sábado, 18 de julho de 2009

ROSTOS

VIII
Voltemos, então, às fotografias:

A Ana Jarrete mandou-me estas duas que são primorosas. Discuta-se, pois, quem são as pessoas retratadas.





1 - Tia Maria do Céu (avó da tia Eduarda)

2 - Tia Eduarda Seca

3 - Tia Anna da Natividade (mãe da tia Eduarda)

4 - Sr. Álvaro Gomes










1 - Tia Eduarda Seca

2 - Tia Anna da Natividade









O Rui Freixedelo, entristecido por ver o artigo Tonho do tio Arnaldo ilustrado com as fotografias que estão nas sepulturas do Sr. P.e João e da Sr. D. Denérida, mandou-me esta de toda a família, acompanhada de bem elaborada árvore genealógica. Aqui ficam:




1 - Sr. Ernesto
2 - Sr. D. Denérida
3 - Sr. P.e João
4 - Sr.a Virgínia
5 - Sr. Manuel

(fotografia de 1958)



Além disso, o mesmo Rui enviou estoutra fotografia que é a prova provada de que Rebordaínhos teve rancho folclórico. Belas moças e gentil moçoilo! As minhas desculpas àquelas de quem só se vê o cocuruto da cabeça.




1 - Isabel (da tia Julieta)
2 - Nando (da tia Áurea)
3 - Guilhermina (da tia Amélia)
4 -
5 - Guiomar (da tia Julieta)
6 - Lurdes (da tia Áurea) ? Nita (da D. Maria Teresa)?
7 - Lena (do tio Arnaldo)
8 - Júlia (do tio Eurico)
9 - Lucinda (da tia Amélia)
10 - Augusta (da tia Teresa)



A propósito desta fotografia diz a Augusta:
Deus meu! Não me passava pela cabeça que houvesse algum registo fotográfico desta época!
Bom, então vamos lá. Digamos que não se tratava mesmo de um rancho. Foi, antes, um grupo que se organizou a pedido do tio Jaime e do sr Herculano para se comemorar o dia da casa do povo. Claro que houve rancho e, até, uma peça de teatro inventada a partir de uma anedota. Os actores eram o Mário do sr. Orlando, D. Lucinda e eu própria.
Olhem só para os meus pés! Aquilo eram ligaduras! E a trabalheira que deu arranjar os rapazes!...Tivemos de usar de artimanhas. Os ensaios faziam-se na casa do povo no Outeiro. Havia sempre dois giradiscos: um para o bailarico e outro sempre pronto com a música da dança a ensaiar, caso aparecesse algum pai (ou mãe, que era o mais certo).
Mas portámo-nos mesmo bem! Tivemos direito a notícia de jornal e tudo.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Imprensa (atrasada...)

Lembram-se daquela fotografia, mandada pela Dadinha, onde estava o Cinquenta? Muito se falou, nos comentários, sobre o acidente na curva dos Roubões e sobre qual dos irmãos "Grilos" estaria na fotografia. Agora já podemos saber, porque a Céu encontrou um artigo de há 50 anos e publicou-o no blog da ASCRR. Deixo aqui um bocadinho do texto. Para ler tudo no lugar devido, é só clicar sobre as palavras sublinhadas.

domingo, 12 de julho de 2009

CONTAS

III

Lembram-se de como nos ríamos com estes disparates?

Era uma vez um gato que não estava satisfeito com o dono. Resolveu ir correr mundo. Encontrou um cão. Chamou-o. Encontrou um burro, também o chamou. Encontrou um galo. Também. Chegaram à porta de uma estrebaria. O gato foi para o borralho, o cão para detrás da porta, o burro foi para a estrebaria e o galo para o telhado.

Vieram os ladrões. Um foi a chiscar o fósforo nos olhos do gato. O gato arranhou-o na cara. O ladrão deitou a correr e despertou o cão que o mordeu numa perna. Foi para a estrebaria, o burro zurrou e o galo começou a cantar.

Ele foi desvairado para ao pé dos companheiros, a dizer que estava lá o medo, detrás da porta, que o tinha arranhado na cara, o ferreiro que lhe tinha deitado as tenazes às pernas, o burro que lhe deu quatro coices e o galo cantou do alto do telhado, córicócó!
____

Lembro que escrevo as contas, tal e qual, como as ouvi.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

ECOS DO MEU SENTIR



VI


III – Escola… Ritual de Iniciação

por
FILINTO MARTINS




Andava com as vacas nas Bouças e o meu companheiro de desgraça era o Pilatos. Este era o meu segundo professor… e que "mestre"!
"Outro dia, viste, levei aquelas reguadas, porque não sabia fazer aquela conta de dividir… eu, também prefiro ficar com tudo, do que dividir!" – confidenciava-me o meu "mestre"…

Voltemos à escola.
Estava a chover… "frio e vento de Mogadouro, água até ao couro". À volta da braseira estavam dois colegas dos Pereiros a aquecer as mãos, depois do sinuoso percurso por eles percorrido diariamente, encharcados da cabeça aos pés. Ao meio-dia, a cantina que os esperava era um naco de pão de centeio de oito dias, com um pedaço de queijo de cabra, ou carne gorda de porco cozida, dos cevados que todos se orgulhavam de criar e engordar com castanhas, pois naqueles tempos eram eles que as comiam em grande quantidade. Hoje são outros, que tal sorte têm. "Mudam-se os tempos, mudam-se os costumes".

Naquela manhã fria, cor de chumbo, o senhor professor, sentado à braseira, enfiado no seu capote alentejano, enquanto os da segunda palreavam a tabuada em voz monocórdica, lembrava solenemente que alguns ainda não tinham entregue os 2$50 para as brasas… (ia dizendo, por dizer, pois nunca cumpria…) Aquela braseira estava perto da mesa do senhor professor, para ele poder ter os pés quentes, pensávamos nós. De quando em vez, após pedirmos licença, íamos aquecer as mãos. Sempre era melhor que o "aquecimento artificial".

Lembro-me, como se fosse hoje, que num ditado dei um erro, escrevendo "muinto". Até recebi um elogio, pois era caso raro em mim tal suceder… mas era um erro muito grave. (Hoje penso que a palavra deveria ter esta ortografia…. Nem com o acordo ortográfico!). Muito grave mesmo, de palmatória… Disse para com os meus botões: “aguenta, depois aqueces as mãos na braseira”. O pior estava para vir. A régua estava na sala das raparigas, pois naquele tempo a separação de sexos era um facto que ninguém colocava. "Vai buscar a régua à sala das raparigas". Ordem dada, missão cumprida e comprida…

Entrei na sala e não via ninguém… Tremia que nem varas verdes. Os olhares complacentes das minhas colegas, que noutras circunstâncias muito gostaria de ver, aumentavam o meu rubor nas faces, que nesta altura do ano eram sinal dum rijo transmontano. Não me vi ao espelho, nem precisava, mas devia estar mais corado que qualquer miúdo a assar o rabo do porco em dia de matança, nas brasas entre os grandes potes que faziam as delícias das cozinheiras.

Gaguejei para a senhora professora: "… era a régua…"
- Mas não é para ti, Filintão? Questionou a Dona Maria, por cima dos óculos.
- É sim – balbuciei.
- Eu sabia que tu eras muito esperto! (Hoje … acho que a Dona Maria teve pena de mim).

Só se ouviam os pardais, dado que naqueles dias a comida não abundava, através da porta entreaberta e os meus socos nas tábuas molhadas do soalho. Não olhei para ninguém, até encostei a porta sem olhar matreiro, que noutras ocasiões poderia suceder. Doeram-me menos as reguadas que o olhar condoído das minhas colegas.
Não havia melhor remédio que o tempo

Certo dia o Jorge, mais nosso conhecido por Pilatos, chamou os rapazes da quarta classe. Logo se seguiu a ordem do mestre: "Amanhã faço anos… vamos ter aqui uma cigarrada".

O mestre nunca faltava com a palavra. No dia seguinte, lá pareceu muito pontual, com um maço de Definitivos. A caixa dos cigarros tinha umas riscas azuis e outras vermelhas. Alguns de nós, perante aquele aparato já exercitavam a caixa torácica enquanto ele os retirava, com muito cuidado, distribuindo a cada comparsa o seu quinhão, qual lobo segura a presa.

- Ó Pilatos, são do teu tio? Perguntou o Pintassilgo.
O Pilatos quase que o fulminava com o olhar… mesmo assim teve direito a um, mas não se livrou da reprimenda: "Abre o bico, Pintassilgo, e vais ver a gaiola!"
Os senhores professores tinham ido almoçar e nós aproveitámos para nos servir da sala para fumar… como se fosse uma esplanada… e o "mestre" mandava. Santa inocência…
- "Olhem que vem ali a professora" – gritaram as raparigas, mais aflitas do que nós. Ordem do "mestre": "apaguem os cigarros e nada, bico calado."

Mal a professora entrou, qual raposa farejando galinha, exclamou: "Cheira-me a tabaco… cheira-me a tabaco…"
Agora é que o silêncio era sepulcral!
- Quem é que esteve a fumar?
Cada um fazia que fixava algo nos livros, recitava em surdina a tabuada, outros mexiam-se sem saber o que fazer.
- Ai ninguém se acusa?! Então os rapazes todos aqui para a frente.
Revista às tropas. Dirigindo-se a uma das nossas colegas, ordenou:
- Tu… Vê se algum dos teus colegas tem cigarros nos bolsos.

