segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Passaportes

V
Série A

Para começar o ano com algum exercício mental, apresento 9 fotografias referentes a passaportes para o Brasil. Palpites?

Podem consultar todos os passaportes já identificados da série A (com destino Brasil) aqui: http://freixedelo.com/rebordainhos/ 

1
Nome:
Data do passaporte:
Nascimento:
2
Nome:
Data do passaporte:
Nascimento:
3
Nome:
Data do passaporte:
Nascimento:
4
Nome:
Data do passaporte:
Nascimento:
5
Nome:
Data do passaporte:
Nascimento:
6
Nome:
Data do passaporte: 1947
Nascimento: 1923
7
Nome:
Data do passaporte:
Nascimento:
8
Nome:
Data do passaporte:
Nascimento:
9
Nome:
Data do passaporte: 1939
Nascimento: 1905

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

PAISAGENS DE NATAL II

Embora sempre espere e deseje a neve, a verdade é que, qualquer que seja o estado do tempo e a estação do ano, as paisagens da nossa terra provocam em mim o efeito de uma carícia na alma. Este Natal, de sol radioso e ar transparente, ofereceu-nos a paleta completa de um pintor naturalista, daqueles que, enfadados do estúdio, saíam para os campos e tingiam as telas com retratos que, ainda hoje, nos emocionam e apelam aos sentidos.

O ar limpo, ao amaciar o percurso da luz, permite que os nossos olhos descubram uma plêiade de cores e se alegrem com os tons contrastantes que sugerem frescura. A paz impõe-se aos espíritos mais inquietos. 
Bendito seja Deus pela Sua bondade.
Montes
Do sopé dos Montes para Rebordaínhos
Do sopé dos Montes para a Serra dos Pereiros



Do sopé dos Montes para a Serra dos Pereiros

Airoá

Começo do Atalho

Começo do Atalho

Começo do Atalho

Cruzinha
Cruzinha


Da casa do tio Benjamim para a Cabeça

Com este artigo, encerro o ciclo dedicado ao Natal. O próximo será da autoria do Orlando, para nos fazer rir.

domingo, 8 de janeiro de 2017

REIS

No Evangelho deste domingo (S. Mateus 2, 1-12) narra-se o episódio da visita dos reis magos a Jesus. Estes homens fizeram um percurso desconhecido, sabendo nós, apenas, que eles vieram do Oriente. Apesar de não serem de fé hebraica, prostraram-se perante o Menino e adoraram-nO. É o primeiro sinal de que o menino Deus se doa a toda a humanidade, rompendo com a velha tradição de que cada povo tem os seus deuses.

Na carta aos Efésios (2.ª leitura: Ef 3, 2-6), porque a verdade da revelação continua a ser estranha a muitos dos primeiros cristãos (que são judeus, importa lembrar), S. Paulo esclarece: "os gentios recebem a mesma herança que os judeus, pertencem ao mesmo corpo e participam da mesma promessa, em Cristo Jesus".

A ideia de que a humanidade é una em Cristo está bem patente, creio, no modo como celebramos os Reis. Ela é una no espaço (todas as casas são visitadas) e é una no tempo (todos os mortos são recordados, atendendo à paragem frente ao cemitério): somos com aqueles que estão connosco e somos com todos quantos nos antecederam, sendo Jesus quem nos liga uns aos outros e a todos a Si e ao Pai. 

A festa dos Reis é a prova de que compreendemos bem as Escrituras. Bem-haja quem persiste nela.


Este ano o careto foi o Frederico, filho do Rui e neto da tia Conceição e do sr. Frederico.

video
Os cantadores: Casimiro Pires; Francisco Martins; Manuel Ferreira e António Rodrigo.

Deus pague aos cantadores e ao careto, assim como ao mordomo das Almas que, este ano é o Zé Maria.
____
Nota: agradeço à minha irmã Augusta o envio da fotografia e do filme. Contudo, gostaria de publicar mais. Alguma alma caridosa poderá fazer o favor de enviar algumas? Agradeço desde já.



terça-feira, 3 de janeiro de 2017

PAISAGENS DE NATAL


A nossa terra parecia uma ilha de luz no meio de um mar de névoa – os olhos deslumbram-se com a vista, mas o corpo agradece as carícias do sol. Estava frio, asseveraram os termómetros, mas só na noite de passagem de ano nos fez agasalhar mais.
Nascente
Sul: da serra de Bornes só se vê o cocuruto
Sul: o vale do Azibo submerso em névoa
Sul: S. Frutuoso, em Teixedo, não conseguia ver o céu

