quarta-feira, 6 de abril de 2011

A MOURA E AS MOURAS

Passei quase cinquenta anos de vida sem dar importância ao sentido distinto com que usávamos o mesmo nome: moura. É verdade que umas vezes o utilizávamos no singular e outras no plural, mas o número também nunca me serviu de alerta. Era a moura da Fraga Grande da Ladeira, aquela que fiara um saco de maçarocas enquanto transportava a fraga à cabeça, e eram as mouras, aquelas ervas que nascem nos tanques e nas ribeiras, com as quais brincávamos em crianças. Uma e outras nada podem ter em comum e só pensei nisso depois de ter aprendido uma lição, pelas mãos generosas da nossa querida visitante Quina, da Idanha-a-Nova. Palavra de honra que até corei de vergonha por, ao menos, nunca ter pensado no assunto!

A moura é evidente: aquele “ou” resultou em Português da transformação do “au” latino. Ela é moura porque “maura”, isto é: da Mauritânia.

As mouras têm um percurso muito mais complexo. Com propriedade, apetece compará-lo com o da vida das pessoas. Com efeito, até ao séc. XVI era rara a utilização do ditongo “oi” em língua portuguesa, embora vulgar entre os judeus. Gil Vicente até brinca com o assunto (1). A partir daí, generalizou-se o seu uso e, hoje, dizemos um e outro sem cuidarmos nisso. No entanto, se repararmos bem, são muito raras as palavras que, em Rebordaínhos, comportam o ditongo oi. Essa raridade talvez justifique que os nossos antepassados, quando ouviram falar em “moiras”, tenham transformado automaticamente esse som estranho noutro mais familiar e conhecido.

As nossas mouras, parece-me, equivalem às “moiras” da Idanha, entidades associadas ao destino das pessoas. Pela explicação da Quina, fundamentada na vasta ciência do professor Vitorino Nemésio, fiquei a saber que as moiras correspondem às divindades gregas com o mesmo nome (que sempre designei por Meras, o seu outro nome), a que os romanos chamam as “Parcas”. Moiras ou Meras (ou Parcas) são três irmãs malvadas – Átropo, Cloto, Láquesis – que determinam como há-de ser a vida de cada um dos seres humanos, entendida como se fosse um fio que a primeira fiava, a segunda enrolava e a terceira cortava.

A analogia parece-me clara: o percurso dos cursos de água simbolizando os caminhos da vida; as mouras, fios das nossas vidas, enredados ou cortados ao sabor da agitação das águas. O destino de cada um de nós!

Bem-haja, Quina, porque me permitiu este exercício de pensamento.
_____
(1) Vejam-se estes exemplos das falas dos judeus casamenteiros Latão e Vidal, extraídos da “Farsa de Inês Pereira”

LATÃO
Será o que hoiver de ser (…)

Ora oivi, e oivireis (…)

VIDAL
Como oivo cantar (…)

Afoitado pela mão (…).

Lembremos que os mais velhos de Rebordaínhos ainda dizem “afoutar”

16 comentários:

António disse...

O que a gente não aprende com esta professora!
Obrigado, Fátima por mais este sapiencial em que tão oportunamente caldeias a sabedoria dos gregos com a cultura popular, passando por Mestre Gil.
Im abraço
Tonho

Idanhense sonhadora disse...

Bem ,caríssima colega , agradeço as referências elogiosas que me faz na sua última explanação . De facto se eu me socorri dos anos de estudo de grego e , principalmente , da muita sabedoria do Professor Vitorino Nemésio que nesses anos difíceis de 67/68 já permitia aos seus alunos ter com ele estas conversas ,a Fátima acrescentou-lhe o "pormenor " da pronúncia judaica .
Ora ,sou , particularmente , sensível a esse "pormenor"pois não posso esquecer que venho duma região onde desde o sé. III os judeus já se houveram fixado ... Depois , há ainda o facto da possível origem da língua lusitana ser a mesma da hebraica ---o cananita antigo ...Mergulhei neste assunto nas pesquisas que fiz para o que espero , venha brevemente a ser o meu livro intitulado "De Igaedo à Srª do Almotão " .
Mas concluindo ,gostei da sua explicação e interligação entre as 3 Parcas e essa planta que existe aí nas fontes . Não sei se também há na Beira . Hei-de procurar e pedir ajuda à minha cunhada e sua conterrânea de Salsas .
Um abraço
Quina

Cata- Vento disse...