O Pilatos tinha guardado a "prisca" na orelha, debaixo do cabelo comprido, que não cortava há meses e havia de cair às mãos do Armindo. O Pintassilgo meteu-a nos socos que eram do irmão, do Domingos… ficavam-lhe grandes… eu, grande parvo, meti a minha "prisca" no bolso das calças, que, por sinal, estava roto. Enquanto estávamos na parada, à frente das raparigas, caiu-me aos pés. Nem foi preciso continuar a revista. Já nem sei quantas reguadas levámos, pois a bênção foi igual para todos. Só me recordo que na altura ainda não havia telemóveis e quando cheguei a casa levei um enxerto de porrada da minha mãe, pois alguma linguaruda já lhe tinha dado a novidade.

Razão tinha eu, quando há vinte anos atrás, encontrando-me com o meu "mestre", na taberna de cima lhe dizia:
- Pilatos, tu foste o culpado dos nossos vícios!
Abrindo bem as pernas, para não cair, dado que tinha areia na asa, respondeu:
- Ainda te apetece um cigarrinho, ó Filinto?
- Ó Pilatos, olha que tu, às vezes, lembras-me o tio Rasca dos Pereiros!
- Carai! Ele tinha mais sorte do que eu. Já viste que eu para ir para a Portela, ao fim do dia, é sempre a subir e o tio Rasca para os Pereiros era sempre a descer, homem!
- Ó Pilatos, mas tu hoje andas aos ziguezagues? É do vinho?
- És mesmo burro! Afinal o que é que tu andaste estes anos todos a aprender lá para o Porto? Os ribeiros não vão também aos ziguezagues? Não é água que eles levam? Se vires um com vinho, diz-me, que eu vou lá. Estou mesmo a ver que te faltaram mais umas reguadas… a professora bateu-te pouco.

O meu "mestre" lá tinha a sua razão…
Enquanto ele fazia o seu lento raciocínio e o meu filho, ainda pequenote, se ria do seu bom humor, eis que um cão do gado nos fitou longamente. "Ó rapaz, aprende comigo, já que o teu pai só te ensina nos livros e pouco!" Agarrou na primeira pedra que encontrou e atirou-a ao bicho que deu à perna…
- Não lhe acertou! – riu-se o meu filho.
É que eu vi dois e atirei ao outro.

Um grande abraço, "mestre" Pilatos, do teu companheiro da farra.

Filinto

domingo, 5 de julho de 2009

ROSTOS

VII

Prosseguimos na tentativa de reconhecimento de pessoas e lugares. Hoje situamo-nos no Pelourinho, continuando a explorar o acervo fotográfico dos senhores professores.







1 -
2 -
3 - Sr. D. Maria
4 -
5 -
6 - Sr. Professor








1 - Sr. D. Maria
2 - Sr. Professor
3 -
4 -
5 -
6 - Sr. Carlos




Casas:
1 - palheiro do tio Picarete
1a - do tio Moreno
2 - do tio Carlos Sapateiro
3 - palheiro da tia Estefânia
4 - da tia Estefânia
5 - da tia Celeste e do tio António Honorato
6 - da tia Aninhas


Aqui, a fotografia completa

sexta-feira, 3 de julho de 2009

O PUTO DE VALE DOS AMIEIROS

Por

ANTÓNIO BRAZ PEREIRA

2.ª parte


- Tu gostavas ir a estudar?

Pela minha mente passaram tão rápidos sentimentos que não conseguia descortinar. Contudo, foi a Sra. D. Denérida quem quebrou o silêncio dizendo: Sabemos perfeitamente que és inteligente e...
A Sra. Virgínia não deixou a filha terminar a frase.
- Ó rapaz dos diabos, diz que sim!
Continuava silencioso, confuso, sem saber que responder. Desejei tão profundamente que esta proposta me fosse feita, esperei por ela dia após dia, e ela nunca chegou; e agora que me davam a possibilidade de realizar sonhos já quase adormecidos, não conseguia balbuciar palavra. Vendo-me tão embaraçado, o Padre João apressou-se a dizer:

– Não é necessário dar já uma resposta. Contudo devo dizer-te que a minha irmã está disposta a pagar todas as despesas com a condição de seres Padre.
Retirei-me daquela sala tão baralhado, tão confuso, tão decepcionado, talvez, pelo facto de me ser imposto algo sem que as condições requeridas pudessem dar garantias absolutas… não sendo daqueles que não cumprem; também pelo peso da responsabilidade.

Andei vários dias a pensar. Se, por um lado, se me apresentava uma maravilhosa ocasião de realizar os meus sonhos de miúdo, por outro, achava que vinha demasiado tarde. Tinham já voltado dois seminaristas, abandonado, quaisquer que fossem as razões.

O tempo era de pressas, outro rapaz preparava-se também para ir, mas eu não conseguia tomar uma decisão. Cabisbaixo, procurava a resposta em tudo quanto era sagrado, mas a consciência ditava-me sempre e sempre, a mesma: é tarde demais. Aquele rapaz que toda a gente conhecia, alegre e cheio de vida, andou vários dias, tristonho. Não participava nos numerosos jogos ao fim da tarde, evitava falar com quem quer que fosse, isolava-se para melhor meditar, chegou a sonhar que tinha partido e nunca mais o deixaram voltar. Cada vez que se cruzava com o Sr. Padre, baixava a cabeça, enquanto este procurava, certamente, uma resposta no seu olhar. Também a D. Denérida esperava uma resposta urgente. As férias estavam a acabar, era necessário comprar tudo quanto necessitava para o colégio, e a resposta nunca mais chegava. Já tinha decidido, mas parecia-me que quanto mais tempo passasse menos sentida seria a sua resposta.

Para aliviar um pouco o meu cérebro baralhado, escolhi uma visita ao moinho de Teixedo, propriedade adquirida pelo Sr. Padre recentemente. Teixedo era um lugar paradisíaco, embora bastante distante, onde apenas se ouviam cantar os passarinhos e a água a correr lentamente ribeiro abaixo, sem pressas, rodeado de árvores selvagens e erva verdinha convidativa ao descanso e à reflexão, e a roda do moinho dando voltas sem fim enquanto a água corresse e lhe caísse em cima, provocando a sua rotação, contínua mas discreta. Sem ninguém saber para onde tinha ido, percorri aquele trajecto bastante longo, onde permaneci todo o dia, sentado, a olhar a água que caía sobre a grande roda de madeira. Quando voltei, já à noitinha, esperava-me o Sr. Guerra, tão inquieto que não conseguia perguntar nada. Olhei para ele com olhar triste, denunciando certos remorsos, e disse: não posso, é tarde de mais...

– Enlouqueceste rapaz! Nunca é tarde demais. Põe pés a caminho; ou queres acabar como o velho Guerra sem eira nem beira?...
– Só eu compreendo as verdadeiras razões.

E foi assim que respondi a quem queria fazer de mim um Padre. Eu limitei-me a fazer o que me ditou a consciência. Ficar-lhes-ei grato para o resto do meu viver, que Deus lhes pague, lá onde se encontram. Quando passo junto daquela casa grande e branca, no largo do Prado, recordo com nostalgia aqueles bons tempos, mas entristece-me constatar que já não existe ali vida. Vou visitá-los ao cemitério, e a Sra. Virgínia continua a sorrir-me e a convidar-me com favores do Céu. Permaneci naquela casa por mais algum tempo, mas tinha crescido demais para os recados.

Entretanto, esquecera este episódio, e dedicava-me a muitas outras coisas que gostava de fazer, na minha terra amada. Marchas no Carnaval, vestido de marafono, cantigas populares e danças na segunda de Páscoa, e até teatro improvisado, ou ensaiado e representado no Prado, na Escola e também na casa do povo do Outeiro. Participava na “Serra das Velhas” e casava as novas no meio da Quaresma. Ia aos bailes, tão populares nessa altura, feitos com os primeiros gira-discos vindos de França. A Mavilde, irmã do Ferreira, era a que mais vezes organizava.

Recordo-me de um dia ter ido, mais o José Maria, visitar uma prima que residia em Pombares, vinda de Espanha, trazendo com ela um gravador, coisa rara nesse tempo. Pelas duas da manhã, voltávamos os dois para casa trazendo connosco o ditoso gravador. Parámos entre Teixedo e os Pereiros, sentados junto de uma parede: eu cantava “O xaile de minha mãe” de Isabel de Oliveira e a “Carmencita” a viva voz, enquanto o amigo gravava.

De França, voltava também o Artur da tia Teresa, de férias. Lembro-me de um pequeno aparelho que ele trouxera onde se viam slides com os lindos monumentos de Paris. Foi com estes slides que começou a nascer o meu desejo de ir para o estrangeiro.

Tinha quase dezoito anos quando dei, também, o salto para Paris. Empreguei-me durante seis meses na construção civil, a fim de obter papeis de permanência no País, mas brevemente compreendi que não era a profissão que desejava para o meu futuro. Fui, então, bater à porta de uma reputada fábrica de automóveis, onde permaneci durante quatro anos. Entretanto, nos tempos Salazaristas, a PIDE colhia nas fronteiras aqueles que não cumpriam o serviço militar, e como eu não desejava embarcar para África e lá deixar os ossos, numa emboscada, tirava passaporte, mas não o utilizava na Fronteira de Portugal e Espanha, passando ao lado, a pé: a salto.

