domingo, 25 de maio de 2008

Fonte do Sapo



Fátima, este poema dedico-o à tua família.

A inspiração veio-me da "Fonte do Sapo" onde, naquele "vale" – lameiros – jorrava água perene.
Não sei porquê... Talvez saiba, o teu pai mostrou-me, à sua maneira, uma maneira de ser feliz.... Obrigado.

Este poema é ir à procura, ser feliz partilhando.

A FONTE


Do chão e da terra de ninguém
Jorravam vindas não sei d’onde
Transparentes bolas de cristal
Espelhos côncavos da fonte.

Jorros de água que saciam
Sussurros de sons permitidos
Monotonia que embala
A vida… e os destemidos

Deus sabe… e agora,
Joelhos e calças molhadas,
Que injustiça… e de tudo embora,
Dêem-me setenta vezes sete chicotadas…

Fico feliz da bebedeira por sede
Da frescura e da vontade
Do ter nascido e sentir a saudade.

E aqui estou eu, de novo a nascer,
A beber a liberdade…


Orlando Martins (2001-12-19)


À data em que o Orlando escrevia este poema estaria meu pai a dizer-me: “filha, a vinha está vindimada!”

Eis que os tais nós de garganta nos dedos tolhem a palavra. Falarei, por isso, da Fonte do Sapo.

É um vale largo, necessariamente de lameiros, tais os ribeiros que lá desaguam no tempo da chuva. Muita dessa chuva, recebida nos montes, infiltra-se e vem rebentar mais abaixo, em pequenas nascentes de água, a boa companheira para quem se mete ao caminho.

Em cima, uma fraga domina a paisagem. Vista de baixo parece poiso de águias, mas quem é do sítio sabe que é ali que se apartam os trilhos de quem quer ir para mais longe, Pòrto, Vila Seco ou Malhada Velha. É levada do diabo a tentação de cortar caminho, metendo pelas terras dos outros – lameiros frescos – ao invés de seguir pela secura do carreirão certo, à estorreira do Sol. Os joelhos molhados de quem se debruçara para beber da nascente eram a prova do delito. “Que mal tem isso?” respondiam as almas boas às outras atrapalhadas.

A Fonte do Sapo é lugar de calma imensa que convida às histórias de encantar. Quem lhe inventaria a frescura do nome?


Fátima Stocker

8 comentários:

Olímpia disse...

Caramba, Orlando!...
Deixaste-me sem respiração.
Para além da belíssima poesia pensada para o meu pai,homenageias também a minha mãe.A fonte do Sapo,era um dos locais preferidos dela e, imagina só:quis o destino que esse lameiro, a mim viesse a pertencer.
Agradeço-te a forma como descreves este lugar,onde o tempo colocou uma beleza que não encontro em mais lado nenhum.
É uma beleza de solidão contemplada, não é Fátima?
Para ti, os meus parabéns pela forma tão real de descreveres este local.Ele significa tanto para todos nós!
Bem hajas, Orlando
Beijos
Olímpia

poesianopopular disse...

Amigos
Bela poesia ,bela prosa, belas fotos, e belas recordações!
Este blog,está a ficar cinco estrelas, parabens!
Abraços

J. Stocker disse...

Caro

J.Manangão

Quem irá responder ao seu comentário, será a Fátima ou o Orlando, ou os dois. Eu aproveito para o cumprimentar é sempre um prazer saber que aqui esteve.
Um abraço

J. Stocker disse...

Fátima e Orlando

Os meus parabéns aos dois, o meu origado Orlando pela homenagem deixada a João Pereira "o Fouce" como era conhecido na aldeia.
Entretanto começo a ficar mais esperançado de que o blog, irá continuar, que iremos ter mais colaboração dos filhos da Terra.

Um grande abraço

Fátima disse...

Olímpia

É engraçado, associo a Fonte do Sapo (e quase todos os outros sítios de Rebordaínhos) à contemplação, mas não à solidão. Ele é a passarada a chilrear; ele é a água a acantar; ele é o vento a fazer música pelas giestas; ele é uma vaca a mugir ou as ovelhas a balirem... E o perfume do ar que apetece respirar e guardar nos pulmões!

Obrigada e beijos

Fátima disse...

Manangão

Gentileza sua. Mas muito obrigada!

Augusta disse...

Sem respiração e sem palavras Orlando. Uma homenagem feita a quem tanto nos diz e tanta falta nos faz.
Eternamente grata, Pirlandas, e beijos
Augusta

Fátima disse...

Sói dar-se uma explicação ao Orlando:

Quando me enviou este poema (em tempo próximo daqueles que já foram publicados) disse-me: "faz com ele o que quiseres". E deixou-me com o menino nos braços. Menino bonito e gerado com muito amor, como salta à vista. Que fazer? Dá-lo a cada um dos meus irmãos, um por um, não me parecia coisa de jeito...

Foi,então, que surgiu a oportunidade, a propósito do (também muito belo) texto escrito pela Olímpia. Fazia sentido associar os dois e, ao mesmo tempo, os meus irmãos tornavam-se conhecedores da oferta sublime que o Orlando nos tinha feito.
___
Agora falo directamente para o Orlando:

foi preciso que também publicasse as palavras que me escreveste a acompanhar o poema, porque o contextualizam, justificam e, concordarás, o tornam ainda mais belo. Sabes bem da minha gratidão.

Um beijo enorme!