizer da tia Maria, acabou com os da sua geração. Nas suas palavras de observadora atenta, "os homens de agora [entenda-se: os da sua geração, do meu pai, etc.) já não são maus para os filhos como eram dantes. Dantes eram mim maus: metiam-se na taberna a jogar e a beber e depois os filhos é que as pagavam. E as mulheres que, às vezes, sabe Deus como se viam para dar de comer aos filhos! Os de agora não, são raros os que o fazem"

O que aconteceu em Rebordaínhos para que se desse tal mudança? Não faço ideia. A emigração não foi, certamente, porque é posterior. Foi, talvez, a coincidência de ter nascido tanta gente boa na geração deles.

Mas o poema de Manuel Alegre é mais longo. Diz muito mais, mas cito apenas isto:

"Plantaram filhos batatas
por cada espiga sangraram
ficaram por cada espiga
às vezes da cor da terra
às vezes da cor do vento.
E de tudo o que plantaram
as mãos dos homens colheram
sombras sombras sombras.
Às vezes uma rosa.
Às vezes coisa nenhuma."

***
Já agora, continuando com Manuel Alegre:

"Nasci em Maio (...)
E todos os anos, quando chegava o mês de Maio, ou mais exactamente, no dia doze de Maio, às dez e um quarto da manhã (que foi a hora em que eu nasci), a minha mãe abria a porta do meu quarto, acordava-me com um beijo e colocava numa jarra um ramo de rosas vermelhas(...).

Por iso, em Maio de 1963, eu estava na cadeia (...).
No dia doze, não acordei com o beijo da minha mãe.
Porém,nessa manhã (não posso dizer ao certo porque não tinha relógio, mas talvez - quem sabe? - às dez e um quarto, que foi a hora em que eu nasci), o carcereiro abriu a porta e entrgou-me, já aberta, uma carta de minha mãe. E ao desdobrar as folhas que vinham dentro do sobrescrito violado, a pétala vermelha, de uma rosa, de uma rosa vermelha, caiu, como uma lágrima de sangue, no chão da minha cela."

[in introdução à "Praça da Canção)

A citação vem pouco a propósito, mas já que foi buscar o Manuel Alegre...

Obrigada pela sua contribuição, transmontano Antimor Gladius.

Fátima disse...

Augusta

Como vês, não és só tu: eu primo por abrir os parêntesis rectos e depois fechá-los curvos!!!

Não será do acordo, que ainda não entrou em vigor, mas da raiva ao acordo já não digo que não!

Beijos

Porca da Vila disse...

Adorei a descrição, a fazer-me lembrar os tempos em que eu, garota com 7 ou 8 anos, vivia cenas parecidas em Samil e Rebordãos quando para lá ia passar uns dias nas férias.

Devo dizer que com um fumeiro daqueles sempre à mão, mesmo a pedir 'tirai-me daqui', bem podia o tio António 'fabricar' batatas até mais não! Assim também eu! HeHe!

Agora mais a sério, porque lhos poderão um dia transmitir, deixo aqui os meus parabéns ao Zé, proprietário do hotel [fui ver o 'site']. Não pelo serviço, que não conheço, mas pela obra em si. Vejo ali qualidade arquitectónica pouco comum, quer em terras como Mondim, onde estive pela última vez haverá mais de vinte anos, quer em terras bem maiores e pretensamente mais importantes deste país. Parabéns.

Um Xi Grande

Fátima disse...

Caríssima PV

Pois não é mesmo? Umas batatinhas cozidas com grelos e uma chouriça ou alheira...

O Zé vai saber do seu elogio, que também agradeço. Para a semana, ele estará apto a ler por si próprio.

Um abraço

poesianopopular disse...

Amigos
Se Portugal ainda se mantem vivo,é porque ainda existem algumas tias Marias, e alguns tios Antonios, verdadeiros exemplos do "querer é poder"lutando uma vida inteira contra todas as adversidades, as mãos desses obreiros, são como um tezouro, como eu admiro,e respeito estas pessoas.
Bem hajam.
abraço
Manangão

Fatima disse...

Caro Manangão

Sábias palavras, as suas. Bem-haja por elas.

