Na paisagem, o nevoeiro cria um véu atmosférico lembrando-nos que o Natal está à porta. As casas estão abastecidas de pão para a vida e de lenha para o lume. Deus nosso Senhor cuidou de nós mais um ano.
domingo, 29 de novembro de 2009
SINAIS DO TEMPO A PASSAR
Na paisagem, o nevoeiro cria um véu atmosférico lembrando-nos que o Natal está à porta. As casas estão abastecidas de pão para a vida e de lenha para o lume. Deus nosso Senhor cuidou de nós mais um ano.
terça-feira, 24 de novembro de 2009
ROSTOS
Desta vez nem me atrevo a pedir que se identifique mais alguém a não ser os nossos estimados professores. No entanto, se alguém quiser tentar, sinta-se à vontade. Assim sendo, o desafio consiste em tentarmos identificar os lugares fotografados.
1 - Fonte da Vila, à descida para a canada da Ribeirinha ?
2 - Vale de Espada, avistando-se a Cabeça?
Lugar:
1 - Eira da cabecinha, vendo-se a casa velha do tio Mandinho?
2 - Horta da tia Estefânia, vendo-se a casa do Moreno?
3 - Horta e casa do tio Jarrete?
4 - Largo do prado e casa da Maralha?
5 - Terra do tio Carlos Chiote e palheiro anexo à casa da residência?
6 - Eira do Outeiro e palheiro do tio José Çuca ?
7 - Terra frente à casa do tio Carlos Chiote. A casa seria a primitiva do tio Alfredo Guerra, deitada abaixo. Ao fundo, a parte baixa da eira da Cabecinha
A segunda fotografia foi alvo do maior número de alvitres. Lidos e cotejados todos os comentários, penso que devem ser excluídas as hipóteses 2,3 e 4. As restantes parecem-me mais verosímeis, mas carecem de confirmação. A ver vamos, se conseguimos.
(Actualização feita em 12/12/09)
domingo, 15 de novembro de 2009
EM TORNO DAS CASTANHAS
Espero o contributo de todos e, à medida que forem surgindo na caixa de comentários (ou no e-mail), tratarei de os acrescentar aqui.
Começo com os comentários que o Tonho do tio Arnaldo e a Augusta escreveram ao artigo anterior:
O S. Martinho] era o dia do famoso magusto que fazíamos (quando não dava para o fazer no 1.º de Novembro) entre rapaziada jovem, lá para os lados de Cadavez. Cada um levava algo para comer ou beber: marmelada, nozes ou figos secos, aguardente ou vinho doce, porque a jeropiga não se encontrava facilmente. Enforretávamo-nos todos, cantando e bailando em volta das castanhas assadas no meio das giestas, cheias de cinza, estoirando como se fossem os foguetes da festa.
Quanto aos magustos em Rebordainhos, apenas me lembro deles no dia 1 de Novembro. E que paródia. Um dos últimos culminou com a prova da aguardente que o Rafael estava a fazer! Bem, não imaginam a figura dos pares dançantes, no baile que se seguiu na casa do povo!
Os dois avós do meu marido foram combatentes em França e, depois que vieram, todos os dias 11 de Novembro festejavam e, nomeadamente em casa dos pais do meu sogro, era dia de rancho melhorado. Ano, após ano, assava-se um cabrito, para comemorar este dia.
Gosto de dizer "magosto" porque foi assim que aprendi, soando-me aquele -o- de "gôsto" mais apelativo e conforme à quantidade de sensações boas que, na minha infância, associo à castanha. É verdade que castanha me lembra bailarico e cantigas (como era aquela que dizia que os homens são como a folha do castanheiro?), dedos espetados à cata delas por entre as brasas e, depois, mãos a atirá-las ao ar, como quem está a jogar às jogas, para as arrefecer. Lembra-me, ainda, os sopros que eram risos, a algazarra e o cheiro bom do fruto assado na brasa perfumada da giesta.
Mas o que mais me lembra é o riso bom do meu pai que regressava a casa, sempre, com os bolsos cheios de bilhós. O riso dele era de deleite pela alegria que, sabia, proporcionaria aos filhos e nessa alegria estava toda a paga que contava receber da vida.
- "Ora mete a mão no meu bolso!", dizia, pondo-se a jeito. E nós tirávamos mãos cheias de castanhas assadas, já descascadas, que nos sabiam muito melhor do que quaisquer outras.
Em garotos aceitamos as coisas como são, mas agora ponho-me a pensar qual seria o milagre que fazia com que os bilhós mornos nunca se acabassem nos bolsos do meu pai.
Chegava Novembro, chegava o magusto.
Acontecia sempre antes de o tempo começar a enfarruscar, antes de as silvas adormecerem brancas nas sebes. Era o despedir dos longos dias quentes de Verão.
Viviam-se alegres momentos de convívio. Lembro-me que, para o efeito, se colocavam as castanhas num buraco previamente cavado na terra. Em cima...lenha, muita lenha, que fazia com que longos tufos de fumo se erguessem abertos no céu.
As pessoas enfarruscavam-se e as cantigas desafiavam-se o mais rumorosamente possível. E, à volta de qualquer castanheiro da idade do mundo, os pares levantavam nuvens de pó.
Enquanto as castanhas duravam, prolongavam-se os magustos em casa de cada um e, em cima da lenha a arder, com os movimentos ritmados do mexer do assador enfarruscado, faziam-se bilhós que todos nós íamos descascando e saboreando. Ao mesmo tempo, deixava-se a imaginação correr desenfreadamente e contavam-se curiosas histórias de ladrões ou almas penadas.
Havia sempre novidades a discutir e memórias para lembrar.
Jogava-se ao "esconde esconde, não digas nada a ninguém...", ao "arrebunhana, sobraldana" até cedermos às leis do sono e do cansaço para, depois, sonharmos com castanhas, castanheiros e soutos.
Olímpia Pereira
Dos magustos transmontanos não tenho memórias. Mas da palavra "BILHÓ"... Oh, se tenho... Era assim que o meu pai chamava à minha filha mais velha, quando nasceu, era pequenina,(2,750), e lembro:- Ó Bilhó, vem daí, que (b)vou a conta-te, uma historieta. Feliz, a Bilhó lá se sentava no colo, e o conto acontecia. Já passaram 30 anos, mas ainda tenho saudades!