Um dia, vinha no carro do meu irmão, combinámos parar uns quinhentos metros antes da fronteira, para eu passar ao lado e ser recuperado depois da fronteira Portuguesa, cujos sinais eram ramalhos de carvalho na estrada. Mesmo sendo a primeira vez que passava sozinho, não tive medo de enfrentar o caminho acidentado e cheio de monte, não sabendo o que me esperava. Em baixo, o rio levava muita água e para atravessar, só a nado. Também não foi problema, aprendera a nadar no poço do tio Jaime, só que as roupas ficaram ensopadas e sujas ao passar pelo monte. Chegado à estrada esperei, como combinado, escondido nuns arbustos, mas o carro nunca mais chegava. Lembrei-me de que, naquele tempo, as fronteiras de Quintanilha fechavam à meia-noite, por conseguinte, o carro deve ter ficado do lado de lá

Como não podia esperar ali todo molhado até de manhã, resolvi ir andando estrada fora, na esperança de encontrar uma boleia e, ao fim e ao cabo, Bragança também não seria muito longe. Não sabia, deveras, o caminho que tinha pela frente! Trinta quilómetros separavam a cidade da fronteira pela estrada nacional! E que estrada! Mete medo de dia, quanto mais às três da manhã!... Nascia o Sol quando cheguei a Bragança, e como não levava um tostão comigo, esperei à entrada a chegada do carro. Quantos passavam, olhavam-me de soslaio, talvez pelo aspecto das roupas sujas, mas eu via em cada um que passava um agente da PIDE.

Era sempre tão emocionante e estimulante voltar àquela terra tão querida, onde gozava sempre um mês e dezasseis dias de férias: mesmo não sendo permitido, metia atestado médico e só voltava passada a festa do Chãos, que as peripécias passadas ficavam apenas para a história, a qual poucas vezes foi contada.

Passados três anos, sempre a dar o salto, comecei a ficar cansado e resolvi, talvez um pouco influenciado por alguém, ir à inspecção ao Porto. Tinha apenas chegado a Paris, recebi um telefonema onde meus pais me anunciavam o dever de me apresentar em Lamego o mais rapidamente possível. Poucos dias depois, voltava a passar a fronteira, desta vez legalmente, pois vinha cumprir o dever cívico, imposto pelo regime, embora já em condições de compelido. Aconselharam-me a ir ter com um sargento, filho do tio Amadeu, creio que se chama Eduardo, o qual tratou de tudo e mandaram-me para casa até ser chamado. Só demorou um ano e tal...

Como não gostava de estar quieto, resolvi ir para o Porto, onde fui alojado por familiares, e com uns tostões que trazia, inscrevi-me no Instituto Pedro Nunes, para estudar, e na “Tecla”, empresa que dava formação por detrás da Av. dos Aliados, onde tirei o curso de dactilografia e contabilidade. Podia não servir para nada, mas era sempre bom aprender.

Em Maio do ano seguinte, fui chamado para a tropa. Tinha-se dado o 25 de Abril, do qual me ficaram recordações de pessoas a correr por todos os lados, grupos de polícias refugiando-se como podiam nos quartéis, transportes parados, e o anúncio dos instrutores dizendo que fechavam pois havia uma grande revolução pelas ruas. Também a correr, passei a ponte em direcção a Gaia, junto da qual se situava o Quartel da Pesada, que os Soldados tentavam armadilhar.

Tinha cancelado os estudos, embora levasse comigo o Diploma do curso já referido. Obra do destino, dois meses depois voltava ao Porto, onde fui colocado no Quartel de Engenharia de Transmissões, para tirar a especialidade, durante um ano. Foi o ideal para voltar ao Pedro Nunes, passando o dia no quartel, estudando à noite. Perante aquela gente mais jovem, sentia-me um tanto ou quanto fora do meu lugar, mesmo assim fiz o segundo ciclo, embora me tenham surgido vários problemas, como por exemplo: tinha o exame de matemática marcado para um dia em que o quartel estava de prevenção. Fui pedir ao Comandante, explicando-lhe a situação, mas respondeu-me categoricamente: nem pense... Contudo, não deixei de o fazer, saltando o muro e escondendo-me de cada vez que enxergava a P.M.

Três anos de tropa é, realmente, muito tempo perdido, embora tentasse aproveitá-lo da melhor maneira, e concluído com propostas bastante interessantes, da Marconi, ou dos serviços aduaneiros. Precisava mexer. Cheguei a recear não poder sair do País durante cinco anos, como exigiam as leis antigas. Felizmente, o 25 de Abril aboliu tudo isso e voltei para tantos amigos que tinha deixado em Paris.

Voltei à fábrica, enquanto não tirava um Certificado de Aptidão Profissional para motorista de táxi, profissão a que dediquei 14 anos. Foram 14 anos vividos a fundo. Enquanto, durante a semana, transportava personagens mais ou menos importantes do cinema, da canção, do futebol e, até, o Abbé Pierre, ao Louvre, Montmartre, Notre Dame, Tour Eiffel, Champs Élisées, pensava na terra onde nasci e nas coisas tão simples mas adoráveis que lá vivi. Nos fins-de-semana, jogava futebol, saía com amigos de várias nacionalidades, sobretudo espanhóis e italianos, os quais me emprestavam livros na sua língua, para ler à noite, ou enquanto esperava pelos clientes. Li igualmente muitos livros Franceses: "Os Miseráveis", de Victor Hugo nos seus cinco volumes, e tantos outros que ia buscar à Biblioteca Municipal. Os livros Portugueses, comprava-os numa livraria Portuguesa junto do Consulado. Camilo Castelo Branco, Eça de Queirós e Manuel de Oliveira eram os meus autores preferidos. Gostei ler "Os Maias", "O Trigo e o Joio" e tantos outros. Tudo me encantava, nunca mais pensei em diferenças entre uns e outros. O meu maior fracasso julgo ter sido um curso de Inglês, mesmo assim, ficou bem assente na minha cabecita que querer é poder!

Passo hoje em Rebordainhos e, apesar de não ver parte daqueles seres queridos, recordo-os com muitas saudades, e alegro-me, pensando que onde quer que se encontrem, estimularam o meu crescimento e estimulam o meu viver, sabendo-os felizes junto dos entes mais queridos.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

O PUTO DE VALE DOS AMIEIROS


Por

ANTÓNIO BRAZ PEREIRA

1.ª parte

Tanto quanto me é permitido recordar, através dos cinquenta e nove invernos passados, dezassete dos quais permanentemente naquela aldeia, pacata como muitos lhe chamariam, para mim maravilhosa terra, Rebordainhos, ou idealizei, ou então sonhei, é um mundo lindo no interior dos seres e das coisas, pacífico, íntegro, com a sua movimentação natural virada quase sempre para o sentido da alegria e respeito.

Desejava poder evitar a narração da parte negativa pela qual milhares de famílias passaram, e passam ainda no século em que vivemos, para não ser julgado como infeliz, coitadinho, ou simplesmente desprezado, sendo a descriminação uma deficiência mental das mais defeituosas da nossa existência. Contudo, eu vivi assim.

Vale dos Amieiros fica distanciado da aldeia uns três ou quatro quilómetros, mas não era a distância que me metia medo quando tinha os meus seis anos. Enfiado nos socos de amieiro, feitos pelo tio Grilo, com terra já calcada no interior, lá ia eu e meu pai, atrás de um burro velho e ruço, lavrar um cantinho que possuíamos, ou seria baldio, no topo da grande encosta, quase na Malhada Velha onde o povo se revoltou contra a plantação dos pinheiros nas terras que alimentavam numerosas famílias. O Sol era abrasador, a poeira entrava-me pelas narinas, água só na Ribeira e, para cúmulo do infortúnio, à nossa volta ouvia-se apenas o cuco cantar, sempre e sempre a mesma moda. E eu que gostava tanto de brincar no Prado ou na cerca da escola!...

Faltava ainda um ano para entrar na primária, e enquanto o tempo ia passando com aquela lentidão desconcertante, encontrávamo-nos, grandes e pequenos, nos tanques construídos para a rega - Vale da Frunha, Chãera e Covinha eram os mais frequentados - onde tomávamos banho, ou melhor, eram a nossa praia de nudismo, sendo poucos ou nenhum a possuir calções de banho. Ali permanecíamos horas a nadar, aqueles que já sabiam; os outros iam aprendendo à sua custa. Eram lançados pelos mais idosos para dentro do poço, sendo apenas socorridos quando já tinham engolido grande quantidade de água, como se deve compreender, “não potável”. É assim que se aprende a nadar – diziam eles, enquanto os pobres ainda sufocavam, tossindo, esperando que a água ingerida fosse ejectada.

Recordo-me também dos grandes nevões. Num deles, talvez o maior, o meu pai tentou abrir a porta da rua mas não conseguiu. Abriu a porta que dava para casa da tia Helena, e o espectáculo era digno de um filme de ficção científica. Para retirar água na fonte grande, os homens abriram um túnel, idêntico ao das galerias onde os franceses guardam preciosamente os vinhos millésimes, à temperatura desejada.

