sexta-feira, 13 de março de 2009

Casamento das Novas


Vamos lá, minha gente, deixemos o torpor e as desculpas de que não há novos. Está a chegar o tempo de serrar as velhas e de casar as novas. Neste domingo ou no próximo?


Para avivar a memória dos mais esquecidos, aqui ficam as falas:



― Ó padre Amaral!

― Olá Compadre!

― Palhas alhas leva o vento!

― Que é que dizes?

― Vamos fazer um casamento!

― É verdade, é verdade! Então quem é que há-de ser?

― Há-de ser... há-de ser... há-de ser a...

― Então quem é que há-de ser o marido?

― Há-de ser... há-de ser... há-de ser o...

― Ah! ah! ah! É bem bô, é bem bô! E então, o que é que lhe queres dar de dote?

― Ũa toalha de estopa, onde o diabo limpa o cu, que limpem eles a boca!

―Ah! ah! ah! É bem bô, é bem bô!

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Outros dotes / pinhas

― Ũa toalha de linho, onde o diabo limpa o cu, que limpem eles o focinho!

― A porra do burro p'ra fazer um sobiote

― Os quilhões do Padre Santo, p'ra que lhe sirvam de almofada

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Julio Caro Baroja é um grande nome da cultura espanhola. Na sua obra "El Carnaval" defende a tese, segundo a qual, muito mais do que o tempo litúrgico que antecede a Quaresma, o Carnaval é uma festa com manifestações espalhadas por todo o ano, começando em Janeiro e terminando em Dezembro. Essa conclusão resultou do estudo de inúmeras festas aldeãs e citadinas de todo o território peninsular, com especial destaque para o Norte, Portugal incluído. Rebordaínhos dá razão a este sábio. Pensemos no nosso “Dia de Reis”, no “Entrudo” propriamente dito, na “Serra das Velhas” e no “Casamento das Novas”, cerimónias burlescas que celebramos a meio da Quaresma! A esta lista gosto de acrescentar a brincadeira do fim da malha, do ir buscar a rapariga a casa da família, para a levar no birgo. Se pensarmos assim, temos manifestações do Entrudo desde Janeiro até Julho / Agosto.

O Entrudo é a aceitação momentânea do interdito. Caro Baroja cita uma mascarada organizada por Filipe IV (o nosso III) em pleno séc. XVII. D. Filipe, o defensor do catolicismo, obcecado pela religião e instigador da Inquisição aceita mascarar-se de ajudante de câmara e participar num casamento fingido. Ou seja: na corte católica fez-se chacota com a religião e os seus sacramentos. Alguém de lá deve ter passado a Quaresma em Rebordaínhos.

10 comentários:

Augusta disse...

Ah valente mulher que se lembra de tudo. Valente cabecinha. Vou tentar saber quando são, e depois direi algo. São bem divertidos esses casamentos. Vamos ver quem são os felizardos deste ano.
Beijinhos

Céu disse...

Fátima

Engraçados estes casamentos e o serrar das velhas!
Eu penso que este dia é uma 4ª feira, mesmo no meio da quaresma, pelo menos, tenho essa ideia.
Os maridos e os dotes eram muito esperados pelas moças, mas muitas vezes, eram uma grande desilusão.
Interessante a explicação que deste sobre Julio Baroja.
Beijinhos
Céu

Olímpia disse...

É caso para se dizer que tens memória de elefante!
Eram bem engraçados esses dotes que a todos faziam rir embora, muitas vezes, a contemplada não lhes achasse muita piada...
Bem divertidas eram também as situações em que se serravam as "velhas".Independentemente da idade, logo que nascesse o primeiro neto...pumba, começava a serra a trabalhar.O som desta, era adaptado à robustez de cada uma.
Lembro-me bem do dia em que a mãe foi serrada pela primeira vez, e da forma como presenteou os executantes!....O responsável por isso, o nosso sobrinho Luís Pedro.
Era fresca, a tia Teresa!
Beijos
Olímpia

António disse...

Olá Fátima:
Rica ideia essa de fazer a recolha desse elemento catártico do Carnaval - pôr ao soalheiro as mazelas da comunidade - antes que tudo se perca, atabafado pela omnipresença dos media que tudo rasoiram.
É interessante verificar como na cultura popular, ao longo do ciclo do ano, as vivências do espírito iam alternando com as exigências da carne... porque tudo é humano.
Um abraço do
Tonho

Chanesco disse...

Valha-nos a recolha destas memórias para que a tradição não acabe, nem a história se apague.

Um abraço para Rebordainhos

Fátima Pereira Stocker disse...

Augusta

Por acaso lembrava-me, mas também tenho tudo escritinho, não vá a memória falhar.

Beijos

Fátima Pereira Stocker disse...

Céu

Esta vida de reformada fez-te mal porque reduziu os nossos contactos!

Obrigada por teres acrescentado o dia: desse não me lembrava, e é bem curioso, porque são dois centros, o da Quaresma e o da semana!

Beijos

Fátima Pereira Stocker disse...

Olímpia

Pois, a mãe não gostou muito, não, mas lá está a tia Maria que lhes ofereceu um copo de vinho!

Beijos

Fátima Pereira Stocker disse...

Tonho

Ora aí está o verbo certo: rasoirar!

Espírito e carne, trabalho e descanso, tristeza e alegria fazem a vida dos Homens. A Humanidade foi sábia até à nossa geração que ceifou dos seus dias a tristeza, o descanso e o espírito.

Obrigada pela achega.

Beijos

Fátima Pereira Stocker disse...

Caro Chanesco

Tal e qual como faz o meu amigo, menos a graça do reconto, que essa é toda sua.

Um abraço