terça-feira, 22 de dezembro de 2009

BOAS-FESTAS

A melhor forma de vos desejar boas-festas é mostrar-vos como a nossa terra está linda!


Agradeço à Lurdes do tio Hermínio o envio da fotografia, à Junta de Freguesia que teve a iniciativa deste presépio e aos responsáveis pela sua montagem. Está lindíssimo!

Que o Menino Deus traga ao coração de todos nós o calor que lhe falta, a Ele, no meio da neve.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

ARES DA SERRA

Este artigo é uma republicação. Mas a história é tão linda e está tão bem contada que bem merece uma segunda (terceira, quarta...) leitura. Tenho a certeza de que todos concordarão comigo. Ao Tonho da tia Lídia, a nossa vénia!


VII - O PRESÉPIO DO DOUTOR CALEJA
(…aqui havia uma fraga…)

por
António Augusto Fernandes

O vinte e quatro de Dezembro amanhecera límpido, sem amostra de nuvem que maculasse o espelho azul do céu. A geada rebrilhava intensamente nos telhados e na erva dos lameiros. As vozes das raparigas a caminho da fonte retiniam no ar translúcido com vibrações de cristal e o trroc- trroc dos socos ferrados de brocha larga sobre a lama congelada tinha ressonâncias de passos ecoando em catedral vazia. A névoa recalcada atulhava, lá em baixo, o vale da Ribeira dos Pereiros, como um mar de algodão onde apetecia rebolar-se a gente, alastrando desde a ladeira das Ribas até aos contrafortes da serra de Bornes. Mas, pela tarde, o mar de algodão foi-se evolando numa gaze fina de névoa a marinhar pela encosta da Fraga do Berrão. Num repente a luminosidade do dia amorteceu e o céu ficou zúbio, num anoitecer precoce que polvilhava tudo de tristeza.

– A névoa subiu à serra, Doutor. Senhas de neve! Temos aí neve da grossa, e não tarda! – dizia o Jaime, especado no traço da porta da Taberna de Baixo.
– Pori... – respondia o Zé Bernardo, estacando o passo … E, apontando o nariz batatudo para o céu cor de chumbo, rematava: − É bem capaz.
Isso queriam eles! porque, nevão caído, perdidos e achados era pelos montes, atrás dos coelhos engaranhados pelo frio ao toro das urzeiras ou tolhidos na corrida pela neve ainda fresca. E perdiam-se num silêncio de divagações cinegéticas…

Fosse por esse comum amor pela caça, fosse pela identidade de feitios, ambos de poucas palavras, ambos um tanto de candeias às avessas com a vida, ou até pelo vago parentesco, entre eles nascera uma cumplicidade quase fraterna. De tal maneira que o Jaime o convidava amiúde para cear lá em casa, sobretudo em vésperas de caçada, quando se tratava de escolher pólvora e chumbo e de meter nos cartuchos as buchas de papelão. Era também o Doutor quem o acompanhava quando ia de longada até à Terra Quente, em demanda do bom vinho, que a serra não o dava e o das redondezas, valha-o Deus! gelava nas pipas com o sincelo. E quando os tremenhos da vida o chamavam a algum lado, não hesitava em confiar o governo do soto ao Zé Bernardo: mercearia, ferragens, chitas, vinho incluído, que o Zé Bernardo… é como quem guarda almas – rematava o Jaime a sublinhar a confiança que depositava no seu lugar-tenente. E era! Se, por um acaso muito provável, a alma lhe pedia meio quartilhito, emborcava-o, sim senhor, mas depositava na gaveta dos trocos a paga. À noite, quando o dono tornava das suas voltas, o Zé Bernardo, que não sabia ler, apresentava um papel pardo de cartucho repleto de hieróglifos que só ele entendia, e desfiava o rol de todas as transacções havidas ao longo do dia.

Retomavam a conversa:
– Pelos vistos, já levas aí a consoada… − observava o Jaime.
– É verdade – tornava o outro, voltando a cabeça e fitando com desvelo a enorme troncha que trouxera da sua belguita do tamanho de uma sala, talhada no baldio, à Ribeira do Catrapeiro. A couve acogulava a cesta dependurada do cabo da sachola que trazia ao ombro e enchia-o daquele orgulho que só sabe sentir quem é proprietário pobre de dois palmos de terra que se trazem mais limpos e escarolados que o chão de casa.

– Ouve lá, ó Doutor, porque é que não trazes a couve e vens comê-la connosco na Portela? – convidava o Jaime, adivinhando-lhe o desconsolo de uma consoada repassada de solidão e cismas em frente das brasas, na furna negra da sua choupana.
– Nã… nestes dias, cada mocho a seu souto. – E rumava já em direcção ao barraco de pedra solta que negrejava, encostado a uma fraga descomunal.

Com certeza se lembram ainda daquela fraga do Prado que o povo se habituara a ver como um ex-libris da aldeia, postada no topo nascente do Prado e que o progresso estilhaçou como estilhaça sempre muitas outras coisas na sua caminhada!... Bem no centro da aldeia, ali resistira desde sempre como símbolo da fibra serrana, de antes quebrar que torcer. A fraga com o olmo e o freixo que morreram de velhos marcavam a singularidade do velho Largo do Prado. Modernizado o Largo do Prado, ficou apenas mais um largo, parelho doutro largo qualquer.
***
Era ali que morava o Zé Bernardo, naquela lojita de terra batida e telha vã, delimitada por três paredes adossadas à Fraga do Prado. Sem janelas, o dia só ali entrava pela porta ou alguma talisca deixada por telha arrancada pelo temporal e as paredes negrejavam mais que o caldeiro de cozer a vianda dos porcos.

Morava sozinho. A mitigar-lhe a solidão, em tempos, fizera-lhe companhia uma cabra, a famosa cabra do Doutor, que ele atrelava a si com uma guita quando ia por lá a ganhar a jeira. Enquanto ele derrancava o esqueleto agarrado ao cabo do enxadão, a cabra fazia pela vida tasquinhando a erva bravia que crescia na berma dos caminhos ou nas poulas dos baldios, presa pela guita ao toro de uma giesta. O animal, que era manso como o pão e tinha alma de gente, dormia a um canto sobre uma fachoca de palha e dava-lhe o leite do mata-bicho. E tão asseado era que até parece que nem apestava o raio do bicho que tinha artes de se aliviar enquanto andava por lá! Já velha e durázia, não teve coragem de a matar: vendeu-a a um peliqueiro de Carção pelo preço da pele.

E ali se mantinha num passadio frugal que envergonharia S. Pacómio, anacoreta no deserto. Da mãe, a tia Camila Carroucha herdara a sombra das paredes, o nariz batatudo e uma tez morena mais que a conta que lhe valera a alcunha de Carroucha. Agreste alcunha era essa: mas soava mais agreste ainda na bárbara pronúncia do tch galaico-português que na serra se mantivera desde os tempos em que daqueles cerros se rechaçara a mourama: Carroutcha. E de tal modo se lhe colou a alcunha que poucos na aldeia sabiam que o Zé Carroucho trazia da pia baptismal o nome cristão de José Bernardo. Até que um dia o Jaime da Taberna de Baixo o rebaptizou de Doutor Caleja, vá-se lá saber porquê. Talvez para lhe despir a bárbara alcunha de Carroucho, talvez por ter nascido na mais esconsa caleja da terra, lá para os lados do Covelo. O novo chamadouro pegou, sancionado pela fama de um médico de Macedo de Cavaleiros que dava pelo nome de Dr. Calejo. E assim passou a ser o Doutor Caleja para vizinhos e amigos. Com o andar dos tempos, por mor da brevidade, ficou apenas o Doutor.

Como quem nada tem nada perde, no tempo em que o Brasil ainda fazia dinheiro, o Doutor também arriscou uma saltada até à banda de lá. Mas, como cão sem coleira que não aceita dono, não se acadimou a medir tempo e litros de feijão preto atrás de um balcão na Tijuca. Mordiam-no saudades dos caminhos desimpedidos da serra, dos roquelhos que medravam nas touças pelo Outono, da lazarina com que ia avezando o seu coelhito pelos montes e, mal se pilhou com o dinheiro da passagem, veio retomar o senhorio da sua choça, mais sereno, mais ascético, mais despojado de ambições. Quando, à tardinha, se sentava num calhau em frente do tugúrio, esmoendo com os vagares de quem é dono de todo o tempo do mundo um cibo de bacalhau cru sobre o carolo de pão centeio e meia cebola, tinha o ar vagamente enfadado de Diógenes ou, sabe-se lá, de suserano dos vastos reinos que se estendiam do Prado até ao monte da Cabeça, onde ele conhecia todas as luras de raposa e todos os tourais onde os coelhos vinham bater o fandango em noites de luar.