Finalmente abriu novo ano lectivo, o dos meus sete anos. Éramos seis rapazes e só duas ou três raparigas, a entrar para a primeira classe. Nesse dia, os pais faziam sempre um esforço pela boa apresentação dos filhos. Iam mais lavadinhos, penteados, com risca do lado esquerdo. Também ia assim, calças remendadas, socos, e uma camisa que alguém caridoso deu à minha mãe. Para mim o que levávamos vestido não tinha qualquer importância. Queria aprender a ler, escrever, contar, falar e conviver com gente da minha idade. Começava a dar os primeiros passos na vida. Marcou-me o facto de quase todos levarem uma “pedra” (ardósia) enquanto eu ia de mãos vazias. No dia seguinte minha mãe esclareceu-me: Ó meu filho! Custa uma coroa, e nós não a temos, para a comprar. Como quando se é pequeno não se liga muito às coisas insignificantes, desenrasquei-me, pedindo a uns e outros, sempre que necessitava, aliás também não tive qualquer livro, nem sequer na quarta classe, aprendendo nas aulas a gramática, os problemas, redacções e reduções, geografia, português e história, marcando-me o livro de terceira classe que me emprestava o Tarcísio para decorar a Barca Bela, Vozes dos Animais, não esquecendo aquele poema de que tanto gostava, a Balada da Neve de Augusto Gil:
Batem leve, levemente
Como quem chama por mim
Será chuva, será gente!
Gente não é certamente;
E a chuva não bate assim

Enquanto duraram os meus quatro anos escolares, e à medida que ia crescendo, tantas coisas passaram e voltaram a passar, na minha cabecita! Vivia alegre e feliz, quando jogávamos à pedrada, com os dos Pereiros, ou, mesmo, quando um dia ficámos presos; também ao saber que o Ferreira esteve caindo do forro do telhado da escola, deixando um grande buraco aberto, enquanto procurava uns pardalinhos - e não era tão fácil subir lá cima! O Ferreira foi sempre um quebra-cabeças, para os professores. Noutro dia, no adro da Igreja, enquanto decorria o terço, o Ferreira dava pontapés a um pau que ia embater com força na porta central. Saiu de repente o Sr. Professor, e desatou a correr atrás dele, enquanto ameaçava: olha que eu toso-te! Olha que eu toso-te! Já foi tempo... – respondia este, esquivando-se pelourinho a cima.

Um dia lindo de Primavera, por volta das nove horas, o Sr. Manuel do tio Amadeu dava de comer à sua torina, que tinha na loje junto da casa do Foguete; e como todos os dias, também o Gilberto, (Tição) à ida para a escola, passava por ali por junto da porta, para lançar para dentro: Ó barbas d’alho! O tio Manuel, por quem eu tinha grande respeito e admiração, com grandes dons para o teatro, apesar de eu só lhe ter visto encenar e realizar um, ou melhor uma mistura de “esterlóquio” lançando fogo pela boca e histórias diversas, mas também porque recebia, creio, de um irmão que tinha na Régua, material escolar que oferecia em troca de outros jeitos, naquele dia esperava de pé firme o gaiato. Mal se aproximou da porta, já estava colhido por um braço forte de homem. – Então sou barbas de alho? E pegando numa bosta de vaca, encheu-lhe a boca com ela, enquanto murmurava: para que não voltes a chamar-me isso. E o garoto lá foi lavar a cara ao tanque, enquanto os que presenciámos a cena desatávamos a rir, é claro, contando de seguida na escola.

Enquanto frequentava a 2ª classe, os mais velhos não nos ligavam. Mesmo assim, eu tinha os meus ídolos. O Amadeu, que faleceu em Angola desenhava tão bem, que enquanto vivi em Paris, exercendo a profissão de motorista de táxi, sempre que levava clientes à praça do Tèrtre, também conhecida, por Montmartre dos pintores, o recordava com saudades. O Pilatos e as asneiras que engendrava fumando o seu Kentucky; o Zequinhas, irmão da Teresa, a quem chamavam “burro” por ter passado da 2ª para a 1ª, e de quem se riam, mas a mim me revoltava por compreender que o rapaz teria, por força, outros valores que não os das letras; mas sobretudo a Albertina, uma inteligência rara, superdotada, direi mesmo. Quantas vezes nos ajudou!... Não havia exercício que lhe resistisse.

Aproximou-se o exame de quarta classe, só quatro dos oito fomos propostos: duas raparigas e dois rapazes. Devo dizer que o apoio de que falava a Albertina, uma das eleitas, nos ajudou bastante. Eu e o meu primo Tarcísio fizemos exame na Estacada, após oito dias de estadia em Bragança. Voltámos com aprovação, e as moças que também foram aprovadas, creio que ficaram, pelo menos uma delas, para fazer a admissão ao liceu, já que a outra tinha seguido para Lisboa, onde realizou a mesma prova.

Esta foi uma época em que grande parte dos rapazes era encaminhada a estudar para padre, excepto as famílias carentes, com poucos ou nenhuns meios, das quais eu fazia parte. Tinham já partido para Mogofores, ou Arouca, o António e o Zé Fernandes, seguidos do Filinto e Domingos Caixeiro, o Evaristo. Agora era a vez do Tarcísio, meu primo, enquanto eu meditava nos porquês da vida de uns e de outros. Gostava tanto de poder ir também! Mas como? Quem não pode comprar livros aos filhos vai poder enviá-los a estudar? Meio resignado, lembro-me de um dia, sentado no tanque do prado, tristonho, ver chegar a minha madrinha junto de mim e dizer: não posso mandar-vos aos dois!... Os miúdos compreendem logo tudo. Não tinha inveja, contudo, quando os via voltar, todos vestidos de azul, com sapatinho baixo engraxado, no tempo das férias, e ouvi-los contar, naquela linguagem já diferente da nossa, coisas lindas que por lá viviam… No ano seguinte foi a vez de o José Maria embarcar para lá.

Ressurgiu em mim a esperança de haver uma alma caridosa na Aldeia, que me mandasse também, e mais convencido fiquei quando, um dia, o Sr. Padre João me chamou à sacristia, querendo falar comigo. Tinha realmente uma proposta para mim, mas não era a que esperava. Contudo, dadas as circunstâncias de não poder ir para lado nenhum, aceitei vir para casa dele, ou melhor, ainda do Sr. Ernesto, uma casa nova e grande, onde vivia a Sra. D. Denérida, a Sra. Virgínia sua mãe, o Padre João, duas criadas e, é claro, o proprietário que viria a falecer pouco tempo depois, como rapaz de recados. Para os trabalhos agrícolas tinha um caseiro, o tio Guerra, homem vindo não se sabe ao certo de onde, já idoso, mas muito querido dos patrões, e que sempre me dizia: ainda um dia vais ser alguém!...

Foi nesta casa de acolhimento, perante uma família com numerosos e valiosos valores, que eu vivi cinco anos de felicidade indescritível. A Senhora Virgínia, que por certo está no céu, tão bondosa e carinhosa, na casa dos noventa anos, tantas vezes me convidou – como ela dizia – não só com carinhos, como com moedas que retirava da gaveta do quarto onde dormia o Sr. Padre, sobretudo na época de ofícios ou visita pascal, e o filho que sabia de tudo, nunca o deu a saber nem sequer entender, tal o respeito que tinha pela mãe. Vinha com um lenço atado nos quatro cantos, tilintando pelo longo corredor fora e dirigia-se a mim dizendo: se me fores buscar uma “gabela” de lenha convido-te. Outras vezes pedia: ó meu filho, vai buscar-me um cântaro de água, vais? É claro que ia, mesmo que não houvesse convite, bastava-me aquele lindo sorriso com o qual sempre agradecia. Nunca vi esta Senhora zangada. Era uma jóia de pessoa, que Deus lhe retribua os valores que me transmitiu.

A Sra. D. Denérida dava aulas em Espadanedo. Herdou da mãe tudo o que era de bom. Foi caridosa ao ponto de perdoar letras de empréstimos vindos do marido – que fazia no seu tempo como a banqueira do povo, emprestando a juros muito altos, fazendo assinar um fiador com meios, no caso de não pagarem. Havia no quarto do escritório, onde eu ia muitas vezes preencher os boletins com os nomes das pessoas carenciadas, para quem “a Cáritas” enviava géneros de alimentação, como queijo, leite, farinha etc., um cofre todo de ferro, enorme, ao qual davam o nome de burra. Era lá que o Sr. Ernesto metia a sua fortuna e a miséria dos outros.

A Sra. D. Denérida vinha passar todos os fins-de-semana a Rebordainhos, mais uma mocita que vivia com ela. Aos domingos à tarde, lá tinha que ir eu com elas, deixando a bola que tanto gostava jogar, montado numa mula grande e má, com uns alforges cheios de mantimentos para a semana. Um dia pensei bem pensado, como devia fazer para não perder a bola. Foi então que me ocorreu a ideia que a mula tinha medo de passar onde houvesse um charco de água, ainda que este fosse pequeno. Preparámos tudo como de costume, e lá íamos em direcção a Espadanedo, eu montado na mula e a Sra. mais a garota a pé. Quando chegámos a meio do caminho, entre Soutelo e Rebordainhos, havia ali uma nascente, por conseguinte tudo cheio de lama. É daqui que vou voltar para trás! – pensei. Comecei por apertar as rédeas que ligavam ao freio da mula, a qual recuava mal se aproximava da lama. Desce e pega-lhe na rédea, - dizia a Sra. Isso era pior! – Retorquia eu. Então dá a corda que traz ao pescoço à garota. A miúda pegou na corda, mas como eu em cima apertava o freio, a mula continuava a não querer passar. Andámos nesta jigajoga durante quinze minutos, até que a Sra. disse com ar desolado: agora já não dá para ires à volta, pelo caminho de cima! Voltas amanhã. Era o que queria ouvir. Dei meia volta, e toca a galopar com toda a força, batendo com os calcanhares dos pés no ventre da mula. Dentro dos alforges ia um garrafão de vinho, que se partiu, aleijando o pobre animal que fugia como selvagem. Chegados à estrebaria, como a porta estava aberta, entrou como um foguete tendo eu apenas tempo para deitar as mãos à parte superior da porta e deixar-me cair. No dia seguinte, entregaram-me um burro podre, do Malino, que mal podia com a carga, tendo eu que fazer todo o caminho a pé, para os dois lados.