Eduarda Santos Pereira
Lembro também a delícia das castanhas mamotas "furtadas" do caldeiro da vianda dos cevados! E o jogo a arrebunhana ao serão com os mais velhos, em que eles nos ganhavam quase sempre, mas que no final, para nossa satisfação, generosamente nos devolviam todos os bilhós.
A minha lembrança nesta diversão é com o meu tio Jaime e tio Zé.
Céu Fernandes
quarta-feira, 11 de novembro de 2009
S. MARTINHO
Por esta altura, nas terras da castanha, os donos dos castanheiros autorizam o "rebusco". O rebusco é uma prática secular e funciona como uma interrupção no direito de posse. No tempo do rebusco, aqueles que nada têm são livres de procurar em qualquer terra e em volta de qualquer castanheiro, os frutos que haja ainda por apanhar. No tempo do rebusco lembra-se que Deus deu a Terra e os seus frutos a todos os homens e, por isso, uma pessoa sem alimento é uma ofensa à pessoa de Deus. Deus irmana os homens e, em certas ocasiões, os homens lembram-se disso. Castanha era caldo e era pão; castanha era sustento e sobrevivência. Como negar isso aos irmãos?
Nos campos enlameados da Flandres, a morte era o sustento da raiva. Nas trincheiras nem sequer se sobrevivia: apenas os corpos escapavam à morte. Nas trincheiras, o inferno era de frio e de lama e os danados eram os corpos dos jovens em putrefacção.
Nos campos da morte, talvez alguém se tenha lembrado que era o tempo da castanha. No tempo da castanha assinou-se a paz. Os irmãos só existem se houver paz. No tempo da castanha assinou-se a vida.
domingo, 8 de novembro de 2009
O DEVIR DAS ESTAÇÕES
A nossa terra está assim: linda nos matizes outonais. A chuva que escasseara durante o ano lembrou-se de aparecer, permitindo o reverdescer do chão já agradado. Lombos e chãeras, solheiros e absedos tingem-se de cor, última garridice antes que o Inverno instale a sua austeridade cromática.
Penso que o rebusco tem o seu fundamento na seguinte passagem da Bíblia:
Quando tu segares a seara dos teus campos, não cortarás rés do chão o que tiver crescido sobre a terra; nem enfeixarás as espigas que tiverem ficado.
Não recolherás também na tua vinha os cachos que ficaram da vindima, nem os bagos que caíram; mas deixá-los-ás tomar aos pobres e aos peregrinos. (Levítico, 19, 9-10)
Não colhas tudo o que Deus pôs à tua disposição, partilha com os pobres e com quem, por ser estrangeiro, precisa de sustento - eis a súmula desta passagem. O rebusco é uma bela materialização da lei de Deus.
Os mais atentos perdoar-me-ão a escolha de versão tão arcaica do texto bíblico, opção que justifico, exclusivamente, pela poesia que lhe está intrínseca e que sinto ausente de algumas traduções mais modernas.
Fotografias da Olímpia (Nov. 2009)
terça-feira, 3 de novembro de 2009
ROSTOS
Vamos abrir mais uma gaveta das nossas memórias. Esta será mais fácil, porque mais recente. Quem se lembra, então, das pessoas destas duas fotografias?
Maria da Conceição Pires (Tia Vermelha)
quinta-feira, 29 de outubro de 2009
Sérgio Godinho


Muitas frases que disseram…
E não falaram.
Muitas coisas que fizeram…
E não acharam.
Muita vida, muita vida, muita vida…,
Muita vida por eles vivida.
E nós aqui, e nós aqui, e nós aqui…,
Até pensámos que partiste,
Sem saber de ti,
Num ardor amargo e triste.
Julgámos a vida
Por tudo o que fizeste,
Julgamos a vida
Por tudo o que fazemos,
Nas alegrias que tanto nos deste,
Julgamos a vida, julgamos a vida,
Por tudo o que temos.
Sai dessa moda, sai dessa moda, sai dessa moda….
Que o tempo fina.
E com a cabeça a andar à roda,
Sai dessa moda,
Sai desse ardor que contamina.
Assim serás, assim serás, assim serás…
Outra mente, outro canto, outro ser,
Sai assim e verás,
Como afinal ainda é bom viver.
Assim verás, assim verás, assim verás….
E não olhes para trás.
Não olhes para trás.
Peço a todos que mantenhamos o nível habitual desta página e que só entremos em diálogo com quem aceitar participar com o respeito e a elevação necessárias.
Fátima
quarta-feira, 28 de outubro de 2009
Sementeira

Por tudo o que me fez lembrar, sementeira, acarreja e outras recordações que se adivinham, dedico-lhe este soneto. Sem o comentar
Desculpem-me todos
E com fios de lágrimas caindo,
No sulco que o arado vai rasgando,
Atiravas sementes de alegria,
Palmo a palmo lançadas todo o dia.
Com teus pés, descalços abraçando,
A terra que Deus lhe abençoou,
Sentia o ser do fruto que saindo,
Calava a dor da fome que matou.
Lá ao fundo uma roseira brava,
Mil braços abertos de liberdade,
Como cantos da minha amizade…
Canto-te só a ti rosa brava,
Que das lágrimas só que tu lançaste,
Este feto para sempre marcaste.
sábado, 24 de outubro de 2009
TERRA AMADA
por
ANTÓNIO BRAZ PEREIRA
O telefone tinha acabado de chegar, e o primeiro rádio fazia também a sua aparição, para a felicidadede quem gostava ouvir música, notícias, as novelas da “Maria” mas, sobretudo, o relato de futebol. Creio que o tio João Santo foi o primeiro a comprar um Grundig grande, com quatro ou cinco teclas como as dos acordeões.