Foi no blogue da Quina que tomei conhecimento que havia diferença entre moura e moira tal como a Fátima e lembro-me que até lhe pedimos mais esclarecimentos que ela prontamente nos cedeu.Reparei, logo, que em Rebordaínhos também existiam as moiras, termo ligado à vegetação. Aqui no Algarve, usam-se os ditongos ou/oi indiferentemente e só designam as "mauras" e as lendas que lhes andam associadas.Na zona serrana, onde agora passo boa parte do meu tempo, o ditongo oi era muito usado: toucinho/ toicinho;besouro/besoiro;ouro/oiro... mas as gerações mais novas usam o ou.

Bem-haja, Fátima!

Abraço amigo

Anónimo disse...

moura-encantada
1.Etnogr. Entidade fantástica, espécie de nereida mourisca, com tipo de mulher morena, a qual, segundo a crendice popular portuguesa, vivia nos rios e nas fontes, sempre de vermelho, penteando sempre os belos cabelos pretos. [Var.: moira-encantada. Pl.: mouras-encantadas. Cf. moura-torta.]

Anónimo disse...

moira
[Do gr. Moîra, ‘personificação do destino imperioso e inflexível, e que conduz tudo a seu fim’.]
Substantivo feminino.
1.O destino de cada indivíduo; o destino.

eduarda disse...

"Aprender até morrer!"
Não conhecia a lenda da fraga, só me lembro que de ir até lá,e me sentir tão cansada, como hoje me sinto uma "moira de trabalho"...
Beijo grande

Fátima Pereira Stocker disse...

Tonho, querido amigo

Acreditas se te disser que tenho muitas dúvidas sobre aquilo que escrevi?

Beijos

Fátima Pereira Stocker disse...

Cara Quina

A sua foi uma explicação e tanto, mas como ninguém escapa à sua natureza - e a minha consiste em ser muito duvidosa - a nova ciência suscitou-me novas dúvidas.

A ver se me faço entender, escrevendo algumas:

Como é que contactos tão esporádicos, como foram os que tivémos com os gregos, deixam marcas tão profundas na tradição? Mais: como é que essa tradição vê a luz do dia nos lugares menos visitados por eles? Será que algum grego livre pisou alguma vez a minha terra? Francamente, inclino-me mais para a possibilidade do grego escravo dos romanos. Isto para as moiras / mouras, claro!

Para a moura a dúvida começa por ser cronológica. Faria mais sentido que as associássemos ao domínio muçulmano, mas a plavra é de etimologia latina... uma confusão temporal em que esbarro e não resolvo.

Sempre me perguntei como surgiu a lenda de uma moura numa terra onde as gentes de Alá tiveram presença e influência tão escassa. Essa lenda, ainda por cima, parece ter pouco a ver com as mouras encantadas que encontramos em lendas mais a Sul, que interferem na vida das pessoas, como aquela que nos refere Gil Vicente nas Cortes de Júpiter.

Como vê, tenho muito para estudar e resolver, mas algo me diz que romanos e muçulmanos só estão aqui para baralhar as coisas.
__

Os estudos para o seu livro estão avançados? Não se esqueça de me avisar da publicação!

Um abraço

Fátima Pereira Stocker disse...

Cara Isabel

País variado, o nosso. Graças a Deus!

Em Rebordaínhos gostamos tanto do "ou" que até o "eu" substituímos por ele!

Um abraço

Fátima Pereira Stocker disse...

Anónimo

Obrigada, as definições do dicionário dão sempre uma ajuda.

Beijos

Fátima Pereira Stocker disse...

Eduarda

Mas diz lá se o caminho não valeu a pena? E a vista portentosa que se tem do cimo da fraga?

Beijos e moureja menos por estes dias!

Idanhense sonhadora disse...

