sábado, 12 de fevereiro de 2011

ARES DA SERRA

A DIVINA PROVIDÊNCIA E A GORRA DO PRIMO MANUEL

por

ANTÓNIO AUGUSTO FERNANDES

Imagem retirada daqui


Era sábado. A euforia da perspectiva do feriado de domingo (o conceito de fim-de-semana estava por inventar), podia-nos ter dado para pior, mas não, em vez de jogarmos ao pirogalo ou à bilharda, depois das aulas, deu-nos o diabo para surripiar a gorra nova do Nelzeira, ou melhor, do meu primo Manuel do Outeiro, e fazê-la esvoaçar de uns para os outros à laia desses boomerangs ou bresbees com que hoje as crianças se divertem na praia. O Nelzeira bem corria duns para os outros na tentativa de recuperar o que era seu, bem berrava que a boina era nova, que lha tinha comprado o pai ao contrabandista que trazia a mercância da Galiza. Mas a malta divertia-se à brava. Até que, num lançamento mais incauto, por efeitos imprevistos da aerodinâmica, a boina, pairou manso, mansinho e foi aterrar no telhado da escola. Consternação geral! Mas, após breve conciliábulo, logo ali se combinou que, a seguir às aulas, iríamos buscar uma escada de mão que andava pela eira do senhor Amadeu e resolveríamos o assunto.

E assim foi: mal a senhora D. Maria, a caminho de casa, dobrou a esquina do pátio onde morava o Patinge, os mais afoitos correram em demanda da dita escada. Eu ainda hesitei em associar-me à empresa, que o meu pai não era para cócegas. Mas como nessa altura já frequentava a catequese com grande quantidade de devoção e de puxões de orelhas da Aninhas da Eira, nossa catequista, veio-me à mente o sumo preceito catequético de amar o próximo como a nós mesmos. Além do mais, o Nelzeira, ainda era um próximo ainda mais próximo que os outros próximos, pois até era meu primo direito e compincha de reinação! E todo exaltado pelo espírito evangélico de bem-fazer, como cruzado que parte na guerra contra os mouros, atirei-me à boa acção, convencido de que Deus havia de me recompensar… se calhar até com uma bicicleta.

Dávamos por finda a empreitada, já o primo Manuel descia com a gorra enfiada até às orelhas, e reaparecia a D. Maria ao pé da casa do Carriço, pressurosa em seu caminhar e furiosa em seu aspeito. Acontecera que, quando atravessava o Prado, alguém a advertira que os garotos andavam aos ninhos no telhado da escola e partiam as telhas todas.

Alguns dos comparsas ainda se escamugiram a tempo. Ao alcance das iras da professora ficámos uns quatro ou cinco, entre eles o Nelzeira que escalava na demanda do seu bem, o Zequinha Lelé que segurava a escada e eu que, de nariz no ar, dava orientações, aguardando a libertação da boina e as bênçãos de Deus pela minha boa acção. A D. Maria, como estava cansada da semana a aturar a ganapada, não deu uso imediato à palmatória: introduzindo-nos na sala de aula das meninas, apontou os nossos nomes no quadro, sem querer saber das nossas boas intenções e dos ensinamentos evangélicos aprendidos na catequese com a Aninhas da Eira. Na segunda-feira ajustaríamos contas!...

Saímos inconsoláveis, porque sabíamos que a D. Maria quando pegava na palmatória para castigo dos nossos desvarios não era nada peca a distribuir bolos. Ainda estava bem presente na nossa memória a sorte de um dos Pereiros (seria o Sabido?) que tivera a infeliz ideia de ir espreitar como é que as meninas faziam as suas necessidades na sua casa de banho privativa, isto é, ao ar livre, entre as giestas e escarambunheiros que bordejavam o carreirão das Ribas. Como os tempos eram outros, pouco dados a investigações sobre fisiologia feminina, a D. Maria não apreciara muito esta aula de auto-educação sexual e premiara-lhe a curiosidade científica com vinte palmatoadas, dez em cada mão.

Quanto a mim, para além da perspectiva acabrunhante da meia dúzia de bolachas, fiquei abalado pela primeira grande crise de fé: sentia-me profundamente descrente dos ensinamentos da Aninhas da Eira sobre o amor ao próximo e a disposição da Divina Providência para recompensar as boas acções. E pensava com os meus botões que, se me tivesse posto na alheta em vez de amar a gorra do próximo como a mim mesmo, o primo Manuel que me perdoasse, mas não estaria agora metido em sarilhos! Enfim, passei um domingo atormentado, na perspectiva das palmatoadas de segunda-feira.