Tempos antes começaram as explorações de água, junto da casa da tia Laura, e as canalizações feitas pelo povo, para junto das casas. Aparecia igualmente a electricidade, mas só tempos depois foi comprado um televisor para a casa do povo do Outeiro, obra do Sr. Professor e do Basílio, e mais jogos, como: pingue-pongue do qual se faziam grandes disputas, dominó e damas, para ocupar os domingos chuvosos. Entretanto, para ver jogos de futebol da selecção, fomos várias vezes a pé, pelos Montes, até Bragada, onde uma senhora amável nos acolhia e permitia que os víssemos.
Hoje, é com grande nostalgia que recordo a minha linda terra de outrora e as maravilhas que o progresso derrubou, como a fonte do Espinheiro, onde tantos jovens se sentaram, conversaram e, até, namoraram, fingindo as moças, à noitinha, que vinham buscar água de que nem precisavam, mas tinham a certeza de que, ou pelo caminho, ou junto da fonte, encontrariam jovens das suas idades, e o fingimento devia-se à severidade dos pais e à pouca liberdade com que éramos educados naquele tempo. Também chegou a vez à minha vizinha, a Fonte Grande. Nela, as mulheres vinham encher, de água fresquinha, as “bilhas de barro” compradas nas feiras, porque em Rebordainhos apenas havia a Olaria do “Tio Vento” do livro da terceira classe. Também neste lugar se podem contar histórias verdadeiras, de um viver simples, natural, sem vergonhas ou invejas.
O prado tinha uma magia encantadora. Não era um largo qualquer, construído por arquitecto de renome, pois, nele, apenas o tanque de duas bicas e o poço de lavar deviam a homens bem inspirados a sua construção. As duas árvores magníficas foram plantadas por dois estudantes que, talvez, já tivessem partido quando elas caíram, mas os que ficámos, pequenos e grandes, sentimos um vazio imenso, porque elas faziam parte integrante da nossa vida real. Por sua vez, também a fraga desapareceu: por se encontrar no lugar errado, ou talvez por ser de granito natural, grande demais; quem sabe porquê?...
Aquele espaço do Prado foi sempre considerado suficiente para a realização de jogos ou, simplesmente, trocar impressões junto das tascas, em volta de um “quartilho” de vinho. Os mais novos tinham a Eira do Outeiro para jogar à bola, mesmo sabendo das barafundas do tio Zé Çuca porque lhe partiam as telhas do telhado da casa. O polidesportivo, construído nesse lugar, retirou o encanto de se percorrer a distância que o separa do campo da Cabeça que, de tão pisado, se ia cuidando da invasão das carvalheiras.
Recordo-me de uma aposta feita entre o Sr. Arnaldo e o Carlos Chicheiro que tinha vindo fresquinho dos pára-quedistas. O Carlos partia do Prado e o Arnaldo da eira do Outeiro. Ambos tinham que ir ao campo da bola e voltar ao lugar de partida, para ver quem ganhava. Apesar da grande diferença de idades, o mais novo perdeu, para grande espanto dos presentes, que tinham votado nele!
***
Apesar de haver lugares mais costumeiros, jogava-se e brincava-se em qualquer sítio: ao cepo, ao pingue, à relha, ao bate-cu... mas isso fica para a próxima!
quinta-feira, 15 de outubro de 2009
TERRA AMADA
por
ANTÓNIO BRAZ PEREIRA
Ilustrações: peças de artesanato da autoria de Carlos Águeda
A BATATA
Vivia-se essencialmente da agricultura: batata, centeio, um pouco de trigo, linho, castanha, mas também da posse de gados de ovelhas, cabras ou vacas. A batata, cultivada nas terras mais férteis, ditas “fundas”, era semeada manualmente, trabalho da competência exclusiva das senhoras que as iam deixando cair, uma a uma, no espaço de um palmo, à medida que iam marcando o passo pelo sulco fora, rectificando alguma que ficasse menos alinhada, pois só assim condizia com o aprumo do lavrador. Deste, a grande proeza destacava-se no movimento lento e certo dos animais, bois ou vacas, a quem ensinara o ritmo e o passo.
Quatro meses depois surgia a arranca. No Largo do Prado, ao lado do tanque de duas bicas de água corrente onde tanta gente se refrescou e saciou a sede, o olmo e o freixo estavam repletos das sequelas deixadas pelos pregos espetados pelas mãos de sucessivas gerações. Era à sombra do olmo e do freixo que, aqueles que tinham uma safra de toneladas, esperavam o rancho de homens e mulheres, de proveniências diversas mas, sobretudo, de Caravelas (perto de Mirandela), a fim de os contratarem, já que o pessoal residente não chegava para as encomendas. Davam-lhes pousada durante os dias de serviço, num palheiro ou casa apropriada e, quando se acabava o que fazer, o mesmo rancho passava para outro patrão. As batatas eram minuciosamente escolhidas em três categorias: consumo, semente e miúda (para os porcos).
Para melhor conservação, a maior parte das batatas eram metidas em ”silos”: abriam-se covas com cerca de vinte centímetros de profundidade e metro e meio de largura, variando o comprimento de acordo com a quantidade a ensilar. As batatas eram depositadas em pirâmide e rigorosamente emparedadas, depois cobriam-se com a palha alta e direita do centeio, numa espessura de dez centímetros, e, por fim, acrescentavam-se três de terra por cima. As certificadas eram levadas para Rossas e as outras guardavam-se nos palheiros.
Cultivar o centeio e o trigo era mais um dos grandes acontecimentos da Aldeia. As segadas realizavam-se no Verão, durante o mês de Julho. Como acontecia para a apanha da batata, grandes ranchos de homens juntavam-se no Prado debaixo das duas árvores favoritas. Vinham equipados com seitoura, dedais, colete e camisa de quem se mostra disposto a trabalhar. Alguns calçavam uns tamancos abertos atrás e vestiam calças idênticas às dos cow-boys. Musculosos, apresentando um rosto severo ou ar alegre e juvenil, os que vinham pela primeira vez ofereciam os seus serviços e os outros reencontravam-se com os patrões antigos, se no ano anterior tinham deixado boa impressão e ficado referenciados como bons trabalhadores. A gente da terra chamava-lhes camaradas de segadores, havendo-as pequenas, médias e grandes, chegando estas a atingir os vinte homens. Entre eles havia alguns com funções bem definidas: aquele que animava o rancho, tocando concertina, realejo, viola ou guitarra e começava a cantoria, e aquele que dava de beber, levando vinho num pipo ou cabaça, ou água em bilhas de barro ou em remeias feitas de zinco.