Caladão, muito cordato, apenas abria a boca para contar alguma larota de caçador em que nem ele mesmo acreditaria lá muito. E só aos domingos, de quando em quando, saía deste comedimento para apanhar a sua cardina catártica. E então, muito tartamudo, com a beiçola gorda e roxa de vinho descaída para o queixo, soltava palavrão de fazer corar um preto. Até que a mocidade, que por ali se juntava no jogo do fito e do calhau, condescendia em lhe despejar uma romeia de água fresca pelo toutiço abaixo para aclarar as ideias. Mas na segunda-feira, logo à-pormanhã, com grandes papos sob os olhos e a beiça gorda ainda arroxeada da carraspana mal curtida, retomava o passadio austero dos dias ronceiros: agarrava do enxadão e ia e dar mais uma jorna a quem lha requisitara. A Lídia do Jaime, que o estimava como a parente chegado, repreendia-o com brandura: − Ó Zé, tu porque é que te emborrachas assim e és tão malcriado? O Zé Carroucho, cândido como criança travessa repesa da traquinice, assumia em voz sumida e sem levantar os olhos: − Lá calha…
***
Pois a névoa da manhã dera em marinhar pela encosta da Serra dos Pereiros e a noite cerrara muito temporã sob um céu de chumbo. Aquelas galinhas de aldeia, que incansavelmente esgaravatam o ciscalho das ruas e eram de uma inegável sensibilidade meteorológica, tinham recolhido ao poleiro ainda mais cedo que de costume, enganadas pela treva cediça. A pardalada grulha e zaragateira, adivinhando a neve, acolhera-se também aos medeiros onde a palha, além do agasalho, oferecia ainda algum grão perdido nas malhas. E a gente chegara-se também ao afago da fogueira onde cozia o pote da consoada. Como aos picos da serra a electricidade não arribara ainda, nem luzinhas multicolores salpicavam a treva, nem o silêncio era quebrado pelas melopeias natalícias que adocicam a azáfama mercantilista das grandes urbes. Um silêncio denso e mole gasalhava o casario agachado na treva, repleto de quietude e mistério − era a epifania dos grandes nevões.

Vendido o último quartilho de azeite para temperar o bacalhau da consoada e o último litro de tinto para o empurrar, como não esperasse mais clientes, o Jaime entendeu por bem fechar o soto. Chamou o filho mais novo que por ali cirandava:
– Ó Zé, leva essa peixota de bacalhau ali ao Doutor, e… toca para casa, que está a arrefecer.

O miúdo atravessou o Prado fazendo rodopiar a peixota do bacalhau dependurado pelo rabicho. Com a familiaridade de visita assídua, empurrou a porta perra da cabana do Doutor e despachou o recado:

– Ó ti Zé, tome lá que manda o meu pai. – E atirou a encomenda para cima da mesita de pinho onde o Doutor refeiçoava.

Desincumbido do recado, desandava já, quando atentou no coto de vela que ardia ao fundo do cortelho. Aproximou-se a fariscar: ora, sim senhor! O Doutor Caleja também tinha armado o seu presépio!

E de facto, sob a bênção suave do coto de vela surripiado na sacristia depois de despir a opa de tirar a esmola, o veludo de quatro farrapos de musgo macio almofadava o tampo gorduroso da arca onde guardava o pão e o toucinho de adubar o caldo. Sobre a macieza do musgo, à direita, uma estampa de Nossa Senhora da Serra que o Doutor trouxera da última festa que a nove de Setembro se celebra logo ali, no píncaro da serra da Nogueira. Que mais dá que seja Nossa Senhora da Serra ou outra? É Nossa Senhora e bonda! À esquerda, como não constava que nos arredores se armasse romaria em honra de S. José, figurava outra pagela que informava: imagem do milagroso Santo Ambrósio que se venera na sua capela de Vale-da-Porca – outra das devoções aceites pelo Zé Bernardo. O bordão e as longas barbas tanto assentavam no Santo Ambrósio como no S. José … o carapuço de bispo é que não vinha a calhar, mas paciência! Quem faz o que pode… Ao centro, sobre um manhuço de palhas centeias, sob o olhar atento da Senhora da Serra e do Santo Ambrósio de Vale-da-Porca, repousava o pequeno crucifixo que o Doutor, muito pragmático, desenganchara do seu rosário.

O pequeno, muito pasmado, ainda se dispunha a transigir com as outras inovações introduzidas na iconografia natalícia ao arrepio da tradição… mas esta do Menino Jesus deixava-o perplexo:
– Ó tio Zé… e... então o Menino Jesus? Isto assim não vale!
– Não tenho. – E quedou-se um momento de olhos postos nas largas labaredas da giesta que lambiam o bojo negro do pote da consoada. Depois, com ar de quem filosofa sobre a vida, com muita vida já vivida e muitas maleitas curtidas, sacando as palavras a custo, como quem as puxa nos alcatruzes do entendimento, acrescentou:
– Olha, Zé… tanto monta que o Menino esteja a nascer nas palhinhas ou já a morrer na cruz. Mal nascemos, já estamos de catrâmbias para a cova… E mal se morre já se está a nascer outra vez…

Calou-se, cansado de tão profunda tirada metafísica. Depois, de olhar parado nas brasas que remexia com um guiço, rematou:
– E diz lá ao teu pai que muito obrigado pelo bacalhau.

sábado, 12 de dezembro de 2009

A MATANÇA

por

ANTÓNIO BRAZ PEREIRA


O acto da matança será barbaresco para os defensores dos animais, mas era útil e necessário para a sobrevivência nos meios rurais, sobretudo quando o talho mais próximo se localizava na capital de distrito, a uma distância de vinte e seis quilómetros, quatro deles percorridos a pé, por carreiros de terra batida, até chegar à estação de caminhos de ferro onde o Sr. Azevedo, por duas coroas, passava o bilhete que dava acesso ao comboio a carvão, (mais tarde automotora) que demorava mais ou menos uma hora para chegar à cidade. Tempo e dinheiro gastos para comprar carnes que, ao fim e ao cabo, também eram abatidas por alguém, não justificavam que se não fizesse a matança.

Enquanto puto, a matança do porco, em Rebordainhos, era, para mim, um dia de alegria, abundância e harmonia. Em se aproximando o Natal, o porco entrava na engorda e passava a ser mais mimado com castanhas descascadas, batatas e centeio granulado, cozidos num grande caldeiro posto sobre a lareira que também era aproveitada para encostar os pés molhados e, até, as roupas vestidas que fumegavam como quando se cozia pão! Nesta altura, porque o frio apertava mais e as geadas deixavam vestígios nas poças e tanques de água, o tempo adequava-se à conservação e, por isso, marcava-se uma data, quase sempre aos domingos, para o dia fatal do animal.

A diferença que existia entre as famílias remediadas e as pobres, como noutros aspectos, também se notava neste. Primeiro, pelo número de convidados e, depois, pelo número de animais: de nenhum a três.

Certo Janeiro fomos convidados para casa do tio João Santo que matava os seus três porcos. Saí de casa bem cedo e nem esperei pelos demais familiares – eles sabiam o caminho e, além disso, mal tinha cerrado olho durante a noite, ansioso pelo amanhecer. O dia estava frio e gelado e, de noite, tinha caído uma camadita de neve. Passei diante das poças da Fonte Grande e do Espinheiro cujo gelo, apesar de convidar à patinagem, me deixou indiferente, tal era a apressa de chegar. Mais adiante, perto do pelourinho, dirigi-me para a rua que dava acesso à casa do Bagueixe, com a intenção de passar pelo atalho que desembocava, direitinho, nas escadas do lado da adega, as quais me levariam directamente ao destino. Ia avançando lentamente, escorregando aqui e ali, quando, da Casa do tio Leque, que mantinha a porta fechada, ouvi chamar:

Ó Bagueixe, tens muitas mulheres?...

Como não obtivesse resposta do vizinho cujas paredes eram meeiras (e a comunicação se fazia através dos buracos que nelas havia ou, então, pelas janelas que eram próxima uma da outra), repetiu a mesma pergunta, levantando ainda mais a voz. Do outro lado, em resposta, ouviu-se uma blasfémia acompanhada da seguinte frase:

– Tenho as mulheres no…
– Pois olha, diz o Leque, cornos não te faltam!
– Raios partam o homem que é maluco como os carros!... Não se pode estar sossegado na cama!

Levantando-se em ceroulas e camisola de flanela, o Bagueixe foi direitinho à janela e, mal a abriu, viu à sua esquerda o outro, debruçado sobre a sua, a rir às gargalhadas enquanto apontava para as telhas das quais caíam, longos e cristalinos, muitos candeolos de gelo. Ficaram os dois tagarelando por mais algum tempo, enquanto eu, receoso de perder o mata-bicho da matança, corria para a grande cozinha do tio João Santo.


A mesa enorme estava repleta de presunto, bacalhau passado por ovos, figos e nozes secos. Também não faltava a garrafa de aguardente, queijo e café migado. Alguns convidados esperavam, já, sentados no escano. Junto da grande lareira estavam dois potes grandes, um destinado à canja onde uma galinha velha cozia durante horas; o outro, para o arroz do almoço. Todas estas tarefas caseiras eram entregues às mulheres que iam buscar o fígado fresco para refogá-lo. Outras três ou quatro, porque era necessária água corredia, iam lavar as tripas lá para as Ribas, Fonte da Vila, ou mesmo à Ribeira. Voltavam geladas dos pés à cabeça.


