segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

CANTEIRA


O caminho terá pouco mais que 1m de largo, mas agora, com o uso escasso, limita-se à dimensão das pegadas humanas. É a canada da canteira, talvez a mais pequena das canadas que atravessam o povo, ou das que dele saem. Se fosse rua de uma cidade, diríamos que desemboca numa praça ampla (a eira dos Pereiras/Fernandes, a poente) e num largo (para onde se voltam as casas do sr. Bernardino, da sra. Delfina, o palheiro do sr. Adriano e as traseiras do sr. Carlos “Chiote”, a nascente). É sítio sempre húmido e absedo, porque encravado entre muros.
É da nascente que dá o nome à canada que me apetece falar: a fonte da canteira. Que é fonte nós sabemos – afinal, da ferida aberta naquela fraga brota uma água fresquíssima onde enchíamos os cântaros para dessedentar os animais. Mas, porquê «canteira»?
Efabulando:
Se canteira é “pedreira donde se corta pedra para construções” (Dicionário de Moraes, fins do séc. XVIII), seria toda aquela zona uma enorme pedreira onde os fundadores da nossa terra se abasteceram para construir as suas moradas? As enormes pedras, erguidas como menires à entrada da eira, poderão ter saído dali e fazem jus ao nome…
E se canteira for “pedra que se põe nos cantos ou esquinas das paredes. Lapis angularis”, conforme ensina Bluteau (início do séc. XVIII)? Atendendo à primeira parte da entrada: terão saído daquele lugar as magníficas cantarias que formam os cunhais das nossas casas?
Prefiro ater-me à segunda parte do verbete de Bluteau: Lapis angularis –  pedra angular, a pedra que encerra a construção do arco e o sustenta . A pedra extraída do lugar da nascente é grande, destinada, por certo, a um edifício que o povo visse, comummente, como merecedor de desvelo maior: a igreja, único edifício que, na nossa terra, ostenta um arco, um belíssimo e amplo arco romano todo ele feito de cantaria.
Será que, quando olhamos para a pedra angular, sobre a qual se ergue o selo heráldico do bispo de Miranda a assegurar que a nossa paróquia lhe pertence, conseguimos identificar a proveniência de tão delicada cantaria?
O arco delimita a entrada no altar-mor, o espaço mais sagrado das igrejas, aquele onde se encontra Cristo consagrado; Cristo, a pedra que os construtores rejeitaram e se tornou pedra angular. Será da canteira a pedra que, na nossa igreja, simboliza Jesus?
Da fenda aberta na rocha brotou água.
No deserto, durante o êxodo do Egipto, foi ordenado a Moisés: Ferirás a rocha e dela sairá água, e o povo beberá. (Livro do Êxodo, 17, 6)
Que Moisés terá fendido as nossas fragas para que delas brotassem as águas? Que construtor terá decidido não rejeitar a rocha e a levou para o templo daquele que é fonte de vida?

Tudo quanto deixo escrito não passará de devaneio. Mas quis partilhá-lo convosco.

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

A BELEZA DA NEVE… OU QUASE UM MILAGRE

Por: ORLANDO MARTINS


                    "Vergonha não é parecer louco por ajudar e defender os animais.
                     Vergonha é ver a sofrer e não fazer nada!"

Eram quatro horas da tarde. O vento de noroeste que soprava da serra roxeava a ponta do nariz e os lóbulos e hélices das orelhas. Como brincadeira de alguma malvadez oferecíamos a nossa solução: - Queres que te aqueça as orelhas? – E esfregávamos com as mãos os apêndices em hipotermia até as lágrimas da vítima se começarem a soltar, bem como alguns palavrões…

Quando estas condições eram acompanhadas por umas nuvens baixas e negras, Nimbostatus, segundo os eruditos, ou nuvens que trazem neve segundo os velhos e o seu saber de experiência, podíamos quase anunciar, tal qual no Boletim Meteorológico dos nossos dias, que amanhã íamos ter neve de certeza.


- Até amanhã tiu Atilano…
- Até amanhã rapaze… e vai pró lume que hoje inda neva…
- Deus o queira, e a tia Cândida já está ao borralho?
- Tá a fazer o caldo, e depois caminha, que isto está bravo, a candeia da Alzira já alumia há quase uma hora e a Eduarda já fechou portas.

Estávamos já em Dezembro e, a estas horas da tarde, já toda a gente se apressava a acomodar os animais, recolher alguma lenha do sequeiro para o lume que iria aquecer um pouco a casa e tratava-se de começar a preparar a ceia.