Fátima ,tem todo o direito de se questionar e de duvidar . Aliás é a dúvida que muitas vezes nos conduz à descoberta da verdade ...
Aquilo que eu disse e continuo a defender ,refere-se à Beira Interior e , mais concretamente , ao concelho de Idanha -a -Nova .Foi sobre ele que recaíram as minhas pesquisas . Assim ,numa 1ª abordagem parecer-nos-à inviável que os egípcios tenham estado na minha região e introduzido aí o culto a Isis ; ou que os gregos também por aí andassem já no séc. III A.C. ... Mas o que é certo é que terão mesmo andado e não apenas na faixa litoral como o afirmam as correntes mais tradicionais. No 1º caso terão vindo integrados no exército romano que era , à época , principalmente formado por tropas vindas no Mediterrâneo Oriental ,Mesmo do lado de lá da fronteira já foram encontradas provas .Quanto aos gregos vieram como comerciantes ;vinham até Cádis e subiam depois o Guadiana seguindo por último por terra até ao meu concelho. O que os atraía ? A riqueza das minas aí existentes ,destacando-se o ouro... Esta via comercial manteve-se depois ,sendo seguida por cartagineses e romanos . No último caso deu origem a uma das vias que atingiam a Egitânia e que seguiam depois para norte . No caso egípcio ,a Egitânia terá sido mesmo a única região a norte do Tejo onde os cultos orientais foram introduzidos . Assim na minha terra "moira " é destino ou "fadário " mas também dizemos "moura" isto é população islamizada do norte de África que em 713 arrasou a Egitânia .Claro que também aqui temos mouras que surgem em fontes penteando cabelos ou que escondem tesouros e enfeitiçam rapazes em noites de luar ...Também se moureja ou trabalha que nem um mouro... mas moira ,essa é para mim e para as tradições mais remotas da minha terra , como o ProF. Nemésio me fez pensar ao lembrar-me o que eu aprendera ao estudar grego , o destino .. Assim não lhe posso responder pela sua região que antes de romanização ficava fora da Lusitânia , sendo ocupada pelos Zoelas , os Coelernos e os Luancos ( estes já entre os rios Tâmega e Tua ) e que creio pertencerem ao grande grupo dos Galaicos
Enfim muito há para pesquisar .
Quanto ao meu livro já está pronto e entregue ; a Câmara da minha terra ,quando soube o que estava a pesquisar ,mostrou-se interessada na sua publicação . Como nunca me tinha visto metida numa destas e alguns amigos me vinham incentivando a publicar , aceitei a oferta camarária . Compõe-se de 2 partes ...: 1 de carácter histórico e outro de poesia dentro da linha do cancioneiro tradicional da Srª do Almotão . Contém ainda várias ilustrações também da minha autoria ....
Bem e hoje fico por aqui . Não sei se dei alguma ajuda ...
Um abraço

Fátima Pereira Stocker disse...

Cara Quina

Às vezes penso em voz alta. Foi o caso, mutatis mutandis.

Às vezes, também, embrenho-me de tal forma nos autores que leio que lhes copio o estilo sem disso me dar conta. Foi também o caso, desta feita com o P.e António Vieira e a utilização de "duvidosa" sem cuidar da evolução semântica. Com tal adjectivo quis dizer que eu me interrogava porque tinha dúvidas; jamais que punha em dúvia as informações que, tão gentilmente, fez o favor de me dar e que, agora, reforçou.

Socorrendo-me da irritante linguagem pedagógica, o que eu fiz foi aplicar os conhecimentos adquiridos a uma nova situação. Como a situação assume características algo diferentes, surgiram-me as dúvidas sobre as quais hei-de matutar até alcançar resposta.

Entretanto, bem-haja por mais este tão esclarecido comentário.

Quanto ao seu livro, em estando publicado, há alguma possibilidade de o comprar? O título, devo dizer-lhe, suscitou-me grande curiosidade.

Beijos

Olímpia disse...

Gostei de ler todos estes ensinamentos.
A todas, o meu agradecimento por tal contributo.

bjos

Olímpia

Idanhense sonhadora disse...

Fátima, mutatis mutandi ,mas continuando na mesma temática ,venho só dizer-lhe que quando o livro sair , terei muito gosto em lho fazer chegar ...
Um Abraço

Fátima Pereira Stocker disse...

Quina

E eu vou ter muito gosto em o receber e em lê-lo com muita atenção. Muito obrigada.

Beijos