Os homens, após o mata-bicho, preparavam-se para enfrentar os bichos. Alguns eram grandes e fortes que nem toiros, razão pela qual eram os mais jovens com “cabedal” e os trintões pujantes os primeiros a ter que arregaçar as mangas. Não podendo deixar transparecer o receio que lhes ia na alma, um após outro, lentamente, com alguma apreensão, iam-se aproximando da porta, por detrás da qual, o manso animal se transformava em fera brava, como que adivinhando as intenções daquela quantidade de homens. O Matador, com grande experiência, visto serem raros a possuírem coragem e saber, entrava na loje logo depois do primeiro homem, que levava uma corda na qual fizera um laço. Logo atrás vinham os mais corajosos: dois deles deitavam as mãos às orelhas do animal, para este abrir a boca onde era introduzido o laço da corda que lhe prendia o focinho, fixando-a nos caninos do animal. Conduziam-no assim para a rua e, a partir daqui, numerosas, engraçadas e verdadeiras passagens podiam ser contadas. Nesse dia da matança do tio João Santo apenas aconteceu que, enquanto alguns agarravam o terceiro porco (pesava duzentos quilos, limpo), parte dos homens preparavam-se para a chamusca do segundo que… pega a correr pela canada da casa do Ferreira e só parou no lameiro do tio António Trocho, perante a estupefacção dos que presenciaram a cena, mais o gozo do tio Leque que gritava às gargalhadas:

– Agarrai-o! Agarrai-o!... Ó Bagueixe, o Santo só chama gente fraca para a matança! …
– Chegavam-lhe os dois que ficaram; a esse fazíamos-lhe nós o fado, respondeu o outro.

Enquanto se fazia a preparação dos cevados sobre bancos largos e resistentes, os garotos costumavam cortar o rabo, prepará-lo e assá-lo nas brasas com duas areias de sal.

A quem não passava despercebida qualquer matança, era ao Hermínio Russo nem ao seu colega, o Carlos Chiote. Começavam por rondar o local quando os animais estavam em fim de preparação e, aproveitando qualquer distracção dos matanceiros, puxavam da peliqueira afiada e cortavam um pedaço magro, junto da espádua e iam, depressa, assá-lo. Nesse dia, era em casa do Bagueixe, de mecha com eles.

De porta fechada, os três comparsas preparavam-se para petiscar, assando o isco nas brasas, com sal e um pedaço de malagueta. Mas o tio Leque, malandro como as raposas, tinha farejado já qualquer coisa, para além do fumo que lhe entrava pelas narinas. O Bagueixe saíra com uma garrafa de quartilho e meio, vazia, nas mãos e voltara momentos depois com ela cheia…

– Cheira-me a comeninzana! … Mas introduzir-se em casa do Bagueixe não era tarefa fácil, sobretudo porque não devia estar só. O Leque precisava de arranjar uma artimanha!… De repente, lembrou-se das bombas que sempre guardava em casa: – E vai ser uma dos foguetes que bota muito fumo e eles são obrigados a abrir. Meu dito meu feito: um grande estrondo, fumo a sair pelo buraco do gato… e os três perto da porta aberta, tossindo, enquanto rogavam pragas ao engenhoso e desenrascado homem com quem foram obrigados a partilhar o quinhão!

– Tende lá paciência, mas nem o pão posso trazer… não o tenho!

Só se almoçava depois de terminados todos os preparativos. Os cevados eram pendurados de cabeça para baixo, para que as geadas lhes dessem a forma adequada. Os muitos convivas sentavam-se à mesa repleta de chouriças, alheiras, presunto e pratos variados. O convívio prolongava-se por todo o dia e os mais idosos só voltavam para casa à noite e, por entre o pipo do vinho e o estômago bem recheado, vinham ao de cima discussões que, por vezes, aqueciam. Nesse dia não pude esperar pelo fim porque eu, o meu primo Tarcísio e o Pintassilgo fomos com as vacas para a Galiana, onde me pus a jogar à queda com o Pintassilgo. Resultou num braço deslocado e no pedido ao Sr. padre João que me levasse a Paçó onde havia um compodor de ossos.



(A esta hora, o fumeiro já começa a corar em casa do Tonho)


No texto da mensagem em que me mandou as fotografias, o Tonho escreveu mais:

É sempre agradável recordar o dia das alheiras que era um festim, o encher das chouriças (e os bocadinhos a assar e cair na cinza), dos palaiotos (impressionantes aquelas tripas do intestino grosso cheias de massa, e até a bexiga redondinha, fazendo inveja aos jogadores de futebol). Também havia os butelos, que os novos mal conhecem, enchidos com carne e ossos e, quando abertos, depois de cozidos e tostados na lareira, acompanhados com grelos, eram uma delícia por alturas do Entrudo.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Curiosidades


7 de Dezembro de 1640. Em Madrid, a corte espanhola assiste a uma tourada que, naqueles tempos, era o modo mais directo de os reis conviverem com os súbditos. A certa altura, o conde duque de Olivares, superministro de Filipe IV, é abordado por um mensageiro que lhe segreda alguma coisa. O rei, que não tira os olhos da arena e concentra toda a atenção nas estocadas desferidas pelos cavaleiros, não se apercebe da movimentação que se gera à sua volta, nem do arruído que cresce por entre os "olés". O segredo espalhara-se!

Olivares não pode protelar mais: tem de dar conhecimento dos factos ao rei de Espanha, não vá ele ficar sabedor por outras vias! Quer dourar a pílula, de modo a que os brios régios saiam pouco chamuscados e, arregimentando toda a solércia que acumulara ao longo das décadas de permanência no poder, sai-se com esta:

Meu senhor, dou os parabéns a Vossa Majestade; acaba de ganhar um ducado e doze milhões. Sentindo-se, provavelmente, interrogado pelo olhar do rei, explica como: Sim, meu senhor, o duque de Bragança cometeu a loucura de se aclamar rei de Portugal, e o confisco dos seus bens vai encher os cofres de Vossa Majestade!

Eis a fina arte da política que consiste em transformar em boa, a notícia de uma desgraça. Desgraça, claro, para Espanha. Alívio enorme para Portugal que se soltara, finalmente, da coleira com que fora atado havia 60 anos.

Passados cinco anos, por decisão das cortes reunidas em Lisboa (Março de 1646), Nossa Senhora da Conceição foi proclamada padroeira do Reino de Portugal. D. João IV ofereceu-lhe a sua coroa, tornando-a nossa rainha e, por esse motivo, nunca mais os reis de Portugal puseram coroa na cabeça. Por tudo isto, o dia 8 de Dezembro assume, para nós portugueses, uma importância redobrada.

Salve Nobre Padroeira!

sábado, 5 de dezembro de 2009

BREVES

myspace layouts

O Rui Freixedelo criou um blog de fotografias e chamou-lhe PhotoBlog (basta clicar sobre o sublinhado para fazer uma visita). Ele e um amigo reuniram algumas fotografias muito interessantes que vale a pena ver. O Rui devia estar a pensar que me esqueci dele. Mas não, só o tempo é que é curto.


free myspace layouts


A Pataca do tio Moreno fez-se presente no blog da ASCRR. Para mim foi uma emoção que partilho, agora, convosco.

Sabe tão bem receber notícias!

domingo, 29 de novembro de 2009

SINAIS DO TEMPO A PASSAR


Enquanto a neve não chega, o nosso olhar pode alegrar-se com o tapete rubro que cobre o chão dos soutos. Aquele vermelho, tão forte e tão vivo, cola-se à retina e permanece nela como memória de calor para o Inverno que chega. Houve tempos em que esse tapete, retirado do seu natural, era estendido pelas ruas e, por breves instantes, o lodaçal em que as primeiras chuvas as tinham transformado via-se ocultado por aquela garridice. Mais tarde, em lição que a ecologia moderna deveria aprender, cada um recolhia o que lhe calhara à porta, transformado no mais perfeito estrume, o húmus que nos sustenta.

Os castanheiros ficaram nus e, assim despidos, têm a aparência transparente dos anjos. Os castanheiros são os anjos da guarda das gentes que deles tira o sustento e que deles cuida com desvelo.

Na paisagem, o nevoeiro cria um véu atmosférico lembrando-nos que o Natal está à porta. As casas estão abastecidas de pão para a vida e de lenha para o lume. Deus nosso Senhor cuidou de nós mais um ano.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

ROSTOS

Retomando a saga, agora que é tempo de a neve voltar a cair

Desta vez nem me atrevo a pedir que se identifique mais alguém a não ser os nossos estimados professores. No entanto, se alguém quiser tentar, sinta-se à vontade. Assim sendo, o desafio consiste em tentarmos identificar os lugares fotografados.



Lugar

1 - Fonte da Vila, à descida para a canada da Ribeirinha ?

2 - Vale de Espada, avistando-se a Cabeça?







Lugar:

1 - Eira da cabecinha, vendo-se a casa velha do tio Mandinho?

2 - Horta da tia Estefânia, vendo-se a casa do Moreno?

3 - Horta e casa do tio Jarrete?

4 - Largo do prado e casa da Maralha?


5 - Terra do tio Carlos Chiote e palheiro anexo à casa da residência?

6 - Eira do Outeiro e palheiro do tio José Çuca ?

7 - Terra frente à casa do tio Carlos Chiote. A casa seria a primitiva do tio Alfredo Guerra, deitada abaixo. Ao fundo, a parte baixa da eira da Cabecinha

_________

A segunda fotografia foi alvo do maior número de alvitres. Lidos e cotejados todos os comentários, penso que devem ser excluídas as hipóteses 2,3 e 4. As restantes parecem-me mais verosímeis, mas carecem de confirmação. A ver vamos, se conseguimos.

