domingo, 5 de outubro de 2008

Ecos do Meu Sentir


II - A PRIMEIRA MATRIARCA?....

por

FILINTO MARTINS


A vida não se aprende nos livros… aprende-se no Blogue de Rebordainhos…Não dizem a idade, mas para serem as primeiras a utilizar a ambulância tudo se descobre… Se naquele tempo houvesse televisão… Sempre terá sido a Fátima a servir-se de uma “ambulância” para poder nascer na cidade e não em casa. A Maria Augusta não foi de ambulância, veio de ambulância, a “burra grande” da tia Ana Costa. Era um luxo.

Pelos vistos só esquecemos aquilo que queremos e como tal, nem adiantava dizerem-nos que tinha vindo no bico da cegonha, porque não havia cegonhas na nossa terra.

"Amar e trabalhar são as duas chaves para tudo o que dá vida e significado" – Freud.

Alta, magra, sulcos vincados no rosto tisnado pela lareira, vestida de negro dos pés à cabeça…

Envelhecer é uma arte. Ao contrário dos animais, a espécie humana vive muito para além da reprodução e continua a desenvolver-se durante a sua existência. Será apenas um factor de risco e não uma doença.

Foram estas algumas das razões que me levaram a comungar ideias nunca pensadas há décadas atrás, porém a minha manhã dos 59 anos será igual à dos 60, que se aproxima.

É esta a imagem que tenho da tia Felecíssima, a quem eu, quando pequenote fazia alguns recados e em troca recebia uns amendoins ou rebuçados e não só…

Quando nasceu a sua Augusta, eu ia a sua casa com alguma frequência e aí era um moço de alguns recados:
-“Traze-me uns guiços”… quero que o lume arda melhor.

A Augusta chorava e logo ela pegava num pano em que deitava açúcar e com uma linha fazia uma chupeta. Remédio sagrado… chupava para regalo da avó que logo exclamava: “isso, minha Augusta”. Espero bem que ela não tenha diabetes, se os tiver fica a saber que foi por amor.

Ainda pequenote, sem escola para frequentar e pouco amigo de andar com as vacas nos lameiros… lá ia outra vez … lá vinha outro recado:
- “Olha, toma lá este dinheiro e vai à taberna comprar-me pregos.”

A distância era pequena e lá ia eu todo contente:
- "Senhor Ernesto, queria este dinheiro de pregos, para a tia Felecíssima."

Nunca tinha visto pregos assim. Trouxe a encomenda que entreguei com um olhar de surpresa. Afinal eram cigarros. Com muito cuidado e prática, a tia Felecíssima passou, suavemente, a língua no papel que embrulhava o dito prego, pegou num tição do lume e acendeu-o. Dadas umas passas continuou as suas tarefas domésticas, sem tirar olho da sua menina.

Nunca tinha visto uma mulher fumar! Isso era coisa de homens e já maduros. Terá sido ela a primeira Matriarca de Rebordainhos, do século passado? Nunca ouvi uma crítica ao seu hábito… Ah! Grande mulher! De trás da serra…

Ora, sempre que eu andava por lá, o recado era o mesmo: “vai-me buscar pregos”.

Na altura eu até nem me importaria, porque não havia televisão, playstation, internet, blogues… mas havia o Mendonça, figura que metia medo a mulheres e crianças. Só ele sabia arranjar foles e albardas para burros, porém quando estava com areia na asa… aquele narigão avermelhado, alto, andar lento, olhar fulminante e os seus apetrechos de trabalho eram suficientes para ter logo medo, porque os mais velhos nos diziam “vem aí o Mendonça que te capa”.

Com medo de encontrar o Mendonça e ficar sem o meu instrumento que muito prezo, certo dia lembrei-me de pregar uma partida à tia Felecíssima…

Como era seu hábito não acabar o cigarro pelos afazeres e cuidar da neta, deixava a prisca no banco ou no fogão, que depois acabava… até nisso ela era poupada. Puxando pela minha imaginação, retirei algum tabaco e meti-lhe cinza. Ah! Vício desgraçado e distracção a minha… acendeu a prisca e logo a cinza lhe foi para a boca, que não a impediu dum grito: “filho da puta, foste tu!” (A Augusta não ouviu).

Suponho que desci os degraus dois a dois e nem o Mendonça me agarrava…

O tempo cura tudo. E como diz o provérbio:”Todo o mundo quer conhecer o paraíso, mas ninguém quer morrer”, também eu continuei a ir para junto da tia Felecíssima, pois nem eu sabia que era a sogra do meu irmão, nem ela dizia que ele era seu genro… lembro-me bem que, com muito carinho, ouvia-a: “vou aquecer estas meias para o senhor António, que está a chegar”.