Daquela hora em diante já poucas almas se atreveriam a sair à rua. Comeu-se o caldo entre paredes, contaram-se lendas e façanhas de outrora enquanto com as tenazes se aconchegava a cinza às brasas e se deixava apagar o último tição. Pedia-se a bênção e, como cordeiros, lá íamos para dentro dos cobertores.

A noite passou-se no mais santo dos sonhos, e a brisa fresca da manhã que invadiu a casa, pela abertura da porta da rua pelo meu pai que ia buscar mais lenha para acender a lareira, fez-nos acordar para um novo dia.

Estava tudo tão calmo… tão silencioso… tão esquisito, que fui espreitar à pedra da escaleira.
Estava tudo branquinho, um manto espesso de neve cobria a aldeia deserta, os montes ao longe não se distinguiam da paisagem, parecia que estávamos num limbo de pureza e paz…

- Nevou pai,… nevou…, acha que vai durar muito a derreter?
- Pela maneira como isto está ainda vai piorar, agasalha-te e vai lá p´ra dentro…
- Agora vou dar de comer às bacas, galinhas e coelhos e a tua mãe faz-vos já    qualquer coisa para comer. Raios partam este fumo, mas isto quando começar a arder já passa. 
Passados alguns minutos oiço o meu pai aos gritos a chamar pela minha mãe.

- Oh Maria, … Oh Maria…
- Raios partam o homem, o que é que queres?
- Tu ontem encerraste bem as galinhas e a pata com os dez parrecos pequenos?
- Ou penso que sim, num estão no galinheiro?
- Nem no galinheiro nem em parte alguma, se não foi uma raposa, estão todos mortos debaixo nevão. Não se aguentavam a noite inteira com tanto frio.

Após inúmeras e infrutíferas buscas, enquanto subíamos os degraus gelados da escaleira para entrar em casa, vislumbrámos um movimento debaixo de uma giesta coberta de neve no sequeiro encostado à escaleira.
- Tchiu… tenho cá uma fé que eles vieram para aqui. – Disse o meu pai.


Retirando cuidadosamente a neve e afastando alguns guiços em volta, apareceu a asa branca da pata que, durante a noite, tinha coberto e aconchegado, quase por completo, aqueles peluches amarelos que a tinham seguido como filhos obedientes sentindo que, debaixo dos braços e do coração dos progenitores, se sentiam salvos e seguros.

Infelizmente, estavam todos inanimados e as arestas de gelo, que se haviam formado, fechavam-lhe os olhos e os bicos, e a fofura da sua penugem amarela tinha-se tornado numa espécie de trapo de desperdícios.

- Oh Maria, vai lá cima arranja um cobertor, atiça o lume e espalha um pouco de brasas… depressa, vai lá mulher…

Não sei se verti alguma lágrima, mas uma coisa vos garanto, o meu coração chorava, e quando vi o meu pai tirar o casaco, apanhar aqueles corpos inanimados, cabeças descaídas e uma infância tão inocente desperdiçada, aconchegá-los ao peito e correr escaleira acima em direcção ao lume, uma réstia de esperança invadiu-me por completo.
                                               
Deitou os infelizes patinhos no cobertor junto à lareira, eu puxei uma tripeça e fitava os pobres animais inanimados, pensando se haveria na realidade milagres.

- Temos que esperar… e rezar… temos que esperar… - Dizia o meu pai.

O tempo andava lentamente, os segundos tornavam-se minutos e os minutos tornavam-se horas.
Para minha surpresa, um dos petizes moribundos, ao fim de algum tempo, abriu lentamente os olhos, as suas pernitas começaram a mexer…

- Pai… Pai… este ainda está vivo…
- Vamos esperar mais um bocado… temos que ter fé…

Lentamente um, depois outro e outro foram renascendo e uma felicidade enorme invadiu aquela casa. Apenas dois tiveram sorte diferente.

Se não foi um milagre, foi amor…
E o amor não é um milagre?


sábado, 26 de novembro de 2016

TIA ISAURA

Tia Isaura
Porque Deus assim quis, hoje partiu para a eternidade. Que descanse em Paz.
Porque essa era a sua vontade vamos recordar para sempre a sua alegria.
Disse à filha que não queria lágrimas...
"Não chores por quem já está junto a Deus! Pense nos momentos felizes que passaram juntos e a Deus por deixar esta pessoa brilhar em sua vida."
Os meu pêsames a toda a família. Muita força, muita coragem, e perante a ineficácia de qualquer consolo na perda, relembrem quem foi a pessoa que partiu e na saudade, memória e amor dos que ficaram, ela viverá para sempre.

