segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

ECOS DO MEU SENTIR

III - DA CIDADE À SERRA
por

FILINTO MARTINS


Há dias fui ao “sótão da minha meninice…”.
Cheguei à Princesa do Tua numa manhã primaveril, não de comboio, mas como fidalgo de outros tempos. Entrei no Mercado, melhor, no edifício, pois as vendedoras eram apenas três, porém suficientes para comprar uma “raba” e uma couve… Fez-se luz: ao lado um sapateiro, como noutros tempos, tinha o calfe de umas botas na forma pregado com “cerzetas”, como outrora fazia o senhor Carlos.

Onde nasci? Suponho que em casa, no Covelo, e talvez a parteira tenha sido a tia Antónia… Tive sorte, fui registado vinte e dois dias depois da data do nascimento, com a assinatura do professor Francisco Joaquim Fernandes Ribom, que escreveu Rebordainhos sem acento (desculpa lá, Fátima) e rubricou as páginas da minha cédula, que guardo religiosamente, com a palavra Ribom a tinta azul, provavelmente daquela que nós mais tarde também usámos na escola. Tem sessenta anos a minha cédula (só as mulheres não dizem a idade). Ao folheá-la verifiquei que tive mesmo sorte, porque não fui daqueles que na mesma página tinham à esquerda a data do nascimento e à direita, na mesma página, morreu… (não fui de anjinho). Hoje, as cédulas omitem esse pormenor, sinal do progresso, do bem-estar, da esperança de vida, da diminuição da natalidade… menos zorros, mais prevenção.

Enquanto deambulava por Mirandela, cidade linda, com uma área de lazer que dá gosto, ouvi tocar os sinos de três igrejas, de forma monótona e repetitiva, mas com leve atraso uns dos outros, como o povo Português.

Segui viagem, vendo aqui e além uma ponte, um troço da antiga linha do caminho-de-ferro, porém não vislumbrei qualquer cantoneiro. Antigamente, quais estátuas, embelezavam a paisagem de Rossas até Bragança e ajudavam os condutores, nomeadamente o professor Ribom, que tocava em toda e qualquer curva que aparecesse, acenando para se ir à vontade e assim descansarem da sua monotonia. Este, para entrar na garagem, necessitava da ajuda do irmão, senhor Carlos, que lhe fazia um risco no chão para ele poder entrar. Excepto uma vez, em que passou ao lado do risco e o carro ficou sem pintura dum lado. Logo a Dona Maria acudiu: “não faz mal”. A que o senhor professor ripostou: “Ó Carlos, se tinha seguido o risco não batia”. Fazia agora falta o cantoneiro, pois nesta altura já não ia ao lado o Tio Jaime, que foi o seu mestre, por diversas vezes, para uma simples viagem a Bragança. Eu, no banco de trás, enquanto o Tio Jaime aconselhava o mestre: “mais à esquerda, mais à direita”, tremia, e a Dona Maria acrescentava: “Temos muito tempo, até vamos muito bem”. O senhor Carlos, bem cochichava: “Ah! Se fosse eu a conduzir”.

Ao atravessar Rossas, na passagem da linha de outrora, olhei para a estação, mas não vi o senhor Pinto, com a sua bandeira vermelha enrolada num pau, o “subiote”… aquele boné que ele só colocava para a passagem da automotora, constituíam apetrechos que para mim tinham muita importância na altura … Para que é serviriam? Pois atrás do guichet quando se comprava o bilhete, o último que comprei custou 101$50, para a longa viagem até ao Porto, ele nunca tinha boné?

Cheguei finalmente a Rebordainhos e logo verifiquei que afinal a casa do Tio Aníbal Fuseiro não se esborralhara por completo… não atropelei nenhum galináceo, tendo encontrado apenas o Alfredo, mais conhecido por Aidinhas, encostado à parede da casa da tia Joana do Outeiro, por quem o tio Benjamim, homem profundamente religioso, encomendou um padre-nosso pela alma dos parrecos da tia Joana, que tinham morrido, dado que já não havia mais por quem rezar. No curto trajecto que faltava não foi preciso travar, porque já não havia galinhas, nem os parrecos da tia Perpétua, que outrora eram música em qualquer poça de água, mesmo numa simples pegada de uma vaca.

