sexta-feira, 21 de outubro de 2011

CORRER DA VIDA

“Elas já perceberam. Vejo-lhes a tristeza nos olhos. Sabem que vão ser vendidas!”

Era isto que me confidenciava o tio António Piloto a quem os oitenta anos obrigavam, por já não poder trabalhar, a desfazer-se da junta de vacas. “Elas são como as pessoas, compreendem tudo!”

Induzida, talvez, pelas palavras daquele homem bom e sábio, dei por mim a fitar atentamente as duas vacas, jungidas ao carro, e a confirmar a plangência do seu olhar. Varou-se-me a alma!

Recuei à meninice, ao tempo em que eu e a minha irmã Olímpia éramos os reichequitos da família e, entre nós, decidíramos que a Andorinha era dela e a Novela era minha. Tal posse não queria dizer nada, a não ser horas de discussão sobre qual das vacas era a mais bonita e tinha as melhores prendas. Verdade, verdadinha, a Olímpia calava-me quase sempre, rematando com acinte: “a Novela é espantada como tu!”

Como todas as da aldeia, eram duas vacas mirandesas, brilhantes do bom trato, com a Novela a passear a sua cor de castanha corada e a Andorinha a exibir-se em nobrezas de ouro velho. Era ela a boa criadeira, pois o seu úbere túrgido oferecia-se aos filhos até que os visse saciados e, satisfeitos, se deitassem a ruminar o prazer. Nunca, porém, podia parir sozinha, porque na sua ânsia de ver a cria a mamar, dava-lhe escornadelas até que se erguesse, correndo o risco de a ferir.

As crias da Novela andavam sempre magras, apesar de ser mãe tão solícita como as demais. A primeira vez que pariu foi um desassossego. Cada vez que a vitelinha se acercava dela para mamar, dava-lhe coices e afastava-se sem permitir que lhe tocasse. O meu pai e a minha mãe andavam ralados. Chegavam-lhe a filha, para que a cheirasse, mas ela bramava de tal modo que tinham que lha esconder da vista.

“É preciso defumar a vaca”, sugeriu a tia Vermelha à minha mãe, mas o Fouce, que gostava pouco de coisas que lhe parecessem bruxedo, proibiu-o peremptoriamente.

Como em tudo, a teimosia das mulheres levou a sua avante. Deixaram o meu pai sair para Arufe, juntaram os ramos de oliveira benzidos no último Domingo de Ramos, aspergiram-nos com a água benta, meteram-nos num caldeiro e foram-nos acender à loje. Aquilo é que foi! Mal o fumo lhe chegou às narinas, a Novela levantou-se e, meigamente, foi lamber a cria, convidando-a a mamar. Operara-se o milagre.

A Novela era ciosa da sua dignidade vacaril. E da dignidade de uma vaca faz parte o direito à boca livre para poder saborear os rebentos tenros, mormente quando está a lavrar, jungida à charrua. Por isso, ninguém ousasse aparecer-lhe com a focinheira! Um dia, a Amélia atreveu-se, estando o pai a agradar na Ribeirinha. Mal a avistou, desatou em corrida tamanha, que foi ela, foi grade e foi tudo atrás. Com que custo se deixou apanhar! A raiva às focinheiras era tal, que o meu pai se viu obrigado a tirá-las de detrás da porta da loje, onde costumava pendurá-las, porque, assim que se abria a porta e a luz da rua incidia nelas, a vaca pulava e corria a esconder-se na parte mais funda do curral.

Habituada pelo meu irmão Pedro, a Novela só fazia as coisas se fossem pedidas com bons modos e gesto meigo. Que ninguém lhe tocasse nos cornos! Se lhe aparecessem com a aguilhada, firmava as patas e não havia quem a demovesse. Mas se em vez da aguilhada apanhassem uma palha e lha encostassem atrás da orelha, fazia tudo quanto quisessem. Mansinha!

∫∫∫∫

Os homens antigos só sabiam viver enquanto trabalhavam a terra e, por isso, demoravam tanto a reconhecer que já não podiam mais. O arrastamento do trabalho pelos anos da sua idade era o tempo que se davam para resolver a luta interior em que se opunha o natural desejo de preservar a vida e a constatação de que o fim se aproximava. O apego ao trabalho certificava-lhes a vida. Quando, finalmente, aceitavam que no dia seguinte se não levantariam à mesma hora das outras pessoas, estavam a entregar-se à morte. Mansamente.

“As vacas são muito inteligentes”, dizia-me o tio António, na conversa do início. Percebi, então, que ele queria que eu visse nos olhos delas a dor que era ele que sentia, mas que, por pudor, não traduzia em palavras.

A Novela e a Andorinha foram a última junta de vacas do meu pai. Por isso se me varou mais a alma!

14 comentários:

elvira carvalho disse...