Paz à sua alma!
  O funeral é dia   28 segunda-feira às 10:00 horas na igreja de Rebordainhos.

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

LELE

Para nós, como para todo o povo, ele era o Lele, aquele "bom-serás" em paz com a vida e com o mundo. O sorriso da fotografia era o sorriso de todos os dias, rasgado em oferecimento a toda e qualquer pessoa. O Lele era esse sorriso onde cabia todo o afecto que distribuía sem cerimónias nem distinções, como bênção de Deus aos Homens. Nosso Senhor há-de agradecer-lhe e recompensá-lo pela bondade que repartiu. 

O Lele, meu primo, faleceu e foi hoje a sepultar. Deus sabe o quão difícil me é escrever esta notícia.

Para a Berta e para a Lurdes, o meu beijo e a minha pena.

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

CONTADOR DE VISITAS

O contador antigo deixou de funcionar, em consequência, perdemos os dados que ele contabilizava e que datavam do início do blog. Os números que lá estão agora são os que o blogger forneceu, mas essa estatística só começou a ser feita a partir de Maio de 2010, embora esta nossa casa conte as visitas desde Abril de 2008  (aberto portas em Fevereiro desse ano).

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

O PASTOR VALENTE

Por: ORLANDO MARTINS

Eu soprava…, soprava… e nada, enrugava os beiços, metia os dedos na boca, pressionava a língua, fazia caretas,… mas o raio do assobio não saía. Por muitas lições que me dessem e por longos e repetidos ensaios que fizesse o meu assobio não era mais que um guinchozito incapaz de assustar o mais assanhado dos gatos.
Já quase todos os garotos da minha idade o faziam sem grandes dificuldades. O Amâncio, que era mais ou menos da minha idade, já assobiava há muito tempo, aprendera com o irmão mais velho, o Valente, que era pastor.

Esse sim, até vibratos fazia o que me deixava estupefacto e me motivava na minha aprendizagem que, diga-se em abono da verdade, poucos resultados obteve.

A vida do Valente não lhe permitia passar muito tempo com os amigos, guardava um rebanho de ovelhas e durante o dia raramente se via na aldeia, vivia uma vida de eremita tal como o seu colega Alfredo o “Aidinhas”, percorria o termo da aldeia rasteando os melhores pastos e quando alguma ovelha se tresmalhava logo a chamava pelo nome, ou recorria ao assobio próprio para que os seus cães a chamassem à razão de se manter na união do grupo.
 Mas, já noite, quando as ovelhas estavam recolhidas na curriça ou entre cancelas, com os seus dois fiéis cães pastores de guarda, e após uma bucha pelo caminho, lá ia ele até à taberna para desfrutar de um curto, e quase único, convívio com o resto da rapaziada.

Era um rapaz de poucas palavras, de estatura baixa e olhar arguto, muito enérgico e determinado e o seu gabarito de afouto seguia-o como uma sombra.

Foi numa dessas noites, na taberna do Álvaro, que enquanto “Patinge” e o tio Aniceto jogavam o chino, mostrando todas as suas perícias em atirar a moeda, e na única mesa de canto os parceiros de costume, o Adriano “Torto”, o “Frade”, o Juíz e o tio Arnaldo se debatiam numa jogatana de sueca interrompida no final de cada jogo por táticas e discussões de jogadas, onde alguns insultos e reprimendas ao parceiro se destacavam por este não ter destrunfado ou metido a bisca.
A noite lá fora estava escura como breu e o vento de norte assobiava com uivos sobrenaturais e fugidios como se fossem gritos longínquos de desespero. A ténue luz do gasómetro mal dava para iluminar as figuras das cartas espanholas da sueca e o vinho, servido a copo, só se distinguia se era tinto ou branco pelo sabor.

O assunto da conversa da rapaziada mais jovem centrou-se no cemitério,… nas campas,… nas cruzes e lápides,… nos defuntos que lá repousavam. O ambiente tornou-se sinistro e todos confessaram recear passar durante a noite em frente à “mansão celeste” onde baixavam os olhos para o caminho ou trauteavam uma moda que os ajudasse a estugar o passo.

O portão desta morada final estava ladeado por dois pequenos ciprestes que, com o vento e a luz difusa da lua, projectava sombras em movimento nos muros que se iam transformando, na imaginação de cada um, em imagens e recalcamentos de contos e lendas aprendidas nas longas noites de inverno.

