quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

A MORTE DE UM ANJO

Por

ANTÓNIO BRÁS PEREIRA


Esta casa era semelhante a tantas outras, de Rebordainhos… sem conforto, cheia de buracos por onde entrava, sem pedir licença, o gelado vento de inverno e a neve fina e matreira atravessava o telhado, suavemente, em silêncio, esgueirando-se pelas fendas do “forro”, que a fumaceira da lareira pintara de negro. Depois, pousava levemente sobre as mantas de farrapos, um ou outro cobertor, feito artesanalmente de lã de ovelha, que os antigos tinham mandado tecer, pagando com produtos da terra, ou uns tostões amealhados com grandes dificuldades, guardados dentro de um lenço, e “enfusgados” no interior dos colchões, feitos de pano de sacas, ou de riscado, nas casas mais abastadas. Em qualquer caso, os enxergões eram enchidos de palha, escolhida minuciosamente no tempo das malhas e eram assentes sobre umas barras de ferro, ou madeira: as camas. Também a chuva entrava pelo telhado e caía gota a gota, estatelando-se ruidosamente contra o sobrado, molhando-o até ao apodrecimento, se não se colocavam recipientes (caldeiros, bacias, tachos etc.) no lugar exacto da pinga …

Nesta casa morava uma família, numerosa como a maioria das que residiam no Bairro da Portela, carenciadas, pobres famintas, cujos meios de sobrevivência se resumiam à colheita de uns alqueires de centeio semeados em pequenas parcelas de terreno árduo e de frágil fertilidade, entre rochedos, lá para os lados da Ladeira, ou terrenos magros para lá da Ribeira, onde nem os jericos se seguravam em pé… Mas, depois da colheita, sobrava apenas uma pequena quantidade porque no dia da malha, e na própria eira, os credores vinham recuperar os empréstimos. O magro sustento contava, ainda, com meia dúzia de sacas de batatas, lançadas à terra num canto baldio ou arrendado – tão poucas que não chegavam à mó de trás – e umas couves-galegas para fazer o caldo, duas vezes por dia, com um pedaço de unto pisado com sal quando se matava o porquinho. Umas jeiras a cinco escudos – tão raras e difíceis de arranjar – eram a fonte do dinheirito que entrava em casa.

Esta família era constituída pelo casal, dois filhos e quatro filhas. Ao cair da tarde de um dia cinzento e sangrento, ocorreu a tragédia que deixou a população em estado de choque e os familiares completamente destroçados. Era uma menina esbelta, radiante, alegre, que rejubilava de felicidade… Numerosas vezes a vi jogar à “pedrisca”, rindo e saltando com as irmãs e outras crianças da sua idade, em frente da sua casa. Lembro-me dela, a troçar dos porquinhos, como dizia, quando com alguns companheiros de escola, e por ordem dos professores, nos dirigíamos em grupo para o tanque do Prado a lavar correctamente as orelhas, até que ficassem vermelhas, limpas, pois na escola não se brincava com a higiene, e as condições nas nossas casas não eram as mais apropriadas… recordo-a também á janela da sala, a farejar o cheiro do pão que cozia no forno da tia Benigna… na rua, onde com seus irmãos, jogávamos à roça, à bilharda ou ao pingue; no “canelho” da tia Maria da avó, correndo para a casa da tia Assunção, ainda antes de abalarem para África de ser ocupada pelos do tio António Atilano, enfim… uma menina que respirava saúde e alegria, mas que a Justiça de Deus condenou e transformou numa mártir.

Aconteceu nas Ribas de cima (creio que é também conhecido por “Lavadouro”), numa propriedade que pertencia aos familiares do tio Amadeu, onde havia um poço de baixa fundura, improvisado com duas pedras de lousa para lavar a roupa. Enquanto os mais velhos estavam ocupadas na lavagem ou e estendiam a roupa, a menina brincava nas proximidades e aproximou-se da fogueira que alguém acendera para queimar as ervas daninhas – silvas etc. que afectavam a cultura de alimentos. Vestida com roupas de flanela e lã, a menina recuou demasiado na direcção da fogueira e, sem se aperceber, as vestimentas começaram arder-lhe nas costas. Quando os presentes se aperceberam, já esta se debatia com todas as sua forças, rebolando-se no chão e tentando apagar o fogo que alastrava por todo o seu corpo enquanto soltava gritos de dor e angústia. Acorreram de imediato a irmã mais velha que ela, e outros adultos que se encontravam nas proximidades, mas em vão tentavam retirar aquela mártir do inferno. Como nada resultava, optaram por meter a menina no poço, que, de facto, apagou a chama, mas as queimaduras eram já demasiado profundas. Conduzida de imediato para o hospital de Bragança, onde lhe administraram os primeiros socorros acabou por ficar internada.

