sábado, 10 de novembro de 2012

ECOS DO MEU SENTIR - IX -

POR: FILINTO MARTINS

Há mais de cinquenta anos…
A primeira aula de audiovisual… e não só.

            
    Ao reler pela “… ésima” vez Trindade Coelho, vem-me à memória a passagem:
                “- Olha lá, Josezinho, tu queres ser militar, queres?
                - Corneta, mais quero ser corneta. Ou então como o senhor prior: dizer missa.
                - Corneta ou prior…?
                - Preferia ser prior…
                - Muito bem … Telha de Igreja!
                - Sempre goteja – concluiu Helena.” ….
             
Como os tempos mudaram! Será que mudaram? Mudaram. Já houve comboio e silos em Rossas. Já houve segada, malhas e moagem em Rebordainhos. E hoje? Há memórias de tudo isso. Naquele tempo, sem luz elétrica, era à luz da candeia que se aprendia. Oh! Se aprendia… Meu pai, como a maioria dos homens de Rebordainhos, aprendia muitas coisas nas feiras de Bragança, três vezes por mês e nos Chãos, por duas vezes. Nesta era uma reciclagem.

Certa noite, enquanto descascávamos as castanhas para dar aos cevados (eram biqueiros!), hoje os porcos (com sua licença) são outros. Era um desafio, a ver quem mais descascava. Sendo eu o mais pequeno, meu pai, às escondidas, deitava no meu monte algumas castanhas descascadas para eu me sentir encorajado e dizer no fim, às minhas irmãs, que eu tinha ganho. Ele não tinha estudado o condicionamento operante de Skinner, mas já sabia dar um reforço positivo ao citote.

Foi numa noite dessas, depois de uma feira em Bragança, não sei se foi na de 12 se na de 21, mas o conhecimento fora aí adquirido. Eis a explicação do audiovisual:
“Dizem que daqui a pouco vamos poder ver uma pessoa a falar, atrás dum vidro, como uma caixa. É mesmo assim e se a pessoa for à volta não vê ninguém atrás. Foi o que me contaram”. 
Nem sei o que pensei, mas no dia seguinte pus o Fernando ao corrente da “ciência”, mas a minha explicação de mestre não surtiu qualquer reação nele, pois ficou com dúvidas. E que dúvidas!

Estava eu a dar-lhe esta explicação quando apareceu a tia Maria dos Santos, sempre de mansinho e para pedir algum favor, que não tardou:
- Ó Fernando, vai buscar-me esta “remeia” de água, à fonte da Ribas. (Não sei se ainda existe).
- Ora… depois…
- Anda lá, Fernando! Olha, quando morrer deixo-te tudo. 

Lá foi o Fernando buscar a água… e muitas vezes mais, pois água só na fonte ou na bica do Prado. Que saudades desse chafariz! Ali devem ter ocorrido muitos namoricos, enquanto a bica chorava para os cântaros já cheios.

Acho que o Fernando enquanto foi buscar vezes sem conta água à fonte, pensou na promessa, até que um belo dia, quando o pedido lhe foi novamente solicitado, ele retorquiu:
- Ó Tia Maria, a senhora nunca mais morre!
Resposta pronta e carinhosa:
- Malandro! Deixa lá, anda que eu não posso…

A Tia Maria era boa, mansa, sofrida e “manhosa”, na opinião da minha mãe que era “atraganada”, mas era mesmo boa. Que Deus as tenha em descanso e paz, pelo pouco descanso que tiveram nesta terra.
Muitas vezes aparecia junto à nossa porta, encostada ao cancelo, ali desfiava as suas mágoas com a minha mãe. Mãos debaixo do avental, olhar distante aparecia sempre o diálogo:
- O teu Adriano também está lá?
- A igreja não lhe cai em cima. – Acrescentava a minha mãe.
- Eu não os socorria, podia vir quem viesse…

Palavras ditas da boca para fora, pois mal chegavam a casa tratavam logo de lhes aquecer a comida.
O diálogo era sempre o mesmo. Era um martírio para elas, mas à distância, que outros divertimentos tinham aqueles homens dobrados pelo trabalho duro do campo? Nenhuns. Vem a propósito aquele provérbio espanhol:

                Beber até tombar é de censurar;
                Beber até cambalear tão pouco é de aprovar;
                Uns golitos de vez em quando e vamos andando.”

Era nestas alturas que também aparecia a “atraganada” com as suas:
- Ó Maria, queres uma laranja?
- Elas são doces?
- Amargas que nem rabo de gato.
- Come-as tu… ainda se fossem docinhas – enquanto se afastava e dirigia no seu calvário diário em passos lentos para casa, olhando para o caminho a ver se o seu Manuel vinha para casa. Mas não, não vinha… Vinha quando o sol se punha.
Mal dobrava a esquina, a minha mãe ria-se e exclamava:
- Olha a “Checha”, tinham que ser doces! As amargas que as coma eu…

No dia seguinte, depois da partida, as duas amigas lá comiam as laranjas que o Cortês mandava da Rede para a minha mãe. Tempos belos, mas de sofrimento.


5 comentários:

Fátima Pereira Stocker disse...

Filinto

Antes de mais, quero agradecer-lhe por me ajudar a manter viva esta página: os contributos de cada um, se somados, podem constituir-se em extensa epopeia. Mais! permitem que o nome daqueles que amamos se não perca na voragem do tempo. Obrigada, também, pelas fotografias que gentilmente oferece, impedindo que a memória se esbata.
___

Que boas gargalhadas dei com a saída do Fernando para a tia Maria dos Santos e o remoque de sua mãe, a tia Olímpia, para a mesma tia Maria, mais conhecida por "Checha"!
Quanto à lição do audiovisual, não poderia ser melhor!

Beijos

elvira carvalho disse...

Muito bom este relato de tempos antigos. Gostei.
Um abraço e bom magusto.

António Fernandes disse...

Olá, Primo:

Mais uma bela página do teu sentir sobre as coisas do antigamente de que é feito o nosso presente.
Um abraço

A. Fernandes

Zeza disse...

Gostei de o tio relatar a futura vinda da TV. Era algo inacreditável. O meu pai também nos conta a passagem do "gromo" da laranja. Como a avó era engraçada. Lembro-me perfeitamente da Tia Maria dos Santos sentada tardes inteiras no escano em casa dos avós. Que belos tempos.
Continue a publicar artigos destes, pois desta forma matamos as saudades dos nossos entes queridos.

Zeza

Chanesco disse...

Fátima/Filinto

Este texto é mais um belo contributo para enriquecer o arquivo das memórias guardado aqui na biblioteca do blog Rebordainhos.
Memórias do tempo em que o efeito da estupefacção perante os avanços da tecnologia, era o mesmo que o tope com o lado sobrenatural de qualquer crença.
Encurtando distâncias podemos fazer comparação com o aparecimento dos telemóveis e dos computadores, mas uma coisa é certa:
Quem domina os avanços das novas tecnologias não terá certamente a noção de quão grande era a riqueza dos conhecimentos adquiridos na feira, fosse ela de Bragança, dos Chãos ou de outra localidade qualquer.
… Valores!

Um abraço para Rebordainhos