Sul: a névoa cresce em direcção aos Pereiros

Apesar de a água das poças congelar à superfície, a geada escondia-se nos cantos abrigados, salvo em dois dias, em que, para baixo do Nabalho, tudo era um mar de brancura, mitigando as saudades dos amantes da neve. 
Na Afonsim, destacando-se os efeitos do incêndio do Verão passado
Na Afonsim



Urze colhida em Vila Seco e rosas colhidas no horto de casa.
Ao lado do destempero das pascoelas e das urzes floridas (e das rosas), nas hortas, as pencas eram um louvar a Deus de tamanho, doçura e macieza.

Pérolas de orvalho sobre as pencas
Espigos de penca




sábado, 17 de dezembro de 2016

DESEJO DE NATAL

– Acorda, que o Menino Jesus já veio. Anda, levanta-te para veres o que deixou para ti!
Para trás ficara a ceia – de bacalhau com pencas e rabas, tudo muito bem regado com fios de azeite, encostado ao lume para descoalhar. Depois, filhós e rabanadas a brilhar…
A geada debruara o vidro da janela da cozinha e o gato Bernardo, que já entrara pela gateira, aninhava-se ao meu colo. Chegara a vez de olhar os ovos que a galinha chocava, aninhada no cesto debaixo do escano: encostados à luz da candeia deixavam perceber o crescimento do embrião e a senhora, mãe, ia-nos explicando tudo. Faltava pouco para os pintainhos nascerem e a senhora deixaria que cada uma de nós escolhesse um para ser o “seu”, para assumirmos com ele a responsabilidade de colhermos as urtigas, amassarmos os farelos e dar-lhe de comer enquanto ele não fosse capaz.
Nessa noite não haveria velada, pois cada família estava em sua casa. Rezado o terço, lembrava-nos que puséssemos os sapatinhos encostados ao lume e mandava-nos dormir.
E era com uma voz sussurrada, como se não quisesse assustar o Menino Jesus, que a senhora nos despertava em chegando a meia-noite:
– Acorda, que o Menino Jesus já veio. Anda, levanta-te para veres o que deixou para ti!
E nós levantávamo-nos, excitadas com a expectativa da surpresa. Eu dava-lhe a mão – não sabia andar sem a sua mão arrochada à minha – e, depois de atravessarmos a salinha, entrávamos na cozinha que parecia mais iluminada do que o prado no Verão.
De dentro do sapatinho tirávamos um rebuçado, uma laranja, ou qualquer outra pequena coisa e ficávamos felizes. Os nossos risos enchiam a casa e era esse o presente que o Menino Jesus lhe dava a si e ao pai. O brilho do vosso olhar era o agradecimento mais terno que Ele escutava nessa noite. Também eu o via e guardava-o.

Mãe, venha despertar-me outra vez!




quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

GILBERTO


Nem sei que diga, tamanha é a tristeza. O Gilberto despediu-se hoje de nós e vai a sepultar amanhã à tarde em Rebordaínhos. Ontem tinha feito anos. 

Parece que custa mais a acreditar quando as pessoas são bem humoradas como ele, tendo sempre na ponta da língua uma graça para bem-dispor a todos. 

Recordo os inúmeros momentos, na nossa casa de Lisboa que ele frequentava por causa das muitas cirurgias a que teve de se submeter devido aos ferimentos sofridos em Moçambique;  momentos hilariantes apesar dos motivos ("Senhor Manuel, ainda tem pão de ontem?" perguntou ao padeiro. "Sim", respondeu este. "Bem feito, que o não vendeu todo!", rematou ele a conversa, recordando que, na véspera, o sr. Manuel lhe não vendera pão, alegando que o tinha reservado).

Recordo, sobretudo, e com enorme gratidão, que ele e a Dorinda  proporcionaram à minha tia Helena e aos meus pais um fim de vida em família e na sua terra. Deus lhe(s) pague.

