sábado, 5 de novembro de 2011

PRODUTOS NACIONAIS

O meu avô Ramos tinha, em Arufe, a horta da Capela, nome que dispensa explicações sobre a sua localização. A ladear toda a horta, várias árvores de fruto faziam as delícias dos netos, que engatavam por elas acima em busca de regalo temporão. Uma dessas árvores era maçãera de maçãs reinetas que amaduravam tarde, mas que botavam boa figura desde cedo. Com os galhos a darem sobre o caminho, a maçãera e suas maçãs eram engodo para os incautos.

A conta que aqui vos deixo faz parte do anedotário da família. Diz-se que certo caminhante - bem-decerto um daqueles caixeiros viajantes que, de quando em vez, se decidiam a entrar pelos caminhos da serra - em passando rente à capela de Arufe, montado no seu cavalo, decidiu colher umas poucas daquelas maçãs que lhe enchiam o olho. Colheu quantas lhe couberam nos bolsos e só depois da desinça é que decidiu provar uma. Pegou-lhe com ganas, à loba-cã, na esperança de sumo doce. Ah! rapazes! Mal deu a dentada, isso é que ele cuspiu depressa o que tinha na boca! Assim que se recompôs, em vez de se queixar de si, tratou de exclamar:

- Anda que o corno que aqui te pôs, sabia bem o que fazia!

∫∫∫∫

Vem esta conta a propósito da situação que vivemos. Não nos iludamos com as aparências! Os produtos nacionais podem ter aspecto menos convidativo ou, até, ser mais caros, mas pensemos bem se não sairá mais caro a todos nós vermos os nossos agricultores na ruína e as nossas fábricas a encerrar porque nós lhes não compramos aquilo que produzem. O que é que sai mais caro: os euros que pagamos pelo artigo nacional, ou o desemprego a que condenamos os nossos filhos porque os empregadores nacionais vão à falência por falta de quem lhes compre o que produzem?

Criemos o hábito de verificar a origem dos produtos que adquirimos. Compremos o que é nosso!
O código de barras acima dá-nos a indicação de que se trata, ou de um produto de marca nacional, ou de um produto que é produzido em Portugal (podendo ser de marca estrangeira), dando trabalho aos nossos. Não é, de todo, infalível, mas aqueles três primeiros algarismos - 560 - são a única garantia que temos (também podem significar que são produto fabricado no estrangeiro e importado por alguma marca nacional, mas quanto a isso já nada podemos fazer).

Existem variantes, como as dos produtos lácteos, que podem consultar na página do "MOVIMENTO 560".

8 comentários:

Isamar disse...

Gostei do texto, Fátima e fartei-me de rir. Gosto muito de maçãs reinetas e ainda pensei que o viajante tivesse sorte com o que lhe saiu ao caminho mas picou-lhe na língua o atrevimento.
Quanto aos produtos nacionais, opto sempre por eles embora por vezes o seu aspecto não seja o melhor. Recebo, em contrapartida, o seu sabor genuíno. E faço mais, sempre que compro um jornal, uma revista ou outro produto que num estabelecimento da especialidade tem o mesmo preço, dou sempre os passos a mais para deixar lá o lucro, embora pequeno, para o comerciante. É que, qualquer dia,compramos tudo nos grandes supermercados. E os outros? Os pequenos? Já muitos definharam por aqui e um pouco por todo o lado.

Bem-haja!

Beijinho

Idanhense sonhadora disse...

Adorei o texto ...e a lição que ele encerra . Quanto aos produtos portugueses há muito que me converti a eles e , de entre eles , se for "À terra "trago tudo de lá , incluindo a carne ...Na verdade , a qualidade é muito melhor,e estou plenamente de acordo com o que a Fátima diz,,,
Um abraço
Quina

elvira carvalho disse...

Gostei do texto. Dar preferência aos produtos portugueses, ou comprar apenas os produtos portugueses, pode ser a única situação para salvar o País.
Um abraço

António disse...

Fátima:
Não sabia que o teu abô Ramos, meu vizinho, tivesse quinta em Arufe, mas a história das reinetas é bem, bonita. Já agora: tenho duas maçãeras reinetas que teimo em não tratar com químicos. Caem-me as maçãs todas bichadas. Não me darias a receita do tiu Ramos para elas durarem até ao Inverno?
Um abraço
Antópnio

Fátima Pereira Stocker disse...

Isabel

Continuo a ser fiel às velhas mercearias cujos donos e funcionários me conhecem e a quem eu conheço, tratando-nos uns aos outros pelo nome próprio. Estamos, então, na mesma onda!

Beijos e obrigada

Fátima Pereira Stocker disse...

Quina

Precisamente: nada sabe tão bem como os produtos da nossa terra. Também eu trago, assim como a minha família. Cá para nós, no entanto, aqui não sabem tão bem e deve ser porque a água é muito diferente.

Beijos e obrigada.

Fátima Pereira Stocker disse...

Elvira

Eu não sei se é a única solução. Tenho, no entanto, a certeza de que a solução passa por aí.

Beijos e muito obrigada

Fátima Pereira Stocker disse...

Tonho

Agora estou encravada: o meu avô Ramos tinha dois jovens vizinhos, mais ou menos da mesma idade, chamados "António". Um era sobrinho, neto dos cunhados Francisca e Pereira; o outro era filho dos amigos Lídia e Jaime. Não é que a resposta o exija, mas... qual deles és tu?

O meu avô não tinha "quinta" em Arufe, mas uma série de propriedades que designávamos, genericamente, por "casal de Arufe" (Horta da Capela, Lameiro da Erva; Labanho; Barranco, etc.). A horta da Capela calhou ao meu tio Manuel, que a vendeu, e hoje está irreconhecível (creio que já não tem nenhuma árvore de fruto).

Eu não sei o segredo do meu avô - nem tenho a certeza de que fossem essas as maçãs que comíamos no Inverno - mas sei que desde pequena me lembro de fazermos a colheita das maçãs que guardávamos às escuras na casa que a família tinha em Arufe (encravada na eira). O meu pai seguiu os mesmos passos e, mesmo depois de deixarmos de ter a casa, continuou a colher as maçãs e a guardá-las num quarto da nossa casa de Rebordaínhos que era pouco usado.

Não sei se isto ajuda, mas é tudo quanto posso dizer.

Há muito tempo escrevi um artigo sobre Arufe e as memórias boas que guardo de tudo isso. Pode ser lido aqui:
http://rebordainhos.blogspot.com/2008/07/arufe.html

Beijos