(Actualização feita em 12/12/09)


domingo, 15 de novembro de 2009

EM TORNO DAS CASTANHAS

Pretende-se que este seja um artigo colectivo subordinado a um tema e não a uma ordem.
Espero o contributo de todos e, à medida que forem surgindo na caixa de comentários (ou no e-mail), tratarei de os acrescentar aqui.

Começo com os comentários que o Tonho do tio Arnaldo e a Augusta escreveram ao artigo anterior:

O S. Martinho] era o dia do famoso magusto que fazíamos (quando não dava para o fazer no 1.º de Novembro) entre rapaziada jovem, lá para os lados de Cadavez. Cada um levava algo para comer ou beber: marmelada, nozes ou figos secos, aguardente ou vinho doce, porque a jeropiga não se encontrava facilmente. Enforretávamo-nos todos, cantando e bailando em volta das castanhas assadas no meio das giestas, cheias de cinza, estoirando como se fossem os foguetes da festa.
António Braz Pereira


Quanto aos magustos em Rebordainhos, apenas me lembro deles no dia 1 de Novembro. E que paródia. Um dos últimos culminou com a prova da aguardente que o Rafael estava a fazer! Bem, não imaginam a figura dos pares dançantes, no baile que se seguiu na casa do povo!
Os dois avós do meu marido foram combatentes em França e, depois que vieram, todos os dias 11 de Novembro festejavam e, nomeadamente em casa dos pais do meu sogro, era dia de rancho melhorado. Ano, após ano, assava-se um cabrito, para comemorar este dia.

Augusta Mata


Gosto de dizer "magosto" porque foi assim que aprendi, soando-me aquele -o- de "gôsto" mais apelativo e conforme à quantidade de sensações boas que, na minha infância, associo à castanha. É verdade que castanha me lembra bailarico e cantigas (como era aquela que dizia que os homens são como a folha do castanheiro?), dedos espetados à cata delas por entre as brasas e, depois, mãos a atirá-las ao ar, como quem está a jogar às jogas, para as arrefecer. Lembra-me, ainda, os sopros que eram risos, a algazarra e o cheiro bom do fruto assado na brasa perfumada da giesta.

Mas o que mais me lembra é o riso bom do meu pai que regressava a casa, sempre, com os bolsos cheios de bilhós. O riso dele era de deleite pela alegria que, sabia, proporcionaria aos filhos e nessa alegria estava toda a paga que contava receber da vida.
- "Ora mete a mão no meu bolso!", dizia, pondo-se a jeito. E nós tirávamos mãos cheias de castanhas assadas, já descascadas, que nos sabiam muito melhor do que quaisquer outras.
Em garotos aceitamos as coisas como são, mas agora ponho-me a pensar qual seria o milagre que fazia com que os bilhós mornos nunca se acabassem nos bolsos do meu pai.
Fátima Pereira Stocker

Chegava Novembro, chegava o magusto.
Acontecia sempre antes de o tempo começar a enfarruscar, antes de as silvas adormecerem brancas nas sebes. Era o despedir dos longos dias quentes de Verão.

Viviam-se alegres momentos de convívio. Lembro-me que, para o efeito, se colocavam as castanhas num buraco previamente cavado na terra. Em cima...lenha, muita lenha, que fazia com que longos tufos de fumo se erguessem abertos no céu.
As pessoas enfarruscavam-se e as cantigas desafiavam-se o mais rumorosamente possível. E, à volta de qualquer castanheiro da idade do mundo, os pares levantavam nuvens de pó.

Enquanto as castanhas duravam, prolongavam-se os magustos em casa de cada um e, em cima da lenha a arder, com os movimentos ritmados do mexer do assador enfarruscado, faziam-se bilhós que todos nós íamos descascando e saboreando. Ao mesmo tempo, deixava-se a imaginação correr desenfreadamente e contavam-se curiosas histórias de ladrões ou almas penadas.
Havia sempre novidades a discutir e memórias para lembrar.
Jogava-se ao "esconde esconde, não digas nada a ninguém...", ao "arrebunhana, sobraldana" até cedermos às leis do sono e do cansaço para, depois, sonharmos com castanhas, castanheiros e soutos.

Olímpia Pereira

Dos magustos transmontanos não tenho memórias. Mas da palavra "BILHÓ"... Oh, se tenho... Era assim que o meu pai chamava à minha filha mais velha, quando nasceu, era pequenina,(2,750), e lembro:- Ó Bilhó, vem daí, que (b)vou a conta-te, uma historieta. Feliz, a Bilhó lá se sentava no colo, e o conto acontecia. Já passaram 30 anos, mas ainda tenho saudades!

Eduarda Santos Pereira

Lembro também a delícia das castanhas mamotas "furtadas" do caldeiro da vianda dos cevados! E o jogo a arrebunhana ao serão com os mais velhos, em que eles nos ganhavam quase sempre, mas que no final, para nossa satisfação, generosamente nos devolviam todos os bilhós.
A minha lembrança nesta diversão é com o meu tio Jaime e tio Zé.

Céu Fernandes

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

S. MARTINHO

[Variante do anterior]


Hoje é dia de S. Martinho, o monge bondoso que foi abençoado por Deus por ter oferecido a sua capa a quem, no Inverno, precisava dela.

Por esta altura, nas terras da castanha, os donos dos castanheiros autorizam o "rebusco". O rebusco é uma prática secular e funciona como uma interrupção no direito de posse. No tempo do rebusco, aqueles que nada têm são livres de procurar em qualquer terra e em volta de qualquer castanheiro, os frutos que haja ainda por apanhar. No tempo do rebusco lembra-se que Deus deu a Terra e os seus frutos a todos os homens e, por isso, uma pessoa sem alimento é uma ofensa à pessoa de Deus. Deus irmana os homens e, em certas ocasiões, os homens lembram-se disso. Castanha era caldo e era pão; castanha era sustento e sobrevivência. Como negar isso aos irmãos?

________________________________

Nos campos enlameados da Flandres, a morte era o sustento da raiva. Nas trincheiras nem sequer se sobrevivia: apenas os corpos escapavam à morte. Nas trincheiras, o inferno era de frio e de lama e os danados eram os corpos dos jovens em putrefacção.

Nos campos da morte, talvez alguém se tenha lembrado que era o tempo da castanha. No tempo da castanha assinou-se a paz. Os irmãos só existem se houver paz. No tempo da castanha assinou-se a vida.

Nov. 2005

O Armistício que pôs fim à I Guerra Mundial faz hoje 90 anos

domingo, 8 de novembro de 2009

O DEVIR DAS ESTAÇÕES


A nossa terra está assim: linda nos matizes outonais. A chuva que escasseara durante o ano lembrou-se de aparecer, permitindo o reverdescer do chão já agradado. Lombos e chãeras, solheiros e absedos tingem-se de cor, última garridice antes que o Inverno instale a sua austeridade cromática.

Temia-se o pior, mas, não sendo de fartura, o ano trouxe colheita bastante de castanha. E porque caiu bem, apanhou-se depressa, por isso não deve tardar muito a chegar o rebusco. A tradição do rebusco é, para mim, uma das mais belas da nossa terra, porque reflecte a partilha com quem nada tem dos bens que estão em nossa posse. Mostra, ainda, respeito para com a natureza que se não deve exaurir: os frutos deixados para trás serão uma espécie de sacrifício ofertado a Deus e à Terra que nos sustenta.

Penso que o rebusco tem o seu fundamento na seguinte passagem da Bíblia:

Quando tu segares a seara dos teus campos, não cortarás rés do chão o que tiver crescido sobre a terra; nem enfeixarás as espigas que tiverem ficado.
Não recolherás também na tua vinha os cachos que ficaram da vindima, nem os bagos que caíram; mas deixá-los-ás tomar aos pobres e aos peregrinos.
(Levítico, 19, 9-10)

Não colhas tudo o que Deus pôs à tua disposição, partilha com os pobres e com quem, por ser estrangeiro, precisa de sustento - eis a súmula desta passagem. O rebusco é uma bela materialização da lei de Deus.

Os mais atentos perdoar-me-ão a escolha de versão tão arcaica do texto bíblico, opção que justifico, exclusivamente, pela poesia que lhe está intrínseca e que sinto ausente de algumas traduções mais modernas.
___
Fotografias da Olímpia (Nov. 2009)

terça-feira, 3 de novembro de 2009

ROSTOS


Vamos abrir mais uma gaveta das nossas memórias. Esta será mais fácil, porque mais recente. Quem se lembra, então, das pessoas destas duas fotografias?




À esquerda - Tia Zulmira Pereira


À direita - Ifigénia Pereira










Maria da Conceição Pires (Tia Vermelha)

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Sérgio Godinho




SÉRGIO GODINHO

Muitas frases que disseram…
E não falaram.
Muitas coisas que fizeram…
E não acharam.

Muita vida, muita vida, muita vida…,
Muita vida por eles vivida.

E nós aqui, e nós aqui, e nós aqui…,
Até pensámos que partiste,
Sem saber de ti,
Num ardor amargo e triste.

