quinta-feira, 6 de junho de 2013

ARES DA SERRA

O CÃO DO TIO FELIZ

por

ANTÓNIO AUGUSTO FERNANDES


Ó geeraçom que depois veo, poboo bem aventuirado, que nom soube parte de tantos males nem foi quinhoeiro de tais padecimentos!

Fernão Lopes, Crónica de D. Loão I, cap. 148


A Cabecinha era o miradouro de Rebordainhos para o mundo. Na estrema poente da eira da Cabecinha moravam as boas gentes do tio António da Eira. Na estrema de nascente acabava a aldeia e dali alongavam-se os olhos para os longes azulados da Sanabria, já em Espanha, e todo o planalto de vai de Miranda a Mogadouro, todo um ror de terras matizadas em verde e barro que se iam diluindo na tremulina do horizonte. Sempre que meu pai me mandava à tosquia ao Armindo da Eira, não resistia a beirar-me do murete-fim-do povo para o contemplar o sem-fim-do-mundo
Era por aquelas bandas, se bem me lembro, que morava o tio Feliz, cabreiro de profissão já reformado. Dele apenas guardo a difusa memória de um velhito magro e pequeno, arcado sobre uma cajatinha, botas cambadas de couro cru, colete e jaqueta de cotim, em suma, ataviado segundo os ditames da moda para a terceira idade em Rebordainhos. Em passos incertos, apoiado ao porrete, lá vinha ele atravessando o Prado como uma sombra, seguido pelo cachorro que não o largava, indo sentar-se à porta da taberna. Apoiava as mãos sobrepostas à curva da cajata e descansava o queixo sobre as mãos: com todos os vagares do mundo. Porque não tinha concorrência, circunvagava os olhitos miúdos pelo chão à sua volta, com minúcia. Findo o exame, entregava-se à faina de ir arrastando pacientemente, com a ponta da cajata, as piriscas ao seu alcance até junto da biqueira das botas. Feito o montinho, recolhia disfarçadamente o produto da colheita no bolsito tabaqueiro do colete. Descansava uns momentos para não se dar ares de esganado pelo vício dos fortes. Depois sacava de uma mortalha e ia desfazendo uma a uma as beatas recolhidas até perfazer o quantitativo que ele entendia cabonde para um cigarro, magrito e envergonhado. Tais eram os tempos arrenegados! A Segunda Grande Guerra tinha findado havia meia dúzia de anos e as suas misérias faziam-se ainda sentir na magra mantença do caldo adubado com unto e das batatas cozidas com um talo de couve e alumiadas com um pingo de azeite diluído em água do caldo! Um cristão tomado do vício dos fortes nem sequer ao menos avezava os oito tostões para o maço de Kentucky da ordem!

Atão, tio Feliz, como corre essa vida? cumprimentava um que passava.
E o tio Feliz:
O quê? O meu cadelo?! O meu cadelo nem por um conto de réi!
Vinha outro:
Atão, tio Feliz, a apanhar o solinho, Hein!?
O quê? O meu cadelo?! O meu cadelo nem por um conto de réi!
Coitado, surdo como uma porta! Mas, maior que a surdez era aquela estima cega que ele votava ao podengo. Imaginem só: por essa altura a melhor junta de bois da terra tinha sido comprada por quatro contos! O tal conto de réi em que o Tio Feliz avaliava o seu cachorro daria para pagar à roda de uma centena de jeiras a um cavador. Por aqui já podem ver: se a vida corria madrasta para o dono, que apanhava beatas do chão, o que não seria para o rafeiro!
Daí aquele ar desconfiado do cachorro, mais habituado a pontapés (nanja do tio Feliz, claro!) que a mimos: os ossos a furarem-lhe a pele amarelada, de pêlo eriçado das fominhas habituais, pé ligeiro calçado de branco sempre alerta para a debandada.
Quando entregava o dono em casa e o sabia a recato, o cadelo considerava-se forro de suas obrigações e ia tratar da vidinha. Corria a aldeia de lés a lés. Tão depressa se via no bairro do Outeiro como já cirandava pelas quelhas do Covelo, fariscando osso perdido, ou até côdea que fosse! Com toda a sem-cerimónia entrava pelas casas dentro, repassava conscienciosamente os cantos das cozinhas, ia enfiar o focinho no caldeiro da vianda dos recos… daí os pontapés a que se habilitava e com que frequentemente era presenteado. E tal era o à-vontade que ele punha nessas suas andanças pelo povo e metia o focinho em todos os recantos, que o dianho do cão entrou no adagiário da terra. Aquele é como o cão do tio Feliz era dito que se aplicava com toda a propriedade a quem tivesse o feio hábito de andar a meter o nariz em sítios ou vidas que não fossem da sua conta. Será que ainda se usa em Rebordainhos?

