domingo, 10 de abril de 2011

ARES DA SERRA

PASCOELAS
por


ANTÓNIO AUGUSTO FERNANDES

Quando raiava Sábado Santo, varriam-se da aldeia as trevas fuliginosas da Paixão, os cochichos ciciados, as horas mortas sentadas à lareira sem nada para fazer, as rezas lamentosas da via-sacra olhando os quadrinhos dependurados das paredes da igreja, com as feias visagens dos judeus que judiavam de Nosso Senhor, ajoelha, levanta, ajoelha, levanta, e Jesus caminhando de Herodes para Pilatos e depois até um monte escalvado, como o Alto do Sirgo, onde ficava crucificado. Com o Sábado Santo, as luminosidades da primavera resplandeciam mais intensas e descia sobre a serra a autorização de se ser feliz novamente, de jogar o pingue e a bilharda, de ir visitar os ninhos que já se sabiam, de se provar o folar.

E era também o dia de descermos em bandos grulhentos até aos lameiros da Ribeira dos Pereiros em cata das pascoelas com que se enfeitassem os pobres casebres serranos e reconquistássemos a alegria de ser Páscoa. Pascoelas: um pequeno luxo doirado para receber o Senhor quando, no domingo, visitasse a casa de cada um. Eram as primeiras flores a aparecer na serra, o anúncio temporão de uma primavera que mal se anunciava ainda, companheiras das andorinhas leves como sílfides e do canto travesso do cuco a arreliar as moçoilas casadouras. Parecia quase um milagre que, tão delicadas e mimosas, tão cor de ouro, germinassem e crescessem sob as geadas intensas daqueles sítios mais fundeiros e subessos: gentis gotas de sol suspensas dos caules finos, protegidas pelo verde rugoso das suas folhas, saudando os primeiros lampejos de um sol fagueiro e irmão.

Sempre me espantara que preciosidades daquele quilate enjeitassem nascer nos lameiros familiares das Bouças, da Ribeira ou do Catrapeiro para irem despontar naquele buraco dos Pereiros. Eram decerto flores de eleição, já que na sala de aula, elas apareciam pintadas no bojo de uma jarrinha que o senhor Professor invariavelmente propunha como modelo para os da quarta se exercitarem no desenho à vista. Mas nunca os nossos lápis Viarco eram suficientemente amarelos para reproduzirem o ouro daquelas pétalas, nunca o seu verde nos satisfazia ao pintarmos aquelas folhas rugosas que as protegiam.

Levados pelo fascínio de conquistar esses primeiros mimos florais lá nos aventurávamos pelo tortuoso carreirão das Ribas até aos lameiros dos Pereiros, sabendo embora que iríamos enterrar as botas cardadas nos ervaçais ainda encharcados da invernia. E, como os argonautas de Homero, regressávamos soberbos e contentes, ostentando os nossos velos de ouro.

Uns tempos mais tarde, já rapazote, depois de a minha diáspora me ter alijado para longe do ninho materno, quando regressei a Rebordainhos pela primeira vez nas férias da Páscoa, aferroou-me um aguilhão de nostalgia pelas pascoelas de outrora. À sorrelfa, quase envergonhado da minha infantilidade, sem dar cavaco a ninguém, arrisquei-me a recriar a descida de Orfeu em demanda de Eurídice, descendo até aos lameiros da Ribeira dos Pereiros, em demanda das pascoelas da infância.

De pascoelas nada vi, nada encontrei. Decerto esse tesouro pertencia, tal como as fadas e a carochinha, às magias de quando se é criança e que se perdem quando o buço desponta. E remontava o carreirão das Ribas, desapontado da procura frustrada, quando…

Não sei se se lembram. Ali nas Ribas, havia (creio que ainda há) um lameiro, no meio do lameiro uma amoreira, uma das últimas sobejantes de quando por lá se criavam bichos-da-seda e, junto da amoreira, uma poça de rega. Pois foi nessa poça que as pascoelas me floriram os olhos deslumbrados: três moçoilas procediam às abluções rituais da Páscoa. Depois de terem purificado as almazinhas juvenis no confesso ao Pe. Amílcar, vinham dealbar ali, na solidão das Ribas, os tenros corpinhos de adolescentes em flor. Nuazinhas como Deus a pôs no mundo, alvas sob a luminosidade espiritual da manhã de primavera, com a graça pagã das rolas, dos freixos, das pascoelas, enfim, das coisas naturais, lavavam-se umas às outras, na reciprocidade amorável das Três Graças de Canova. Na cútis leite e rosas, no peito os outeirinhos de neve coroados de amora madura e, entre as colunas de alabastro de que fala o Cântico dos Cânticos, a penugem discreta que escurece as secretas regiões da remota fonte da vida.