Arrepios,… pele de galinha,… cabelos da nuca em pé,… olhos esbugalhados,… boca aberta,… um zumbido claustrofóbico,… respiração arquejante e uma aproximação física da ganapada, quase se abraçando, para sentirem um pouco mais de protecção contra qualquer alma que naquele dia andasse a vaguear procurando descendentes ou assuntos por resolver que deixara na sua vida.

A vontade que se agigantava de meter pés ao prado, fugir para casa e sentar-me ao lume junto à luz da candeia a petróleo para que esta lavasse os meus medos  era enorme, mas o tremer de pernas e alguma curiosidade mantinham-me no grupo.
Plim… Plash….  Zum… zummm… tlaque… e a moeda de dois vinténs parava.

- Três pontos, pinchei o chino. – Dizia o “Patinge”, deitando a língua fora e olhando para uma suposta assistência.

- Tá bem, mas se a minha ficar mais perto do chino tiro-te um ponto, num comeces já a festa. – Retorquia o Aniceto que também era um bom jogador, e cada partida era a um copo de vinho que o Álvaro ia controlando com uma espécie de numeração egípcia num resto amarelado de uma folha de papel almaço.





Aproveitando esta abertura na conversa densa da rapaziada, o Tonho e o Pintassilgo, atiçados pelo Tarcísio, desafiaram a ousadia do Valente.

- Oh Valente se fores ao cemitério sozinho, deixares uma marca em cima de uma campa e ficares lá pelo menos uma hora, damos-te duas coroas.

O Valente, afoito e habituado à noite respondeu logo: - Caracho, dais-me já uma e outra quando eu voltar, mas “esperaides” aqui por mim. 
Tal como o prometera assim o cumpriu e, no dia seguinte, todo o pessoal, mais livre e descontraído com a claridade da luz do sol, desabafava:

- Fosca-se, não é que o gajo foi mesmo lá, vi lá um ramo de giesta deixado por ele numa campa, e deve ter saltado o muro pela parte da cabecinha que é mais baixo.

O Valente, que não o era só de nome, tinha provado toda a sua bravura.

Muitos anos depois, já eu em terras de mouros, um título dum jornal nortenho captou toda a minha curiosidade e senti uns calafrios percorrerem-me o corpo todo.

                    “PASTOR TRANSMONTANO MATA LOBO COM AS PRÓPRIAS MÃOS” 
Comprei o pasquim, li a notícia até ao fim e, para meu espanto, tinha sido o Valente a perpetuar a sua fama.

Alguns anos mais tarde, no meu último encontro com ele, perguntei-lhe como tudo tinha acontecido, ao qual ele me respondeu:

- Sabes, … os cães é que o apanharam e me ajudaram, eu apenas o sufoquei com um braço na garganta e a outra mão metida pela garganta dele o mais que pude…

Mais uma lição de valentia e humildade que aquele amigo me deixou e agora recordo com alguma nostalgia.

Obrigado Valente e felicidades na tua vida.

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

PARA CONFIRMAR

A fotografia que ilustra o artigo abaixo - e que foi gentilmente enviada pelo Carlitos -  já esteve em discussão no blog. Houve identificações que se não puderam fazer. Espero que seja esta a oportunidade para esclarecer. O artigo pode ser visto "clicando" aqui.

sábado, 5 de novembro de 2016

CRÓNICA DESPORTIVA – O ANTIJOGO

Por: ORLANDO MARTINS

Após o jogo Sporting – Tondela, o treinador Jorge Jesus fez as declarações que passo a citar: 

“Não me quero agarrar muito ao antijogo jogo do Tondela. É um direito que lhe assiste. Em termos tátitos esteve bem, tirou 13 minutos ao jogo e o árbitro só deu seis e quando deu seis, dois deles lesionaram-se e tiraram à volta de dois minutos a esse tempo, e o árbitro não contabilizou isso. …” (Vejam só que dois minutos lesionaram-se, coitados dos minutos…). 

Conclusão: na realidade o árbitro apenas deu 4 (quatro minutos), seis do árbitro aos quais o Tondela tirou mais dois. 

O sol, vagaroso e escaldante, já tinha percorrido mais que três quartos da sua meia volta diária. Iam-se buscar as bacas ao lameiro, rachava-se alguma lenha e apanhavam-se uns guiços para o lume, enchiam-se os cântaros de água fresquinha na fonte grande, punha-se comida às galinhas e coelhos e toda a gente se preparava para o regresso a casa. 

