quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Ares da Serra




V - O TIO RASCA DOS PEREIROS

por
António Augusto Fernandes

Tarde canicular de fins de Agosto. O sol descambava já por detrás da Serra de Bousende e lá vinha ele, mais uma vez, aos bordões, arrastando os socos de amieiro ferrados de brocha larga pela poeira, a caminho dos Pereiros por um carreirão mais torto que linha num bolso, como por lá se dizia. Estacava a espaços, oscilando mal sustido pelas pernas escanchadas, a discutir muito gesticuladamente consigo próprio.

Andava nisto há anos. Chegava depois de almoço à taverna do ti António Trocho, cumprimentava os circunstantes e abancava junto a uma das mesitas do chincalhão arroxeada do vinho de muitas litradas servidas na jogatana, sempre muito compostinho no seu colete de bolsinho tabaqueiro sobre a camisa branca abotoada até à maçã de Adão, muito saliente no pescoço esgalgado de grou. Depois de dois dedos de prosa com os circunstantes, pedia o meio quartilho do intróito que ia bebericando muito pausadamente, muito compenetradamente, com estalidos da língua de bom apreciador. Uma liturgia!

Lá pelo meio da tarde, depois de virados alguns copos, sacava do bolso da jaqueta um carolo de centeio negro, um naco de queijo cabreiro e a navalha peliqueira. Com método, lascava alternadamente cibitos de pão e de queijo que depois ia moendo com os vagares de quem tem todo o tempo do mundo e os dentes ralos. Sem muitas conversas com quem entrava a enxugar de uma assentada o copo de carrascão para limpar a garganta da poeira dos caminhos ou a mercar o macinho de Kentucky a oito tostões, ia respondendo à salvação de uns e outros com uma tranquilidade de senhor que em sua câmara recebe preito dos seus servos. Todos os dias de todos os anos ia repetindo estes gestos sacramentais, de tal modo que, lá para o fim, já nem precisava de vinho para se entornar:

- Basta dar-lhe uma pouca de água e indoujá-lo para derreter o sarro que traz na barriga, que dá o mesmo resultado – garantia o Pilatos, um outro piteireiro com crónica, mas mais rafeiro, ainda sem o estilo nem o estatuto do tio Rasca.

Era uma instituição este tio Rasca, João na pia baptismal. Alto, muito direito nos seus oitenta anos, enxuto de carnes, de bigodinho rectangular como era usança de quantos haviam feito a campanha da primeira Grande Guerra, com uns olhitos pequenos e piscos, de feição mais perscrutadora ainda quando derrubava a cabeça à banda, como as catatuas, para fitar o interlocutor num esforço de compreensão. Com frases sábias e curtas, mas sobretudo com grandes silêncios, ia discorrendo sobre o tempo, os seus tempos, as fainas da lavoura, enquanto os copos sucessivos lhe não toldavam o entendimento e entaramelavam a língua. Nessa altura calava-se e dormitava um pouco, apoiado ao porretinho que não o abandonava.

Pela tardinha, cumprido com exactidão o ritual de fazer a medida para a jornada, já muito piongonheiro, erguia-se um pouco cambaleante, despedia-se com o até amanhã sacramental e lançava os socos à árdua empresa do regresso: mais de dois quilómetros por caminhos de cabras! Muitas vezes, nos troços mais íngremes, o equilíbrio precário e uns vislumbres de prudência aconselhavam-no a arrastar os fundilhos das calças pelo areão do carreiro. Um dia por outro, as pernas recusavam-se à penitência e, em alturas de calmaria, pernoitava ao toro de uma giesta negral, acaçapado como uma lebre. Nas tardes curtas de invernia, quando escurecia inopinadamente ou o nevão adregava de apagar os pontos de referência na paisagem, perdia-se, tardava em arribar e os familiares, temerosos de o largarem assim na intempérie, acudiam num grande alarde de lampiões e injúrias ao impenitente peregrino. Tempo e cuspo mal gastos! No dia seguinte, de novo se atirava à via-sacra com a obstinação de romeiro que demanda Santiago de Compostela para encher a cabacinha e remir os seus pecados.