No resto daquela tarde, numerosas pessoas se deslocaram ao local da tragédia, incrédulas. Como tal poderia ter acontecido? Não tive essa coragem;, limitei-me a vaguear pelos cantos do bairro, só, silencioso, revoltado com Deus por ter permitido tão grande injustiça, e ao mesmo tempo pedindo-lhe que a curasse. A passos lentos, ia andando e recordando a garotada do bairro, ao passar pela porta do tio António Juiz, da tia Laurinda e tia Dulce, onde tantas vezes nos sentávamos, à saída da escola, nas altas escadas de granito, para pôr a conversa em dia ou programar os jogos do dia seguinte… Aatravessei a rua e subi o ”barranco” até à casa do tio Zé foguete, mas não encontrei ninguém para desabafar… passei a casa da tia Isabel, a dos Galanduns, à do Morais; desci para o pátio do tio Zé Luís onde encontrei em lágrimas um dos filhos do António Norato, e mais dois ou três que se mantinham silenciosos, cabisbaixos, como quem oculta uma dor profunda que lhe martiriza a alma… a conversa foi curta, um trocar de olhares apenas, que diziam tudo. Regressei a casa já sem luz do dia, comi de imediato o caldito das couve, e fui-me refugiar na varanda onde me sentei a olhar a escuridão da noite. Deitei-me com a esperança e a fé de que no dia seguinte teríamos boas notícias do meu anjo mártir.

No dia seguinte, na escola, ninguém ousava evocar os acontecimentos, e, já depois do intervalo, ouviram-se os sinos tocar. Estremeci, e como paralisado, compreendi aqueles sinais… o anjo acabara de nos deixar. Depois de tanto sofrimento, voou para o céu.

Dirigi-me a passos largos para sua casa - já não ouvia os murmúrios de ninguém - entrei na sala, determinado a verificar com os meus próprios olhos, o que me parecia ser um pesadelo, mas não era… num pequeno caixão, coberto com um lençol branco, jazia um corpo, pintado de vermelho pelo mercúrio que tentou atenuar o sofrimento das queimaduras do grau da morte. Seu rosto desfigurado deixava transparecer nos lábios um sorriso amargurado, um adeus imerecido e injusto, a caminho do inferno para o céu.
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Observação informativa: este texto foi escrito por uma pessoa que não pretende candidatar-se a qualquer prémio literário, nem mendiga a compaixão de quem quer que seja… escrevo como sei e gosto, com jeito e sem pés, ou com pés, mas sem jeito, sem pena nem caneta… apenas lembranças de uma infância difícil, mesmo pobre… digo-o e não me envergonho e jamais trocaria o meu passado por qualquer outro. Contudo, consciente de que quem publica sujeita-se a comentários e julgamentos, positivos ou negativos, gostaria muito que quem comenta os meus textos o fizesse de cara descoberta.

10 comentários:

Fátima Pereira Stocker disse...

Nota de edição

As fotografias que ilustram este artigo foram enviadas pelo autor que alertou para o facto de, apesar de o lugar (Ribas) ser o mesmo, parecer agora bastante diferente. Sinais dos tempos.

Fátima Pereira Stocker disse...

Tonho

Em primeiro lugar, deixa-me que te diga da enorme satisfação que é o teu regresso à qualidade de colaborador do blog. Deus sabe a falta que me fazes e as saudades que tinha de te ler.

Em segundo lugar, quero agradecer-te esta nova história - trágica mas verdadeira - necessária para povoar a nossa memória daqueles que partiram e que, se não fosse assim, cairiam no esquecimento. A memória, mesmo sofrida, deve guardar-se sempre.

Além de tudo, escreveste com uma emoção que é genuína e cativante e recuperaste rituais há muito esquecidos (o da lavagem das orelhas no tanque...).

Em terceiro lugar, quero referir-me ao teu extra-texto. Considerei-o importante. Pessoalmente, não são os comentários anónimos que me incomodam (normalmente é por timidez), o que incomoda são aqueles comentários que são anónimos só para poderem destruir aquilo que tanto trabalho nos deu a construir, e a isso chama-se cobardia. Eu já ganhei uma certa carapaça de indiferença, mas compreendo que haja quem fique magoado. Espero, no entanto, que não voltem a acontecer situações lamentáveis.

Um grande beijo e, mais uma vez, Deus te pague.

Augusta disse...