A vida era dura e, depois de um dia a cavar batatas, ainda assim, para nós os putos da aldeia, era o momento esperado para o nosso momento desportivo. 

Das escadas da vizinha tia Alzira já o Tito me gritava: - Ó Relando, já não tens que ir regar batatas, or’ não? 

 Ele era assim, depois de um carólo de pão com presunto, mais gordo que magro, um bocado de chicha, que o presunto era para dias festivos, que estava no cimo da escaleira a estugar-me para o nosso jogo de bola. 

- Não, e hoje já não bou buscar o feixe de milho, porquê? – Respondia-lhe eu com a visão periférica colada à reacção da minha mãe, não estivesse ela já a adivinhar o jogo de bola na eira. 

- Sabes, o “Escacha” arranjou uma bola. 
- De borracha ou de plástico? – Perguntava-lhe. 
- Nã… Nã … de couro, já a incheu com a bomba da bicicleta do Zé Latoeiro, e botou-lhe um bocado de sola no pipo. Tem um gomo descosido mas está quase nova. Jogas? 
- O Xaninha tamém bai? 
 - Bai lá ter,… está a acabar de comer. 
- Atão já lá bou… 

O Chedre, que em termos desportivos dominava os infantis, dava a tática e ia desenhando a equipa. 

- O Amâncio fica à baliza… 
- Eh!... À baliza sou ou. – Atalhava o “Marreta” vendo o seu lugar costumeiro em perigo. 
- Hoje jogas à frente que eles bão pôr o “Calhilha” na baliza, e tu bais à minha frente para le dares uma biqueirada… 

O “Xaninha”, que estava concentrado na tática, remata: - Bô,… assim bem perdemos, eles são todos grandes,… já biste o Henrique, o Tonho, o Pintassilgo e se calhar ainda o “Triciclas”, e nós? Ficamos co Manel Braz, co Marinho da Celeste co Toninho da Margarida,… bem … bamos lebar poucas bamos…
- Cala-te, nós podemos escolher dois grandes para a nossa equipa ou então metemos mais um jogador que eles. 
- Quero ber. – Concluía o Xana. 

O “Triciclas”, com o subiote na mão, definia as equipas. – Damos-vos o “Pacheco” e o Carlitos e bós dais o “Rauta”… 
- Fosca-se…dás-me tamém o “Carriço”. – Negociava o “Chedre”. 
- Tá bem, lembra-te que já tens o “Chico” da “Tonheta”, mas na segunda parte bolta para a nossa equipa. – Concluía o Triciclas. 

Com as equipas formadas era urgente começar o jogo antes que o sol encobrisse a bola e as balizas com o seu manto negro, que, até ao lusco-fusco, era jogo garantido. 

- Atão é assim pessoal,.. Ei… Ei… Ó “Lhé”? Estás a ouvir? Atenção a todos, … muda-se de campo aos cinco e o jogo acaba aos dez, portanto o primeiro a marcar dez golos ganha, entendido malta? – Finalizava o “Triciclas”. 

 Já ninguém o ouvia,… a bola, desgraçada, pinchava de pé em pé até que um chuto mais certeiro a fazia passar entre o medeiro e o marco de pedra que definiam a baliza dos grandes… Era o 1-0 para os piquenos… E assim, golo a golo, canelada a canelada e vários gritos vernáculos pelo meio lá ia o resultado engordando até… 

 Até que chegava aos dez. Ninguém discutia, acabava o jogo, e muito mais aliviados e algumas abuchicadelas na poça da fonte do Espinheiro, íamos cear, que o caldo verde já devia estar na mesa. 

QUER A FIFA MELHOR FAIRPLAY QUE ESTE?

terça-feira, 1 de novembro de 2016

JÁ FLORIRAM OS CRISÂNTEMOS


Já floriram os crisântemos

Corolas abertas ao céu, agremiadas em tufos,
miríades de pequenas flores – roxas e brancas –
que as mulheres colhem para o regaço
serão pontos de cor, depostos um por um,
ao correr das arestas avivadas da sepultura.
No centro formarão uma cruz.

Em cada flor depositada vai o beijo;
no silêncio está o carinho que se sente e não se sabe dizer.

E assim ficam as campas,
como grandes tufos dessas corolas voltadas ao céu,
afirmando que é essa a morada das almas
daqueles que nos preenchem a memória.

Já floriram os crisântemos.
Um dia florirão para nós.