À tia Delfina, à Dorinda, ao Hélder, ao Hugo e ao Edgar, as minhas mais sinceras condolências.
____

A fotografia é de Junho de 2005: estávamos a festejar os anos do João, o meu marido.
Faz hoje 11 anos que o Zé Mateus, meu cunhado, faleceu.
Zé e João, dois bons amigos do Gilberto a quem Deus também já levou.
Quanto a mim, parece que estava a adivinhar, quando me pus a escrever sobre a Canteira.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

CANTEIRA


O caminho terá pouco mais que 1m de largo, mas agora, com o uso escasso, limita-se à dimensão das pegadas humanas. É a canada da canteira, talvez a mais pequena das canadas que atravessam o povo, ou das que dele saem. Se fosse rua de uma cidade, diríamos que desemboca numa praça ampla (a eira dos Pereiras/Fernandes, a poente) e num largo (para onde se voltam as casas do sr. Bernardino, da sra. Delfina, o palheiro do sr. Adriano e as traseiras do sr. Carlos “Chiote”, a nascente). É sítio sempre húmido e absedo, porque encravado entre muros.
É da nascente que dá o nome à canada que me apetece falar: a fonte da canteira. Que é fonte nós sabemos – afinal, da ferida aberta naquela fraga brota uma água fresquíssima onde enchíamos os cântaros para dessedentar os animais. Mas, porquê «canteira»?
Efabulando:
Se canteira é “pedreira donde se corta pedra para construções” (Dicionário de Moraes, fins do séc. XVIII), seria toda aquela zona uma enorme pedreira onde os fundadores da nossa terra se abasteceram para construir as suas moradas? As enormes pedras, erguidas como menires à entrada da eira, poderão ter saído dali e fazem jus ao nome…
E se canteira for “pedra que se põe nos cantos ou esquinas das paredes. Lapis angularis”, conforme ensina Bluteau (início do séc. XVIII)? Atendendo à primeira parte da entrada: terão saído daquele lugar as magníficas cantarias que formam os cunhais das nossas casas?
Prefiro ater-me à segunda parte do verbete de Bluteau: Lapis angularis –  pedra angular, a pedra que encerra a construção do arco e o sustenta . A pedra extraída do lugar da nascente é grande, destinada, por certo, a um edifício que o povo visse, comummente, como merecedor de desvelo maior: a igreja, único edifício que, na nossa terra, ostenta um arco, um belíssimo e amplo arco romano todo ele feito de cantaria.
Será que, quando olhamos para a pedra angular, sobre a qual se ergue o selo heráldico do bispo de Miranda a assegurar que a nossa paróquia lhe pertence, conseguimos identificar a proveniência de tão delicada cantaria?
O arco delimita a entrada no altar-mor, o espaço mais sagrado das igrejas, aquele onde se encontra Cristo consagrado; Cristo, a pedra que os construtores rejeitaram e se tornou pedra angular. Será da canteira a pedra que, na nossa igreja, simboliza Jesus?
Da fenda aberta na rocha brotou água.
No deserto, durante o êxodo do Egipto, foi ordenado a Moisés: Ferirás a rocha e dela sairá água, e o povo beberá. (Livro do Êxodo, 17, 6)
Que Moisés terá fendido as nossas fragas para que delas brotassem as águas? Que construtor terá decidido não rejeitar a rocha e a levou para o templo daquele que é fonte de vida?

Tudo quanto deixo escrito não passará de devaneio. Mas quis partilhá-lo convosco.

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

A BELEZA DA NEVE… OU QUASE UM MILAGRE

Por: ORLANDO MARTINS


                    "Vergonha não é parecer louco por ajudar e defender os animais.
                     Vergonha é ver a sofrer e não fazer nada!"

Eram quatro horas da tarde. O vento de noroeste que soprava da serra roxeava a ponta do nariz e os lóbulos e hélices das orelhas. Como brincadeira de alguma malvadez oferecíamos a nossa solução: - Queres que te aqueça as orelhas? – E esfregávamos com as mãos os apêndices em hipotermia até as lágrimas da vítima se começarem a soltar, bem como alguns palavrões…

Quando estas condições eram acompanhadas por umas nuvens baixas e negras, Nimbostatus, segundo os eruditos, ou nuvens que trazem neve segundo os velhos e o seu saber de experiência, podíamos quase anunciar, tal qual no Boletim Meteorológico dos nossos dias, que amanhã íamos ter neve de certeza.


- Até amanhã tiu Atilano…
- Até amanhã rapaze… e vai pró lume que hoje inda neva…
- Deus o queira, e a tia Cândida já está ao borralho?
- Tá a fazer o caldo, e depois caminha, que isto está bravo, a candeia da Alzira já alumia há quase uma hora e a Eduarda já fechou portas.