Quanto ao Sr. Padre João, creio que merece uma homenagem digna do seu valor sacerdotal, pelos moradores de Rebordainhos, a quem baptizou, outros mais idosos casou, enfim, prestou valiosos serviços à Paróquia. Eu, que vivi com eles durante cinco anos, tinha uma relação, para além da religiosa porque ajudava à missa, de companheiro. Se saíamos juntos à caça, entregava-me o chamariz das perdizes, enquanto ele ia com a espingarda. Passávamos dias trepando pela Ladeira, Eiras, até à hora de comer a merenda, deveras desejada, e saboreada, porque me entristecia ver matar os pobres coelhos. Também saíamos a caçar no Inverno, desta vez com um furão, o qual, por vezes, esperávamos durante horas à saída dos buracos.

O Sr. Padre era diferente da mãe e da irmã. Forreta, – sai ao pai - dizia a Sra. Virgínia, enquanto me contava coisas fabulosas passadas com o marido - e quando lhe davam os “facanitos”!...

Um dia, quando o P. João estava montando para o cavalo, e como sempre, eu pegava no estribo com uma mão, para que o selim não vasculasse, enquanto com a outra segurava as rédeas, eu respondi-lhe de mau humor, com uma palavra que ele interpretou mal. Desceu, furioso, do cavalo e pegou a bater em mim, com tanta raiva, que partiu um guarda-chuva nas minhas costas. Passaram-se dias sem que falássemos um com o outro, e já não fui recitar uns versos que ele tinha escrito, e eu decorado, para uma festa qualquer.

Nutria, também, o meu orgulho e não era nenhum santo. Um dia de Inverno, com nevoeiro cerrado, mandaram-me levar um saco de centeio às pombas, ao pombal da Tempa. Cheio de medo, pois não via um palmo de caminho à minha frente, ao chegar ao tanque da Chave, peguei no saco e despejei-o no alcadute de maneira que ninguém visse. Por este e outros motivos não me confessava a ele, escolhia sempre outro Padre.

Tinha já quinze anos quando, num dia lindo de Verão, o Sr. Guerra veio procurar-me dizendo: eu sempre disse, ainda um dia serás alguém!... Andava atrás da casa, entretido no meio das flores, sem compreender o que significavam aquelas palavras. Virei-me para ele e perguntei: - O Senhor que diz?
-Vai rápido, à sala de jantar, ter com os senhores. Sem fazer mais perguntas, dirigi-me para o local onde, sentados e silenciosos, me esperavam o Sr. Padre, a Sra. D. Denérida e sua mãe sorridente, parecendo mesmo feliz, provavelmente sabendo já o que os filhos tinham para me dizer. De pé, calado, sem saber o que pensar, eu fixava-os com um ponto de interrogação no olhar. Foi o Sr. Padre João quem tomou a palavra, e indo directo ao assunto perguntou:
- Tu gostavas ir a estudar?

segunda-feira, 29 de junho de 2009

ROSTOS

VI

Aqui ficam, então, as fotografias que o António Jarrete fez o grande favor de pôr à nossa disposição. Digam lá que não são maravilhas?

Lugar: Eira frente à casa do tio Júlio Jarrete
1 - Tio Júlio Jarrete
2 - Sr. Padre Amílacar
3 - Tia Lurdes
4 - D. Lurdes de Mirandela
5 - Lurdes, filha de D. Lurdes e Sr. Carvalho
6 - Sr. Carvalho, marido da D. Lurdes
7 - Toninho, filho de D. Lurdes e Sr. Carvalho







Lugar: Fonte Grande
1 - Tio Belmiro (Grifo)
2 - Tio Júlio Jarrete







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Nota: daqui a dois dias apresentarei nova e boa surpresa: uma história escrita pelo Tonho do tio Arnaldo que, tenho a certeza, agradará a todos. Que outros sigam o seu exemplo e percam o medo (ou a vergonha, sei lá) de contarem as suas memórias, porque é da soma delas todas que poderemos compor um retrato fiel das gentes da nossa terra.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

ECOS DO MEU SENTIR



V


TREINO A VALER, Pilatos e companhia Lda.

por
FILINTO MARTINS


Calor… moscas… ninhos… ovinhos… passarinhos… 1960…
Já rareava o folar… o recheio da tarde passava a ser outro – "horas de compensação". Os mais espertos tiveram a vantagem de um reforço especial em casa dos senhores professores – a Bernardete, o Pilatos, eu e outro companheiro para “jogar sueca”, varreu-se-me da memória. A sessão decorreu no corredor, sentados num banco onde nos íamos acomodando.

O senhor Carlos saiu aligeirado do seu quarto, que era à direita de quem entrava, saudando estes heróis. E que artistas! Acho que ele saiu com pena de ver aquelas criaturas indefesas, quais ovelhas badanas às mãos do tosquiador.

O treino costumava ser na escola, mas para nós, como os exames estavam à porta era preciso algo mais, para a grande final que se realizava em Bragança, sede de concelho.

Mal entrávamos em casa dos senhores professores e víamos, na mão da Dona Maria, um livro com uns morangos vermelhos, apetitosos, que ilustravam a capa, logo o Pilatos dizia, em surdina: "Ai que hoje é ditado e contas de reguadas…" agora era a sério, pois cada erro valia uma.

Da cozinha, que era mesmo ao lado, vinha muitas vezes um cheirinho e não raras vezes, seguia ao seu encontro uma ordem da Dona Maria. Enquanto ditava e nós escrevíamos, alguns eram mais lentos, o recado da professora para a criada: "Sara, esse arroz já deve estar cozido!" O Pilatos, que ia sempre atrasado, só não ia na idade e na malandrice, confundia o ditado com a ordem e perguntava:

- Senhora professora, arroz é com um z com um sê?
A Dona Maria, furiosa logo ripostava:
- O arroz é para a Sara!
O Pilatos, em voz baixa, resmungava: "Então escrevo batatas, eu até gosto mais!" No fim do ditado era um arraial de reguadas.

Dado que a porta não estava calafetada e os vidros não eram duplos, ouvia-se a tia Teresa chamar: "Ó Augusta…" e logo o Pilatos acrescentava: "Já comes!"

Noutras alturas, ao fundo desse corredor, à esquerda havia uma sala com uma alcofa, donde vinha um cheirinho a maçãs e fruta, que os manos primavam pela sua apresentação e conservação. À direita era o quarto da Dona Maria… amplo… arejado.

Uns meses antes o cenário, para mim, tinha sido outro.
Com os meus irmãos, a Lucinda e a Sofia fomos cantar-lhes os reis. Receberam-nos muito bem-dispostos. Junto à lareira estava um forno único na aldeia, que a mim me seduzia, porque era pequeno, redondo, diferente dos outros. A Dona Maria começou por servir-nos uns bolos que pareciam muito apetitosos. Como não podia deixar de ser, eu dei logo uma dentada num e resmunguei em voz baixa: “são farelos!” Os meus irmãos não se atreveram a dizer tal e lá iam tentando engolir, lembrando-me os perus da tia Emília ao engolirem as “porretas” das cebolas, até que num sorriso amplo e bondoso a Dona Maria exclamou: “só ele é que acertou”. Assim eu acertasse nas contas! A seguir é que nos serviu uns mimos, enquanto o senhor professor, mesmo com um ar mais sério, deu um rasgado sorriso, pois não era dado a muita exteriorização, mas o senhor Carlos procurava servir e ria-se a bom rir.

É bom recordarmos, recordarmos… Quando abro uma gaveta das recordações, gosto de ver a assinatura do senhor Francisco Joaquim Fernandes Ribom, com aquela letra pequenina, certinha, em que as maiúsculas se destacam das minúsculas de forma clara e evidente (eu não sou perito em grafologia – fica o desafio…) e o registo civil é de Santa Comba de Rossas, sendo do mesmo o ajudante.

Somos feitos de memória e esquecimento, portanto desenvolvamos a memória afectiva, esquecendo as ofensas que foram por amor. Aqui recordo aquela data de 11 de Julho de 1960, quase meio século… Não "exijo" que os meus companheiros de carteira tenham esta memória positiva, mas esforcemo-nos por recordar o positivo e esquecer a página negativa. Aqui recordo como éramos em crianças… com pouco, éramos felizes…

Para aqueles que gostam: o nosso mestre escreveu Rebordainhos, sem acento e o Delegado Escolar apôs-lhe o “maldito acento” – prenúncio do acordo ortográfico!?


Hoje, tão longe no tempo, tenho que agradecer e admirar o profissionalismo destes irmãos que sabiam distinguir a escola, a rua, a casa onde sempre fui bem recebido e jamais alguém poderá dizer, que não levei umas boas reguadas por serem tão meus amigos. Até tive um prémio: reprovei um ano, porque era inteligente. Para que conste, segue cópia do meu exame de 2.º grau que tem a data de mil novecentos e sessenta. Faz no próximo dia 11 de Julho quarenta e nove anos.

Chegou o grande dia. Parecia que íamos para uma festa… Apanhámos o comboio em Rossas. Uma vez chegados a Bragança, lá fomos que nem cordeirinhos para a escola da Estacada, onde se realizavam os exames.

No largo fronteiriço, autênticos cachos de alunos bebiam as últimas recomendações dos seus mestres. Os nervos eram muitos, mas tudo ia correr bem. Provas de manhã e de tarde. Mesmo assim, ainda deu tempo para comprarmos com os olhos, lindos brinquedos nas montras das lojas, pois na aldeia só havia duas tabernas e rebuçados bons, só na festa da Padroeira.

À noite, cada um foi para o seu quarto que a família alugara, ou para casa de algum amigo ou familiar, porque no dia seguinte havia provas orais e os transportes não permitiam as tais comodidades. Eu fui para casa da senhora Aurora, na rua dos Batoques.