A festa de Todos-os-Santos foi instituída em 610 pelo papa Bonifácio IV com o objectivo de homenagear todos aqueles que sofreram o martírio pelas mãos dos romanos, fixando-se a data da celebração no dia primeiro de Novembro. Simbolicamente, a Igreja assinala no dia seguinte a solenidade dos Fiéis Defuntos, que é uma forma de os colocar sob a protecção dos santos. Com as cerimónias nos cemitérios e as nossas orações junto das sepulturas assumimos que os vivos e os mortos fazemos parte da mesma comunidade. Isso é profundamente reconfortante.

domingo, 23 de outubro de 2016

A PROPÓSITO DE UMA LENGALENGA

Esta também saiu da memória da tia Delfina:


Gri, gri, sai, sai
Que aí vem teu pai
Com faca de latão
Espetada no coração,
Ou então,
O grilinho
Sai à porta
Que a cabrinha
Está na horta.


Nós dizemos lengatenga, não é verdade?

- A esta não a conhecia, mas acho-a ternurenta.
- Mesmo com aquilo da faca espetada no coração?
- Sobretudo por causa da faca espetada no coração!
- Não poderia dizer-se “com a mão no coração”? É menos violento e rima na mesma!
- Pois rima, mas não faz rir! Uma faca de latão não é uma palaçoula! Se é de latão, dobra-se toda, não espeta nem mata! Imaginar uma lâmina que se torce e se dobra, a espetar-se no coração, faz rir, porque é um disparate! Assim como faz rir imaginar que um bicho, tão pequeno como o grilo, possa andar com uma faca espetada no coração, caminhando sobre ela enquanto a arrasta!

A parte educativa vem a seguir: se a cabra está na horta e o grilo está em casa, então a cabra come tudo e o grilo fica sem nada. Enquanto repete este disparate, a criança vai aprendendo uma grande lição de vida: "guarda o que te pertence" (Gén. 33,9). Ou, em alternativa, "guarda-te dos mais fortes" (ou dos mais lestos).

E foi isto que me aprouve dizer a propósito da lengatenga, com a devida ressalva de uma interpretação excessivamente livre do texto do Livro do Génesis.

Um bom domingo para todos.

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

CARA NOVA II

Como vêem, tentei responder às sugestões. Espero que a solução seja do vosso agrado (da Augusta e do gentil anónimo), repondo a cor original. O desenho inicial não poderia manter-se porque não podia mexer em nada; estava de pés e mãos atados.

Agora preciso, de novo, de ajuda: é que estou com dois monitores ligados e cada um reproduz imagens relativamente diferentes. Eu quero que a cor do texto da mensagem seja cinzento escuro e o tamanho da letra pouco maior do que a primitiva. Um dos monitores, contudo, apresenta-me texto de cor azulada e letra de tamanho bastante maior do que o habitual (pode ser por causa da idade, o coitado já tem mais de 10 anos). Gosto do aspecto num, mas não gosto do aspecto no outro. Como vos aparece tudo nos vossos monitores?

Desde já, obrigada pelas respostas


segunda-feira, 17 de outubro de 2016

CARA NOVA

Confesso que preferia a velha. Contudo, era tão arcaica que já nem podia mexer em nada.
Na galeria das "caras" permitidas, escolhi esta que vedes agora e para a qual peço a opinião dos leitores.

Importa-me saber se apreciam as cores ou se escolheriam outras e, sobretudo, se os vossos monitores não desfiguram a apresentação do blog, ou seja: se o texto e as imagens vos aparecem devidamente organizadas. 

Há sempre algum porém: as fotografias do cabeçalho são, agora, estreitas para a largura que seleccionei. Vão continuar assim, até que tenha tempo, e paciência, de trabalhar as fotografias para as dimensões actuais (acreditem que é um trabalho muito maçador).

Aguardo as vossas opiniões.

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

SENHORA JULIETA E SENHOR EURICO

Sessenta anos! A feliz celebração de uma vida em comum.

Houve um tempo, certamente, em que cada um existia por si mesmo, mas esse tempo há-de esbater-se perante a dimensão do tempo comungado. É como se um tivesse estado sempre presente nos dias do outro, caminhando juntos. Talvez resida aí o mistério das vidas felizes, em que os dois se tornam um só, pisando o mesmo chão ao mesmo tempo e deixando como rasto uma só pegada.
O sr. Eurico e a sr.ª Julieta são dois corações abertos. Já vão em bisnetos, mas todas as gerações são tão próximas, que ninguém faltou à celebração do dia. Só um grande afecto permite que tais laços se prolonguem no tempo e no espaço.
Como amiga, quero agradecer à sr.ª Julieta e ao sr. Eurico pela dádiva que fazem de si aos outros e na qual têm a bondade de me incluir.
Bem hajam!