Julgámos a vida
Por tudo o que fizeste,
Julgamos a vida
Por tudo o que fazemos,
Nas alegrias que tanto nos deste,
Julgamos a vida, julgamos a vida,
Por tudo o que temos.

Sai dessa moda, sai dessa moda, sai dessa moda….
Que o tempo fina.
E com a cabeça a andar à roda,
Sai dessa moda,
Sai desse ardor que contamina.

Assim serás, assim serás, assim serás…
Outra mente, outro canto, outro ser,
Sai assim e verás,
Como afinal ainda é bom viver.

Assim verás, assim verás, assim verás….
E não olhes para trás.
Não olhes para trás.

Orlando Martins

myspace layouts

www.bigoo.wswww.bigoo.wswww.bigoo.wswww.bigoo.wswww.bigoo.wswww.bigoo.ws

Peço a todos que mantenhamos o nível habitual desta página e que só entremos em diálogo com quem aceitar participar com o respeito e a elevação necessárias.

Fátima

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Sementeira


Este é o meu comentário para o António Braz Pereira.

Por tudo o que me fez lembrar, sementeira, acarreja e outras recordações que se adivinham, dedico-lhe este soneto. Sem o comentar

Desculpem-me todos
SEMENTEIRA

E com fios de lágrimas caindo,
No sulco que o arado vai rasgando,
Atiravas sementes de alegria,
Palmo a palmo lançadas todo o dia.

Com teus pés, descalços abraçando,
A terra que Deus lhe abençoou,
Sentia o ser do fruto que saindo,
Calava a dor da fome que matou.

Lá ao fundo uma roseira brava,
Mil braços abertos de liberdade,
Como cantos da minha amizade…

Canto-te só a ti rosa brava,
Que das lágrimas só que tu lançaste,
Este feto para sempre marcaste.

Orlando Martins

sábado, 24 de outubro de 2009

TERRA AMADA

MUDAM-SE OS TEMPOS...
por

ANTÓNIO BRAZ PEREIRA


Também em Rebordaínhos se foi instalando a mudança. Chegavam os primeiros tractores. Isto foi pouco depois da reconstrução da igreja, ainda sob a responsabilidade do Padre Amílcar (as ossadas encontradas foram levadas para o novo cemitério). Primeiro, o do tio Sebastião, um Ford Dextra e o do tio Alfredo Guerra, da mesma marca. Mais tarde, o do Basílio e outros mais. O primeiro automóvel, creio, foi o Anglia do Sr. Padre João, seguido de um Ford-Taunnus – o espadinha - do Sr. Professor, e outro idêntico do Sr. Herculano.

O telefone tinha acabado de chegar, e o primeiro rádio fazia também a sua aparição, para a felicidade
de quem gostava ouvir música, notícias, as novelas da “Maria” mas, sobretudo, o relato de futebol. Creio que o tio João Santo foi o primeiro a comprar um Grundig grande, com quatro ou cinco teclas como as dos acordeões.

Tempos antes começaram as explorações de água, junto da casa da tia Laura, e as canalizações feitas pelo povo, para junto das casas. Aparecia igualmente a electricidade, mas só tempos depois foi comprado um televisor para a casa do povo do Outeiro, obra do Sr. Professor e do Basílio, e mais jogos, como: pingue-pongue do qual se faziam grandes disputas, dominó e damas, para ocupar os domingos chuvosos. Entretanto, para ver jogos de futebol da selecção, fomos várias vezes a pé, pelos Montes, até Bragada, onde uma senhora amável nos acolhia e permitia que os víssemos.

Hoje, é com grande nostalgia que recordo a minha linda terra de outrora e as maravilhas que o progresso derrubou, como a fonte do Espinheiro, onde tantos jovens se sentaram, conversaram e, até, namoraram, fingindo as moças, à noitinha, que vinham buscar água de que nem precisavam, mas tinham a certeza de que, ou pelo caminho, ou junto da fonte, encontrariam jovens das suas idades, e o fingimento devia-se à severidade dos pais e à pouca liberdade com que éramos educados naquele tempo. Também chegou a vez à minha vizinha, a Fonte Grande. Nela, as mulheres vinham encher, de água fresquinha, as “bilhas de barro” compradas nas feiras, porque em Rebordainhos apenas havia a Olaria do “Tio Vento” do livro da terceira classe. Também neste lugar se podem contar histórias verdadeiras, de um viver simples, natural, sem vergonhas ou invejas.

O prado tinha uma magia encantadora. Não era um largo qualquer, construído por arquitecto de renome, pois, nele, apenas o tanque de duas bicas e o poço de lavar deviam a homens bem inspirados a sua construção. As duas árvores magníficas foram plantadas por dois estudantes que, talvez, já tivessem partido quando elas caíram, mas os que ficámos, pequenos e grandes, sentimos um vazio imenso, porque elas faziam parte integrante da nossa vida real. Por sua vez, também a fraga desapareceu: por se encontrar no lugar errado, ou talvez por ser de granito natural, grande demais; quem sabe porquê?...

Aquele espaço do Prado foi sempre considerado suficiente para a realização de jogos ou, simplesmente, trocar impressões junto das tascas, em volta de um “quartilho” de vinho. Os mais novos tinham a Eira do Outeiro para jogar à bola, mesmo sabendo das barafundas do tio Zé Çuca porque lhe partiam as telhas do telhado da casa. O polidesportivo, construído nesse lugar, retirou o encanto de se percorrer a distância que o separa do campo da Cabeça que, de tão pisado, se ia cuidando da invasão das carvalheiras.
Recordo-me de uma aposta feita entre o Sr. Arnaldo e o Carlos Chicheiro que tinha vindo fresquinho dos pára-quedistas. O Carlos partia do Prado e o Arnaldo da eira do Outeiro. Ambos tinham que ir ao campo da bola e voltar ao lugar de partida, para ver quem ganhava. Apesar da grande diferença de idades, o mais novo perdeu, para grande espanto dos presentes, que tinham votado nele!
***
Apesar de haver lugares mais costumeiros, jogava-se e brincava-se em qualquer sítio: ao cepo, ao pingue, à relha, ao bate-cu... mas isso fica para a próxima!

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

TERRA AMADA


MODO DE SUBSISTÊNCIA

por

ANTÓNIO BRAZ PEREIRA


Ilustrações: peças de artesanato da autoria de Carlos Águeda


A BATATA

Vivia-se essencialmente da agricultura: batata, centeio, um pouco de trigo, linho, castanha, mas também da posse de gados de ovelhas, cabras ou vacas. A batata, cultivada nas terras mais férteis, ditas “fundas”, era semeada manualmente, trabalho da competência exclusiva das senhoras que as iam deixando cair, uma a uma, no espaço de um palmo, à medida que iam marcando o passo pelo sulco fora, rectificando alguma que ficasse menos alinhada, pois só assim condizia com o aprumo do lavrador. Deste, a grande proeza destacava-se no movimento lento e certo dos animais, bois ou vacas, a quem ensinara o ritmo e o passo.

Quatro meses depois surgia a arranca. No Largo do Prado, ao lado do tanque de duas bicas de água corrente onde tanta gente se refrescou e saciou a sede, o olmo e o freixo estavam repletos das sequelas deixadas pelos pregos espetados pelas mãos de sucessivas gerações. Era à sombra do olmo e do freixo que, aqueles que tinham uma safra de toneladas, esperavam o rancho de homens e mulheres, de proveniências diversas mas, sobretudo, de Caravelas (perto de Mirandela), a fim de os contratarem, já que o pessoal residente não chegava para as encomendas. Davam-lhes pousada durante os dias de serviço, num palheiro ou casa apropriada e, quando se acabava o que fazer, o mesmo rancho passava para outro patrão. As batatas eram minuciosamente escolhidas em três categorias: consumo, semente e miúda (para os porcos).

Para melhor conservação, a maior parte das batatas eram metidas em ”silos”: abriam-se covas com cerca de vinte centímetros de profundidade e metro e meio de largura, variando o comprimento de acordo com a quantidade a ensilar. As batatas eram depositadas em pirâmide e rigorosamente emparedadas, depois cobriam-se com a palha alta e direita do centeio, numa espessura de dez centímetros, e, por fim, acrescentavam-se três de terra por cima. As certificadas eram levadas para Rossas e as outras guardavam-se nos palheiros.

OS CEREAIS

Cultivar o centeio e o trigo era mais um dos grandes acontecimentos da Aldeia. As segadas realizavam-se no Verão, durante o mês de Julho. Como acontecia para a apanha da batata, grandes ranchos de homens juntavam-se no Prado debaixo das duas árvores favoritas. Vinham equipados com seitoura, dedais, colete e camisa de quem se mostra disposto a trabalhar. Alguns calçavam uns tamancos abertos atrás e vestiam calças idênticas às dos cow-boys. Musculosos, apresentando um rosto severo ou ar alegre e juvenil, os que vinham pela primeira vez ofereciam os seus serviços e os outros reencontravam-se com os patrões antigos, se no ano anterior tinham deixado boa impressão e ficado referenciados como bons trabalhadores. A gente da terra chamava-lhes camaradas de segadores, havendo-as pequenas, médias e grandes, chegando estas a atingir os vinte homens. Entre eles havia alguns com funções bem definidas: aquele que animava o rancho, tocando concertina, realejo, viola ou guitarra e começava a cantoria, e aquele que dava de beber, levando vinho num pipo ou cabaça, ou água em bilhas de barro ou em remeias feitas de zinco.