Que o diga a filha do Raul dos Vales, acho que se chamava Alzira…
Naqueles dias de invernia, nevoeiro de meter medo, lá chegava ela… Hoje seria uma heroína, naqueles tempos uma aluna como qualquer outra. Lá onde estiveres, Alzira, ao fim de quase meio século, permite-me que te elogie pela tua coragem, dedicação. Sinto orgulho de ter sido teu colega de escola. Hoje serias condecorada no dia dez de Junho. Não quero esquecer outra colega de Arufe, a Olívia e aqueles companheiros dos Pereiros, que não raras vezes faltavam porque não conseguiam passar na ribeira que transbordava.

Saíram os resultados… Todos aprovados. Cá fora esperavam-nos os professores todos orgulhosos, sorrindo para os colegas, diziam em voz baixa: “Eu sabia que os meus alunos estavam preparados!” Hoje, estariam lá os repórteres dos diferentes canais de televisão. “A Prova de Aferição” até foi fácil…

Chegámos à aldeia, como os cordeiros que regressam ao redil, numa tarde-noite de Verão. A prenda foi o calor do lar e as últimas horas de fato, mãos nos bolsos puxando as calças para mostrar os sapatos novos, que era preciso guardar para a festa que estava próxima.

terça-feira, 23 de junho de 2009

Retoma de uns rostos atrasados...

A minha irmã Augusta não me vai levar a mal que publique parte de um e-mail que me escreveu... Reza assim:

A blogosfera traz-nos realmente muitas surpresas. Imagina que um funcionário do IPB é filho do Rogério do tio Júlio. Exactamente! Hoje, porque tive de me deslocar à Escola de Educação, ele viu-me, esperou por mim e... surpresa!...
1º - relativamente à fotografia da malha onde está a Marquinhas e o Cinquenta, o Fernado Jarrete diz que aquela personagem que todos dizem parecer-se com os Alves, é... o tio Leque (opinião não corroborada pelo irmão Rogério). Mas o Fernando diz que afirma quase a pés juntos. E, agora que mo disseram, não é que a mim também se me parece? Indaga lá junto dos restantes, se não haverá essa possibilidade.

Há, ainda, outra surpresa: a oferta de duas fotografias portentosas que publicarei a seu tempo. Obrigada Augusta e obrigada meu primo distante, neto do tio Júlio!

Entretanto, aqui fica a personagem de que falámos já tanto: é o tio Manuel Leque ou o tio Francisco Alves?

Fica aqui mais uma achega, enviada pelo Rui Freixedelo, neto do tio Eurico e da tia Julieta.

Eu quando mostrei à minha avó ela disse que era possível que fosse ele [o tio Francisco Alves, seu pai], mas tinha dúvidas devido à idade da sra. Marquinhas, que não deve andar longe dos 65, e da morte do meu avô que foi em Dezembro de 55 julgo... Ou seja foi há 53 anos aproximadamente. E por isso, ela pôs as suas duvidas, mas não sei mais. Não sei se isto ajuda muito, mas é só na tentativa de dar uma achega.

sábado, 20 de junho de 2009

ROSTOS

V

Prossigo a saga, mantendo-me fiel ao acervo dos senhores professores. Tornou-se evidente que grande parte das pessoas retratadas não encontram eco na nossa memória, mas parece-me importante continuar a publicar as imagens porque documentam aspectos físicos da nossa terra. E se são as gentes que humanizam o espaço, conhecer as transformações dos lugares há-de permitir-nos compreender melhor aqueles que os habitam. Nas fotografias, alguns espaços são evidentes, mas outros nem tanto. Procuremos, então, descobri-los. Pode ser?

É por descargo de consciência que numero as pessoas fotografadas. Pessoalmente reconheço, apenas, os senhores professores e o sr. Carlos. Algumas das crianças poderão, porém, ser os pais ou as mães de alguns de nós. As saudades que temos deles!

Que belo medeiro! Em que eira? A fisionomia de algumas mulheres lembra-me gente do Outeiro, mas não me atrevo a propor ninguém!

Eira - Outeiro? Do tio Manuel Frade, no Outeiro?
1 - Tio Marquês
6 - Tia Olímpia (Maneta)
7 - Sr. Professor
13 - Sr. D. Maria
15 - Tia Matilde (mulher do tio Marquês)
16 - Tia Lídia


Uma encenação, mas que vale como documento. Os mais novos poderão ver os malhos com que os nossos pais malhavam o pão. Confesso que me regalei ao ver a Sr. D. Maria de vassouro e o Sr. professor de espalhadoura...

Eira - do Cubelo? do tio Amadeu?
(casa à direita: da tia Isabel Pelada? do tio João Badalinho?)
1 - Sr. D. Maria?
3 - D. Graça?
12 - Sr. Professor


Eis como se prova que em Rebordaínhos até os burros jogam à bola!

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Meditação

abundancia.JPG


..........Quem parte em Junho leva o olhar repleto de beleza
..........e leva consigo o perfume dos fenos.

..........Sobre aqueles que partem em Junho
..........cairá chuva de giestas
..........e o seu corpo fará sentido depois de transformado em flor.

..........Quem parte em Junho
..........não se despede,

..........acena para nós.

Jun. 2005

domingo, 14 de junho de 2009

ARES DA SERRA

XI - O SENHOR PROFESSOR
por

António Augusto Fernandes


Era uma instituição aquele senhor professor, Francisco Ribom de seu nome, natural de Carrapatas, já na Terra Quente. Ele era o Senhor Professor por antonomásia. E, como todas as instituições do tempo de Salazar, virtualmente eterno. Já fora professor de meu pai, acabei eu a quarta classe, desandei e ele por lá ficou ainda a desencardir muita cabecinha serrana com o alfabeto, a tabuada e a palmatória, o grande adjutório pedagógico.

Alto, enxuto de carnes, rosto sobre o comprido de faces secas e bem esquadriadas, testa estreita com três rugas de pessoa dada ao pensamento, farta cabeleira levemente ondulada e já um pouco grisalha, nariz fino e vibrátil, olho acinzentado. A sua figura tinha algo de austero e até de hierático. Trajava impreterivelmente fato de cor neutra, entre o cinza e o castanho, calçava botas de calfe, à Salazar e usava gravata, a única gravata que se usava em Rebordainhos. No Inverno, sobre o fato, um capote de três voltas com gola de raposa, esse que por aí nomeiam de alentejano, mas que sempre se viu por terras de Bragança. Com este seu ar distinto, aristocrático mesmo, era com naturalidade que impunha respeito aos parranas que calçavam botas de couro cru cardadas, meotes de lã churra e vestiam jaquetas de cotim por cima das camisas de popelina.

Por esta sua longevidade docente começava, como todas as instituições longevas, a aureolar-se de lenda: constava que, colocado ainda muito jovem em Rebordainhos, se afeiçoara de tal modo à terra que fizera com a Direcção Escolar o pacto de, em troca da sua permanência na aldeia, construir a expensas suas aquela escola que ainda hoje lá se vê no altinho da Portela. Si non è vero è ben trovato! Edifício simpático na sua alvura de pombal, voltado a nascente como um pombal, ao centro da fachada um patim coberto (já desaparecido) a que se acedia por três degraus, um pátio com duas cerejeiras bravas e um murete em toda a volta, onde hoje se fazem os magustos e sardinhadas conviviais da comunidade (e que os façam por muitos anos e bons!).

Todas as manhã, excepto aos domingos, ele e mana, a Senhora Dona Maria, saíam de casa, a antiga cadeia comunal junto ao Pelourinho, pontuais como ingleses. O sinal era dado pelo sino, como se de cerimónia litúrgica se tratasse. Nós, os da Portela, víamo-los apontar no início do Prado, junto à forja e quando curvavam para o pátio do sr. Amadeu, enfiávamo-nos de escambulhada na sala de aula, cada um no seu lugar. Ele a transpor o limiar, e nós a erguermo-nos como impulsionados por uma mola, hirtos como soldados em miniatura, estendendo o braço direito e clamando em coro marcial: bom dia, senhor professor! Tinha destas coisas bonitas a disciplina do Doutor Oliveira Salazar que nos contemplava lá de cima, do seu retrato encaixilhado! Ele dum lado, o General Craveiro Lopes do outro, eram como dois acólitos para o Cristo Crucificado que presidia ao acto docente.

Nas manhãs de forte geada ou nevão corríamos ali acima, ao giestal do tio Zé Foguete a arrebanhar duas fronças de giesta seca mais uns guiços e armávamos grande lumaréu no patim para acender a braseira, conquistando assim alguns créditos para a hora de enfrentar a palmatória que não se fazia rogada na altura de corrigir os ditados ou declamar a tabuada.

Era aliás para o carvão da braseira e para o giz que, logo no princípio do ano, éramos convidados a esportular a fortuna de dois mil e quinhentos réis (propina única, mas que nem todos tinham) e que, nas manhãs mais frias, nos davam direito a desengaranhar os dedos para conseguirmos segurar o lápis de ardósia.

Não, não era nada fácil ser-se garoto nessas terras e nesses tempos; fazer a quarta classe era para muitos uma verdadeira odisseia. E se eram bravos os invernos então! De uma vez, aí por 1953 ou 54, o nevão deixou-nos isolados do resto do mundo durante uma semana. Nem o burrico do tio Benjamim se atrevia a descer a Rossas em cata do correio! Valeu que o telefone tinha chegado por essa altura à Taberna de Cima, do tio António Trocho − o posto oficial dos correios − e muitas vezes até funcionava. Mas foi uma delícia essa semana de férias em que o pessoal jogou à bolada até dizer chega, fez bonecos de neve por todo o lado e arroussou o traseiro sobre giestas por quantas ladeiras nevadas a geada tornava escorregadias como vidro! Ficou nos fastos da freguesia tal nevão! E tal foi ele que, depois de uma noite de tormenta, pela manhã, tivemos que desentulhar a porta da tia Ermelinda para ela poder sair de casa. Meu pai ainda tentou cavar um túnel até à casa da tia Isabel Caldeireira, mas desistiu porque a abóbada lhe desabou sobre a calva.