Estávamos já em Dezembro e, a estas horas da tarde, já toda a gente se apressava a acomodar os animais, recolher alguma lenha do sequeiro para o lume que iria aquecer um pouco a casa e tratava-se de começar a preparar a ceia.

Daquela hora em diante já poucas almas se atreveriam a sair à rua. Comeu-se o caldo entre paredes, contaram-se lendas e façanhas de outrora enquanto com as tenazes se aconchegava a cinza às brasas e se deixava apagar o último tição. Pedia-se a bênção e, como cordeiros, lá íamos para dentro dos cobertores.

A noite passou-se no mais santo dos sonhos, e a brisa fresca da manhã que invadiu a casa, pela abertura da porta da rua pelo meu pai que ia buscar mais lenha para acender a lareira, fez-nos acordar para um novo dia.

Estava tudo tão calmo… tão silencioso… tão esquisito, que fui espreitar à pedra da escaleira.
Estava tudo branquinho, um manto espesso de neve cobria a aldeia deserta, os montes ao longe não se distinguiam da paisagem, parecia que estávamos num limbo de pureza e paz…

- Nevou pai,… nevou…, acha que vai durar muito a derreter?
- Pela maneira como isto está ainda vai piorar, agasalha-te e vai lá p´ra dentro…
- Agora vou dar de comer às bacas, galinhas e coelhos e a tua mãe faz-vos já    qualquer coisa para comer. Raios partam este fumo, mas isto quando começar a arder já passa. 
Passados alguns minutos oiço o meu pai aos gritos a chamar pela minha mãe.

- Oh Maria, … Oh Maria…
- Raios partam o homem, o que é que queres?
- Tu ontem encerraste bem as galinhas e a pata com os dez parrecos pequenos?
- Ou penso que sim, num estão no galinheiro?
- Nem no galinheiro nem em parte alguma, se não foi uma raposa, estão todos mortos debaixo nevão. Não se aguentavam a noite inteira com tanto frio.

Após inúmeras e infrutíferas buscas, enquanto subíamos os degraus gelados da escaleira para entrar em casa, vislumbrámos um movimento debaixo de uma giesta coberta de neve no sequeiro encostado à escaleira.
- Tchiu… tenho cá uma fé que eles vieram para aqui. – Disse o meu pai.


Retirando cuidadosamente a neve e afastando alguns guiços em volta, apareceu a asa branca da pata que, durante a noite, tinha coberto e aconchegado, quase por completo, aqueles peluches amarelos que a tinham seguido como filhos obedientes sentindo que, debaixo dos braços e do coração dos progenitores, se sentiam salvos e seguros.

Infelizmente, estavam todos inanimados e as arestas de gelo, que se haviam formado, fechavam-lhe os olhos e os bicos, e a fofura da sua penugem amarela tinha-se tornado numa espécie de trapo de desperdícios.

- Oh Maria, vai lá cima arranja um cobertor, atiça o lume e espalha um pouco de brasas… depressa, vai lá mulher…

Não sei se verti alguma lágrima, mas uma coisa vos garanto, o meu coração chorava, e quando vi o meu pai tirar o casaco, apanhar aqueles corpos inanimados, cabeças descaídas e uma infância tão inocente desperdiçada, aconchegá-los ao peito e correr escaleira acima em direcção ao lume, uma réstia de esperança invadiu-me por completo.
                                               
Deitou os infelizes patinhos no cobertor junto à lareira, eu puxei uma tripeça e fitava os pobres animais inanimados, pensando se haveria na realidade milagres.

- Temos que esperar… e rezar… temos que esperar… - Dizia o meu pai.

O tempo andava lentamente, os segundos tornavam-se minutos e os minutos tornavam-se horas.
Para minha surpresa, um dos petizes moribundos, ao fim de algum tempo, abriu lentamente os olhos, as suas pernitas começaram a mexer…

- Pai… Pai… este ainda está vivo…
- Vamos esperar mais um bocado… temos que ter fé…

Lentamente um, depois outro e outro foram renascendo e uma felicidade enorme invadiu aquela casa. Apenas dois tiveram sorte diferente.