Feita a distribuição pelos diversos patrões, quase sempre ao domingo, os segadores instalavam-se com os apetrechos que traziam e voltavam ao largo do Prado a tocar e a cantar até alta noite. Pela manhã, bem cedo, seguiam a pé, conduzidos pelos patrões, para o local da segada onde se organizavam rapidamente, metendo mãos à obra. Um ou dois de entre eles eram atadores, e não tinham tempo para se coçar. Juntavam as gabelas necessárias para fazer um molho, retiravam uma mão cheia de palha com espiga e, com ela, apertavam, pondo o joelho esquerdo por cima, para melhor unir: num virar de olhos, estava concluída a operação, que parece fácil, mas acreditem que era necessário muito exercício e força para ficar bem. O calor a apertar, o efeito do vinho, e outros factores, contribuíam para haver despiques entre eles, pois nenhum gostava ficar para trás. A água corria-lhes pelas faces e o cansaço notava-se nos rostos. Mesmo assim, cantavam versos dirigidos aos que não aguentavam aquele ritmo desenfreado! Quando terminavam e ceifa naquele prédio, juntavam o centeio numa “murnalheira” em forma de U: molhos ao alto, com a espiga para cima, contando as “pousadas”. Cada quatro molhos fazia uma pousada, que dava um alqueire de centeio, cujo peso correspondia a onze quilos, se não estou errado.

Tanto esforço requeria boa alimentação e em grande quantidade. Pelas nove e meia matavam o bicho com salpicão, chouriça, bacalhau frito ou desfiado, queijo e café. Ao meio-dia, lá ia a dona da casa, ou uma pessoa contratada, levar o almoço bem recheado em colorias, num grande cesto feito de verga e transportado à cabeça. Outras vezes, metia-se o almoço em alforjes e carregava-se um burro com elas. Matava-se uma canhona, ovelha das mais velhas, que se refogava e acompanhava com batata cozidas. Também se preparava arroz com galinha, e muitas outras coisas que ficariam para a merenda, programada para as quatro da tarde. Á noite, era uma alegria vê-los voltar a casa. Tocavam, cantavam e dançavam, como se voltassem de uma excursão ao Algarve. Qual fadiga, qual carapuça! Eram rijos como o ferro!

As malhas eram mais uma obra de entreajuda. Muitas vezes ia-se à torna jeira, mas contava-se também com os que vinham ajudar porque deviam favores. Apesar do sacrifício para suportar o calor intenso e a poeira, nunca havia queixas. As pessoas punham-se nos lugares cujas funções desejavam desempenhar. O lugar mais procurado era o dos sacos, pois havia quase sempre vinho doce, às vezes com ovos batidos.
A arquitectura, tanto das medas como dos medeiros, era outro dos orgulhos dos Lavradores. Havia um pormenor que não passava despercebido: quando a meda estava quase no fim, e se o patrão tivesse filhas solteiras, iam dois ou três rapazes buscar uma delas, para ser transportada, até à malhadeira, nos quatro molhos do começo da meda. Levada no virgo, assim se dizia! No final do almoço, a menina transportada distribuía rebuçados às senhoras e cigarros aos homens.

Pelo ano fora, os cereais seriam moídos nos moinhos de água, com um rodízio e duas pedras devidamente colocadas e picadas segundo a qualidade das farinhas. Do centeio saía apenas farinha e farelo; do trigo extraía-se, o “relão” de cor mais negra, a sêmea, farinha mais fina, e um pouco de farelo. O milho moído fazia igualmente parte dos alimentos desse tempo, assim como os”cussecos”, hoje especialidade dos Países Árabes, feitos da farinha do trigo, amassada e enrolada em pequenas porções, para depois cozer no forno, dentro de cântaras de zinco perfuradas com centenas de buracos.


ACTIVIDADES ARTESANAIS

Profissões exercidas eram várias: havia dois sapateiros. O mais idoso era o Sr. Carlos, homem simpático e brincalhão, com a sua sovela que, de tempos a tempos, passava na bola de cera, para melhor perfurar a sola, batida sobre um seixo, o seu avental de couro, e as cicatrizes deixadas pelas linhas nas mãos, quando as puxava, enquanto realizava com proeza um belo par de sapatos. O Sr. Carlos contava histórias que nunca me cansava de ouvir. Estávamos uma vez à braseira, quando um rapaz, filho de agricultor abastado, lhe veio encomendar uns sapatos em nome do pai. Ouve lá ó rapaz...Tu queres que os sapatos chiem? O puto reflectiu e respondeu: Claro!... Então tens que dizer ao teu pai que me mande uma posta boa de bacalhau, se não, não chiam.
Havia, ainda, um soqueiro, três carpinteiros, um “chicheiro”, cesteiros, latoeiros, tecedeiras, ferreiros dois, alfaiates e costureiras, etc. Figura inesquecível era o tio Hermenegildo Caixeiro que fazia os carros de bois desde eixo ao pinalho, passando pelas rodas e ferragens, engarelas, arado, trasga e até o jugo! Este homem fazia tudo na perfeição, não esquecendo as tarraxas que, bem apertadinhas, eram o orgulho dos que, ainda longe, se ouviam chiar, como a querer dizer que aquele carro vinha carregado com alimentos ou coisa no género. O tio Hermenegildo tinha, também, o dom de saber cantar o fado à desgarrada, como poucos, e a sua reputação era tão grande como a de carpinteiro.

Também se cultivava linho em Rebordaínhos. Semeado em terras mais ou menos férteis, existiam, segundo me consta, duas variedades: o Mourisco, que crescia mais, e o Galego. No tempo da recolha, era arrancado e posto ao alto, em pequenos ”molhos”, para acabar de secar. Depois seria levado para os ribeiros e metido debaixo de água até estar curado. Terminado este processo, levavam-no para junto das casas, ou eiras, onde permanecia mais algum tempo para voltar a secar. Seguidamente era maçado com uns maços feitos de madeira rija, em forma de “quilhas” de “bowling”, sobre cantarias apropriadas. Depois de bem maçado, era passado num “sedeiro para lhe ser extraída a estopa, a qual por sua vez, seria fiada, servindo para tecidos mais grosseiros, como tapetes, meias, panos de limpar etc.. O linho, mais fino e delicado, era tecido em teares, de onde saíam lindas toalhas, lençóis, cortinados e muitas outras coisas indispensáveis ao viver desse tempo. Sobejavam os “tascos” sem utilização, que eram postos em montes e queimados, fazendo a alegria dos mais novos, que os levantavam ao ar, enquanto ardiam. Quase parecia fogo de artifício!
Os Teares eram manuais, ouvindo-se, de longe, a funcionar. A tia Irene, naquela casa do Pelourinho, foi, talvez, uma das últimas tecedeiras a exercer na Aldeia.

sábado, 10 de outubro de 2009

CONTA

VI


Porque sei que se o meu pai, a minha mãe, o Zé Mateus e o João Stocker estivessem entre nós, partilhariam connosco a felicidade que hoje sentimos, esta conta verdadeira é-lhes dedicada.

Aconteceu entre o meu pai - João Fouce - e o meu tio António - Pincha.

Pois bem, contava o meu pai que no tempo das acarrejas, era costume dormirem nos palheiros, para acomodarem as vacas bem cedo, e bem cedinho partirem para os campos, para acarrejarem os molhos de centeio para as eiras onde faziam as medas.
Ora o tio Pincha, sendo um homem que acreditava que as bruxas existiam, numa dessas noites, botou-se a sonhar com elas. Durante o seu sono, agarrou o pulso do meu pai acreditando que tinha agarrado uma por uma perna.

-"Ó João, risca um lume, ca…, agarrei uma por uma perna! Ca… , e olha que a tem bem grossa!”

O meu pai puxava o braço, tentando libertar-se. Quanto mais o meu pai puxava, mais o meu tio apertava, e gritava:

- “Risca aí depressa ca…, que a gaja quer fugir!”

Finalmente, quando o meu pai se conseguiu libertar e “riscar o lume”, diz-lhe o tio Pincha:

-“Risca o ca…, agora que a gaja já fugiu!”


Augusta Mata

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

TERRA AMADA


IN ILLO TEMPORE

por

ANTÓNIO BRAZ PEREIRA


Rebordainhos já foi vila e, ainda hoje, lá para os lados da Chãera, as gentes de trás da serra falam dos “Cancelos da Vila”. Era um aglomerado bastante significativo de pessoas e a maior parte dos lares eram constituídos, bem à vontade, por uma dezena de familiares próximos. A maior parte das casas não possuíam o mínimo conforto: poucas divisões, telhados e paredes com buracos, por onde a ratazana fazia os seus passeios diurnos e nocturnos, com tranquilidade desavergonhada. O gatito que por lá andava tentava, de vez em quando uma astúcia heróica, pretensiosa, que resultava ou não, mas era do seu abnegado trabalho que dependia a sua sobrevivência. Havia, também, as chamadas casas “ricas”, as quais se contavam pelos dedos das mãos. Estas diferenciavam-se das outras, tanto pela arquitectura, como pela abundância, na recolha dos géneros, no seu devido tempo.