***

Como se iniciara aquele ritual da peregrinação quotidiana e inevitável dos Pereiros até à tasca de Rebordainhos era matéria de discussão entre os vários exegetas: saturação da vida insonsa dos Pereiros, opinava a corrente existencialista; mero gosto pela pinga, discordavam os de filosofia mais rasteira; desentendimento com os conterrâneos, entendia a mor parte, com uns lumes de sociologia. Esta última opinião era de facto a mais consensual, que o caso não era para menos: os Pereiros eram, nesses tempos, uma poveca com meia dúzia de casas de granito negro ajoujadas em torno de uma capelita pouco maior que uma curriça caiada de branco. Perdida lá nos fundões da serra, em deslado da ribeira a que emprestava o nome, o sol amanhecia-lhe tarde e despedia-se cedo e, talvez por este défice de luz, aquilo era uma gente azeda, perpetuamente roída de invejas vá-se lá saber de quê, pois que todos eram suficientemente pobres para morrerem de fome se não se matassem a trabalhar. Sinal de abastança já era a posse de um burrico ou de uma junta de vacas, excepção feita ao senhor Imbertinho alfaiate, proprietário de nobre cavalicoque que lhe dava direito a senhoria e a topar com dois dedos o chapelito de aba curta quando cumprimentava o gentio de cima da montada.

E tão quezilentos eram de feitio que se tinham afeito ao vezo de consumir nos tribunais da comarca algum tostão sobejo das colheitas e escapo à dízima e ao pagamento das avenças pela Senhora da Serra. Mais prazenteiramente entregavam os magros cobres na justiça do que na liquidação do rol dos fiados na venda, mesmo que isso viesse resultar num ainda mais magro passadio de caldo e batatas na roda do ano. Quase toda a gente, ou no papel de queixoso ou no de arguido, andava enredada em querelas mesquinhas, para grande gáudio dos advogados que sabiamente iam gerindo a mamata. Ora aí estava motivo cabonde para que o tio Rasca renegasse de conterrâneos tão arrevezados e somíticos que nem tasca tinham onde um cristão pudesse condignamente matar a sede e purgar o desgosto de pertencer a tal raça.

De vila era crismada pelos de lá de baixo a cabeça de freguesia, porque tinha um pelourinho, cambado, é certo, mas sinal inequívoco de foral velho e de prerrogativas antigas. Ademais rezava a crónica oral colectiva que tivera cadeia nos tempos remotos dos afonsinos. De resto, pobre aldeia montesinha, Rebordainhos lá ia vivendo, num aperto muito franciscano, do que lhe davam os soutos, do centeio arduamente esgaravatado nas lombas escalvadas da serra de Nogueira e da batata criada nos terrenos mais lentos das pregas da serra. Se não pelo estatuto, ao menos pelos seus ares levados, pela superioridade orográfica e pelo feitio cordato dos seus habitantes, sempre a vila olhara com alguma sobranceria para os Pereiros, sepultados lá nos cafundós da serra. Quando adregava de à conversa virem os dos Pereiros, era hábito canónico alguém perguntar, quase como quem recita uma jaculatória, quando é que Deus se lembraria de dar um piparote no coruto da serra e enterrar de vez tão ruim casta.

Mas, como se vê, de tal casta não era o Tio João Rasca. Pelo contrário. Era um tipo franco e teso que fizera crónica na sua mocidade. O mais badalado dos seus fastos passara-se nos tempos do volfrâmio, quando um calhau do tamanho de uma batata, desenterrado pela biqueira descuidosa do tamanco, poderia representar para o pecúlio familiar mais que meio ano agarrado à rabiça do arado ou a esgaravatar fragas com as ganchas.

O frémito volframista fez estremecer a serra como uma febre de maleitas, e o tio João, embora já não fosse propriamente um rapaz, não escapou incólume a essa fome da riqueza súbita. Lá matutou o plano que se lhe mostrava infalível e tratou de aliciar o genro para a marosca. O Bateitas, mais timorato, ainda resistiu, mas o Rasca tanto lhe moeu o juízo, porque torna, porque deixa, que acabou por embarcar na aventura, e toca de se meterem a butes até às minas de Veigas que, cortando a direito, eram já ali, a seguir à curva grande da ribeira. Mas, ou porque a mofina os perseguisse, ou porque a azáfama dos preparativos tivesse dado muito nas vistas, (que aqueles dos Pereiros, rais os partira! gente mais espiolheira e intriguista não cobre a rosa do sol!), mal se preparavam para ensacar os primeiros calhaus, saltam de lá os guardas e, por mais que desembelinhassem as gâmbias na retirada, não se livraram de umas estadulhadas bem assentes nos lombos. Desanimados e desancados, os argonautas regressaram a penates pela calada da noite sem o velo de ouro e, sobretudo, sem tugir nem mugir. A poveca, que era pequena e de língua desembestada no que a costumes diz respeito, toscou a odisseia. E, bem depressa, algum Homero se deu a glosar o feito glorioso em métrica sofrível, mas de veneno cabonde. À socapa pelas quelhas da aldeia, a plenos pulmões pelos campos, na rega das batatas ou na sega dos pães, a trova atrevida alastrava cada vez mais desaustinada, seguindo a música popular do Raspa:

O Rasca diz que sim,
O Bateitas diz que não;
Foram às minas a Veigas,
Logo deram c’o filão!
Apanharam muitas chinas,
Mas não eram das do chão!

E mais do que lhes pesariam as pedras de volfro se as tivessem pilhado, mais que as bordoadas aparadas no costado, muito mais lhes doíam os versos que se espalhavam como a pneumónica.
Mas agora, ali na tasca, quando alguém tentava ainda atazaná-lo com a cantiga, ele rematava, com uns longes de desprendimento filosófico:
Ora adeus! Cantigas!... Tomara-me eu mas é nesse tempo!

***
Como íamos dizendo, por esse entardecer abafadiço de Agosto, já os gados recolhiam aos currais e, na eira do Outeiro, esmorecia o arfar gosmento da malhadeira, lá vinha o tio Rasca cumprindo as estações da sua via-sacra até aos Pereiros, depois de ter atestado bem a medida para o caminho na tasca do tio Trocho. Cruzámo-nos à saída da aldeia, no alto da Portela. Eu, estudantinho em férias, depois de um esforçado dia a alombar sacos na malha do meu tio Zé Çuca, fora desencardir o coiro da poeira e da comichão áspera dos cuanhos ao nosso tanque de Vale-da-Frunha em que uma bica vertia a água fresca da nascentinha minguada encanada lá de riba dos castanheiros do passal. Regressava já a casa, muito alceiro de chinelos e calções e no descaramento juvenil do tronco nu, com a trouxinha da roupa suja debaixo do braço:

− Então, tio João, já de volta até aos Pereiros? – lancei à laia de saudação.
Nem me respondeu. Especado nas pernas altas de grou, bambas do vinho e muito escanchadas para não desabar, cravou em mim os olhitos piscos de piteireiro, escancarou uma boca grande de incredulidade e lançou-me com arreganho:
− Oh! carvalho!... Vossemecê está despido!?... Tape-me essas tetas, carvalho! – E forcejava por arregalar as pálpebras, pesadas do tinto, para mais convictamente sublinhar a sua escândula, reiterando:
− Tape-me essas tetas, carvalho!... − E sustinha a sua indignação procurando argumentos no entendimento zúbio do vinho. Depois, como quem arrasa um contendor com argumento definitivo, rematou:
− Olhe que eu, em sessenta anos de casado, nunca vi as tetas da minha mulher! – E, como do Velho do Restelo canta o Épico, meneava a cabeça, descontente.

Aturdido pela veemência da objurgatória, mesmo insciente da malícia intrínseca à nudez das minhas mamas de macho, e sobretudo intimidado pela grandeza da modéstia conjugal do tio Rasca, instintivamente gasalhei as ditas debaixo da toalha. Mas ele, de consciência em paz depois de aplicado o correctivo, retomava o monólogo interrompido e passava por mim, alheado já da minha pessoa e da nudez dos meus peitos. Ainda me voltei, meio esparvoado, parafusando sobre a relatividade dos códigos morais que regem o destino da humanidade em geral e de cada um em particular: borracho ele, eu impudico... e ambos tão inocentes! A sombra esguia e negra perdia-se já por detrás da sebe de escarambunheiros que bordejavam a curva do carreirão dos Pereiros a seguir à Casa da Aula. Nunca mais o vi.

O tio Rasca (que a terra lhe seja leve!) partiu há muito, com a medida bem feita de anos e de quartilhos. Mas decerto levava no seu activo, para as contas a prestar ao Criador, a lição de moral e bons costumes com que me chamara ao caminho dos justos.

26 comentários:

Fátima disse...

Tonho

Ri-me até às lágrimas!

Do tio Rasca só conhecia a cantiga, que cantava sem lhe dar significado. Agora fez-se luz. E foi preciso chegar a velha para isso!

Mais um pedaço daquela boa prosa que sabe bem ler devagarinho, como quem saboreia presunto de ano.