P.S. O meu muito obrigada ao João Manuel, que fez o favor de me enviar as fotografias.



quarta-feira, 5 de outubro de 2016

NEM SEMPRE O QUE PARECE É

(Van Gogh)

Nem mesmo a teoria heliocêntrica de Nicolau Copérnico veio alterar, naquela terra, o ciclo das colheitas. Depois da acarreja, e decidindo-se a ordem de entrada das malhadeiras pelas eiras cravejadas de medas, dava-se início às Malhas.

Para animar apregoava-se “à eira que o bacalhau está na caldeira”. De todos os caminhos convergiam, uns mais lestos que outros, aqueles que queriam a torna-jeira ou os que por afinidades ou favores lá tinham que dar uma ajudinha.

Por vezes ouvia-se em surdina, “nesta só fico até ao jantar (leia-se a parte da manhã) que a minha só dura meio-dia”. Mas no final tudo acabava por se realizar.

Numa dessas Malhas, cuja meda invariavelmente de forma rectangular, e que durava… durava… até o sol se deitar e por vezes acabava-se no dia seguinte, era o caso da malha do “Santo”, à qual muita gente torcia o nariz…, questionou-se seriamente Copérnico e a sua teoria do séc. XV.

Ainda ao raiar do sol, e depois do mata-bicho, o Amador vira-se para o Fernando do tio Zé “Çuca” e diz-lhe – “Aguenta aqui no carro e nos molhos, que eu vou descansar um pouco ali atrás do palheiro”.

As horas passaram e o Amador lá ficou, sonhando…, quem sabe com o bacalhau, com azeitonas e com o pão molhado em azeite… ou, por outras razões desconhecidas, o sono tinha-se tornado mais pesado que o devido.

Já à tardinha, quando o sol se preparava para se ir embora lá para os lados de Soutelo, e enquanto ainda espreitava através do cume da serra, o Fernando lembrou-se de ir ver do Amador. Ainda ressonava. “Amador… Amador… Acorde que em breve se faz noite”, e o Amador nada… “Amador, acorde”, e elevava cada vez mais a voz.

O Amador esfrega os olhos em sobressalto, abre as pálpebras pesadas da longa soneca, olha em redor e murmura para o Fernando:
– “Fernando…, parece-me que o sol hoje nasceu ao contrário, não te parece…?”
– “Oh Homem dum caraças, está-se a pôr! Vamos embora antes que dêem por si!”
E assim, todas as tardes, tal como Copérnico previra, o sol deitava-se para os lados da serra, … ainda hoje assim é.

domingo, 25 de setembro de 2016

TIA ZULMIRA

    “ - O rapaz já podia começar a servir… Eu, com a idade dele, guardava cabras… Queres tu deixá-lo comigo? - propôs o Lopo.
     - Deixá-lo?!
     Pelo caminho fora a palavra soava-lhe como um zumbido atroz nos ouvidos escandalizados.
     - Deixá-lo! Há cada uma! Ia agora deixar-lhe o menino!”

Miguel Torga, Mariana, in novos contos da montanha



Não sei se alguém, alguma vez, terá feito esta pergunta à tia Zulmira. Se sim, a resposta teria sido a de Mariana: “Há cada uma!”

Deve passar-se alguma coisa de muito especial na cabeça das mães, para que sejam mais agarradas aos filhos do que a elas próprias. Parece que lhes dói mais tocarem-lhes nos filhos do que terem o corpo coberto de chagas e nunca sentem fome desde que os filhos estejam saciados. As mães só sentem fome de terem os seus filhos – e de os terem consigo, sem precisarem de mais ninguém.

Há mulheres que são mães e que não prescindem de ser mulheres. Não sei se são heroínas, ou vítimas do tempo em que nasceram. Sei, contudo, que são seres especiais a quem Deus dotou da capacidade de, pelo seu agir, pôr à prova a nossa capacidade de amar e de aceitar quem não trilha os mesmos caminhos que nós. Parafraseando Jesus: a regra foi feita para o homem, não o homem para a regra!
Ela não o saberia, nem cuidaria em tal, mas mulheres como a tia Zulmira foram precursoras da liberdade que hoje vivemos: rasgaram caminho a pulso, sentiram na pele o aviltamento de uns, a vilania de outros, enfim, a perfídia de muitos, mas sobreviveram, amparadas a si próprias; acolhidas por quem, sem vãs filosofias nem entendimento errado da fé, sabe que o mais importante é o amor.
A tia Zulmira deixou-nos durante este mês de Agosto. Partiu para o Céu tão lúcida como sempre viveu. Nosso Senhor deve tê-la acolhido feliz, porque ama aqueles que souberam amar e exercer a humana condição da liberdade.
Bem-haja, tia Zulmira.