Falava-se de uma Igreja que em tempos teria existido no Lombo de à Igreja, pelo facto de ainda se encontrarem pedaços de telhas ao lavrar e, também, pelo nome dado ao lugar. Houve aí grandes pegas de touros a que nós chamávamos luta. Existia uma rivalidade orgulhosa, tremenda, entre os proprietários dos touros: todos diziam ser o deles o mais forte, o mais bonito, o maior... O Ramiro Alves e o Francisco Martins tinham dois bichos grandes e lindos. Lutaram no Lombo de à Igreja, mas já me não recordo qual deles ganhou. Também o Cândido Pires e o Fernando Jarrete participaram com os seus touros em lutas semelhantes. Outro pretexto de rivalidade era a rua que divide ao meio a povoação: sempre que se organizavam jogos, era o bairro de Baixo contra o de Cima, Cubelo, Espinheiro e Portela contra à Chave, Bairro das pedras e Outeiro.

Da nossa Freguesia fazem parte integrante os lindos Vales, um pequeno aglomerado de casas, mas com gente de grande franqueza e bondade, não esquecendo a coragem, tanto dos mais novos, para virem à escola, como dos mais velhos, que se deslocavam quando a necessidade se fazia sentir. Os Pereiros ficam mais perto e têm maior número de habitantes do que os Vales. A sua festa grande é dedicada ao Santo Amaro, no mês de Janeiro, creio, e fazia o orgulho dos que lá moravam. Porque Pombares também fazia parte da paróquia, realizávamos a Romaria ao S. Frutuoso em Teixedo, local magnífico para repouso, com a sua paisagem esplendorosa, parques em estado selvagem, onde à sombra de numerosas e diversas árvores, junto da corredia e silenciosa ribeira, se comiam copiosas merendas, partilhadas entre amigos e familiares, vindos com fé, assistir à missa anual, mas igualmente para relaxar, conviver, admirar e saborear, numa harmonia de paz e amor. Arufe também tem a sua Capela e o seu encanto, tanto na localização como na terra fértil, sabendo os seus moradores explorar e partilhar o que lá havia de melhor. A Quinta do “ Sepúlveda” rica, airosa e de grandes dimensões, dava muito trabalho, "jeiras" para a subsistência de algumas famílias.

Nesse tempo não existia na Aldeia, nem alcatrão nem calcetamentos No Inverno, pelas ruas cheias de lama e águas, espalhava-se palha ou folhas de carvalho, para melhor se passar, e essa mistura serviria, mais tarde, para estrume. Também não havia energia eléctrica, pelo que as candeias a petróleo, com sua torcidinha, faziam a felicidade dos da boa vista. Outra fonte de energia, a do carvão por exemplo, era feita directamente no monte. Primeiro arrancavam-se os “cepos” (toros, ou o que se lhe queira chamar), raiz da urze. Depois, cavava-se uma poça em circunferência com um diâmetro de um metro e a profundidade de trinta centímetros, onde se metia a urze. Chegava-se-lhe fogo e ficava a arder noite e dia, mais ou menos durante quarenta e oito horas. Quando o carvão estava em ponto, para que se apagasse lentamente, punham-se-lhe em cima bocados de terra com erva, cortados com uma enxada.
Regularmente, realizavam-se os "dias de concelho", ordenados pelo Presidente de Freguesia, para arranjos de caminhos, limpeza das poças de rega e o demais respeitante à comunidade.

Também não havia automóveis. As pessoas deslocavam-se a pé ou a cavalo e, para irem à cidade, apanhavam o comboio a carvão na estação de Rossas. No regresso de Bragança havia um túnel onde os putos costumavam fazer apostas, para ver quem tinha coragem de o percorrer; outras vezes, punham sebo e pregos nos carris, para que o vagaroso comboio não fosse capaz de subir a encosta próxima.

Nas noites rudes e bravias de Inverno, ia-se velar para casa do vizinho ou amigo, onde se contavam histórias, umas verdadeiras outras imaginárias, e as de “ficção científica”, que incluíam bruxas, lobos, ladrões etc. Em casa do meu avô paternal, pegava ele num cajado, com o qual jogava o” Rectemol “ indo de cabeça em cabeça, e só parava quando acabava a cantilena. Na da tia Aninhas, na Portela, podia-se ouvir até bem tarde, cantar desgarradas e fados, obra do Octávio das Cabanas, irmão da tia Ester, que tinha maravilhoso timbre de voz. O povo entretinha-se do modo que podia. Às vezes, junto das tascas, os homens mediam forças entre si. Contavam que o tio António Trocho levantava do chão, a braços, uma pedra redonda, junto da sua taberna, que pesaria por volta dos duzentos quilos. Eu vi o Ramiro dos Pereiros pegar em dois sacos de centeio, debaixo de cada braço, e transportá-los numa distância de duzentos metros.

Por estes tempos, costumavam visitar a Aldeia algumas "troupes" de circo mas, sobretudo, de teatro. Da minha lembrança foram representados A Rosa do Adro, o Amor de Perdição e o Zé do Telhado. As sessões realizavam-se no palheiro do tio João Santo, frente à casa do tio Jaime, e também no cabanal do tio Alfredo Guerra, junto da casa. A mocidade dos seus vinte e mais anos aterrorizava os mais pequenos, com o "bate-cu" (de onde veio a alcunha do Orlando, quando uma vez foi apanhado, e como do outro lado o rapaz era mais pequeno, então diziam que ele dava “pinotes”). Grande mocidade, em quantidade e qualidade! Pôncio, Ricarte, Víctor, Chico, Fernando, Zequinhas, Cândido, Corrécio, Frederico, Carlos e Duarte Chicheiro, Manuel e Américo Pereira, Mário Couceiro, Nuno e Manuel Caminha, Hermenegildo e Brotas, Manuel e Rafael e outros que não cito por me não lembrar, mas que davam vida e ser à nossa terra. Todos estes galafates se reuniam quando qualquer estranho, vindo das aldeias vizinhas, tentava namorar com moças da terra, fazendo-lhe pagar o vinho. Caso recusasse, era atirado para dentro de um tanque ou agredido. Pedir uma moça em casamento não era tarefa fácil, sobretudo se os seus familiares discordavam de tal casamento. Aliás, a maior parte dos casamentos realizavam-se por conveniência, sendo os pais a escolher e organizar tudo. Os que realmente se amavam, mas que infelizmente encontravam barreiras pelo caminho, aguardavam a maioridade para se casarem, mas eram desprezados pelo agregado familiar, sofrendo graves consequências afectivas e financeiras.

No mês de Setembro era a grande festa da Aldeia, cuja animação e entusiasmo se via retratada, mesmo, nos rostos mais pacatos e silenciosos. Dois ou três foguetes, (lançados pelo fogueteiro da Aldeia, se faz favor!) anunciavam o início das festividades, seguidos da Banda, (quase sempre a de Pinela) que, depois de dar a volta ao povoado, parava no largo do Prado debaixo dos famosos freixo e olmo. Os músicos já tinham patrões determinados para o almoço, esperando apenas pela hora da missa e procissão. As doceiras faziam o encanto dos mais jovens que se contentavam com umas amêndoas caseiras, doces económicos, ou uns rebuçaditos, porque o dinheiro também não abundava. Pela tarde, já findo o almoço melhorado, dançava-se ao toque do “auto-falante” saboreando os momentos felizes e harmoniosos dedicados a Nossa Senhora do Rosário.

domingo, 4 de outubro de 2009

Sou eu



SOU EU


Venho de negro, … do negro que sou,
Porque de vermelho não vou chegar.
Lancem brancas fitas ao abalar,
Sem me dizerem para onde vou.

Para chegar lenta, …mas lentamente,
Perfilhei outra mescla multicor.
Ao partir, abneguei sangue e amor,
Mas de branco, fá-lo-ei livremente.

Que o leve tom verde se dilua
Nessa vítrea luz do teu olhar,
Como pureza de cristal em flor,

Tal como sombras nesta vida crua,
Na paleta florida de ardor.
Mas um dia, sei que vou regressar.

Orlando Martins


____________

Creio que não fica mal lembrar aqui: Gracias a la Vida

terça-feira, 22 de setembro de 2009

ARES DA SERRA


XIII - FOI POR ALTURA DAS SEGADAS…
por


ANTÓNIO AUGUSTO FERNANDES


Ela não tivera culpa, coitada. A vida, sim, a vida é que tivera a culpa toda, madrasta como sempre lhe fora.

Já de pequenita, a caminho da escola, trilhava o carreirão agreste dos Pereiros até à vila, bisonha, sempre apartada do grupo barulhento dos companheiros. No intervalo das aulas, aperreando o corpito esgalgado nos vestidos de chita pobre, raramente renovados, sumia-se pelos cantos do recreio, sorumbática, como se em todo o lado estivesse a mais, trincando a merenda de malápios ou nozes com o carolo negro de pão centeio. Escanifrada, muito morena, de olhos negros encovados nas olheiras roxas, as pernas magras como canelos afundando-se nos socos de amieiro, nunca os gaiatos travessos e precocemente industriados nos mistérios da vida lhe puxaram as tranças, nunca lhe atiraram nenhum dos piropos ambíguos com que a sua brutidão serrana brindava as mais mimosinhas.