Feita a distribuição pelos diversos patrões, quase sempre ao domingo, os segadores instalavam-se com os apetrechos que traziam e voltavam ao largo do Prado a tocar e a cantar até alta noite. Pela manhã, bem cedo, seguiam a pé, conduzidos pelos patrões, para o local da segada onde se organizavam rapidamente, metendo mãos à obra. Um ou dois de entre eles eram atadores, e não tinham tempo para se coçar. Juntavam as gabelas necessárias para fazer um molho, retiravam uma mão cheia de palha com espiga e, com ela, apertavam, pondo o joelho esquerdo por cima, para melhor unir: num virar de olhos, estava concluída a operação, que parece fácil, mas acreditem que era necessário muito exercício e força para ficar bem. O calor a apertar, o efeito do vinho, e outros factores, contribuíam para haver despiques entre eles, pois nenhum gostava ficar para trás. A água corria-lhes pelas faces e o cansaço notava-se nos rostos. Mesmo assim, cantavam versos dirigidos aos que não aguentavam aquele ritmo desenfreado! Quando terminavam e ceifa naquele prédio, juntavam o centeio numa “murnalheira” em forma de U: molhos ao alto, com a espiga para cima, contando as “pousadas”. Cada quatro molhos fazia uma pousada, que dava um alqueire de centeio, cujo peso correspondia a onze quilos, se não estou errado.
Tanto esforço requeria boa alimentação e em grande quantidade. Pelas nove e meia matavam o bicho com salpicão, chouriça, bacalhau frito ou desfiado, queijo e café. Ao meio-dia, lá ia a dona da casa, ou uma pessoa contratada, levar o almoço bem recheado em colorias, num grande cesto feito de verga e transportado à cabeça. Outras vezes, metia-se o almoço em alforjes e carregava-se um burro com elas. Matava-se uma canhona, ovelha das mais velhas, que se refogava e acompanhava com batata cozidas. Também se preparava arroz com galinha, e muitas outras coisas que ficariam para a merenda, programada para as quatro da tarde. Á noite, era uma alegria vê-los voltar a casa. Tocavam, cantavam e dançavam, como se voltassem de uma excursão ao Algarve. Qual fadiga, qual carapuça! Eram rijos como o ferro!
As malhas eram mais uma obra de entreajuda. Muitas vezes ia-se à torna jeira, mas contava-se também com os que vinham ajudar porque deviam favores. Apesar do sacrifício para suportar o calor intenso e a poeira, nunca havia queixas. As pessoas punham-se nos lugares cujas funções desejavam desempenhar. O lugar mais procurado era o dos sacos, pois havia quase sempre vinho doce, às vezes com ovos batidos.
A arquitectura, tanto das medas como dos medeiros, era outro dos orgulhos dos Lavradores. Havia um pormenor que não passava despercebido: quando a meda estava quase no fim, e se o patrão tivesse filhas solteiras, iam dois ou três rapazes buscar uma delas, para ser transportada, até à malhadeira, nos quatro molhos do começo da meda. Levada no virgo, assim se dizia! No final do almoço, a menina transportada distribuía rebuçados às senhoras e cigarros aos homens.
Pelo ano fora, os cereais seriam moídos nos moinhos de água, com um rodízio e duas pedras devidamente colocadas e picadas segundo a qualidade das farinhas. Do centeio saía apenas farinha e farelo; do trigo extraía-se, o “relão” de cor mais negra, a sêmea, farinha mais fina, e um pouco de farelo. O milho moído fazia igualmente parte dos alimentos desse tempo, assim como os”cussecos”, hoje especialidade dos Países Árabes, feitos da farinha do trigo, amassada e enrolada em pequenas porções, para depois cozer no forno, dentro de cântaras de zinco perfuradas com centenas de buracos.
ACTIVIDADES ARTESANAIS
Profissões exercidas eram várias: havia dois sapateiros. O mais idoso era o Sr. Carlos, homem simpático e brincalhão, com a sua sovela que, de tempos a tempos, passava na bola de cera, para melhor perfurar a sola, batida sobre um seixo, o seu avental de couro, e as cicatrizes deixadas pelas linhas nas mãos, quando as puxava, enquanto realizava com proeza um belo par de sapatos. O Sr. Carlos contava histórias que nunca me cansava de ouvir. Estávamos uma vez à braseira, quando um rapaz, filho de agricultor abastado, lhe veio encomendar uns sapatos em nome do pai. Ouve lá ó rapaz...Tu queres que os sapatos chiem? O puto reflectiu e respondeu: Claro!... Então tens que dizer ao teu pai que me mande uma posta boa de bacalhau, se não, não chiam.
Havia, ainda, um soqueiro, três carpinteiros, um “chicheiro”, cesteiros, latoeiros, tecedeiras, ferreiros dois, alfaiates e costureiras, etc. Figura inesquecível era o tio Hermenegildo Caixeiro que fazia os carros de bois desde eixo ao pinalho, passando pelas rodas e ferragens, engarelas, arado, trasga e até o jugo! Este homem fazia tudo na perfeição, não esquecendo as tarraxas que, bem apertadinhas, eram o orgulho dos que, ainda longe, se ouviam chiar, como a querer dizer que aquele carro vinha carregado com alimentos ou coisa no género. O tio Hermenegildo tinha, também, o dom de saber cantar o fado à desgarrada, como poucos, e a sua reputação era tão grande como a de carpinteiro.