Nem todos podem ser ilustres, mas todos podem ser bons.

7 comentários:

Fátima disse...

Caro Filinto

As bibliotecas que são os velhos precisam de quem lhes saiba ler os livros, que é como quem diz, que os guarde carinhosamente na memória e os mantenha vivos. Assim fez o Filinto com esta personagem enorme da minha infância. A tia Fecisma, não o sendo, foi a única avó que tive. É com enorme saudade que recordo os serões passados com ela e com os netos e, ainda hoje, parece que a vejo sentada no último degrau da casa de meus pais, a cantar a sua cantiga preferida. Essa cantiga, agora cantada pela filha, vou publicá-la daqui a alguns dias.

Obrigada por este bocadinho tão terno e vívido.

Augusta disse...

Filinto:
Como disse a minha mana, a tia "Fecisma" faz parte do nosso imaginário. Eu, dois meses mais nova que a sua Maria Augusta, também eu Maria Augusta que, para nos distinguirem, eu era apenas Augusta, enquanto que à sua neta chamavam mais de Maria Augusta, cresci junto dela, vivi a maioria da minha infância na sua casa, e até caí do alçapão... Fizemos traquinices, brincámos... Muitas vezes prendeu a sua neta com uma linha à perna da mesa para evitar que fosse para o prado brincar com os demais, e também eu fui muitas vezes à taberna comprar "pregos" para a tia "Fecisma".
É bom recordar as pessoas que nos dizem muito e, por isso, grata por avivares as nossas memórias
Augusta

céu disse...

Filinto

A primeira Matriarca! Bela definição para uma pessoa daquela época.
Creio que quase todos os garotos da aldeia tiveram a mesma experiência que tu.
O meu irmão Evangelista contou-me, muito divertido a mesma passagem dizendo: "Sabes como se chamam os cigarros da tia Fecisma?
São pregos!"
Mas olha, continua a dar-nos estes momentos deliciosos, trazendo sempre à nossa memória as lembranças que por vezes já estão esquecidas.

António disse...

Olá, primo:
Como uma terra tão pequena está cheia de grandes personalidades!

Também eu me lembro de ter vendido alguns "pregos" para a tia Fecisma quando o meu pai tomou de trespasse a taberna do sr. Ernesto (este era senhor, não era tio porque era o senhor mais dinheiroso de Rebordainhos... e também ele merecia uma historieta neste blog). Foi o seu exemplo de matriarca fumadora que me levou à primeira chupadela nos Kentucky que custavam oito tostões o maço. Para os mais novos do reino do euro e da abundância: com 1 cêntimo comprar-se-iam, ao preço de então, dois maços e meio. Detestei a experiência e perguntava-me o que é que a tia Fecisma (ainda hoje não sei se seria mesmo Felicíssima, mas Fecisma fica-lhe melhor) poria nos pregos dela para lhe saberem tão bem...

Olímpia disse...

Filinto:
A tia Fecisma, não só me é uma figura familiar, como também me era muito querida.
Para além de vizinha, era tia do meu pai e, sempre ajudou a ilustrar os nossos serões e o nosso quotidiano.
E, para não fugir à regra, também eu sou conhecedora de histórias acerca dos seus "pregos".Não só lhos comprava como também a ouvia muitas vezes perguntar ao meu pai: " Ó João, tens um prego?"
De facto, os nossos idosos são uma fonte inesgotável de saber.E, por cada cabelo branco ( a tia Fecisma não tinha muitos),por cada ruga, eles têm sempre uma história fantástica para contar.
Obrigada por nos presenteares com este belo texto.
Olímpia

J. Stocker disse...

Caro
Filinto Martins

Com a ajuda de todos vós, lá vou enriquecendo o meu conhecimento sobre a vossa aldeia, quem diria que apesar de tão pequena teria tanto para nos contar.

Um abraço

J. Stocker disse...

Caro
Filinto Martins

No primeiro texto que publicou, deixámos passar o facto de não ter vindo a terreiro agradecer os justos e merecidos comentários que a sua prosa suscitou, agora que já sabemos que foi informado da etiqueta, que deverá ser cumprida, cá o esperamos, sugerindo a forma expedita usada pelo seu primo António , agradeçe a todos de uma vez!

Um abraço e perdoem a brincadeira