Sem mãe que a apaparicasse e criada com o pai viúvo, eram-lhe desconhecidas as louçanias feminis do trapo mais arranjadinho ou do laçarote garrido no cabelo aos domingos e dias festivos. Mal aprendera a escrever o nome e a desembaraçar-se com as quatro operações, o pai tirou-a da escola, que lhe fazia míngua para o arranjo da casa e levar as duas cabras a pastar pelas bermas dos caminhos. Perdida no corrume monótono dos dias, dos meses, das estações, enclausurada na cozinha negra a cozer as batatas ou a remendar os trapos de cotio, quase só saía para ir à horta buscar um caldo ou para a missa dos domingos, quando a havia. Nem coragem tinha, sequer ao menos, para se atrever a sonhar com o mágico príncipe encantado com quem a todas as moças é permitido sonhar.

Assim, quando o Felisberto começou a rentar-lhe a porta, rondando já os trinta, presa ainda a uma donzelia muito serôdia já para os hábitos procriadores dos Pereiros, foi, naquele pobre peito, um alvoroço de aleluias, galreiras como bando de estorninhos quando o Outono começa a acobrear as ramagens pelos montes.

Tinha fama de fraca rês, o Felisberto. Era torvo de figura, atarracado, cambo das pernas e a pelagem negra e hirsuta quase se emaranhava nas sobrancelhas espessas. Mas era homem, o primeiro homem a olhar para ela como mulher. Alvoroçaram-se-lhe os sentidos e na cardenha do velho Firmino ouviram-se pela primeira vez as endechas dolentes com que é costume as donzelas apaixonadas embalarem os seus queixumes de amor. Suspendia por momentos o arrastar da vassoura de giestas pelo sobrado ou o estreloiçar dos cacos da ceia no alguidar de lavar a loiça e suspirava, devaneando, incrédula ainda destes assomos de felicidade.
***

Transcorria interminável e tristonha a década de sessenta num Portugal que a guerra de além-mar e a emigração iam dessorando da sua juventude. E até por aquele fim do mundo dos Pereiros, enterrados naquela prega da serra de Nogueira, perpassou o arrepio do eldorado de França. Os moços desapareciam misteriosamente numa qualquer noite e, ao fim de dois ou três anos, apresentavam-se ao volante de velhos chaços asmáticos que, as mais das vezes, já não resistiam à viagem de regresso e deixavam as carcaças a enferrujar pela berma dos caminhos para gáudio da canalha que primeiro os esfandegava de tudo quanto era amovível e depois os usava para esconderijo no jogo do rou-rou. Uma dessas carcaças bem que a aproveitou a Ludovina do Inácio para poleiro das suas pitas que nos estofos do banco traseiro fizeram criação.

Era uma nova fauna que bulia com a quietude das aldeias, arrotando postas de pescada pelas tabernas, muito anchos nas estranhas vestimentas trazidas lá de fora e batendo com estrondo sobre o balcão, roxo de muitos tintos, as notas de cem e até de quinhentos mil-réis com que pagavam as romeias de vinho e cervejas aos patrícios a quem mingara a coragem para deixarem as courelas magras e desafiarem os caminhos do mundo.
***
– Então, rapariga, o Felisberto já te mandou notícias lá de França?
Como pedra em poço fundo, caiu-lhe na alma a pergunta da tia Florinda. De atarantada nem atinou que responder. Dar-se-ia o caso de o mandicante ter abalado sem dizer água-vai, sem ao menos lhe deixar um beijo de despedida? Ela bem que lhe estranhara os modos ainda mais esquivos nos últimos tempos… E, na verdade, já não lhe aparecia há mais de duas semanas… Mas atribuíra o caso às esquisitices do feitio sorumbático. Com que então, sempre tinha largado a salto para França com a malta do Chancas! Tentou recompor-se, serenar os nervos eriçados:

– Não, ainda não recebi nada. Mas, mais dia, menos dia, as notícias hão-de chegar.
Não havia dúvidas. Mais dia, menos dia, ele ia dar notícias.
Só que as semanas, lentas, passavam atrás de semanas. Já lá iam dois meses e… nada. Acabaram as cantorias naquela casa e a negra cozinha enevoou-se do antigo ar soturno de endoenças.

– Ó alma do diabo, tu que terás que pareces uma seresma!?... – atirava-lhe o Firmino numa efusão de amor paternal, à noite, à hora caldo.
Ela, muda, esvaída nas sombras do lançadouro, engolia lágrimas e enchia-lhe a malga. Mas só passados três meses, já o cuco cantava alvissareiro pelos soutos, quando o saiote começou de lhe apertar a barriga e o Felisberto teimava em não dar novas, é que a alma se lhe vestiu de luto pesado.

Então é que amaldiçoou o dia em que se lembrara de ir ao nabal prós lados de Teixedo. O mariola aparecera, fingindo um feliz acaso, afagando-a com súbitos gestos de ternura. E ela, a grande tola, tonta de felicidade, enliçada pelas promessas de casamento, deixara-se ir arrastando para a curriça do Tem-te-não-Caias. E ali mesmo, sobre um monte de feno, embeiçadinha de todo, caíra em lhe dar a esmola antes do padre-nosso.

Agora, tudo isso lhe aparecia longínquo, delido na bruma dos dias, agora que sentia aquela vida a palpitar dentro de si. E mais lerdas ainda, mais peganhentas, as horas se escoavam e cada dia puxava por outro dia como um alcatruz puxa outro inundando-o de lágrimas, sem que sequer ao menos lhe chegasse uma palavra de esperança…

Os dias cresceram, os pães alouraram nas belgas e ela já nem saía de casa. Só pela noitinha, cosida com as paredes e diluída nas sombras do entardecer, se atrevia a ir encher o cântaro à fontela da aldeia, sem se atardar em conversas com as demais moçoilas, roída pela vergonha do seu estado e mais ainda pelo desespero do abandono a que se via votada.
***
Era por altura das segadas...
O ar abafadiço queimava nos pulmões. No mormaço da tarde, o vento suão soprava em golfadas brutas, soltando gemidos de moribundo nas fisgas do telhado. E, no pasmo deserto das ruelas, soavam os estalidos secos de alguma portada ou cancelo sacudidos pela rajada. No céu torvo, gralhavam gralhas de mau agouro, pontilhando a negro a gaze esgarçada das nuvens altas raiadas de sangue a anunciarem volta no tempo. Depois de uns momentos de acalmia em que o silêncio pesava como chumbo, de novo o súbito sibilar do vento na telha vã. E, logo a seguir, o silêncio coagulava -se outra vez sobre as coisas, mais espesso ainda. O entardecer ia submergindo a aldeia, a escuridão tomava conta da quelhas tortuosas, povoando-as de sombras erradias, prenhes de presságios.

Pobre Paula, imersa na solidão da tarde e no seu abandono!
Onde diabo se metera toda a gente que não se via vivalma?!...
E aquele maldito que não havia maneira de mandar uma linha que fosse!...
O ar abafadiço sufocava-a e as plangências do vento esvoaçando sobre os telhados estraçalhavam-lhe os nervos.
E a estaporada da carta que não havia maneira de chegar!

Nas intercadências do silêncio, de longe, das encostas do Blagoto, chegavam-lhe fiapos desgarrados das cantigas dos segadores, mais arrastadas e dolentes que a ementação das almas nas névoas de Novembro. Eram trovas doridas que falavam das andanças do destino, da fatalidade de se ser pobre, de amores desgraçados, de mágoas mais negras que a morte. E essa melopeia dos segadores, assim desamparada na solidão e nas penumbras da tarde, sufocava-a mais ainda que as rajadas do suão.
Rais partissem a vida de um pobre!

***
E só quando não aguentou mais a dor das entranhas desfeitas pelo veneno para o escaravelho da batata é que berrou o aqui d’el-rei que alarmou as duas vizinhas atadas ao escano da lareira pelo reumático. Ainda lhe acudiram, uma com o Cristo crucificado, outra com meia malga de azeite que lhe alimpasse o estômago.
Em vão.

Lá fora a noite cerrara de todo e nas talisgas do telhado o vento gemia a sua ladainha de má sorte.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

ROSTOS

XI


Foi o Rui Freixedelo que me mandou estas duas preciosidades. Voltamos ao desafio?


Lugar - "Pataranhas - cortinhas"

1 - Judite
2 - Aninhas da Eira
3 - Tia Julieta (do tio Eurico)
4 - Tia Bernardete Alves
5 -
6 - Tia Emília (do tio Amadeu)
7 - Tio José Manuel Pereira
8 - Duarte Alves Pereira
9 - Tia Helena
10 - Ramiro Alves
11 - Tio Eduardo Alves
12 - Manuel Alves
13 - Tia Fernanda Alves
14 - Tio João de Deus Alves

Nesta, o lugar só um vidente o descobriria...

1 - Sr. Dona Maria
2 - Joana Rosa Alves (mãe do tio António Trocho)
3 - Maria Adelaide Rodrigo (filha de Joana Alves)
4 - D. Graça
5 -
6 -
7 - Tia Emília do Outeiro
8 - Manuel Joaquim Rodrigo (filho de Joana Alves)
9 - Sr. Professor
_______
Este ano não tirei fotografias da festa, por isso não houve reportagem. Mas o Rui fez o favor de me enviar algumas que podem ser consultadas aqui (carregar no sublinhado).