domingo, 6 de fevereiro de 2011

BREVE

Os Deolinda são um dos fenómenos mais interessantes da música portuguesa actual. Há pouco tempo actuaram no Coliseu de Lisboa e ofereceram ao público um tema inédito: Que parva que eu sou!"

O poema nada tem de belo, mas tem tudo de verdadeiro no modo como retrata a geração dos nossos filhos ou netos. Gostei de ouvir o tema, por aquilo que é dito, pela forma como está cantado (a voz da Ana Bacalhau é portentosa) e porque a melodia me fez lembrar o lirismo do José Afonso.

Apeteceu-me partilhar isto convosco. Aqui vo-lo deixo.



Que Parva que eu Sou

..............................Sou da geração sem remuneração
..............................E não me incomoda esta condição
..............................Que parva que eu sou!

..............................Porque isto está mal e vai continuar
..............................Já é uma sorte eu poder estagiar
..............................Que parva que eu sou!

..............................E fico a pensar
..............................Que mundo tão parvo
..............................Onde para ser escravo é preciso estudar!

..............................Sou da geração “casinha dos pais”
..............................Se já tenho tudo, pra quê querer mais?
..............................Que parva que eu sou!

..............................Filhos, maridos, estou sempre a adiar
..............................E ainda me falta o carro pagar
..............................Que parva que eu sou!

..............................E fico a pensar
..............................Que mundo tão parvo
..............................Onde para ser escravo é preciso estudar!

..............................Sou da geração “vou queixar-me pra quê?”
..............................Há alguém bem pior do que eu na TV
..............................Que parva que eu sou!

..............................Sou da geração “eu já não posso mais!”
..............................Que esta situação dura há tempo demais
..............................E parva não sou!

..............................E fico a pensar,
..............................Que mundo tão parvo
..............................Onde para ser escravo é preciso estudar!
____
Porque sinto uma repulsa visceral pelo novo acordo ortográfico, continuarei a escrever como antes. Quem quiser utilizar as novas normas sinta-se à vontade para o fazer, porque esta é uma casa de liberdade.

14 comentários:

Rui disse...

É certo, a altura é má, a economia está mal, está tudo mal. (Isto já deve ser dito desde 1974 disfarçado na altura em que a Europa dava tudo ao pobre Portugal) Mas a meu ver em relação a este assunto específico, existe um problema, está a formar-se da maneira errada.
E começa no básico e no secundário! Não importa que as pessoas não saibam nada, importa que tenham um papel a dizer que saibam. Facilita-se… Se não é pela maneira “A” é pela “B” ou outra… Importa ter “formados” e não gente que tenha aprendido realmente algo!

Mas parvos pois!
Porque se a gente está descontente não é só a dizer que está descontente! É preciso fazer, e dizer “isto tem de ser mudado” não pode ser da boca para fora! Diletantismo é o que há a mais! Já o descrevia o Eça, e agora está igual!
"No fim, este dilettantismo é absurdo. Clamamos por ahi, em botequins e livros, «que o paiz é uma choldra». Mas que diabo! Porque é que não trabalhamos para o refundir, o refazer ao nosso gosto e pelo molde perfeito das nossas idéas?"

Fez-se o 25 de Abril porque não se podia votar, e agora não se vota! Porque não se acredita, porque se perdeu a fé, enfim por mil razões!
Mas claro, não se acredita no sistema… Pois e aqui concordo que seja difícil! Ele não funciona! Está mal pensado! Vai-se às legislativas e, não votamos num primeiro-ministro mas sim em deputados (são desperdiçados milhares de votos que não servem para nada) e depois os deputados que deviam defender a região estão sujeitos a políticas de voto e não discutem os problemas regionais! E na realidade para pouco servem!

Passos Manuel pode ter acabado com o concelho de Rebordainhos, mas que falta faria hoje para uma reforma administrativa de fundo que este pais precisa!
Bem já chega de opinar, que até já me estendi apesar de ter bem mais para dizer!

Os Deolinda estão realmente bem posicionados e estão a ser reconhecidos no estrangeiro! É preciso exportar! Mas também é preciso comprar produto português, porque se nós “não gostarmos, quem gostará?”

Joaquina Salgueiro S. C. disse...