Outra moral para esta história do cadelo famélico e de seu dono, o Tio Feliz, acrescida da citação de Fernão Lopes: pese-nos embora tanta crise, já tempos bem piores se passaram. E também estes hão-de passar. Se Deus quiser.


(Este Rebordainhense ainda não estudou o novo acordo ortográfico)

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A fotografia do cão de gado transmontano foi retirada daqui:

7 comentários:

Fátima Pereira Stocker disse...

Tonho

Deus te abençoe por estas histórias que nos vais contando e, através delas, recuperando do esquecimento quem não merece ser esquecido.

E que bem fica o magnífico Fernão Lopes, cronista das glórias (e misérias) pátrias, a encimar mais um capítulo desta crónica de Rebordaínhos que é o "Ares da Serra!"

Beijos

antonio disse...

Olá António! Regalei-me com a tua história contada com delicadeza e requinte, como sempre. Não conheci o Sr. Feliz, e, até devo acrescentar que ouvi falar dele pela 1ª vez... mas, que importa? Passou-se em Rebordainhos, terra que todos adoramos, e este cantinho estava a necessitar da colaboração de pessoas como vós para lhes dar animo e animação. Parabéns, és sempre apreciado qualquer que seja o conto que narres. Abraço

elvira carvalho disse...

Uma excelente história sem duvida.
Quanto ao novo "desacordo" ortográfico não se preocupe, que com semelhante leitura ninguém dá pela forma como está escrita. É muito boa em qualquer idioma ou escrita.
Um abraço

Augusta disse...

Tonho: Já tinha saudades de te ler. Não sei como fazes, mas és sempre um deleite para os olhos, a alma e para as memórias.
Francamente, não conheci o tio Feliz, nem o adágio que dizes ter-se dito em Rebordainhos. No meu tempo falava-se mais do cão do Ernesto.
Beijo para ti e promete que vais aparecer com maior frequência.

Anónimo disse...

Amigo António,

Fizeste-me relembrar as tosquias com o Armindinho (amigo pessoal e grande filosofo) e o seu irmão Horácio com a mágica pedra-hume.

Quanto a cães recordo o meu avô Adriano que da taverna do Victor me mandou atirar com uma "pressão de ar"
para a cadela do Bagueixe (fiel acompanhante) que passava na minha porta.
A distância era enorme, mas, infelizmente acertei.

A seguir foi o ladrar da cadelinha,... Quem foi, seus xxxxxx
e eu a esconder-me atrás do meu avô.

Um abraço

Orlando Martins

Filinto disse...

Olá Primacho!
O tio Feliz não é o mesmo "Tio Florindo"? Os meus pais tiveram um "boeiro" que tinha esse nome e metia o tabaco no nariz, para seu consolo.
Eu era muito pequeno, mas esse nome era muito familiar e em casa todos falavam dele.
Quanto ao acordo ortográfico também não o estudei e já sou burro velho para o aprender.
Quando leio algo sobre Fernão Lopes lembro-me daquela passagem do "Cerco de Lisboa": "Andavam os moços de três e quatro anos pedindo pão pela cidade e se lho davam do tamanho dum noz já o achavam por grande bem".
As minhas desculpas pela transcrição que se serviu da fraca memória deste velho.
Um abraço do teu primacho
Filinto

A. Fernandes disse...

Amigos:

A todos agradeço os comentários benevolentes aqui expressos.
Quanto às observações da Augusta, relativas ao cão do Ernesto e do Filinto sobre o tio Florindo...
Bem, já lá vão uns sessenta anos e eu não posso garantir a historicidade absoluta de quanto aqui conto. "As brumas da memória" deixam tudo um tanto fosco e a recordação da infância envolve as realidades evocadas numa poalha dourada de saudade e talvez... de ternura. A frase "como o cão do Feliz" ouvi-a muitas vezes a meu pai nesse sentido de escrinador (para usar um termo aduzido pela Fátima há uns tempos). Quanto ao resto nada posso garantir como absolutamente acontecido. A única verdade indiscutível é esta: de saudade e carinho pela nossa terra e de respeito por quantos nos precederam, com os seus defeitos e virtudes, mais estas que aqueles.
Um abraço amigo do

A. Fernandes