
por
EMÍLIA DE SOUSA COSTA
Ilustrações de ALFREDO DE MORAES
Era uma vez um pai que tinha três filhos. Os mais velhos eram muito invejosos e maus. O mais novo, pelo contrário, duma bondade exptrema e generoso, só se sentia feliz, quando fazia bem a alguém. Viviam numa cabana, próximo da antiga cidade de Bragança, em Trás-os-Montes, e empregavam-se em apascentar gados.
O pai, o velho Rebordãos, já não podia trabalhar, pelo que os filhos o sustentavam. Os mais velhos, com má vontade de cumprir esse dever tão nobre; e o mais novo, sempre carinhoso e atento aos menores desejos de seu pai.
Os três rapazes, todos de baixa estatura, eram, por isso, conhecidos pelos Rebordaínhos (sic) - o diminuitivo do seu apelido.
Certa manhã em que estavam pastoreando os seus gados, passou por ali uma pobre que lhes pediu um bocadinho de pão.
Os Rebordaínhos mais velhos negaram-se desabridamente a atender a desgraçada. O mais novo, porém, desprezando as palavras escarnecedoras com que os irmãos comentavam a sua boa acção, sinceramente condoído, deu à pedinte metade do pão que trazia no bornal, e algum leite das suas cabras.

A mendiga, depois de regalada com tão bom almoço, agradeceu ao pastorinho e antes de retirar-se ofereceu-lhe, como penhor do seu reconhecimento, três maçãs de oiro, pedindo-lhe que as conservasse para se lembrar dela.
Os irmãos, roídos de inveja, pediram-lhas e, como ele se negasse a satisfazê-los, tentaram tirar-lhas à força. Não conseguindo os seus fins, nem pela ameaça, nem pela violência, encolerizarm-se e mataram o infeliz. Enterraram-no num monte e fingindo-se aflitos pelo desaparecimento do irmão, choraram com o pai e com este lastimaram tão grande desgraça. O velho Rebordãos não pôde sobreviver ao enorme desgosto causadopela perda do seu filho querido.
Passou tempo e, no monte em que o pstorinho foi vitimado pela inveja dos irmãos, nasceu uma cana, mesmo sobre a sepultura.
Um pastor que por ali fez caminho e tinha perdido a sua flauta, ao ver uma cana que se prestava para fabricar outra, cortou um pedaço e depois de, com o canivete, a preparar e transformar no instrumento predilecto, experimentou-o tocando a sua ária habitual.
Mas, com grande pasmo seu, em vez dessa ária, ouviu esta quadra:
.......................................Toca, toca, pastorinho,
.......................................Os meus irmãos me mataram,
.......................................Por três mçãzinhas de oiro,
.......................................E ao cabo não nas levaram.
Como até ali ninguém sabia o que fora feito do rapazinho, desaparecido sem deixar vestígios, as pessoas que ouviram a flauta pastoril dirigiram-se ao lugar em que o pastor cortara a cana, acompanhados das autoridades judiciais.
Cavaram e desenterraram-no, encontrando-o sem sinais de decomposição e com as três maçãzinhas nas mãos enclavinhadas, porque nem depois de morto os malvados conseguiram arrancar-lhas. ao tirarem-no para fora da sepultura, as maçãs soltaram-se-lhe das mãos e cairam duas sobre os olhos e outra sobre a boca e o rapazinho ressuscitou.
As suas primeiras palavras foram para pedir o perdão dos irmãos, já entregues à justiça.
Estes, apesar disso, foram castigados. Depois da sentença cumprida, comovidos pela generosidade do seu irmão mais novo que nunca os abandonara, enquanto estiveram presos, arrependeram-se sinceramente do seu horroroso crime e tornaram-se bons rapazes.
As três maçãzinhas de oiro continuaram na posse do seu dono até que, passando novamente por aqueles sítios a mulher que lhas oferecera, e informada dos factos sucedidos, lhe aconselhou a vendê-las e a aplicar o produto dessa venda no que lhe aprouvesse. Declarou-lhe ainda que nunca fora mendiga. Era uma fada benfazeja disfarçada em trajes humildes, para melhor conhecer as pessoas dignas de benefícios, pela bondade do seu coração.
Vendidas as três maçãs, o pastorinho comprou muitas terras que repartiu com os irmãos.
Todos casaram e construiram casas próximas umas das outras, fundando assim uma povoação, que chegou a ser vila e se chamou Rebordaínhos - nome dos seus fundadores.

Este conto foi-me gentilmente enviado pelo nosso leitor António Leite a quem muito agradeço o gesto. As ilustrações são as da própria obra.
