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António Augusto Fernandes Naquele tempo, mais ou menos por esta altura do ano, quando o Inverno ia já de abalada e as carvalhas enxugavam as últimas lágrimas da invernia, quando pelas touças começava de se ouvir a flauta alvissareira do cuco e os passarinhos esvoaçavam atrás das passarinhas, era chegado o tempo do primeiro concelho.
Essa palavra que, no antigamente, andava prenhe de sentido, ia buscar o seu significado às raízes mais profundas do étimo concilium – reunião da assembleia do povo, e tinha a ver com antiquíssimos costumes comunitários dos povoados perdidos nos picotos das serranias de Trás-os-Montes, esquecidos de El-rei e deslembrados da senhora República, que forçosamente iam buscar ao seu sentir comunitário a maneira de sobreviverem.
O primeiro concelho do ano tinha lugar por esta altura, nos começos da Primavera. O Presidente da Junta comunicava a decisão ao Sr. Padre e este, por sua vez, no fim da celebração dominical, anunciava ao povo: “no domingo que vem, há concelho”. Nesse domingo a missa tinha lugar mais cedo, logo ao raiar da alva e o Sr. Padre declarava toda a gente dispensada do preceito que
proibia “trabalhos servis nos domingos e festas de guarda”. Depois do mata-bicho, o sino grande lançava do alto do campanário um pregão alegre, quase festivo, o toque a concelho e os vizinhos iam-se agrupando, conversadores, cada qual artilhado com a ferramenta que lhe aprouvesse ou mais necessária alvitrasse para as tarefas do dia, e dirigiam-se para uma das quatro entradas da povoação. O objectivo deste primeiro concelho era reparar os caminhos comunais que davam serventia às terras de amanho e que as enxurradas grossas da invernia tinham escaboucado.
As leis comunitárias estatuíam que cada agregado familiar enviasse o seu representante. As famílias onde não houvesse varão válido faziam-se representar no concelho por uma mulher ou mocito já espigadote. Quem, por algum motivo, se via impedido de participar pagava jeira a quem o substituísse ou obsequiava o concelho com um garrafão de vinho, o que, naqueles tempos escassos em pecúnia e abundantes em mão-de-obra, equivalia aproximadamente ao valor de uma jeira. Mas, por tradição, apenas as duas pessoas gradas da aldeia – o padre e o professor – se esquivavam a acamaradar nessa obrigação, substituindo-a pela coima. Mesmo o Sr. Lopes Direito, colheiteiro grado, de lameiros gordos e vastos soutos, ausente na capital, se fazia representar pelo seu administrador, o Sr. Carlos Ribom, que lá se integrava na malta trabalhadora com umas ganas muito democráticas: mãos macias e sachito ocioso, mais de enfeitar que outra coisa, ia parolando com o pessoal e distribuindo dos definitivos pequenos a quem como ele não prescindia do paivante nos queixos. O que não era despiciendo, pois que, tanto ou mais que o trabalho, era de valia o espírito convivial implícito na tarefa, verdadeiro ritual de consolidação da comunidade aldeã em que se reforçavam os velhos laços de vizinhança e entreajuda. Até aqueles poucos que, tendo vindo de fora, por lá assentavam arraiais passavam a usufruir do estatuto de vizinhos a partir da sua participação nesse ritual de iniciação.
Um cavava, outro carreava pedra, este empurrava um carrinho de mão, aquele deslocava um penedo com o ferro de desmonte e assim, sob a orientação dos anciãos do povo, se remendavam os caminhos, atulhando os fundões que a água abrira e as rodeiras que as rodas maciças dos carros de bois tinham afundado em demasia. E, entre risos e conversas, rememoravam-se velhos casos que já faziam parte da crónica colectiva da aldeia, rediziam-se ditos velhos que, sancionados pelo carimbo do como diz o outro, entravam na cultura da comunidade a caminho de se tornarem proverbiais. À hora do almoço, bebia-se da mesma cabaça, trocava-se de pitança com o comensal mais próximo, e, acedendo sem mais formalidades ao convite do és servido?, provava-se o presunto do vizinho e gabava-se o refogado da comadre. Ria-se das mesmas velhas chalaças do outro ano, os rapazotes mais espirituosos lançavam a sua pilhéria às moçoilas que tinham vindo trazer o almoço a algum familiar… E, neste conviver amigo, a rudeza bravia dos serranos amaciava, embebida de uma poalha de fraternidade.
Estes concelhos podiam realizar-se ainda por outros motivos de interesse geral ou de apoio comunitário, como a necessidade de acudir ao descalabro da igreja ou da escola, de reconstruir o palheiro ardido do vizinho. Mas de marcação fixa eram dois: este, o do arranjo dos caminhos e, logo adiante, no começo do Verão, o do conserto das poças comunais de rega.
Na serra, as águas brotam finas e frias, saudáveis e gratas ao palato, mas são escassas as nascentes, esparsas e flébeis em seu lacrimejar. Há, por isso, que aproveitá-las com parcimónia para dessedentar hortejos e batatais quando a estiagem caustica as lombadas da serra. E, como essas águas são de todos, gratuitamente dadas por Deus a quem delas precisar, todos aqueles que delas beneficiavam eram chamados a concelho para limpar as poças dos juncos que lá medravam, retirar as lamas arrastadas pelas enxurradas e calafetar as galerias abertas pelos leirões. Quem não comparecesse alienava, para esse ano, os seus direitos de rega que constavam em rol de que tomava conta o tio Zé Çuca, presidente da Junta de Freguesia.
E era das coisas bonitas de ouvir, no silêncio das tardes abafadiças de Agosto, quando a calma declinava, o tagarelar das águas, gorgulhando pelas agueiras, bulhando com os seixinhos, na pressa tranparente de matar a sede do batatal ou do talhão de feijões.
Hoje, a aldeia já não é a mesma e já não se toca a concelho. Hoje, felizmente, já quase desapareceram os tugúrios de granito e barro, colmatados de telha vã, para darem lugar a casas inspiradas em moldes recolhidos por franças e araganças. Felizmente as máquinas realizam as tarefas mais gravosas que então se faziam a pá e picareta e derreavam os quadris a um cristão. Felizmente!
Mas hoje, infelizmente, está a pique de se perder o sentido comunitário da existência implícito nessas tarefas de entreajuda. E cada dia que passa, corremos o risco de cada indivíduo se ir sentindo mais pobre, mais enconchado nas suas miúdas preocupações individuais.
Dá Deus as nozes a quem não tem dentes: hoje, que Rebordainhos vive decentemente, que tem luz, que tem água canalizada e ruas calcetadas, que vai à cidade quando muito bem entende… hoje Rebordainhos está velho, quase sem crianças, à beira se transformar numa aldeia de casas novas habitadas por ausências.
É por isso que daqui vai um obrigado enorme para todos aqueles que teimam em não deixar que a nossa aldeia morra. Bem-hajam!