Aos sábados era dia de faxina: corríamos ao dito giestal, mas desta feita para cortar ramos de giesta verde e flexível com que armávamos esplendorosas vassouras que nos permitiam entrar em negociações com as meninas da sala feminina, a da D. Maria: numa partilha muito democrática de tarefas, nós fazíamos-lhes as vassouras e elas varriam também a nossa sala, quando estavam para aí viradas.

É bem verdade que era ríspido e nada escasso em distribuir palmatoadas. De uma vez alguém levantou a atoarda: se esfregássemos as mãos com alho, as palmatoadas não doíam e, mais extraordinário ainda, o alho fazia rachar a palmatória! E num belo dia de Inverno, que era quando as palmatoadas mais doíam nas mãos enregeladas, a sala tresandava a alho como em dia de alheiras. Rica lembrança! E logo o senhor Professor que tinha faro mais apurado que perdigueiro de raça. Entrou na sala, estacou, fariscou os ares, enrugou a testa… e lá foram dois ou três que tinham abusado na receita tirar a prova dos noves:

− Então dói ou não dói!? E, pelo rictus facial dos eleitos, parece que sim, que doía a valer. E a maldita da palmatória que nem uma fendazinha abriu!...

A palmatória era, naqueles tempos, o grande adjutório pedagógico. E o senhor professor não era nada peco a usá-la. Mas um belo dia aquela bolachinha de madeira com cinco furos e uma haste desapareceu. A nossa alma alegrou-se. Vinha aí a nova pedagogia de abolição dos castigos corporais e parece que um ou outro Inspector mais adepto da nova escola começava a implicar com a santa luzia, como o sr. Professor lhe chamava. Puro engano. Em seu lugar apareceu uma régua luzidia, de sessenta centímetros de comprimento por um centímetro de espessura, encomendada à arte do tio Hermenegildo carpinteiro. Esta sempre dava para ir disfarçando a função punitiva com uma parca utilização a traçar segmentos de recta no quadro. Como se não bastasse para desgraças, a certa altura o Luís Moleiro teve a triste ideia de trazer da Ribeira dos Pereiros uma longa e direitíssima vara de avelaneira. A intenção do doador era que servisse de ponteiro no quadro e nos mapas, mas a experiência ensinou-nos que a sua virtude primeira era a de nos esgaçar as orelhas à distância. E pior ainda quando algum de nós era posto à frente das hostes em pé, de vara em riste. Como trazíamos sempre algumas contas em atraso com alguém, ai de quem fizesse menção de abrir a boca, a vara zunia sobre o transgressor. Para salvaguarda da justiça cósmica que preside aos destinos humanos, deixe-se registado que foi o Moleiro, o da ideia, o primeiro a experimentar-lhe os efeitos salutares.

Devo reconhecer que as minhas mãos não foram das mais castigadas, talvez por já lá ter aparecido a saber ler, desemburrado, em Macedo de Cavaleiros, por uma tal D. Clarinha, à volta dos meus cinco anos. Mas tal resguardo não obstou a que, já em preparativos para o exame da quarta classe (que para muitos constituía a primeira visita a Bragança), em certo ditado onde aparecia a palavra paralelepípedo, tendo eu prantado paralelípedo, pagasse com duas valentes palmatoada a sílaba escamoteada.

Se na leitura e aritmética me ia safando, a minha desgraça eram as linhas e ramais dos caminhos-de-ferro mais a geografia das Colónias: não havia maneira de empinar estupidamente aquelas coisas alheias à nossa experiência. E foi sobretudo em tais matérias que a S. Luzia me aqueceu as mãos. Isto soa como um horror escatológico para as pedagogias emolientes de hoje, mas, em boa verdade, não me fizeram mal nenhum, estas e outras, só me espevitaram as memórias, como dizia o povo, e não é por elas que guardo qualquer rancor ao bom do Mestre.

Mas, se a vida não era fácil para a ganapada sujeita a tal regime, também não era pêra doce para ele, tendo pela frente para cima de vinte raparigos semi-selvagens e distribuídos pelas quatro classes. Faziam-se cópias, garatujavam-se as quatro operações na lousa de ardósia, declamava-se a tabuada em altos berros, tudo em simultâneo e numa balbúrdia gloriosa. Silêncio só na sacrossanta hora do ditado dos grandes, os da quarta que preparavam o sua ida a exame, que isso de passagens administrativas era heresia ainda por inventar.

Em lousas de ardósia se escrevia com pauzinhos também de pedra (numa grande fidelidade ao étimo latino − lápis − pedra em latim, que deu origem ao nossos lápis), que o papel estava para lá das nossas posses e guardava-se para o grande Caderno Diário, onde deixávamos à vez a nossa dedada para a posteridade. E o trabalhão que não foi convencer-nos a não limpar os gatafunhos da lousa com uma cuspidela e um esfreganço do canhão da jaqueta! Havia que trazer na sacola um farrapinho humedecido dentro de uma caixinha de graxa… Mas quem é que na aldeia engraxava fosse o que fosse!?

Por esses tempos emergia lentamente o fenómeno que havia de substituir a matéria-prima das alfaias caseiras, a madeira, o barro e a folha-de-flandres. Surgia a era do plástico! O primeiro toque, para nós mais palpável, dessa revolução foi um cinto de vidro sintético (assim chamávamos ao plástico transparente) que o Tonho do tio Alípio Pequeno recebeu de um tio emigrado no Canadá. Andava ufano o rapaz e no recreio sacava-o das presilhas para podermos admirá-lo, palpá-lo, mirá-lo contra o sol. E todos nós lhe propúnhamos negócios mirabolantes em que, para além nos nossos cintos miseráveis de cabedal, entravam nozes e rebuçados e canivetes e o diabo a quatro. Não havia negócio possível para a maravilha inaudita!

Num outro dia, outra maravilha. O Sr. Professor entrou na sala menos severo, quase afável. Mandou-nos sentar e, sem mais explicações, mergulhou uma folha numa bacia com água. Com ares misteriosos de mago, disse para esperarmos cinco minutos. Foram os cinco minutos mais silenciosos da temporada. Com mil cautelas retirou a folha da água, escorreu-a, foi encostá-la a um vidro da janela do fundo, alisando-a cuidadosamente com o lenço. Aguardou que secasse; depois, lentamente, foi despegando uma película translúcida e, como por magia, no vidro ficou estampada a gravura colorida dos Lusitos da Mocidade Portuguesa a saudarem a bandeira nacional. E tal foi o nosso embasbacamento, que à hora do almoço, o Ferreira, que era curioso, não resistiu a experimentar a consistência da pintura com a unha. Resultado: um rasgãozito de dois milímetros no canto inferior esquerdo. Quando o Professor entrou para as aulas da tarde, que também ele andava embevecido com o fenómeno, foi mirá-lo de perto. E olha se lhe escapava o rasgãozito! Foi uma das mais feias tareias que nos foi dado ver.

Embora por vezes exorbitasse na abundância das reguadas (quando o víamos branco, os lábios finos como lâminas e as aletas do nariz fremindo, já sabíamos que vinha aí tempestade!) hoje estou em crer que ao rigor de tal regime, que não apenas ao nosso brilhantismo intelectual, se deve ter deixado atrás de si uma das aldeias mais alfabetizadas de Portugal e a escola de Rebordainhos a pôr o ramo entre as mais produtivas do concelho. Isso a que hoje se chama sucesso escolar e se fabrica com sucessivos abaixamentos da bitola de exigência.

Já naquele tempo ele ensaiava uns tenteios do ensino experimental, trazendo o quotidiano para a sala de aula: uma plantazita, uma folha de árvore, postais… E um dia, para nos falar de cerâmica e para nosso deslumbramento, apareceu com uma chavenazita chinesa miniatural do seu serviço de chá a que chamou de porcelana de casca de ovo. E era de facto fina que nem casca de ovo, para desdouro das nossas toscas malgas de Massarelos em que migávamos o caldo!

As gentes da aldeia estimavam-no e ele, embora com alguma distância, tratava-as sem sobranceria, com natural urbanidade e gostava da terra como se nela tivesse nascido. À sua queda para arquitecto que se ficou a dever o traço da única fonte artística da aldeia em pedra lavrada, no pequeno largo do Pelourinho, a olhar para o adro, com uma certa graça levemente neoclássica. Ainda hoje lá está, como sempre sem verter uma pinga de água e não sei se alguma vez terá tido outra finalidade que não fosse a decorativa.

Os tempos que a ensinança lhe deixava livres passava-os ele na sua quintinha, logo ali à saída d’À-Chave, em Vale-d’Espada (nome lindo, a evocar cavalarias medievais!...) onde mais tarde viria a construir moradia e onde ensaiava experimentações na área da botânica, num pomar limpo e arrumado que nem sala de estar. Nunca ali entrei que não fosse acometido do receio de trazer agarrada às brochas das botas alguma lama da que as vacas largavam em trânsito pelos caminhos da aldeia. De certa maneira esse pomar representava para a minha mente infantil um esquisso do Paraíso Terreal. E não tanto pela inacessibilidade dos muros altos, mas sobretudo pela abundância e variedade das árvores fruteiras, pela esquadria em que elas se alinhavam e, sobretudo, por umas certas maçãs vermelhas enormes que lá reluziam e convidavam o garotio a uma lapada furtiva. A esse tempo, a fruta não abundava na serra, quer porque as árvores de fruto eram uma espécie de luxo sem valor mercantil, embora alindassem as estrema de muitas courelas, quer porque as geadas tardias frequentemente queimavam a fruta ainda na flor. Por isso, aquele esplendor pomífero deixava-me siderado a imaginar que fora com uma maçã daquelas que a nossa mãe Eva pusera às voltas a cabeça do mal-aventurado Pai Adão. Ainda hoje me formigam na consciência algumas que por lá apanhei às escondidas, naquela canada que lhe passava à ilharga a caminho da Galiana.