Não ouvi qualquer chiar de carro de bois, como em tempos… O Alfredo gostava de apertar as “tarrachas” a fim de os vizinhos ouvirem bem e irem buscar as sacas das castanhas que aqui e além, de pé, esperavam pelo tractor ou jipe que as transportasse.

Regressei ao Porto, ao parque do Museu de Serralves, onde dias antes pude ver a realidade de outros tempos e ocorreu-me: “agora são os jovens das aldeias que têm que ir às cidades, para observar in loco, as vacas e as ovelhas”. Já que não fiz a viagem como o Jacinto e o Zé Fernandes, pude contemplar o silêncio, a paz, o sossego, o ar puro da serra de Nogueira. Que se passa? Afinal há mais vacas e vitelos ao lado da Avenida da Boavista que em Rebordainhos! Civilização?

Olhei para as escadas da casa da minha irmã e não vi, como sempre via, o meu pai apoiado a um cajado e descer, mal via o carro. Enquanto subia, para meu espanto, ouvi um toque de sino, só um e logo o Bino me elucidou: “é o relógio da Igreja”. Mas não se vê o relógio…

Fui até Bragança, tinha os meus dezoito anos, pimpão, sapato preto engraxado, calça com vinco, talvez com alguma brilhantina… parei na Sé. “O meu amigo pode dizer-me que horas são?” Resposta pronta de estudante: “olhe para o relógio da Sé!” Retorquiu-me o transmontano, que provavelmente viera à feira dos 12: “Se eu soubesse ler não lhas perguntava… eu até tenho relógio!”

Aquele simples toque levou-me ainda mais longe. Recordo, com saudade, o toque das Trindades, para o Terço, para a Missa, deram sinais, a concelho, incêndio, “morreu um anjinho” e aquele toque para as aulas, que a Sara dava tão bem…

Ainda pequenote, brincando ao pingue, à bilharda, ao pião, ao fito, com uma junta de bois feita de “bulharacos”, enfim, ao “rou-rou” – internet e Play Station da nossa actualidade – lembro-me de uma promessa do meu pai: “se apanhares a água para os pedreiros fazerem a “massa” para o palheiro, mandamos fazer umas botas ao Sr. Carlos sapateiro”. Lembro-me perfeitamente de apanhar a água da fonte das Ribas de cima, fonte pequenina, que hoje deve estar seca, com uma “remeia”, calculo.

Trabalho feito, promessa cumprida, pois o meu pai era homem de palavra. Só havia uma coisa que eu detestava que ele me mandasse fazer – ir com as vacas para o lameiro. Lá ia, mas sempre contrariado, a não ser que fosse para as Bouças e lá andasse o Pilatos. Com ele aprendia-se muito… se aprendia, cá voltaremos.

A ânsia de conseguir tão almejado prémio ajudou-me a esquecer as brincadeiras e a arranjar força para apanhar água. Ter umas botas como “os homens grandes” e não uns socos que o tio Grilo, artesão da terra, tão bem fazia e em determinados jogos e lutas eram uma arma poderosa nas canelas do mais atrevido.

Chegou a ordem: «Vai ao senhor Carlos para te tirar as medidas». Suponho que não falei com ninguém, era segredo, para depois aparecer com umas botas novas junto dos meus amigos de brincadeiras, mãos nos bolsos (era possível que estivessem rotos) para poder puxar as calças e assim mostrar a obra de arte.

«Senhor Carlos, o meu pai mandou-me vir tirar as medidas para umas botas. Olhe que são para a festa!». Resposta pronta do senhor Carlos: «Já devias ter vindo, pois tenho que as levar a Bragança para coser e pôr a sola de molho… isso demora». Pegou numa folha de papel seguida de ordem: «põe aqui o pé». Com um lápis obteve o desenho perfeito dos meus delicados pés.