Tonho:
Sê bem regressado. E que bem me soube ler-te. Soube bem, contentou-me o teu regresso mas, tal como tu, também eu guardo na memória, o tocar dos sinais, aquele corpo vermelho coberto por um lençol branco, a tristeza de todos nós. Tínhamos a mesma idade. E ainda hoje, sempre que em passeio vou para os lados das ribas, imagino a tragédia e o sofrimento do nosso anjo. E é com tristeza que a conto a quem por acaso, me esteja a acompanhar.
Grata por teres tido a coragem de a contar. Ela há-de estar contente porque o fizeste.
Um beijo, e venham mais memórias.
Augusta

Fátima Amaral disse...

O que relatam estes textos,por muito que nos custe fizeram parte da vivência deste País,e para todos os que pensam que é apenas escrita lamecha ou saudosista,ouso afirmar que foi uma realidade.O século passado,que nos deixou há uma dúzia de anos,encerrava tanta pobreza e miséria por essas aldeias adentro que é difícil de acreditar para muitos destes leitores.

Para os que vivenciaram estas situações,concordo com o autor,por nada trocaria a minha infância,é a ela que recorro em recordações,para matar saudades e reconfortar o espirito,sempre que sinto necessidade.Não há nada melhor que a imensidão duma aldeia,montes e fragas á espera de serem explorados pela imaginação livre de uma criança.

Sabe bem ler estes desabafos,pois transporta-nos para um tempo em que,éramos pobres mas felizes e hoje as crianças teem tudo e vivem insatisfeitas.

Olímpia disse...

Olá António,
Que bonito e sentido texto tu escreveste!
Através destas tuas narrativas, ajudas-nos a recordar a nossa infância. Tal como tu, também não trocaria a minha por nada deste mundo. Bem-hajas por isso.

Compreendo perfeitamente a tua observação pois, "quem não se sente, não é filho de boa gente". É óbvio que, quem se esconde no anonimato dum comentário menos agradável, só o faz por cobardia, incapacidade e inveja.
Pensa positivamente porque, nem mesmo Deus agradou a todos. E olha, não podemos agradar a gregos e a troianos.
Obrigada pelo teu regresso

Bjo
Olímpia

elvira carvalho disse...

Um texto que muito me emocionou. E me trouxe à memória uma história que pelo que me contaram foi semelhante. Aconteceu com uma tia que tem hoje mais de 80 anos, na Trapa, freguesia de Santa Cruz da Trapa, concelho de S. Pedro do Sul. Felizmente sobreviveu mas ficou com grandes cicatrizes. Um braço nunca mais conseguiu estender, o ventre as pernas o peito cheios de cicatrizes.
Também não gosto de anônimos. Especialmente daqueles que se aproveitam do anonimato para achincalharem os outros.
Um abraço

Cesar disse...

Tonho, um grande abraço e um muito obrigado por me trazeres à lembrança a confirmação de uma tragédia daquele tempo em que se andava, descalço, roto, esfarrapado, remendado, mas se era feliz com o pouco, quase nada, que se tinha. Penso que não cheguei a conhecer a vítima desse trágico acidente, mas lembro muito bem de ter ouvido muitas e muitas vezes comentarem o assunto. Infelizmente quiz o destino que eu viesse morar tão longe e hoje quando visito a nossa terra quase não tenho coragem de sair pelas ruas, pois me sinto de ceta forma constrangido quando cruzo com as pessoas e por mais que dê voltas à cabeça, não consigo atinar quem sejam, exceto os pouquíssimos que são mais ou menos da mesma época da minha sub infância. Tempos bons esses!
Olha, se queres que te diga, eu te acho um excelente escritor! Penso que quem critica é por pura inveja de não o saber fazer.
Quisera eu ter a capacidade de passar para o papel as minhas lembranças, como tu o fazes tão bem.

César

António disse...

Tonho Braz:

Desta vez não vai decerto aparecer nenhum anónimo com imbecilidades descabidas, tal é a singeleza, a autenticidade, a emoção autêntica que transbordam do teu lindíssimo texto em que recordas alegrias e tragédias da nossa infância, feita daquela amálgama de pobreza extrema e capacidade de saborear as (poucas) coisas boas que a vida nos trazia.
Parabéns, porque tu és mesmo um escritor!

António Fernandes

antonio disse...

Bem-hajam todos pela vossa tolerante compreensão. Abraço

Chanesco disse...

Fátima / António

Este escrito é uma página da história de Portugal, reveladora das dificuldades de toda a ordem por que passaram as gerações anteriores.
Bom seria que os mais novos levassem em linha de conta estas memórias para terem a noção de que a vida não é o mar de rosas que o facilitismo actual, atropelando os valores mais nobres, lhes está a impingir.

Um abraço para Rebordainhos