Beijos

Augusta disse...

Tonho:
partilhei as minhas gargalhadas com o meu marido. Estes teus textos são para ler e partilhar. De forma alguma podem ficar restritos às nossas gentes. (Não estará na hora de pensares em publicar?)
Que retrato tão fiel tu pintaste! Imagina que, ao observá-lo, também eu inclinei a cabeça, à semelhança do tio rasca. E depois, cantei a cantiga que aprendi com o meu pai.
Grata por mais uma vez avivares as nossas memórias.
Um beijo
Augusta

J. Stocker disse...

Caro António

A publicação dos seus textos é sempre aguardada com grande ansiedade por todos nós.
Subscrevo inteiramente as palavras da Augusta.

Um grande abraço e o nosso obrigado

lina warren disse...

Perdi o tino ao meu livro "Tales from the Mountain" de Miguel Torga; de maneira que agradeco a sequencia, especialmente quando chega no idioma original. Hoje, so para matar saudades e fazer honra ao Sr. Rasca e a todos os "senhores Rascas" da redondeza, vou-me a procura de pao caseiro e queijo de cabra. Quanto a uns copos de vinho, talvez nao. Ficam-me logo as pernas presas e tenho medo de cair para a valeta.

Augusta disse...

Lina:
E para acompanhar o carolo de pão e queijo de cabra, fazia-te falta uma mão cheia de azeitonas cortadas. Depois podia seguir-se mais um naco de pão e "chicha" gorda rijada (daquela que o tio João gosta), ou então, para quem seja mais enjoado, também ia bem uma boa fatia de presunto em cima do pão.Mas, se fosse uma rodela de salpicão (daquele que deita aquele molhinho vermelhinho), também não se deitava fora, pois não?
Beijos a todos
Augusta

J. Stocker disse...

Augusta e Lina

O Apetite por aqui não tem sido muito, mas estes dois comentários vossos tiveram o condão de o despertarem.

Olímpia disse...

António:
Nesta narrativa, deste-nos mais uma vez o prazer de avivarmos memórias.
Através desta sequência de histórias verídicas, descreveste duma forma que só tu sabes fazer, personagens, cenários, conflitos, cenas.
Rebordaínhos bem pode ter orgulho destes seus filhos.
Bem-hajas
Olímpia

baptista disse...

Olá, uma bela história que nos traz boas lembranças, entre as quais a de que eu nasci nos Pereiros e minha família se mudou para Rebordainhos quando eu tinha apenas cinco anos. Cinquenta e quatro anos e eu nunca havia descoberto o porquê de meu azedume e falta de simpatia...
Nunca é tarde para se aprender, então só me resta agradecer a quem elucidou esta parte meio obscura da minha vida.
obrigado de coração
um abraço
César

Fátima disse...

Baptista

O que se aprende aqui no blog! Nunca imaginei que tivesses nascido nos Pereiros. Quer, então, dizer que só os teus irmãos mais novos é que nasceram em Rebordaínhos?

Beijos

Baptista disse...

Na mosca, Fátima...
Nascemos todos nos Pereiros, exceto os três mais novos, ou seja, João, Carlos e Vaz. Mas dos Pereiros eu lembro bem pouco. Apenas cinco ou seis lembranças bem fixas na minha memória, das quais a mais forte é a da mudança para Rebordainhos, eu carregando uma candeia, talvez para iluminar o meu caminho por este mundo de Deus afora.
Beijos
César

António disse...

Ao pessoal leitor:

Não quero que vejam estas minhas patranhas como história real. Embora muitos das coisas aqui contadas tenham uma raiz factual, anda aqui muita imaginação e eu pessoalmente nada tenho contra os dos Pereiros. Mesmo quando depois da escola os corríamos à pedrada era apenas por uma questão de prática desportiva. Por isso, César, não quero que te sintas atingido: os de Rebordainhos é que tinham uma língua muito afiada.
Enfim! Coisas do antigamente, mas que dizem bem de como era aquela gente de que provimos e que de nós fez o que somos.

Anónimo disse...

lamentavel!

Fátima disse...

Anónimo

Vai-me desculpar, mas lamentável é não dar a cara, não saber apreciar uma boa escrita nem ter sentido de humor. Além de lamentável deve dar muito maus fígados! Trate-se!

Olímpia disse...