Também se cultivava linho em Rebordaínhos. Semeado em terras mais ou menos férteis, existiam, segundo me consta, duas variedades: o Mourisco, que crescia mais, e o Galego. No tempo da recolha, era arrancado e posto ao alto, em pequenos ”molhos”, para acabar de secar. Depois seria levado para os ribeiros e metido debaixo de água até estar curado. Terminado este processo, levavam-no para junto das casas, ou eiras, onde permanecia mais algum tempo para voltar a secar. Seguidamente era maçado com uns maços feitos de madeira rija, em forma de “quilhas” de “bowling”, sobre cantarias apropriadas. Depois de bem maçado, era passado num “sedeiro para lhe ser extraída a estopa, a qual por sua vez, seria fiada, servindo para tecidos mais grosseiros, como tapetes, meias, panos de limpar etc.. O linho, mais fino e delicado, era tecido em teares, de onde saíam lindas toalhas, lençóis, cortinados e muitas outras coisas indispensáveis ao viver desse tempo. Sobejavam os “tascos” sem utilização, que eram postos em montes e queimados, fazendo a alegria dos mais novos, que os levantavam ao ar, enquanto ardiam. Quase parecia fogo de artifício!
Os Teares eram manuais, ouvindo-se, de longe, a funcionar. A tia Irene, naquela casa do Pelourinho, foi, talvez, uma das últimas tecedeiras a exercer na Aldeia.
sábado, 10 de outubro de 2009
CONTA
Aconteceu entre o meu pai - João Fouce - e o meu tio António - Pincha.
Pois bem, contava o meu pai que no tempo das acarrejas, era costume dormirem nos palheiros, para acomodarem as vacas bem cedo, e bem cedinho partirem para os campos, para acarrejarem os molhos de centeio para as eiras onde faziam as medas.
Ora o tio Pincha, sendo um homem que acreditava que as bruxas existiam, numa dessas noites, botou-se a sonhar com elas. Durante o seu sono, agarrou o pulso do meu pai acreditando que tinha agarrado uma por uma perna.
-"Ó João, risca um lume, ca…, agarrei uma por uma perna! Ca… , e olha que a tem bem grossa!”
O meu pai puxava o braço, tentando libertar-se. Quanto mais o meu pai puxava, mais o meu tio apertava, e gritava:
- “Risca aí depressa ca…, que a gaja quer fugir!”
Finalmente, quando o meu pai se conseguiu libertar e “riscar o lume”, diz-lhe o tio Pincha:
-“Risca o ca…, agora que a gaja já fugiu!”
quinta-feira, 8 de outubro de 2009
TERRA AMADA
por
ANTÓNIO BRAZ PEREIRA
Falava-se de uma Igreja que em tempos teria existido no Lombo de à Igreja, pelo facto de ainda se encontrarem pedaços de telhas ao lavrar e, também, pelo nome dado ao lugar. Houve aí grandes pegas de touros a que nós chamávamos luta. Existia uma rivalidade orgulhosa, tremenda, entre os proprietários dos touros: todos diziam ser o deles o mais forte, o mais bonito, o maior... O Ramiro Alves e o Francisco Martins tinham dois bichos grandes e lindos. Lutaram no Lombo de à Igreja, mas já me não recordo qual deles ganhou. Também o Cândido Pires e o Fernando Jarrete participaram com os seus touros em lutas semelhantes. Outro pretexto de rivalidade era a rua que divide ao meio a povoação: sempre que se organizavam jogos, era o bairro de Baixo contra o de Cima, Cubelo, Espinheiro e Portela contra à Chave, Bairro das pedras e Outeiro.
Da nossa Freguesia fazem parte integrante os lindos Vales, um pequeno aglomerado de casas, mas com gente de grande franqueza e bondade, não esquecendo a coragem, tanto dos mais novos, para virem à escola, como dos mais velhos, que se deslocavam quando a necessidade se fazia sentir. Os Pereiros ficam mais perto e têm maior número de habitantes do que os Vales. A sua festa grande é dedicada ao Santo Amaro, no mês de Janeiro, creio, e fazia o orgulho dos que lá moravam. Porque Pombares também fazia parte da paróquia, realizávamos a Romaria ao S. Frutuoso em Teixedo, local magnífico para repouso, com a sua paisagem esplendorosa, parques em estado selvagem, onde à sombra de numerosas e diversas árvores, junto da corredia e silenciosa ribeira, se comiam copiosas merendas, partilhadas entre amigos e familiares, vindos com fé, assistir à missa anual, mas igualmente para relaxar, conviver, admirar e saborear, numa harmonia de paz e amor. Arufe também tem a sua Capela e o seu encanto, tanto na localização como na terra fértil, sabendo os seus moradores explorar e partilhar o que lá havia de melhor. A Quinta do “ Sepúlveda” rica, airosa e de grandes dimensões, dava muito trabalho, "jeiras" para a subsistência de algumas famílias.
Regularmente, realizavam-se os "dias de concelho", ordenados pelo Presidente de Freguesia, para arranjos de caminhos, limpeza das poças de rega e o demais respeitante à comunidade.
Também não havia automóveis. As pessoas deslocavam-se a pé ou a cavalo e, para irem à cidade, apanhavam o comboio a carvão na estação de Rossas. No regresso de Bragança havia um túnel onde os putos costumavam fazer apostas, para ver quem tinha coragem de o percorrer; outras vezes, punham sebo e pregos nos carris, para que o vagaroso comboio não fosse capaz de subir a encosta próxima.
Nas noites rudes e bravias de Inverno, ia-se velar para casa do vizinho ou amigo, onde se contavam histórias, umas verdadeiras outras imaginárias, e as de “ficção científica”, que incluíam bruxas, lobos, ladrões etc. Em casa do meu avô paternal, pegava ele num cajado, com o qual jogava o” Rectemol “ indo de cabeça em cabeça, e só parava quando acabava a cantilena. Na da tia Aninhas, na Portela, podia-se ouvir até bem tarde, cantar desgarradas e fados, obra do Octávio das Cabanas, irmão da tia Ester, que tinha maravilhoso timbre de voz. O povo entretinha-se do modo que podia. Às vezes, junto das tascas, os homens mediam forças entre si. Contavam que o tio António Trocho levantava do chão, a braços, uma pedra redonda, junto da sua taberna, que pesaria por volta dos duzentos quilos. Eu vi o Ramiro dos Pereiros pegar em dois sacos de centeio, debaixo de cada braço, e transportá-los numa distância de duzentos metros.