Se não foi um milagre, foi amor…
E o amor não é um milagre?


sábado, 26 de novembro de 2016

TIA ISAURA

Tia Isaura
Porque Deus assim quis, hoje partiu para a eternidade. Que descanse em Paz.
Porque essa era a sua vontade vamos recordar para sempre a sua alegria.
Disse à filha que não queria lágrimas...
"Não chores por quem já está junto a Deus! Pense nos momentos felizes que passaram juntos e a Deus por deixar esta pessoa brilhar em sua vida."
Os meu pêsames a toda a família. Muita força, muita coragem, e perante a ineficácia de qualquer consolo na perda, relembrem quem foi a pessoa que partiu e na saudade, memória e amor dos que ficaram, ela viverá para sempre.

Paz à sua alma!
  O funeral é dia   28 segunda-feira às 10:00 horas na igreja de Rebordainhos.

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

LELE

Para nós, como para todo o povo, ele era o Lele, aquele "bom-serás" em paz com a vida e com o mundo. O sorriso da fotografia era o sorriso de todos os dias, rasgado em oferecimento a toda e qualquer pessoa. O Lele era esse sorriso onde cabia todo o afecto que distribuía sem cerimónias nem distinções, como bênção de Deus aos Homens. Nosso Senhor há-de agradecer-lhe e recompensá-lo pela bondade que repartiu. 

O Lele, meu primo, faleceu e foi hoje a sepultar. Deus sabe o quão difícil me é escrever esta notícia.

Para a Berta e para a Lurdes, o meu beijo e a minha pena.

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

CONTADOR DE VISITAS

O contador antigo deixou de funcionar, em consequência, perdemos os dados que ele contabilizava e que datavam do início do blog. Os números que lá estão agora são os que o blogger forneceu, mas essa estatística só começou a ser feita a partir de Maio de 2010, embora esta nossa casa conte as visitas desde Abril de 2008  (aberto portas em Fevereiro desse ano).

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

O PASTOR VALENTE

Por: ORLANDO MARTINS

Eu soprava…, soprava… e nada, enrugava os beiços, metia os dedos na boca, pressionava a língua, fazia caretas,… mas o raio do assobio não saía. Por muitas lições que me dessem e por longos e repetidos ensaios que fizesse o meu assobio não era mais que um guinchozito incapaz de assustar o mais assanhado dos gatos.
Já quase todos os garotos da minha idade o faziam sem grandes dificuldades. O Amâncio, que era mais ou menos da minha idade, já assobiava há muito tempo, aprendera com o irmão mais velho, o Valente, que era pastor.

Esse sim, até vibratos fazia o que me deixava estupefacto e me motivava na minha aprendizagem que, diga-se em abono da verdade, poucos resultados obteve.

A vida do Valente não lhe permitia passar muito tempo com os amigos, guardava um rebanho de ovelhas e durante o dia raramente se via na aldeia, vivia uma vida de eremita tal como o seu colega Alfredo o “Aidinhas”, percorria o termo da aldeia rasteando os melhores pastos e quando alguma ovelha se tresmalhava logo a chamava pelo nome, ou recorria ao assobio próprio para que os seus cães a chamassem à razão de se manter na união do grupo.
 Mas, já noite, quando as ovelhas estavam recolhidas na curriça ou entre cancelas, com os seus dois fiéis cães pastores de guarda, e após uma bucha pelo caminho, lá ia ele até à taberna para desfrutar de um curto, e quase único, convívio com o resto da rapaziada.

Era um rapaz de poucas palavras, de estatura baixa e olhar arguto, muito enérgico e determinado e o seu gabarito de afouto seguia-o como uma sombra.

Foi numa dessas noites, na taberna do Álvaro, que enquanto “Patinge” e o tio Aniceto jogavam o chino, mostrando todas as suas perícias em atirar a moeda, e na única mesa de canto os parceiros de costume, o Adriano “Torto”, o “Frade”, o Juíz e o tio Arnaldo se debatiam numa jogatana de sueca interrompida no final de cada jogo por táticas e discussões de jogadas, onde alguns insultos e reprimendas ao parceiro se destacavam por este não ter destrunfado ou metido a bisca.
A noite lá fora estava escura como breu e o vento de norte assobiava com uivos sobrenaturais e fugidios como se fossem gritos longínquos de desespero. A ténue luz do gasómetro mal dava para iluminar as figuras das cartas espanholas da sueca e o vinho, servido a copo, só se distinguia se era tinto ou branco pelo sabor.