No nosso tempo, tínhamos uma admiração especial por algumas pessoas da terra – Pe Amílcar, Professores, Armindo (barbeiro), que dava em dez minutos dez anos de rejuvenescimento e o senhor Carlos, ilustre sapateiro da aldeia, sem concorrência no negócio, deambulava pelas ruas com maior frequência, na altura das matanças. Pressentia, qual galgo a lebre ao longe, o cevado morto que no banco era presa fácil – «boas cedas» … arrancava sem o mínimo queixume do defunto. Nestas deambulações acompanhava-o sempre o seu avental de cabedal, aqui e ali com as marcas da navalha afiada que errara o alvo e, no seu andar aligeirado, meneava as nádegas salientes, efeito do seu banquinho de trabalho. Aquele seu lábio descaído, pensávamos nós, seria de molhar a linha para que após o furo com a sovela, melhor deslizasse aquela, mas não, era de nascença. Era uma pessoa que metia respeito e medo aos mais novos, desde que vissem os seus apetrechos – sovela, turquês, ‘luvas’, martelo e aquela faca tão afiada… Chamávamos-lhe «senhor Carlos» e não «tio Carlos». Porque seria? Respeito? Profissão ou medo? Mas era um homem bom.

Com o aproximar do prémio faltava um pormenor: «Senhor Carlos, mas eu queria daquelas botas que chiam!»
«Ó rapaz, isso não é fácil. Tens que ir à tua mãe que te dê (deve ter dito deia) duas fatias grossas de presunto magro, bem magro, rapara bem, para meter no meio das solas. Vais ver como chiam!»

E lá foi o ignorante pedir as ditas fatias de presunto, que embora analfabeta, a minha mãe prontamente me disse: «seu brutinho, o sapateiro quer é comer o presunto!».
Inocência ou ignorância?

Responda quem quiser, sei apenas que tive umas botas novas, por medida! Hoje, a civilização tem todos os modelos e mais alguns… cores e feitios à disposição de todos os pés mas, por medida, será para uma minoria…
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À excepção da primeira fotografia (enviada pela Céu) e da última (roubada daqui), as fotografias que ilustram o artigo são do próprio Filinto

9 comentários:

Fátima disse...

Filinto

Antes de mais, bem-haja por este lindíssimo exercício de memória, tão bem escrito, tão apelativo...

O sr. Carlos sapateiro bem merecia, sozinho, umas páginas dedicadas só a ele, de atraganado que era! A marcha a que obrigou o meu irmão Pedro; a promessa de figos (outra vez de caramelos) ao Zé Garrano se ele juntasse a canalha toda; os filhos do Malino metidos debaixo da canastra com medo da guarda...
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No passaporte do meu avô; na minha cédula assinada pela D. Aninhas do Registo Civil e na minha cédula do Cristão assinada pelo sr. P.e João Trindade Alves, enfim, em todo o sítio está escrito Rebordainhos sem acento. Eu é que sou teimosa como uma mula e estou para a ortografia, neste caso específico, como Antígona está para a lei.

Um beijo e, de novo, muito obrigada pela partilha

Fátima disse...

P.S.

As minhas cédulas têm ambas 47 anos de idade. Eu só não sei onde é que o sr. P.e João foi descobrir aquela data de nascimento...

António disse...

Caríssimo Primo:
Até que enfim lá te resolveste a enviar-nos mais um naco de bela prosa dos Ecos do teu sentir para nos reenviares aos idos da nos infância, desta vez àquele altinho d'À-Chave onde o senhor Carlos Sapateiro tinha oficina, ao lado da casa do tio Cachulas. Sim, dizes bem, senhor (e não tio)enquanto artesão e Sapateiro maiusculado enquanto artista.
Também eu passei uns bons bocados a admirar-lhe a perícia com que manobrava a sovela e a ouvir-lhe os ditos epigramáticos: duma dessas vezes apostrofando o Gitlém (suponho)que apareceu por lá a oferecer-lhe "liranjada" com uma garrafa onde tinha mijado. Doutra vez, mandando um catraio que por lá andava a desarrumar-lhe as ferramentas que fosse 'mexer na maçaneta do escaravelho'. Esta ainda hoje me é útil para arrumar certos mexilhões.
A Fátima diz bem: o sr. Carlos Sapateio bem merecia uma crónica só para ele. "Astrebe-te!"
Um abraço

Augusta disse...