Só na segunda-feira é que recuperei a fé na Providência e a crença nos ensinamentos da catequese, quando me certifiquei de que as ameaças da D. Maria tinham caído no esquecimento. Ainda hoje creio firmemente que foi a Divina Providência quem guiou a mão da primeira rapariguinha a entrar na sala das meninas pela manhã inspirando-a a praticar a boa acção de limpar o quadro sujo. Se calhar também era aluna da Aninhas na catequese… e com a sua boa acção apagou do quadro os nossos nomes, a memória da nossa boa acção e as mais que certas palmatoadas da D. Maria.

8 comentários:

Augusta disse...

Pois, de boa te livraste, que ela quando se enfurecia, não era para cócegas! Mas eu gostava muito dela. E hoje, cada vez lhe dou mais valor. Obrigava-nos a utilizar o lápis (de pedra) até mesmo ao fim. "Os lápis são caros, e os teus pais não têm dinheiro para comprar outro".
Que bom seria que muitos que por aí andam ( e mandam) tivessem sido alunos da Sra D. Maria!...
Beijos e, para não me repetir, parabéns por mais uma das tuas recordações, e obrigada por no-las oferecer.

Fátima Pereira Stocker disse...

Tonho

Hoje, a minha irmã tirou-me a dianteira!

Que bem me soube reler-te, mais ao teu bom humor!

Eu não quero ser causadora de nova crise de fé, mas será que as mãos que limparam o quadro não terão sido as da Sarinha, enviada mais cedo para acender a braseira?

É verdade que as palmatórias doíam (eu apanhei duas por assobiar...), mas a verdade é que, mesmo com elas, continuávamos a atraganar-nos uns aos outros. Éramos felizes e, tenho cá para

Beijos e muito obrigada!

Olímpia disse...

Bem-hajas António!
Não imaginas as saudades que tinha de "te ler".
Ao nos lembrares os pequenos grandes episódios da tua (nossa) infância,avivas-nos a memória para momentos inocentes, puros e muito felizes. Apesar de tudo, fomos CRIANÇAS.

Bjos

Olímpia

Cata- Vento disse...

Mais um belo texto do António Fernandes que se lê de fio a pavio de um trago e ainda fica vontade para ler mais. Que me desculpem se me repito mas, ao ler estes textos, vêm-me à memória peripécias muito semelhantes dos rapazolas da minha escola.As palmatoadas nunca fizeram mal e agradeciam os pais que assim procedessem os nossos mestres.

Bem-haja, António!

Um abraço fraterno

Idanhense sonhadora disse...

É uma delícia ler os seus escritos . A maneira como escreve transmite-nos um murmúrio de brincadeira que nos leva para a cena que nos descreve . Além disso encontrei hábitos comuns :a catequese , a professora e o nosso receio das «réguadas » , o contrabando que nos trazia muitas coisas que nós desejávamos a ida , dos rapazes , aos ninhos , etc, etc, Porque não se aventura a pôr as suas lembranças em livro ? Creio que daria um daqueles que lemos num só dia ..
Saudações «arraianas»

eduarda disse...

António
Não cansa, ler os seus relatos.
E embora não tenha conhecido a D. Maria, tive por perto uma D. Carlota, que também gostava muito de utilizar a dita palmatória, senti-a quentinha nas mãos, quando era apanhada a escrever os sinónimos no Livro de Leitura.
Nada que me tivesse traumatizado para a vida.
Hoje as nossas criaturinhas, nem um
"chega p'ra lá..." podem ouvir das Donas Marias, que querem exercer o seu trabalho.Este é um tema que dava pano para mangas...
Aproveiando a boleia da Quina, pergunto-lhe; porque não embarca na aventura deliciosa de compilar todas estas histórias? Iria fazer a delícia dos seus conterraneos, e nao só, acredito.
Um abraço

Fátima Pereira Stocker disse...

Tonho

Desculpa o descuido, que só vi agora, de ter publicado um comentário inacabado. O que eu queria dizer era que tinha cá para mim que éramos castigados mas, no fundo, os nossos pais e professores até se divertiam com as brincadeiras que fazíamos. As pessoas mais antigas contam histórias hilariantes da Sr. D. Maria, que atestam o seu grande sentido de humor.

Beijos

António disse...

Obrigado, amigos,

pelas vossas mensagens tão simpáticas.
Quando os anos passam é sempre consolador acolhermo-nos às memórias da infância e das nossas terras.
Quanto à sugestão das amigas leitoras Idanhense e Eduarda, que eu não tenho o prazer de conhecer, hesito muito em ter que derrubar mais umas árvores para publicar estas minhas tagarelices, quando já por aí tanto "papel sujo com tinta em que está indistinta a distinção entre nada e coisa nenhuma" - como dizia F. Pessoa.

Abraços amigos

António