Um abraço

Anónimo disse...

Cara amiga Fátima.

Gostei deste teu complemento ao meu comentário.

Libertas-te os recalcamentos escondidos, abriste espaço ao debate, continuaste..., e bem.

Nada vem fora de tempo, nem a análise contemporânia, nem a crítica fora dele, transformaste a palavra na mais linda relação interpessoal.

Pelo que, se, nas marcas que deixares, conseguires transmitir o eco da liberdade, posso te dizer que...
Valeu a pena.

Obrigado.

Antimor Gladius

Fátima disse...

Meu caro Antimor Gladius,

muito me praz o progresso no tratamento que já chega ao tu! Assim seja, pois, e descansa que te não aplico a resposta que o Pina Manique deu a um certo duque!

A despropósito, mas se te queres rir com gosto, podes ler a dita carta em:

http://urzeira.blogspot.com

Indo ao assunto: gostaria muito que alguém me contradissesse ou, lançando mão das memórias, próprias ou ouvidas, confirmasse aquilo que escrevi.

Nós somos uma geração que já tem outro entendimento da violência: há que saber reflectir em função do tempo. Provavelmente, para nós, as nalgadas dadas pelas mães, vistas pelos nossos olhos de hoje, são violentas. Talvez mais, ainda, se compararmos com as nenhumas que demos aos nossos filhos. Não perfilho essa ideia, porque penso nas ninhadas que havia dentro de cada casa, na exaustão das nossas mães e nas nossas brincadeiras, às vezes, tão perigosas. Lembro-me, ainda, dos pedidos de calma feitos pela minha mãe à tia Maria e vice/versa. Contrariamente, lembro-me também de as ver, e a outras mulheres, porem-se à frente de outras mães e de outros pais porque estavam a exagerar na dose. A elas nunca lhes vi cintos nem cordas nas mãos, mas vi isso tudo nas mãos de outros. Esses eram os tais que também batiam nas mulheres.

Este meu acrescento sugere-te alguma reacção?

Obrigada pelas tuas palavras.

Olímpia disse...

Passam as folhas do calendário e, de repente sabemos que apenas com o virar da última, os anos vão passando.E passam a correr.A infância desliza mais rápida do que a água e, dum momento para o outro, tornamos-nos adultos.Mas, no percurso da vida, há modelos e referências que não se esquecem e, ficam desenhados num quadro em perfeita combinação de cores.
O tio António e a tia Maria (e todos os seus filhos), enquadram- -se em harmonia total, nas cores mais bonitas e brilhantes da minha infância.
Com eles, partilhei alegrias e alguns dissabores da vida.Por todos eles fui ouvida, apoiada e compreendida.
O tio António, homem sensato e cauteloso, não desperdiça uma bela conversa.Detentor da palavra fácil, é com grande encantamento que nós nos tornamos muitas vezes, atentos espectadores das suas longas narrações.
A tia Maria, é franca , divertida e,seja qual fôr a ocasião, não desperdiça uma bela crítica.A ela devo, momentos hilariantes e divertidos.Mas, é também a ela que, após a morte dos meus pais, devo a sensação de ter chegado a casa, quando visito Rebordaínhos.
E, após todos estes anos, os momentos que tive o prazer de com eles partilhar, são motivo de reflexão e têm agora um sabor especial e um grande sorriso de magia.

Anónimo disse...

Olha que tu, Liloto... Começa lá mas é a publicar alguma coisita, pois, pela amostra apresentada, bem merece ser publicada. Deixa-te lá de "mesuras", e... mãos à obra!
Augusta

Olímpia disse...

Obrigada Augusta. São apenas palavras ditas do fundo do coração.

Raul Coelho disse...

Bom dia.
gostei de ler a linda história do Tio António, tirei esta foto num dia de filmagem de uma montaria na mesma aldeia para o clube monteiros do norte.
Um abraço,
Raul Coelho

Fátima Pereira Stocker disse...

Raul

Gratíssima pela sua visita!

Creio que o meu marido (criador do blog) lhe terá pedido autorização para publicar a sua fotografia. Se o não fez, aqui estou eu a pedi-la retroactivamente.

Bem-haja