Comovente este relato de que aqui nos deixa. Hoje como ontem estas pessoas sentem que a vida lhes foge quando deixam de trabalhar. Fiquei emocionada.
Um abraço e bom fim de semana

Isamar disse...

Mais um texto com a qualidade a que nos habituaste, Fátima! Comovi-me e, com franqueza, os olhos marejaram-se-me de lágrimas. Conheci muitas vidas assim e ainda conheço. Tenho um vizinho que diz que não é só o aprender que se faz até morrer. O trabalho também. A caminho dos oitenta, sai para o amanho das terras, montado no tractor, mal o dia amanhece, leva farnel e regressa à tardinha. Acabou agora o varejo das alfarrobas e já está no varejo das azeitonas. Regressa ao fim da tarde carregado de sacos, cansado de um dia de trabalho mas alegre. A sua única ajuda é a mulher porque o trabalho não rende para trazer trabalhadores.
E diz-me muitas vezes que quando parar é para morrer.
Aqui lavrava-se a terra com machos ou mulas, já poucos o fazem, mas quando vendeu os animais os seus olhos andavam carregados de tristeza.

Bem-hajas, por, mais uma vez, me teres permitido "degustar" um texto primoroso.

Beijos

Fátima Amaral disse...

Esta passagem do quotidiano da vida das nossas gentes,quebrou-me as asas do coração,mas mesmo assim consegui voar para tempos distantes onde as emoções dum povo eram também feitas á custa do amor aos seus animais.

Eles faziam parte da familia,eram o braço direito,trabalhador esforçado duma casa e ninguem se podia dar ao luxo de menosprezar os seus animais.No fim duma faina,antes do lavrador se sentar á mesa já tinha "pensado"os seu animais.

Beijos.

Anónimo disse...

E, tal como o tio António, também o nosso pai ficou triste "como a noite" com a venda da sua junta de vacas. A vontade de trabalhar era tal que, como não tinha as dele, trabalhava com as dos outros. E, nos últimos tempos da sua vida, com a mente já um pouco perturbada, ainda assim pensava em ir "acomodar" as suas vacas.Tal como o nosso pai, também o tio António e outrs tantos homens da nossa terra, tinham na sua junta de vacas, mais dois elementos da família. Afinal, era com elas que passavam o correr dos dias de labuta.
Homens valentes estes de Rebordainhos.
Parabéns mana, por nos transportares mais uma vez a outros tempos. E que bem o fizeste!
Beijos
Augusta

Fátima Pereira Stocker disse...

Elvira

É mesmo assim.

Um beijo e bom domingo

Fátima Pereira Stocker disse...

Isabel

Eu às vezes penso que as pessoas que trabalham a terra e vivem dela a amam como se fosse sua mãe. Assim, porque se não abandona a mãe, também se não larga a terra e só assim é que as coisas fazem sentido.

Bem-haja.

Beijos

Fátima Pereira Stocker disse...

Fátima

Em Vila Flor, percebi, "pensar" significa o mesmo que o nosso "acomodar".

Disse muito bem: eram os animais que recebiam o alimento em primeiro lugar, fosse de manhã, ao meio-dia ou à noitinha. Vacas, porcos, bicharada de capoeira, todos tinham a primazia, numa demonstração de respeito e agradecimento pelo bem que nos fazem.

Beijos

Fátima Pereira Stocker disse...

Augusta

Confirmando aquilo que dizes, penso que as vacas que estão na fotografia são as do Rafael. Também tens razão naquilo que afirmas: os animais eram membros da família, tratados com respeito e carinho.

Beijos e obrigada

Fátima Amaral disse...

O termo "penso" sim refere-se a alimento,refeição em relação aos animais e muito usado ainda na minha região por gente da lavoura especialmente os que nunca se ausentaram de lá e a quem a televisão não adulterou o léxico.

Nos nossos escritores,do que eu li,só encontrei este termo,escrito pelo Aquilino Ribeiro.

Beijos

difusosreflexos disse...

Revivi momentos em muito semelhantes à minha infância, não com o meu pai, mas com o avô.
Obrigada.
Muito bem escrito, uma verdadeira pérola.
Parabéns.

Beijinho

Ana Sofia

António disse...

Olá Fátima:

Que coisas lindas tu sabes dizer sobre as nossas coisas! E os bichos nossos irmãos, quase gente como nós.
Parabéns pela tua bossa literária e pelo prazer que nos trazes pela evocação daquilo que dentro de pouco não será mais que memoria.

António

Fátima Pereira Stocker disse...

Fátima

E eu devo tê-lo lido, inferido o sentido e não o fixei.

Bem-haja
Beijos

Fátima Pereira Stocker disse...

Ana Sofia

Quanta gentileza. Bem-haja!

Beijos

Fátima Pereira Stocker disse...

Tonho

Verdade mesmo: memória que teimamos em preservar por aquilo que de nós fez.

Beijos e muito obrigada