Filinto:
Que bem nos fazem estes regressos ao fundo das nossas memórias!
Também me lembro bem da obra do sr Carlos. E lembro-me de uma vez nos dizer que a cobra era muito boa em canja! Não me lembro se alguma vez tive sapatos feitos por ele, mas seguramente tive uns socos feitos pelo tio Grilo. Lembro-me que eu gostava que tivessem brochas, que era para fazerem umas chancas grandes com a neve... Mas a minha mãe, pedia-lhe sempre que forrasse o pau de amieiro com pneu! Era uma chatisse, os outros tinham sempre chancas maiores que as minhas! Também gostava muito das socas, como as das mulheres, mas nunca "abesei" nenhumas! Juro que ainda um dia ainda as hei-de ter.
Agora, para vocês que têm o dom da palavra, e tão bem sabem passá-las para o papel, não acham que também o tio Grilo, o tio Benjamim, o padre Amilcar, o padre Caminha entre outros, eram merecedores de páginas próprias?
Como diz o nosso amigo de Carviçais, Botai lá home!
Beijos
Augusta

Augusta disse...

Fátima:
Que sorte a tua em teres as ruas cédulas. às minhas perdi-lhes o rasto. Devem ter ficado lá para a Luis Fernandes. Mas se as tivesse, seguramente marcariam 53 anos de idade
Beijos

J. Stocker disse...

Caro Filinto

Obrigado por nos deixar aqui estas recordações.
Elas enriquecem a memória colectiva e trarão certamente contribuir também para que outros visitantes do blog se encorajem a deixar aqui o seu sentir.

Sophiamar disse...

E como é bom recordar! Que belo "naco" de memórias!Degustar esta escrita é um prazer.

Um abraço

Bem-haja!

Filinto Martins disse...

Queria,antes de mais, dizer que estas letras são sobretudo aquilo que o meu sentir, devido à profissão, me ajudam a recordar com saudade, momentos gravados e não mais esquecidos, mesmo nas agruras e penar de outros tempos.Nunca mais me esqueço, em tempos idos, de uma frase do falecido padre Teodoro: "Ó rapaz, olha que fui eu que te baptzei".Provavelmente deu-me pouco sal ou deitou-me muita água porque muita neve vai na serra.
É aqui que quero dar um abraço ao João,que não conheço pessoalmente, mas é mais amigo de Rebordainhos do que muitos de nós. Obrigado, João. Neste abraço vão também as melhoras, pelo que me constou a tua saúde não é a melhor. Força, João.
Também para a amiga Sophiamar que não conheço, mas o seu nome traz-me à mente as histórias de Sophia de Mello B. Como ela gostava do mar e vive no Algarve, deve haver algo de comum. Obrigado pelo seu incentivo, pois quando fazemos anamenese libertamo-nos para nos darmos a conhecer. No entanto eu tenho sempre presente - Ne sutor supra crepidam.
Ó primo Tonho, homem das letras, este meu latim ainda sai ou terás que corrigir? A minha pena não tem tinta suficiente para caracterizar o senhor Carlos, como dizia o meu professor de latim"o bico minha da caneta não escereve as desinências."

Olímpia disse...

Filinto:
Que bonitas viagens tu nos proporcionas!
Estes teus textos carregados de carinho, lembram-me episódios e personagens distantes da minha meninice.
É curioso porque, também a garotada da minha geracção julgava que, aquela curvatura do lábio do sr. Carlos, era concerteza causada pela constante passagem da linha de sapateiro!
Que bem soubeste descrever os sons característicos daquele ambiente rural!
Fizeste-me lembrar sensações.
Agradavelmente recordei o chiar dos carros de bois na altura das acarrejas; o cantar do galo da tia Maria, quando a aldeia acordava num ambiente de calma e de serenidade;o cheiro da terra, quando os arados a rasgavam desde manhãzinha;o assobiar do vento ao entrar pelas frinchas da casa;o cheiro do pão acabado de cozer, o lume,a minha mãe enfarinhada à entrada do forno.
Lembrei-me de quando beijávamos o pão antes de o deitarmos fora.
Por me ajudares a recordar,
Obrigada Filinto
Beijos
Olímpia