Que lá, na etérea região onde se premeiam os justos, o Pai de todos o recompense da boa sementeira lançada nas terras ásperas de Rebordainhos.


domingo, 7 de junho de 2009

ROSTOS

IV


O Tonho do tio Arnaldo (Braz) fez o favor de mandar esta fotografia. Para compensar, diz ele, daquelas onde quase não reconhecemos ninguém. Anteriormente já tinha enviado outras. Acrescento duas dessas aqui e, acredito, muitos gostarão de se reconhecer nelas.

(Carregar nas imagens para ampliar)

Café do sr. Víctor Martins (Labaredas)

1:Ramiro (da tia Isabel Pelada)
2: António Gomes da tia Julieta do Gomes)
3: Alfredo (da tia Celeste)
4: Jorge Pereira (Pilatos)
5: António Braz
6: Fernando (do tio Carlos sapateiro)
7: Guilhermino Fernandes (Sortes)
8: António Belisário
9: Eurico (do tio Sebastião)
10: Duarte (do tio Carlos sapateiro)
11: Joaquim (Kung Fu, filho do tio Moreno, irmão do Serrinha)
12:
13: Jorge (da tia Alzira)
14: Alcino Pereira (do sr. Silvério)



"Para comprarmos este equipamento tivemos que justar uma terra para segar o centeio, o que fizemos durante a noite, com a maior parte de nós sem saber por que parte se lhe pegava à seitoura", conta o Tonho do tio Arnaldo.

1: Manuel Ferreira (do tio Aniceto)
2: Tonho (da tia Lídia)
3: Manuel Caminha( Nelzeira)
4: Ernesto da tia Virgínia
5: Evaristo (do tio João Fouce)
6: Pedro (do tio João Fouce)
7: Zé Maria (do tio César)
8: Tonho (do tio Arnaldo)
9: Gilberto (da tia Delfina)
10: Tarcísio (do tio Sebastião)
11: Henrique (do tio Arnaldo)

Não numerei as personagens desta fotografia por me parecer de difícil leitura. O Tonho, se se lembra de quem lá figura, há-de fazer o favor de nos dizer. A mim agrada-me muito, por mostrar a arquitectura das medas, tão bela como a das pirâmides de Gizé. À eira, nunca me lembro de lhe chamar um nome - é, somente, a eira do tio João Fouce, do tio António Piloto e do tio Francisco Chicheiro onde, desde que me lembro, na Páscoa, jogávamos ao cântaro e dançávamos os jogos de roda. A malha é, provavelmente, a da tia Aninhas (Rafael) que, depois de desfazer a sua eira, passou a malhar nesta.

Em primeiro plano, sobre o medeiro com a espalhadoura: Tio João Fouce
Do seu lado direito: Silvério Pereira (do tio Benjamim)

terça-feira, 2 de junho de 2009

EM JEITO DE HOMENAGEM

À SENHOR DONA MARIA

por
Albertina Mateus


Diziam-nos que era “posteira”. O irmão, esse sim, tinha as qualificações adequadas para a função. Por isso é que ela era a “Sr. D. Maria” e ele o “Senhor Professor”. Nada de confusões... Um(a) e outro marcaram, contudo, a vida pessoal e colectiva de uma comunidade inteira durante, pelo menos, duas gerações.

A história recente de Rebordainhos confunde-se, em boa parte, com a dos irmãos Ribom. Eram três – os dois professores já citados mais o Sr. Carlos, personagem mais acessível e popular que apoiava a vida profissional dos irmãos cuidando das terras e do agregado familiar. Solteiros os três, haviam de revelar-se, cada um à sua maneira, nucleares no desenvolvimento cultural da comunidade de Rebordainhos.

Sinto-me na obrigação de deixar registada uma pequena homenagem à mulher que me marcou pelas suas qualidades humanas e profissionais, que foi responsável por eu ter seguido a profissão docente e que, com a consciência profissional que hoje detenho, continuo a admirar profundamente – a Sr. D. Maria.

Como comecei por referir, sempre ouvi dizer que a Sr. D. Maria era posteira. Porque ensinava num posto. Esta era uma outra designação do cargo de regentes escolares criados pelo Estado Novo. Contrariamente ao que se possa pensar, esta medida tomada pelo Regime não visava a alfabetização do povo rural. Constituía-se, isso sim, como um mecanismo de inculcação ideológica, de neutralização das ambições de mobilidade social, de apaziguamento dos espíritos mais inconformistas visando a aceitação da ordem social e política existentes. E procurou diferenciar-se das doutrinas educativas da 1ª República introduzindo alterações estruturais que definem, de per se, os objectivos prosseguidos, de que destaco: o fim da coeducação – rapazes para um lado, raparigas para o outro –, a abolição das Escolas Primárias Superiores responsáveis pela formação de professores, e a redução da escolaridade obrigatória para três anos.

Este pincelado pela política educativa do Estado Novo – necessariamente incompleto e pouco rigoroso – tem como único propósito o contextualizar da acção da pessoa que pretendo homenagear – a nossa professora primária. É que ela, incorporando embora a ideologia em vigor e cumprindo à risca aquilo que o sistema lhe pedia, ultrapassou, de longe, a mera enunciação do que a legislação previa para a função. E apesar de defender que a mulher devia ser, antes do mais, boa esposa e boa mãe, também sempre apoiou a alfabetização das crianças da aldeia, incutindo nelas o gosto pela aprendizagem, pelo conhecimento, apoiando-as nos seus anseios de irem mais longe.

Mas a Sr. D. Maria incorporava em si todos os requisitos de uma excelente profissional da educação. Ela era uma educadora, acima de tudo. Trabalhando em estreita articulação com as famílias, tinha consciência de que tinha de se ultrapassar, de substituir as mães enquanto elas trabalhavam arduamente no campo. E por isso a sua acção não se restringia aos muros da escola. Lembro-me, por exemplo, da sua luta contra o esbanjamento. A quem não guardou ela na gaveta da secretária o molho de lápis de pedra com que nós aparecíamos na aula após a sua aquisição, enquanto aguardava que nós gastássemos o que ela nos entregava até ao limite? “Os pais trabalham de sol a sol, meninas. O dinheiro custou-lhes muito a ganhar...”E quem não se lembra de ela, nas manhãs frias de inverno, mandar a Sarinha para a escola para acender a braseira para que os alunos vindos dos Vales, da Quinta, de Arufe e dos Pereiros se pudessem aquecer quando chegassem (antes de todos os outros, sempre!)?

Esta educação pelo exemplo serviu-me sempre de referência em toda a minha carreira docente. Mas a Sr. D. Maria também já era vanguardista na sua acção pedagógica junto dos alunos. Lembrei-me agora, por exemplo:

- Da utilização da diferenciação pedagógica. Não podia ser de outro modo. Tinha as quatro classes em simultâneo dentro da sala de aula... Enquanto tratava de uma classe ou aluno em particular, os outros tinham tarefas bem definidas que cumpriam zelosamente, através da distribuição de tarefas individualizadas;

- Do recurso frequente à tutoria. É um método que utilizei diariamente com resultados muito positivos. Basicamente, consiste em pôr um aluno como responsável por outro a quem esclarece as dúvidas e ajuda na organização. Lembram-se dos colegas mais velhos que verificavam e corrigiam os trabalhos de casa das classes dos mais jovens? E dos que ela punha a ajudar um colega com mais dificuldades?

- Do apoio pedagógico curricular extra horário que ela também utilizou, principalmente em vésperas de exame. Juntando rapazes e raparigas, lá íamos nós às sete horas da manhã para a escola, para aproveitar as duas horas que antecediam a chegada da generalidade dos colegas...;

- E o caderno diário? Lembram-se dele? Como a regra era a utilização da pedra, a Sr. D. Maria comprava folhas de papel almaço pautadas, quadriculadas e de desenho que ela cortava ao meio e depois formava cadernos alternando o tipo de papel. Cada dia era uma a responsável pela escrituração do caderno diário. Lá ficava o registo do ditado, da cópia, da redacção, das contas, dos problemas, e da ilustração de um dos textos escritos. Querem documento histórico mais relevante? Que é feito desses retalhos das nossas vidas? Será que ainda existem?



Saudade
.
Pelos tempos que já foram. Admiração. Pelo vanguardismo de alguém que me serviu de referência. Gratidão. Por saber que muito do que sou hoje a ela o devo. Felicidade. Porque, seguindo o exemplo de alguém, me senti realizada. É que tenho a certeza que ambas fizemos coincidir os nossos projectos de vida com os nossos projectos profissionais.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

NOVIDADE

Isto é uma novidade e uma estreia absoluta. A meu pedido, a minha irmã Albertina aceitou escrever um texto sobre a senhor dona Maria, tendo em conta que o Tonho me tinha enviado um outro sobre o senhor professor e me parecia que as coisas ficavam desequilibradas para o lado masculino. Amanhã publicarei o escrito da Tina; dias depois será a vez do do Tonho.

Agora, meus amigos, tenham paciência, mas vou-me atirar uns foguetes.