Como educadora, sempre me preocuparam aquelas crianças que, prevaricando e não sendo descobertas deixam que outras sejam culpabilizadas.Aqui, o caso é bem mais grave.Trata-se de um adulto que concerteza não entenderá o significado de liberdade e de democracia.
Todos têm direito a expressar a sua opinião mas, escondendo-se no anonimato será um acto de cobardia.
Tenha dignidade, sr.(a) anónimo(a)

Baptista disse...

Fátima
Concordo plenamente contigo e não devem ser só os fígados, mas...
Ao António quero dizer que me divirto muito com suas histórias e sempre soube que elas têm quase tanto de fantasia como de realidade. Mas é essa fantasia e o sentido de humor que nos prendem mais a atenção. Tanto que as releio três ou quatro vezes e confesso que sinto inveja (sadia), pois bem que gostaria de ter ao menos a metade desse tino literário.
Concordo com a Augusta, quando sugere que talvez esteja na hora de publicá-las
Em tempo: Eu nasci nos Pereiros, mas nem por isso deixei de apedrejar os de lá na saída das aulas. Qanto ao meu azedume, é claro que era uma piada, mas isso não impede que eu continue achando que tudo isso é porque nasci nos Pereiros...
A quem gostar e a quem não, um grande beijo se for fêmea ou um abraço se for macho...

César

Augusta disse...

Caro(a) anónimo(a)
Lamentável é não reconhecer O EXCELENTE.
Mas, felizmente na nossa terra, devem contar-se pelos dedos aqueles que partilham da sua forma de pensar (e também de agir)
Para a próxima SEJA FRONTAL. DÊ A CARA E ASSINE.

lina warren disse...

Quando o meu pai se apercebe de qualquer coisa desagradavel e negativa que alguem tenha dito acerca dele, antes de ficar com as plumas todas reviradas ele primeiramente faz uma evaluacao do caracter, reputacao e dignidade de tal pessoa. Se ele determina que os comentarios de tal pessoa se devem tomar a serio, o meu pai entao reflecte no que lhe pareceu serem faltas verdadeiras; mas se os comentarios forem feitos por um "Ze Ninguem", como ele diz, entao nao se incomoda. Traduz ele isto com o seguinto ditado: "Tomam-se os coices de acordo com a besta que os da!" (Fatima Stocker, podes juntar este a tua coleccao.)

Sophiamar disse...

Muito bem escreve o Tonho! Que me desculpe, António Augusto Fernandes. Degusta-se a sua escrita como quem o faz com um pitéu serrano do Caldeirão ou Mú. Recuei aos tempos em que o meu avô ia à venda e também ficava por lá a conversar. Um pouco que a lavoura e o gado não lhe deixavam muitos minutos livres para a chalanga com um e outro.
Os seus posts trazem-me à memória, sobretudo, Torga e Aquilino.Que escrita soberba!
Bem-haja, António.
Um abraço

J. Stocker disse...

Caríssimos comentadores do Blog

Como administrador do Blog, já muitas vezes tenho pensado na questão de moderar os comentários, ou não permitir os comentários anónimos, nunca o fiz porque tenho respeito pela opinião dos outros mesmo que a profiram como anónimos, mas também espero reciprocidade e algum respeito pelo colectivo.
Assim este comentário anónimo aqui deixado "Lamentável" para mim vale "ZERO" visto que não se percebe o que o seu autor pretende, era importante para nós sabermos da razão do seu descontentamento ou mágoa, o que será que a/o incomoda/o, a mim parece-me mais comentário de menina do que de Macho.
Eu agradeço a vossa saída pronta em defesa do Blog e de quem nele dá o seu melhor, sem se preocuparem com este tipo de comentários, dando oportunidade de o anónimo nos dar as suas sugestões ou criticas de forma a avaliar-se o lamentável e o corrigir se a ele houver lugar!

Um abraço a todos

J. Stocker disse...

Fátima

Nunca te tina visto tão "vermelha" e a Fininha a acompanhar, a Augusta já estamos habituados a que nunca deixe uma resposta por dar.
Sugiro que não liguem, é normal este tipo de acontecimentos na Blogosfera e convenhamos que os blog de Rebordainhos, poucos episódios destes tem sofrido.
Pensemos na satisfação que temos dado aos que visitam o Blog por terras do Brasil, Angola, EUA e França e para eles continuemos a dar o nosso melhor. Temos aqui bons exemplos, a Lina que está nos EUA e nem é natural de Rebordaínhos mas sim de outra Aldeia da Nogueira que é nossa visita habitual, o César que é dos Pereiros e a Sofhiamar (a querida Isabel) que lá sua serra no Sul nos vem visitar e que nos deixa sempre palavras agradáveis e de estimulo. Esses e muitos outros é que merecem a nossa preocupação e atenção

Um abraço muito especial a todos

Anónimo disse...