Pouco durou a bucólica. Quando deram pelo meu olhar transeunte e embevecido, desataram em grandes gorjeios, enovelando-se umas nas outras na atrapalhação de ocultar a olhos profanos o que o pudor da adolescência manda seja ocultado.
Porque, Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades e… após dias, dias vêm e cada sazão tem as suas pascoelas…
Foi assim que, nessa Páscoa, em vez dos lameiros dos Pereiros, foi por ali, nos lameiros das Ribas que me desabrocharam essas outras pascoelas, não douradas, mas alvas como a neve, mas igualmente deslumbrantes, igualmente primaveris.
______

11 comentários:

Fátima Pereira Stocker disse...

Tonho

Porque não tenho a certeza de que toda a gente conheça o belíssimo texto bíblico que é o Cântico dos Cânticos, não resisto a transcrever algumas passagens, para que todas as pessoas possam apreciar melhor aquilo que escreveste.

As transcrições são da Bíblia dos Capuchinhos

(2, 11-13)
Ele:
Levanta-te! Anda, vem daí,
ó minha bela amada!
Eis que o Inverno já passou,
a chuva parou e foi-se embora;
despontam as flores na terra,
chegou o tempo das canções,
e a voz da rola
já se ouve na nossa terra;
a figueira faz brotar os seus figos
e as vinhas floridas exalam perfume.
Levanta-te! Anda, vem daí,
ó minha bela amada!


(7, 2-7)
Ele:
Quão formosos são teus pés
nas sandálias, ó princesa!
As curvas dos teus quadris
parecem colares, obra de mãos de artista.
O teu umbigo é uma taça redonda.
Que não falte o vinho doce!
O teu ventre é monte de trigo,
todo cercado de lírios.
Os teus seios são dois filhotes
gémeos de uma gazela;
o teu pescoço, uma torre de marfim;
os teus olhos, as piscinas de Hesbon,
junto às portas de Bat-Rabim;
o teu nariz é como a torre do Líbano,
de vigia, voltada para Damasco.
A tua cabeça ergue-se como o Carmelo
e os teus cabelos são como púrpura;
trazem um rei cativo dos seus laços.
Como és bela, como és desejável,
meu amor, com tais delícias!

Fátima Pereira Stocker disse...

Tonho

Ternura a rodos é tudo quanto jorra deste teu texto, inspirado nas tuas/nossas memórias povoadas de cheiros, paisagens e de gente.

Deus te pague!

Beijos

Olímpia disse...

António:
com este teu texto, também a mim me floriram pascoelas nos olhos, deslumbrados de saudade.
É um encantamento de lembranças que por todos nós passaram.
Bem-hajas, António.

bjos

Olímpia

Cata- Vento disse...

Mais um texto assinado pelo amigo António. Permita-me que assim o trate pois recebo os seus textos com a mesma alegria com que recebo um presente de um amigo(a). Para além da escrita, perfeita, que me deixa deslumbrada, contém referências diversas aos usos e costumes da vossa região que acrescentam o meu saber. E é bom que assim aconteça cumprindo-se o verdadeiro espírito da blogosfera.
Abençoadas Pascoelas que tão belo e terno momento de leitura me proporcionaram.
Por favor, escreva sempre.

Bem-haja!

Abraço amigo

Idanhense sonhadora disse...

António , também eu me permito tratá-lo assim ... Mais uma vez o seu texto é um encanto . A música , a condizer , transpõe-nos para outras dimensões .
Bem -haja e aproveito para lhe desejar uma Boa Páscoa
Quina

Augusta disse...

Tonho:
O leque de admiradores mantém-se expectante por mais um texto teu. Apesar disso, tens a capacidade de nos surpreenderes e "regalares" com cada um que nos ofereces, mantendo-nos presos à leitura, e um sentimento de "saber a pouco", quando terminam.
Grata por isso, e pela amizade que demontras com a tua partilha. E também eu te desejo uma boa Páscoa, se possível bem acompanhada com o nosso delicioso folar. E que o mesmo dure até à Pascoela .

Augusta disse...

Fátima:
Obrigada pelo complemento de informação.
Beijos

Fátima Pereira Stocker disse...

Augusta

Experimenta ler o texto ao mesmo tempo que ouves a música.

Beijos

António disse...

Às minhas benévolas leitoras, indefectíveis nos seus elogios, o meu bem-hajam e votos de uma boa Páscoa cheia de amêndoas, folares e... pascoelas.

António

António disse...

Fátima:

Mais uma vez o teu esmero na apresentação destas linhas superou o que elas merecem.
Obrigado e um beijinho pascal.

António

Filinto disse...

Olá Primacho!
Então às Pascoelas!? Para os ninhos ainda era cedo, mas o cuco já cantava.
Ficaste deslumbrado com aquelas saliências, qual molete acabado de sair do forno.Mesmo que encontrasses ninhos... os ditos apenas teriam penugem.
As pascoelas são as minhas flores preferidas de Rebordainhos, pelo seu perfume, singeleza, simplicidade e pureza, como as donzelas que encontraste. Não era aí que eu as encontrava, mas na canada de quem vai para o Atalho, junto a uma terra da tia Joana Padeira que Deus levou.
O teu texto contrasta com a futura Auto-estrada IP4 que vai chamar-se "Lá vai um, dois é demais".
Um abraço
Filinto