O assunto da conversa da rapaziada mais jovem centrou-se no cemitério,… nas campas,… nas cruzes e lápides,… nos defuntos que lá repousavam. O ambiente tornou-se sinistro e todos confessaram recear passar durante a noite em frente à “mansão celeste” onde baixavam os olhos para o caminho ou trauteavam uma moda que os ajudasse a estugar o passo.

O portão desta morada final estava ladeado por dois pequenos ciprestes que, com o vento e a luz difusa da lua, projectava sombras em movimento nos muros que se iam transformando, na imaginação de cada um, em imagens e recalcamentos de contos e lendas aprendidas nas longas noites de inverno.

Arrepios,… pele de galinha,… cabelos da nuca em pé,… olhos esbugalhados,… boca aberta,… um zumbido claustrofóbico,… respiração arquejante e uma aproximação física da ganapada, quase se abraçando, para sentirem um pouco mais de protecção contra qualquer alma que naquele dia andasse a vaguear procurando descendentes ou assuntos por resolver que deixara na sua vida.

A vontade que se agigantava de meter pés ao prado, fugir para casa e sentar-me ao lume junto à luz da candeia a petróleo para que esta lavasse os meus medos  era enorme, mas o tremer de pernas e alguma curiosidade mantinham-me no grupo.
Plim… Plash….  Zum… zummm… tlaque… e a moeda de dois vinténs parava.

- Três pontos, pinchei o chino. – Dizia o “Patinge”, deitando a língua fora e olhando para uma suposta assistência.

- Tá bem, mas se a minha ficar mais perto do chino tiro-te um ponto, num comeces já a festa. – Retorquia o Aniceto que também era um bom jogador, e cada partida era a um copo de vinho que o Álvaro ia controlando com uma espécie de numeração egípcia num resto amarelado de uma folha de papel almaço.





Aproveitando esta abertura na conversa densa da rapaziada, o Tonho e o Pintassilgo, atiçados pelo Tarcísio, desafiaram a ousadia do Valente.

- Oh Valente se fores ao cemitério sozinho, deixares uma marca em cima de uma campa e ficares lá pelo menos uma hora, damos-te duas coroas.

O Valente, afoito e habituado à noite respondeu logo: - Caracho, dais-me já uma e outra quando eu voltar, mas “esperaides” aqui por mim. 
Tal como o prometera assim o cumpriu e, no dia seguinte, todo o pessoal, mais livre e descontraído com a claridade da luz do sol, desabafava:

- Fosca-se, não é que o gajo foi mesmo lá, vi lá um ramo de giesta deixado por ele numa campa, e deve ter saltado o muro pela parte da cabecinha que é mais baixo.

O Valente, que não o era só de nome, tinha provado toda a sua bravura.

Muitos anos depois, já eu em terras de mouros, um título dum jornal nortenho captou toda a minha curiosidade e senti uns calafrios percorrerem-me o corpo todo.

                    “PASTOR TRANSMONTANO MATA LOBO COM AS PRÓPRIAS MÃOS” 
Comprei o pasquim, li a notícia até ao fim e, para meu espanto, tinha sido o Valente a perpetuar a sua fama.

Alguns anos mais tarde, no meu último encontro com ele, perguntei-lhe como tudo tinha acontecido, ao qual ele me respondeu:

- Sabes, … os cães é que o apanharam e me ajudaram, eu apenas o sufoquei com um braço na garganta e a outra mão metida pela garganta dele o mais que pude…

Mais uma lição de valentia e humildade que aquele amigo me deixou e agora recordo com alguma nostalgia.

Obrigado Valente e felicidades na tua vida.

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

PARA CONFIRMAR

A fotografia que ilustra o artigo abaixo - e que foi gentilmente enviada pelo Carlitos -  já esteve em discussão no blog. Houve identificações que se não puderam fazer. Espero que seja esta a oportunidade para esclarecer. O artigo pode ser visto "clicando" aqui.

sábado, 5 de novembro de 2016

CRÓNICA DESPORTIVA – O ANTIJOGO

Por: ORLANDO MARTINS

Após o jogo Sporting – Tondela, o treinador Jorge Jesus fez as declarações que passo a citar: 

“Não me quero agarrar muito ao antijogo jogo do Tondela. É um direito que lhe assiste. Em termos tátitos esteve bem, tirou 13 minutos ao jogo e o árbitro só deu seis e quando deu seis, dois deles lesionaram-se e tiraram à volta de dois minutos a esse tempo, e o árbitro não contabilizou isso. …” (Vejam só que dois minutos lesionaram-se, coitados dos minutos…). 