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

ANO ABENÇOADO



Há  tantos anos que não assistia a um Verão assim! Vi a nossa igreja muitas vezes ocupada para celebrar baptismos e dei por mim a sentir-me feliz por isso. Deus abençoou-nos através da dádiva que são as crianças e a elas há-de abençoá-las sempre, para que tenham uma vida plena.


Gostaria de perpetuar essa alegria:



Maria, filha do Edgar e da Tânia.

A Tânia é de Bragança e o Edgar é filho da Dorinda e do Gilberto (da tia Delfina).

Tomás, filho da Sandrina e do Pedro.

O Pedro é de Bragança e a Sandrina é filha do Paulo (do tio António “Atilano”) e da Glória (da tia Fernanda).

Carolina, filha da Clotilde (“Tilinha”) e do Juan.

O Juan é da Madeira e a Tilinha é filha da Lurdes (da tia Zulmira) e do Manuel (do tio Zé Çuca).

?     filha do Nuno e da Celina.

O Nuno é filho da Bárbara (da tia Aida) e do Manuel “Lhé”.

A Celina é filha da Mercedes e do Carlos (da tia Irene e do Vítor “Labaredas”).

Tomás, filho da Paula e do Nelson.
O Nelson é do Porto e a Paula é filha do tio Hermínio e da tia Luísa.

Peço encarecidamente ao Carlos, ou a alguém que o saiba, o favor de me dizer o nome da menina, para que o possa escrever também.

A todos, o meu muito obrigada pela bênção que recebi por vosso intermédio.
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Imagem retirada daqui

domingo, 11 de setembro de 2016

FESTA 2016

A maioria dos leitores estará, certamente, à espera das imagens da festa. Publico aquelas que tirei e que, apesar de poucas, permitem constatar que, quer a igreja, quer os andores, estavam lindíssimos, como é habitual. As nossas mordomas esmeram-se sempre e nunca repetem soluções. No bom dizer do Sr. P.e José Luís, o arranjo dos andores e da igreja é uma linda oração que elas rezam. Nossa Senhora as abençoe pelo desvelo. 

A procissão foi acompanhada pela banda de Bragança, cheia de gente nova que, apesar da idade, mostrou boas capacidades artísticas. Foi uma alegria tê-la connosco e, pessoalmente, gostaria de ver repetida a experiência.

Este ano houve duas novidades: o andor da Senhora do Rosário foi colocado em destaque no altar mor e os restantes andores, em vez de ocuparem todo o lado direito, foram postos no fundo da igreja porque "os santos não precisam de ouvir missa e eu quero o povo ao pé de mim", no dizer bem humorado do sr. P.e Manuel, de quem partiu a sugestão. 



domingo, 4 de setembro de 2016

OS FERNANDES

Assim como nossos avós fizeram, também nossos pais e nós fomos embarrar o pote onde Deus quis. A vida separa as gerações, tornando algumas delas desconhecidas entre si.
Contudo, olho as fotografias e comovo-me: os rostos das pessoas que não conheço falam-me ao coração e identifico neles traços que me são familiares, como se a memória fosse transmitida pelo sangue.
E é de sangue que falo – o sangue dos Fernandes, com origem em Vilar d’Ouro / Cabanas, embora só poucos dos presentes continuem a assinar assim, em consequência da via masculina de transmissão dos apelidos.
O encontro dos Fernandes realiza-se há já alguns anos, por iniciativa do nosso muito querido P.e David. É sempre no primeiro sábado de Setembro e, este ano, calhou em Rebordaínhos (dia 3) onde se realizará também o próximo. Nesse, espero estar presente, para poder distribuir abraços e recolher memórias, porque a cabeça e o coração têm a virtude de não possuírem limites.

Deus pague ao P.e David a bondade e o sentido de família que sempre demonstrou. Obrigada a todos quantos respondem ao chamamento.
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As fotografias que publico foram tiradas pela minha irmã Augusta, motivo pelo qual ela nunca aparece., mas a quem agradeço o envio.