Rramente...
Raramente comento qualquer artigo no blog.
A principal razão é que não tenho engenho, arte ou cultura para tal tarefa.

Lembro-me do "Ti Rasca" que, aqui, é descrito com um realismo, reconhecido na minha convivência com ele (pouca), e com um "amor", dedicação e carinho dos quais o próprio autor faz questão em sublinhar... e com eles aprender.

Relativamente ao "lamentável", respeito, embora, permita-me, não concordo; tudo depende da interpretação que lhe é dada.

Quem me dera a mim ter, para memória futura, um António Augusto Fernandes para ser recordado.

Leiam o texto, que essse sim, por si, revela um carinho mais que paternal e isento de qualquer sentimento ressaivido ou de maldizer.

Cumprimentos a todos.

Que a compreensão e a amizade reine nestes e naqueles filhos da mesma terra.

Orlando Martins
(Filho do Ti António Piloto)

Fátima disse...

Lina

Muito e muito obrigada!

O teu pai é um poço sem fundo de sabedoria. Não duvides que tal aforismo, não tarda, terá lugar de destaque onde merece.

Beijos

Fátima disse...

João
Orlando

Como os tempos mudam... agora, parece que as lapadas saem de mãos femininas!

Mas fizeram bem em deitar água na fervura.

Beijos
P.S. para o Orlando: vê se te deixas de modéstias. Tens cada uma!

Augusta disse...

À Lina, grata por ser uma degustadora deste cantinho que é de todos.
Ao João, apenas digo que a fervura acabou de imediato.
Ao Orlando, faço minhas as palavras da Fátima. Os teus comentários apenas ajudam este canto da nossa terra a ser cada vez maior e mais enriquecido. E que pena não haver mais Antónios Fermandes para o ajudar nesta construção da história da nossa terra.
Ao César, a esperança de o continuar a "ver" por estas bandas.
à Sophiamar, um bem-haja por ser nossa visita assídua.
às manas, não preciso de agradecer.
Enalteço o trabalho e dedicação do João e da Fátima por quererem ver o nome de Rebordainhos chegar mais longe.
A todos os naturais de Rebordainhos um abraço e a amizade verdadeira.
Augusta Fouce

António disse...

Caro ANÓNIMO:
O seu comentário de uma brevidade que rivaliza com o famoso NINGUÉM! de Garrett no seu Frei Luís de Sousa, parece-me justo. Só que devia ser mais explícito para proveito do escriba. De facto, talvez seja:
- lamentável que o tio Rasca se embebede com aquele fervor quase místico;
- lamentável que o narrador ande de mamas ao léu;
- lamentável que os de Rebordainhos corram os dos Pereiros à lapada. Mas isso acontecia como mera manifestação desportiva. Quando não eram os dos Pereiros, eram os do Bairro de Cima contra os do Bairro de Baixo... e éramos todos ou familiares ou amigos; era o espírito belicoso da serra.
- lamentável que o escriba se dedique à escrita quando devia dedicar-se ao jogo da sueca com os amigos.
Mas... devia especificar, para os meus conterrâneos não terem que vir à liça defender-me com tão grande perda de tempo e de letras.

Filinto Martins disse...

Primo:
De Aquilino sabia que tinhas uma costela, mas esta de Torga enche-me as medidas - o meu autor preferido, ao lado de Tindade Coelho. Dois transmontanos e contigo são três. Tenho sorte, porque já tirei o meu curso Universitário, logo não terei que estudar o "miserável", mas antes deliciar-me com as suas patranhas.Vou tirar a minha máscara e dizer que também os meus textos têm algo da imaginação, mas as anamneses não escapam a esses pormenores. O Tio Rasca deve dizer lá para consigo: os gajos divertem-se comigo... ainda bem, e eu com eles... nunca ofendeu nem capou macho algum de Rebordainhos.
Aconselho o anónimo a ler "Os Contos na Montanha" de Miguel Torga e dirá: ah! grande Tonho.
Aquelas palavras do tio Rasca, quando tinha areia na asa, "vim à Vila" faziam bem às nossas almas e a ele davam-lhe anos de prazer.
Viva o Tio Rasca... paz à sua alma.