No mês de Setembro era a grande festa da Aldeia, cuja animação e entusiasmo se via retratada, mesmo, nos rostos mais pacatos e silenciosos. Dois ou três foguetes, (lançados pelo fogueteiro da Aldeia, se faz favor!) anunciavam o início das festividades, seguidos da Banda, (quase sempre a de Pinela) que, depois de dar a volta ao povoado, parava no largo do Prado debaixo dos famosos freixo e olmo. Os músicos já tinham patrões determinados para o almoço, esperando apenas pela hora da missa e procissão. As doceiras faziam o encanto dos mais jovens que se contentavam com umas amêndoas caseiras, doces económicos, ou uns rebuçaditos, porque o dinheiro também não abundava. Pela tarde, já findo o almoço melhorado, dançava-se ao toque do “auto-falante” saboreando os momentos felizes e harmoniosos dedicados a Nossa Senhora do Rosário.
domingo, 4 de outubro de 2009
Sou eu
_-_The_Olive_Trees_(1889).jpg)
Porque de vermelho não vou chegar.
Lancem brancas fitas ao abalar,
Sem me dizerem para onde vou.
Para chegar lenta, …mas lentamente,
Perfilhei outra mescla multicor.
Ao partir, abneguei sangue e amor,
Mas de branco, fá-lo-ei livremente.
Que o leve tom verde se dilua
Nessa vítrea luz do teu olhar,
Como pureza de cristal em flor,
Tal como sombras nesta vida crua,
Na paleta florida de ardor.
Mas um dia, sei que vou regressar.
Orlando Martins
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Creio que não fica mal lembrar aqui: Gracias a la Vida
terça-feira, 22 de setembro de 2009
ARES DA SERRA
por
ANTÓNIO AUGUSTO FERNANDES
Já de pequenita, a caminho da escola, trilhava o carreirão agreste dos Pereiros até à vila, bisonha, sempre apartada do grupo barulhento dos companheiros. No intervalo das aulas, aperreando o corpito esgalgado nos vestidos de chita pobre, raramente renovados, sumia-se pelos cantos do recreio, sorumbática, como se em todo o lado estivesse a mais, trincando a merenda de malápios ou nozes com o carolo negro de pão centeio. Escanifrada, muito morena, de olhos negros encovados nas olheiras roxas, as pernas magras como canelos afundando-se nos socos de amieiro, nunca os gaiatos travessos e precocemente industriados nos mistérios da vida lhe puxaram as tranças, nunca lhe atiraram nenhum dos piropos ambíguos com que a sua brutidão serrana brindava as mais mimosinhas.
Sem mãe que a apaparicasse e criada com o pai viúvo, eram-lhe desconhecidas as louçanias feminis do trapo mais arranjadinho ou do laçarote garrido no cabelo aos domingos e dias festivos. Mal aprendera a escrever o nome e a desembaraçar-se com as quatro operações, o pai tirou-a da escola, que lhe fazia míngua para o arranjo da casa e levar as duas cabras a pastar pelas bermas dos caminhos. Perdida no corrume monótono dos dias, dos meses, das estações, enclausurada na cozinha negra a cozer as batatas ou a remendar os trapos de cotio, quase só saía para ir à horta buscar um caldo ou para a missa dos domingos, quando a havia. Nem coragem tinha, sequer ao menos, para se atrever a sonhar com o mágico príncipe encantado com quem a todas as moças é permitido sonhar.
Assim, quando o Felisberto começou a rentar-lhe a porta, rondando já os trinta, presa ainda a uma donzelia muito serôdia já para os hábitos procriadores dos Pereiros, foi, naquele pobre peito, um alvoroço de aleluias, galreiras como bando de estorninhos quando o Outono começa a acobrear as ramagens pelos montes.
Tinha fama de fraca rês, o Felisberto. Era torvo de figura, atarracado, cambo das pernas e a pelagem negra e hirsuta quase se emaranhava nas sobrancelhas espessas. Mas era homem, o primeiro homem a olhar para ela como mulher. Alvoroçaram-se-lhe os sentidos e na cardenha do velho Firmino ouviram-se pela primeira vez as endechas dolentes com que é costume as donzelas apaixonadas embalarem os seus queixumes de amor. Suspendia por momentos o arrastar da vassoura de giestas pelo sobrado ou o estreloiçar dos cacos da ceia no alguidar de lavar a loiça e suspirava, devaneando, incrédula ainda destes assomos de felicidade.
Transcorria interminável e tristonha a década de sessenta num Portugal que a guerra de além-mar e a emigração iam dessorando da sua juventude. E até por aquele fim do mundo dos Pereiros, enterrados naquela prega da serra de Nogueira, perpassou o arrepio do eldorado de França. Os moços desapareciam misteriosamente numa qualquer noite e, ao fim de dois ou três anos, apresentavam-se ao volante de velhos chaços asmáticos que, as mais das vezes, já não resistiam à viagem de regresso e deixavam as carcaças a enferrujar pela berma dos caminhos para gáudio da canalha que primeiro os esfandegava de tudo quanto era amovível e depois os usava para esconderijo no jogo do rou-rou. Uma dessas carcaças bem que a aproveitou a Ludovina do Inácio para poleiro das suas pitas que nos estofos do banco traseiro fizeram criação.
Era uma nova fauna que bulia com a quietude das aldeias, arrotando postas de pescada pelas tabernas, muito anchos nas estranhas vestimentas trazidas lá de fora e batendo com estrondo sobre o balcão, roxo de muitos tintos, as notas de cem e até de quinhentos mil-réis com que pagavam as romeias de vinho e cervejas aos patrícios a quem mingara a coragem para deixarem as courelas magras e desafiarem os caminhos do mundo.
Como pedra em poço fundo, caiu-lhe na alma a pergunta da tia Florinda. De atarantada nem atinou que responder. Dar-se-ia o caso de o mandicante ter abalado sem dizer água-vai, sem ao menos lhe deixar um beijo de despedida? Ela bem que lhe estranhara os modos ainda mais esquivos nos últimos tempos… E, na verdade, já não lhe aparecia há mais de duas semanas… Mas atribuíra o caso às esquisitices do feitio sorumbático. Com que então, sempre tinha largado a salto para França com a malta do Chancas! Tentou recompor-se, serenar os nervos eriçados:
– Não, ainda não recebi nada. Mas, mais dia, menos dia, as notícias hão-de chegar.