Pois é Rui ,estou de acordo consigo. Se calhar uma regionalização até vinha a calhar... Quanto à geração «que parva que eu sou» , como parece quererem auto -intitular-se , será que tal conduz à solução pretendida ? Zeca Afonso , a quem já comparam «Deolinda »não podia fazer muito mais além de cantar e mesmo assim ainda havia ,pelo menos , o lápis azul.... Agora , será esta a melhor atitude quando a maioria desses jovens nem vão votar ? Deixam ,assim , que os outros escolham por eles...
Bem , mas também eu já me estou a alongar...Até gosto dos Deolinda ,e quanto ao acordo olhem , refugio-me no ditado que diz :burro velho ( que sou eu !!!)já não aprende linguagem!!!Um dia destes ainda vos leio em Mirandês e vocês a mim em Egitaniense .... É capaz de ser divertido !!!
:)!!!!
Fátima , descontraia que «entre mortos e feridos alguns hão-de escapar !!!» Hoje deu-me para os ditados populares...
Um abraço
Quina

P.S.Quanto aos produtos portugueses ,já disse que sou fanática por eles

Cata- Vento disse...

A canção, quando usada como arma, traz-me à memória tempos muito tristes em que os jovens, inibidos de usar os seus mais elementares direitos, ousavam desafiar o ditador fazendo greves e manifestações que só o uso da força dispersava e alguns, muitos, eram levados para as masmorras da Pide, sujeitos a interrogatórios e torturados.Hoje isso não acontece mas o desemprego, a desesperança, a falta de expectativas leva os jovens a fazer ouvir a sua voz, brandindo a arma que têm ao seu alcance. Gosto dos Deolinda, conheço-os bem e tiveram a sorte de encontrar na música o que os seus cursos não lhes dava.

Bem-haja, Fátima!

Um abraço fraterno

Anónimo disse...

Cata -vento , eu sei bem o que é ter um pai que foi 2 vezes parar às masmorras da pide , até estar mesmo com água pelo pescoço ,ainda no forte de Caxias . Também sei o que é ter um irmão perseguido pela dita
p. e que por tal razão não podia dormir 2 noites no mesmo sítio ... Até tenho uma filha das que são licenciadas...E ,gosto dos Deolinda desde que surgiram . Não tenho a honra de os conhecer , mas reconheço a sua capacidade interventiva ... Só acho é que hoje, temos acesso a outros meios de luta que nos anos 60 eram apenas um sonho para nós
Saudações raianas
Quina , do blogue «Idanhense sonhadora »

Fátima Pereira Stocker disse...

A todos

Mil perdões pela demora na resposta: andei atrapalhada da mão direita, ao mesmo tempo que os afazeres profissionais se acumulam mais do que egípcios nas ruas do Cairo.

Fátima Pereira Stocker disse...

Rui

Nem imaginas como gostei do teu comentário: o lamento nada resolve, mas a acção sim!

Discordo, no entanto, de alguns aspectos: o 25 de Abril não se fez para as pessoas votarem, fez-se pela liberdade (onde se inclui a liberdade de escolha política, mas que é algo de imensamente mais vasto do que ela), pelo fim da guerra e pelo desenvolvimento.

Escolhemos deputados e é assim que deve ser, pois nenhuma democracia pode prescindir do parlamento - e seria essa a consequência de elegermos o governo. Embora precise de aperfeiçoamentos, não é o sistema que está mal. O cidadão não pode demitir-se dos seus deveres! O cidadão tem de começar a entender-se a si próprio como um ser adulto, participante activo e consciente de uma comunidade que tem de assumir que os detentores do poder só o são porque ele o quis e só o exercem enquanto ele o permitir. Ministro vem de ministru que quer dizer "aquele que serve". Exijamos que assim seja, para que desapareça de uma vez por todas a deturpação de que ministro é aquele que se serve! Tal só é possível através de uma activa participação política. Porém, ao invés, nós temo-nos afastado dela! A educação desempenha, aí, um papel essencial (mas as famílias são fundamentais) e, nisso, concordo contigo. Pela minha parte, asseguro-te que faço tudo quanto posso, levando os meus alunos a esmiuçarem o pensamento dos filósofos iluministas, por exemplo. Sinto essa obrigação enquanto cidadã!

Agora, quanto à economia, apetece-me parafrasear (e deturpar) o pensamento de Duarte Ribeiro de Macedo, um dos portugueses mais marcantes do séc. XVII: Diz-se que está lastimosa a economia da Pátria. Dizem os políticos que o mal procede do luxo e dos salários dos trabalhadores e que pela redução dos salários e aumento dos impostos se hão-de equilibrar as finanças. É conveniente que se pratiquem entre nós: mas o nosso problema é de tal ordem que não basta este remédio.

