Decorriam aqueles meses estivais, Julho e Agosto, onde a colecta dos frutos semeados ao longo do ano se tornavam a única fonte dos parcos rendimentos de quase todas as famílias.
Era o caso da colheita dos cereais, o abençoado centeio, que nos trazia a branca farinha para o divino pão que enchia as parcas mesas de todas as famílias.
Esse, o pão, não podia faltar.
Pois bem, foi numa dessas colheitas, a dos cereais, mais concretamente a do centeio, que numa das muitas e cansativas malhas nos cruzámos na eira da cabecinha, junto à casa do Armindo Barbeiro.

Era a malha da Delfina, com o astuto Gilberto (Nharro) a tomar conta de todas as devidas operações para que nada faltasse ou corresse de forma irregular.
O “Santacombinha”, maquinista da malhadeira, após o almoço, lá colocou a traquitana a funcionar, porque dizia ele, para malhas pequenas não se devia esperar.
Foi assim que, aqueles que se juntaram para colectar o pouco grão da tia Delfina, se dispuseram nas muitas e árduas tarefas da recolha da palha, dos coanhos do grão, etc….

A eira da cabecinha era um pouco avessa, descia em direcção à conceituada barbearia do Armindo da Eira, seguindo-se umas térreas instalações que serviam de armazém da tia Delfina, e era para esse local improvisado de tulha (local de armazenagem dos cereais) que o grão saído lentamente da malhadeira teria que ser transportado.
Como o transporte do grão de centeio era, parecia-me, uma tarefa mais limpa, sem o nebuloso pó dos coanhos que se entranhava pela alma dentro, ofereci-me para o transporte do mesmo em sacos de ráfia ou sisal que iam dos cinquenta aos oitenta quilos.
Para reduzir viagens, dizia o Nharro, que devíamos levar sacos de oitenta quilos de centeio, parecia razoável para a idade, para a vontade e a força intima de terminar mais um dia de malhas.
E assim, força do voluntariado, lá fomos nós, mais o Guilhermino e o Evaristo, carregando, soterrados, com aquelas sacas eira abaixo e eira acima recuperando o bendito fôlego.
Aí pela terceira paragem na tulha do Nharro, não podendo mais das costas, atirei com o saco das benditas sementes para a arca feita de madeira, e com ele também o meu corpo se estirou, qual banho de mel, em cima do grão dourado a repousar como em cima de um áureo tesouro. Fechei os olhos, e a vontade de uma vida descansada deu-me ganas de não mais acordar. Voltando a mim, sorrateiramente e com o pesar de pálpebras, fui erguendo as sobrancelhas enquanto o meu corpo pedia descanso.
Meu Deus, quando os olhos baços se abriram num estremecer de acordar, vi, e isso garanto, por cima de mim, um cordame repetido de algo que me era familiar, várias carreiras de chouriços divinalmente alinhados de cores róseas a convidarem-me para uma real patuscada.

A ideia ficou, e no saco seguinte, aguardo maliciosamente que todos saíssem da tulha e com um navalha, embora pequena, deu para cortar o baraço (fio) do primeiro e anafado chouriço (salpicão).
Tomado o insano gosto, daí para a frente cada saco de centeio, cada salpicão, que religiosamente e com muita atenção ia guardando debaixo do medeiro vizinho que se situava a dois, três metros do centro das nossas operações.
Finda a malha, toca de colectar todo o espólio nos bolsos das calças e levá-lo em segredo para casa.
Havia então um problema, onde desfrutar tão apetitoso manjar.
A ideia veio de imediato. Pedir à tia Teresa se nos podia arranjar uma mesa para partilhar o lanche tão merecido.
Logo ela acordou afirmando que pão e vinho não iriam faltar.
Como bom anfitrião, lembrei-me de convidar o próprio Nharro para o festim.
Copo de vinho mais copo de vinho, lá ia eu sacando um a um os chouriços do bolso e colocando em cima daquela improvisada mesa, que naquele dia era a nossa alegria.
Após o terceiro ou quarto pitéu, vou ao bolso para repor mais um, calhando um suculento salpicão atado com um baraço de ráfia azul.

Mal o coloco em cima da mesma ouve-se um grito do Nharro, quase como vindo do fundo de catacumbas, que desabafou:
“Caralho marrafodam estes são os meus salpicões, mas este, fodei-vos não o ides comer”.
E, dito isto, agarrou no salpicão, meteu-o no bolso e saiu porta fora praguejando como um animal ferido.
Como a vingança se serve fria, na época de Natal seguinte o Nharro foi convidado para a matança do meu pai. Ele, que ainda não tinha esquecido os salpicões, no momento de “desmanchar” os porcos, ripou de uma faca e cortou um grande pedaço de lombo ao animal exclamando: “este é para pagar os salpicões que me comeram na malha seus caralhos”.
E assim nas travessuras de então terminou mais uma passagem de tempos inesquecíveis e de boa convivência.
Que regressem aos dias de hoje.