Conclusão: na realidade o árbitro apenas deu 4 (quatro minutos), seis do árbitro aos quais o Tondela tirou mais dois. 

O sol, vagaroso e escaldante, já tinha percorrido mais que três quartos da sua meia volta diária. Iam-se buscar as bacas ao lameiro, rachava-se alguma lenha e apanhavam-se uns guiços para o lume, enchiam-se os cântaros de água fresquinha na fonte grande, punha-se comida às galinhas e coelhos e toda a gente se preparava para o regresso a casa. 

A vida era dura e, depois de um dia a cavar batatas, ainda assim, para nós os putos da aldeia, era o momento esperado para o nosso momento desportivo. 

Das escadas da vizinha tia Alzira já o Tito me gritava: - Ó Relando, já não tens que ir regar batatas, or’ não? 

 Ele era assim, depois de um carólo de pão com presunto, mais gordo que magro, um bocado de chicha, que o presunto era para dias festivos, que estava no cimo da escaleira a estugar-me para o nosso jogo de bola. 

- Não, e hoje já não bou buscar o feixe de milho, porquê? – Respondia-lhe eu com a visão periférica colada à reacção da minha mãe, não estivesse ela já a adivinhar o jogo de bola na eira. 

- Sabes, o “Escacha” arranjou uma bola. 
- De borracha ou de plástico? – Perguntava-lhe. 
- Nã… Nã … de couro, já a incheu com a bomba da bicicleta do Zé Latoeiro, e botou-lhe um bocado de sola no pipo. Tem um gomo descosido mas está quase nova. Jogas? 
- O Xaninha tamém bai? 
 - Bai lá ter,… está a acabar de comer. 
- Atão já lá bou… 

O Chedre, que em termos desportivos dominava os infantis, dava a tática e ia desenhando a equipa. 

- O Amâncio fica à baliza… 
- Eh!... À baliza sou ou. – Atalhava o “Marreta” vendo o seu lugar costumeiro em perigo. 
- Hoje jogas à frente que eles bão pôr o “Calhilha” na baliza, e tu bais à minha frente para le dares uma biqueirada… 

O “Xaninha”, que estava concentrado na tática, remata: - Bô,… assim bem perdemos, eles são todos grandes,… já biste o Henrique, o Tonho, o Pintassilgo e se calhar ainda o “Triciclas”, e nós? Ficamos co Manel Braz, co Marinho da Celeste co Toninho da Margarida,… bem … bamos lebar poucas bamos…
- Cala-te, nós podemos escolher dois grandes para a nossa equipa ou então metemos mais um jogador que eles. 
- Quero ber. – Concluía o Xana. 

O “Triciclas”, com o subiote na mão, definia as equipas. – Damos-vos o “Pacheco” e o Carlitos e bós dais o “Rauta”… 
- Fosca-se…dás-me tamém o “Carriço”. – Negociava o “Chedre”. 
- Tá bem, lembra-te que já tens o “Chico” da “Tonheta”, mas na segunda parte bolta para a nossa equipa. – Concluía o Triciclas. 

Com as equipas formadas era urgente começar o jogo antes que o sol encobrisse a bola e as balizas com o seu manto negro, que, até ao lusco-fusco, era jogo garantido. 

- Atão é assim pessoal,.. Ei… Ei… Ó “Lhé”? Estás a ouvir? Atenção a todos, … muda-se de campo aos cinco e o jogo acaba aos dez, portanto o primeiro a marcar dez golos ganha, entendido malta? – Finalizava o “Triciclas”. 

 Já ninguém o ouvia,… a bola, desgraçada, pinchava de pé em pé até que um chuto mais certeiro a fazia passar entre o medeiro e o marco de pedra que definiam a baliza dos grandes… Era o 1-0 para os piquenos… E assim, golo a golo, canelada a canelada e vários gritos vernáculos pelo meio lá ia o resultado engordando até… 

 Até que chegava aos dez. Ninguém discutia, acabava o jogo, e muito mais aliviados e algumas abuchicadelas na poça da fonte do Espinheiro, íamos cear, que o caldo verde já devia estar na mesa. 

QUER A FIFA MELHOR FAIRPLAY QUE ESTE?