Em meu entender, os Deolinda retrataram as dificuldades enormes que os jovens estão a atravessar. Lançaram o alerta e isso fica-lhes muito bem. Não nos fiquemos nós pela cantoria!

Beijos, Rui!

Fátima Pereira Stocker disse...

Quina

É difícil dizer sursum corda quando tantos dos alunos tomam, oferecida(s) pela escola, a(s) única(s) refeição do dia. Que lhes acontecerá quando nós já não formos capazes de dar mais? E aqueles cujas famílias estão a perder a casa? Que lhes faremos? Eles são gente, e o coração carrega-se!

Um abraço

Fátima Pereira Stocker disse...

Isabel

Há sempre males a combater, por isso, e porque também se canta com raiva, a cantiga será sempre uma arma!

Um abraço

Fátima Pereira Stocker disse...

Quina

Lembrou muito bem: as lutas são outras e os meios também o podem ser!

Um abraço

Rui disse...

Sempre tive a ideia que não fosse só por isso o 25 de Abril, talvez tivesse abusado um pouco da generalização. Queria enfatizar que votar, que é um dever, devia ser levado mais seriamente. Há até países que multam os abstencionistas...

Em relação aos deputados, nunca pensei eu em prescindir deles, mas sim em alterar a forma como estão organizados. Por exemplo, em alguns países como Inglaterra, Estados Unidos e Brasil, existe um sistema bicameral. Permite ter deputados mais próximos da população e serem eleitos independentes. Coisa que a actual constituição não permite! Não penso pretendo com isto ter mais deputados, mas sim que as suas contribuições sejam mais justas e representativas.

Exemplos práticos:
Dos três deputados eleitos pelo circulo de Bragança um deles é da região do Porto, sem qualquer ligação à região. Em que é que isto beneficia o distrito?
Vota-se qualquer diploma na assembleia da republica e não se pensa nem no bem do país, nem no das regiões. Pensa-se no partido! Vota-se porque o partido vota, ou porque obrigam, ou porque sim!
Exemplo deu o deputado do Queijo Limiano! Permitiu que o País tivesse um orçamento, e ainda impulsionou a economia local. Deviam todos pensar igual!

Beijos

Fátima Pereira Stocker disse...

Rui

Estamos, então, de acordo quanto aos deveres dos cidadãos!

É engraçado que fales no bicameralismo, porque metade da nossa história constitucional (de 1822 até agora)assumiu a existência de um parlamento com duas câmaras. Foi assim com a Carta Constitucional de 1826 (o grande texto constitucional da monarquia liberal); com a Constituição de 1838 e com a Constituição republicana de 1911! Infelizmente, quer em monarquia, quer sob a república, o sistema deixou tão poucas saudades que foi abandonado pelo Estado Novo e pela democracia de Abril.

Porque é que deixou amargos de boca? Porque, durante a monarquia, a Câmara dos Pares dependia de nomeação régia e a nomeação de pares era o modo que o rei tinha de intervir no processo legislativo. Em linguagem chã dos nossos dias, diríamos que eram os "boys" do rei. Além do mais, os pares eram vitalícios, acumulando prebendas para a vida.

Durante a I república, os pares (agora designados "senadores") dependiam de eleição. Ou seja, era um segundo parlamento que se não entendia com o primeiro (os deputados) invalidando qualquer tentativa de governação. A consequência (embora haja outros factores) foi a queda sistemática dos governos e a resignação dos presidentes da República que não estavam para aturar aquilo! Para teres uma ideia, em 16 anos de república houve mais de 50 governos; quase nenhum governou mais do que um ano, havendo alguns que duraram meses e outros alguns dias dias.

Ou seja: o bicameralismo funciona muito bem em Inglaterra, mas parece que não é assim entre nós. Mas deixa que te diga que os ingleses andam, há muito, a reclamar do sistema que têm!

Quanto ao teu exemplo prático só te posso dizer: o povo, votando nesses senhores, sancionou as escolhas partidárias. Será que os eleitores não tinham, mesmo, alternativas ou será que os eleitores concordam com o sistema e, por isso, votam nos partidos em vez de votarem nas pessoas?

São dúvidas que tenho e que me parecem legítimas!

Estou a gostar desta nossa troca de impressões!

Beijos

Rui disse...

Boa tarde,

A ideia do bicameralismo tem por base uma convicção minha, As regiões precisam de maior autonomia e o sistema administrativo actual está obsoleto. O mundo muda a cada dia, e a nossa divisão administrativa, não tem grandes alterações desde o séc. XIX, ou estarei enganado?