Não havia dúvidas. Mais dia, menos dia, ele ia dar notícias.
Só que as semanas, lentas, passavam atrás de semanas. Já lá iam dois meses e… nada. Acabaram as cantorias naquela casa e a negra cozinha enevoou-se do antigo ar soturno de endoenças.
– Ó alma do diabo, tu que terás que pareces uma seresma!?... – atirava-lhe o Firmino numa efusão de amor paternal, à noite, à hora caldo.
Ela, muda, esvaída nas sombras do lançadouro, engolia lágrimas e enchia-lhe a malga. Mas só passados três meses, já o cuco cantava alvissareiro pelos soutos, quando o saiote começou de lhe apertar a barriga e o Felisberto teimava em não dar novas, é que a alma se lhe vestiu de luto pesado.
Então é que amaldiçoou o dia em que se lembrara de ir ao nabal prós lados de Teixedo. O mariola aparecera, fingindo um feliz acaso, afagando-a com súbitos gestos de ternura. E ela, a grande tola, tonta de felicidade, enliçada pelas promessas de casamento, deixara-se ir arrastando para a curriça do Tem-te-não-Caias. E ali mesmo, sobre um monte de feno, embeiçadinha de todo, caíra em lhe dar a esmola antes do padre-nosso.
Agora, tudo isso lhe aparecia longínquo, delido na bruma dos dias, agora que sentia aquela vida a palpitar dentro de si. E mais lerdas ainda, mais peganhentas, as horas se escoavam e cada dia puxava por outro dia como um alcatruz puxa outro inundando-o de lágrimas, sem que sequer ao menos lhe chegasse uma palavra de esperança…
Os dias cresceram, os pães alouraram nas belgas e ela já nem saía de casa. Só pela noitinha, cosida com as paredes e diluída nas sombras do entardecer, se atrevia a ir encher o cântaro à fontela da aldeia, sem se atardar em conversas com as demais moçoilas, roída pela vergonha do seu estado e mais ainda pelo desespero do abandono a que se via votada.
O ar abafadiço queimava nos pulmões. No mormaço da tarde, o vento suão soprava em golfadas brutas, soltando gemidos de moribundo nas fisgas do telhado. E, no pasmo deserto das ruelas, soavam os estalidos secos de alguma portada ou cancelo sacudidos pela rajada. No céu torvo, gralhavam gralhas de mau agouro, pontilhando a negro a gaze esgarçada das nuvens altas raiadas de sangue a anunciarem volta no tempo. Depois de uns momentos de acalmia em que o silêncio pesava como chumbo, de novo o súbito sibilar do vento na telha vã. E, logo a seguir, o silêncio coagulava -se outra vez sobre as coisas, mais espesso ainda. O entardecer ia submergindo a aldeia, a escuridão tomava conta da quelhas tortuosas, povoando-as de sombras erradias, prenhes de presságios.
Pobre Paula, imersa na solidão da tarde e no seu abandono!
Onde diabo se metera toda a gente que não se via vivalma?!...
E aquele maldito que não havia maneira de mandar uma linha que fosse!...
O ar abafadiço sufocava-a e as plangências do vento esvoaçando sobre os telhados estraçalhavam-lhe os nervos.
E a estaporada da carta que não havia maneira de chegar!
Nas intercadências do silêncio, de longe, das encostas do Blagoto, chegavam-lhe fiapos desgarrados das cantigas dos segadores, mais arrastadas e dolentes que a ementação das almas nas névoas de Novembro. Eram trovas doridas que falavam das andanças do destino, da fatalidade de se ser pobre, de amores desgraçados, de mágoas mais negras que a morte. E essa melopeia dos segadores, assim desamparada na solidão e nas penumbras da tarde, sufocava-a mais ainda que as rajadas do suão.
Rais partissem a vida de um pobre!
Em vão.
Lá fora a noite cerrara de todo e nas talisgas do telhado o vento gemia a sua ladainha de má sorte.
quinta-feira, 17 de setembro de 2009
ROSTOS
Foi o Rui Freixedelo que me mandou estas duas preciosidades. Voltamos ao desafio?

Lugar - "Pataranhas - cortinhas"
1 - Judite
2 - Aninhas da Eira
3 - Tia Julieta (do tio Eurico)
4 - Tia Bernardete Alves
5 -
6 - Tia Emília (do tio Amadeu)
7 - Tio José Manuel Pereira
8 - Duarte Alves Pereira
9 - Tia Helena
10 - Ramiro Alves
11 - Tio Eduardo Alves
12 - Manuel Alves
13 - Tia Fernanda Alves
14 - Tio João de Deus Alves
Nesta, o lugar só um vidente o descobriria...1 - Sr. Dona Maria
2 - Joana Rosa Alves (mãe do tio António Trocho)
3 - Maria Adelaide Rodrigo (filha de Joana Alves)
4 - D. Graça
5 -
6 -
7 - Tia Emília do Outeiro
8 - Manuel Joaquim Rodrigo (filho de Joana Alves)
9 - Sr. Professor
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Este ano não tirei fotografias da festa, por isso não houve reportagem. Mas o Rui fez o favor de me enviar algumas que podem ser consultadas aqui (carregar no sublinhado).
segunda-feira, 14 de setembro de 2009
Parabéns

A ele e à Lurdes da tia Áurea, porque o Rafael também entrou para Engenharia Informática da Universidade de Lisboa!
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Nota: Se mais alguém tem notícias, assim felizes, a dar, por favor diga-me, que é para eu acrescentar.Será com muito gosto que o faço, à semelhança do que já aconteceu o ano passado.
sexta-feira, 11 de setembro de 2009
ECOS DO MEU SENTIR
A minha mãe estava ainda a acender a lareira e o fumo já enchia a cozinha, naquela manhã de invernia, não se vendo a porta da rua, que estava entreaberta para escoar aquela fumaraça, que a chaminé não conseguia engolir, senão quando se aproximou do cancelo e sussurra:
- Ó Adriano!
- O que é Manuel? – Perguntou a minha mãe, enquanto se levantou da tripeça e se dirigiu ao cancelo.
- Tome lá, Olímpia, é para arroz…
- Diga à Maria que à noite comem cá – retorquiu a minha mãe, que segurava o bicho pelas patas traseiras e acrescentou: é boa! Que lontra!
O dia foi mais um dia de neve e chuvisco e eu, nos meus cinco/seis anos, matava o tempo espreitando a preparação do dito pitéu, que era por todos muito apreciado, enquanto agarrava o gato pelo rabo ou atirava com uns guiços para o lume, que num clarão rápido iluminavam a cozinha, à falta de electricidade. Aproveitava para me espreguiçar no escano, que era todo meu, pois no rés-do-chão havia muitos socos grandes que eu de vez em quando experimentava para meu encantamento.
A noite chegou depressa e à mesa todos nos deliciávamos com a dita. Como não havia noticiário, as garfadas de arroz de lebre eram entrecortadas com diálogos dos adultos:
- Ó Adriano, sabes onde a matei?
- Aonde? Lá prá Penacan? – Alvitrou meu pai, erguendo o pescoço, enquanto se deliciava a chupar a cabeça da pobre defunta. Foi sempre um gosto que meu pai tinha e eu herdei: “fazer de comer”, lambendo aqueles restinhos.
Dando uma gargalhada e mostrando ao mesmo tempo a falta de dentes como a lebre, enquanto dos olhos vermelhos lhe escorriam lágrimas, devido ao fumo e talvez a Baco, acrescentou:
- Na cama, caranvas!
- A esta hora ainda o Moreno anda a pensar onde vai poder abatê-la – retorquiu meu pai.
- O Moreno é bom para as perdizes!... Caranvas, olha que a cadela dele é mesmo boa, mas para a lebre não há como a minha…
Acho que estremeci e até a chama da candeia se contorceu toda, não sei se com o vento que assobiava, se com o mesmo medo que eu. Aquela noite custou-me a adormecer, pois não tinha televisão para ver os desenhos animados. Meti a cabeça debaixo dos cobertores e pensava: "E se aqui na minha cama há uma lebre?" Com o ouvido bem à escuta, não ouvi nada, até que Morfeu tomou conta de mim.
Mesmo assim continuei a gostar de lebre… Só alguns anos depois soube em que cama a dita foi abatida.
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Fotografia retirada daqui
Embora só indirectamente tenha a ver com o assunto, esta página é muito interessante, sobretudo para quem tem crianças.
terça-feira, 8 de setembro de 2009
CONTA
Era tempo de segada. O sr. Alfredo de Arufe, mais conhecido por Carabunhas, estava numa camarada de segadores que fazia a segada de um amo que devia ser muito religioso.
O Carabunhas, querendo fazer boa figura perante o amo, no fim do primeiro dia da segada disse-lhe:
- Eu gostava de rezar o terço, mas esqueci-me do rosário...
Aquilo passou, mas no segundo dia voltou à mesma e nos outros a seguir também. O amo, farto de ouvir as mesmas coisas, atalhou-lhe:
- Ouça lá, se quer rezar o terço não precisa do rosário! Guia-se pelas nozes da espinha: começa cá em cima e quando chegar ao cu é glória!
Imagem copiada daqui
sábado, 5 de setembro de 2009
Como Comentar

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A vantagem de se estar registado é que, se tivermos o nosso e-mail aberto enquanto escrevemos um comentário, o blogger, automaticamente, assume quem somos e não é preciso fazer mais nada.

O nome de um comentador registado surge escrito a azul.
Nota: muito obrigada ao meu sobrinho João Pedro Mata por me ter dado sugestões úteis que permitiram tornar este artigo mais completo.
domingo, 30 de agosto de 2009
A PASTORINHA
de andar ligeiro e bem balançado?
Olha que os caminhos só levam ao monte...
Onde vais menina com ar apressado?
– Vou até ao pasto, guardar o meu gado!
Onde vais menina de corpo delgado
uns olhos de luz e sorriso engraçado?
Sê bem corajosa, nada te amedronte...
Onde vais menina de corpo delgado?
– Vou até ao pasto, guardar o meu gado!
Onde estás menina de tão belo rosto
em dia tão quente do mês de Agosto?
Guarda-te à sombra, que o Sol já abrasa...
Onde estás menina de tão belo rosto?
– Estou com o meu gado, já estou no meu posto!
Onde estás menina de olhos de mar
que o Sol já se esconde, está o dia a acabar?
São horas, pastora, de ir para casa...
Onde estás menina de olhos de mar?
– Vim ver um cordeiro que ouvi chamar!
Ó linda pastora, que fazes ainda,
se o sol já se pôs e o dia já finda?
Olha que o caminho à noite faz medo...
Ó linda pastora, que fazes ainda?
– Dou água às ovelhas e a noite é bem-vinda
Doce pastorinha que estás a fazer?
Esse cordeirinho está-te a aborrecer?
Anda à tua volta, não se fica quedo...
Doce pastorinha que estás a fazer?
– Dou-lhe o meu carinho - a mãe não o quer!
– Preparo-lhe o leite, dou-lhe de mamar
é um "Chega-chega" que estou a criar.
Será meu amigo e meu companheiro...
Meiga pastorinha de rosto faceiro
que a vida te deixe, ternamente, sonhar!
quinta-feira, 20 de agosto de 2009
TIA FERNANDA
Trago-vos a notícia triste do falecimento da tia Fernanda. Deus fez-lhe a vontade, deixando-a morrer serenamente na sua terra, na sua casa e rodeada dos filhos.Como todos os filhos da tia Glória, era uma pessoa meiga, bem disposta e de convívio fácil. Ainda participou, entusiasmada, nos dois convívios que organizámos nos últimos domingos. A fotografia é do primeiro deles e tenho muita pena de não conseguir apresentá-la em tamanho maior.
Aos filhos Duarte, Eduardo, Celina, Maria Helena e Glória e à restante família, as minhas sentidas condolências.