De certo modo convenceu-me que a existência de 2 câmaras de deputados pode trazer dissabores.

Bem sei que a I república foi o que foi, mas desconhecia que havia bicameralismo, sempre a aprender… =) E percebo também o problema de nunca se entenderem. Lembro-me de Manuel Alegre ter defendido, uns meses atrás que os deputados deviam poder ser eleitos independentes, e logo na altura pensei na confusão que seria, com cada um para seu lado. Não havia governo que aguentasse por certo. E daí ter pensado no bicameralismo como solução, pois de certo modo concordava com a possibilidade de haver deputados independentes, mas tinha de ser de um modo funcional. Estou a perceber agora, que talvez nem assim (bicameralismo) haveria maneira de contornar essa questão.

Talvez até seja este, (o que temos) o sistema mais equilibrado, mas de certo modo, o deputado é preso às políticas partidárias. Quanto ao haver ou não alternativas, não sei, e nisso nem me meto!

De qualquer modo, na minha opinião, o sistema administrativo está mal. As juntas de freguesia só se usam para fazer os papéis dos cães, e as certidões das pessoas (generalizo outra vez, mas olhe que não é muito mais). As câmaras municipais não têm poder económico para grandes investimentos, que são controladas por Lisboa… não faz muito sentido para mim!

A única descentralização que existe, é inútil e dispendiosa. Existem subdelegações regionais para isto e aquilo, e estas desdobram-se em sub-regionais, que se desdobram em locais e depois há 20 chefes de secção e… está mal! Acho eu claro!

Beijos,
Rui

Fátima Pereira Stocker disse...

Rui

Parece que vamos caminhando no sentido do entendimento.

Concordo contigo que é importante que se reveja alguma coisa no sentido da descentralização. Por exemplo, há muita gente a reclamar o fim dos governos civis, e eu concordo, porque as câmara municipais podem, perfeitamente, exercer aquelas competências, com a vantagem de que são eleitas. Em termos de regionalização, eu não iria mais longe do que o alargamento de competências dos municípios: desagrada-me a criação de um organismo entreposto entre a vontade popular e o centro decisório de Lisboa, para já não falar nas aberrações geográficas e culturais que podem nascer (basta lembrar as propostas chumbadas no referendo que existiu sobre regionalização).

Agora, sobre a independência dos deputados. Em tese, concordo com o princípio. Mas só em tese, porque a prática revelou-se desastrosa durante a I república (mais uma vez...). Com efeito, os deputados eram eleitos em listas partidárias mas, mal chegavam ao parlamento, reclamavam-se da suas liberdade e votavam conforme lhes apetecia. Consequência disso? Nunca nenhum governo sabia com quais deputados contava (teoricamente, com todos os eleitos nas listas do partido; nas prática, com nenhum!) e a consequência é que se instalava a balbúrdia e os governos não conseguiam que o parlamento aprovasse as leis necessárias à governação. Foi esse o motivo que levou à criação daquela figura estranha da "disciplina partidária". Mas se reparares bem, não são muitos os casos em que os partidos exigem a sua aplicação, mas a norma é, efectivamente, que os deputados votem de acordo com a orientação de voto partidária. O que está mal nisto? O comportamento do deputado, porque a constituição é clara: é-se deputado da nação! Cumpre-nos a nós não votar em listas que apresentem esses nomes. Olha que eu já fiz isso, e a pessoa em causa aparecia muito abaixo do 10.º lugar!

Beijos

Rui disse...

Boa noite,
Os governos civis, são de facto obsoletos. Mais de que concordo com a sua extinção. Têm falado de facto, e já há bastante tempo, mas não fazem nada…

Eu até aceito essa sua proposta para “regionalizar”, no entanto é preciso alargar as competências das freguesias assim como o seu tamanho, alargar também os municípios, em competências e dimensões. Há casos que não entendendo, São João da Madeira, Barrancos, Alpiarça… Concelhos com UMA freguesia… Porquê?

Outra coisa que acho que poderia ajudar era uma alteração entre as câmaras do Porto e de Lisboa. Em contrário ao resto do país, aqui as câmaras deveriam diminuir competências, criando-se uma outra entidade. Uma espécie de câmara metropolitana! Que englobasse um território maior e a gestão estivesse assim uniformizada. Não sei se seria viável, é uma ideia…

Quanto aos deputados, já estou por tudo, em teoria realmente é necessária a sua independência, mas imagino que na prática seja mais profundo que aquilo que parece.

Beijos