quinta-feira, 25 de novembro de 2010

ARTESÃOS DE REBORDAINHOS




Por

ANTÓNIO BRAZ PEREIRA




Como diz a adágio: “filho de peixe sabe nadar”, e assim também é com o Carlos Águeda. Para quem se não recorda dele, é irmão do Avelino, tristemente falecido num acidente de moto em Bragança, e do “Birlau” que, como tantos outros desejosos de uma vida melhor, resolveu desertar da terra mãe, rumo à capital ou estrangeiro. O Carlos, com suas mãos de oiro, herdadas do pai que, no seu tempo, manobrava o zinco e com ele realizava peças úteis, dá asas à imaginação e cria obras de arte, miniaturas que iluminam a curiosidade de uns e provocam a inveja dos menos dotados.

Conheci-o miúdo, magricelas, espevitado quando, em tempos, acompanhava com o Sr. Carlos “Chiote”, ou passava por minha casa à procura do meu sobrinho seu amigo Vítor, para uma saída de rotina, que não passava do café, ou de um passeio em volta do povoado. Hoje, que é casado e pai de filhos, apareceu-me por acaso, numa rede social, e um homenzarrão, fisicamente bem constituído, com saúde e boa disposição como aliás sempre denotou. Não lhe tinha agradecido pessoalmente a maravilhosa ilustração de um dos meus textos e já ele me propunha outras peças, frescas de tão acabadinhas de fazer, referentes aos Rebordainhenses: o tractor do Nelzeira, a malhadeira do tio Alfredo Guerra ou do António Chiote e, sobretudo, o carro do macho da tia Emília do tio Aniceto. Sobretudo, por causa do muito respeito e afecto que lhe merece. Embora a não visite frequentemente, tem as suas raízes na nossa terra, aquela que o viu nascer. Na nossa conversa sublinhou o carinho e os sacrifícios da mãe e as vagas recordações que tem do pai que morreu sendo ele de tenra idade.

Apesar de considerada terra fria, Rebordainhos acolheu, carinhosamente, saltimbancos, mendigos e forasteiros que por lá se mantiveram: a Joaninha e seu saco de mão e um caldeiro repleto de coisas desnecessárias e o Camilo, de pele escura por ser africano, que, quando com um copito, tocava batuque com o que lhe vinha à mão. Certa vez em que houve fogo nos os montes, e ouvindo o sino tocar a rebate, dirigiu-se a correr para o local, acompanhando a maior parte da população, com o intuito de apagar as chamas que ameaçavam terrenos de centeio próximos. O Camilo, que seguia correndo à minha beira, ao chegar junto da casa do tio Couceiro viu a Adosinda à porta, dirigiu-lhe estas palavras:

– Ó Sra Adosinda, guarde-me para aí estes dez tostões não os vá perder no incêndio…

Havia também o “Rádio” que permaneceu longo tempo por lá. Penso que a alcunha lhe venha de tanto falar, ou porque trazia sempre com ele um rádio pequeno a emitir música. E o tio Guerra, homem trabalhador e de paz; os ciganos “Laregos” e os do tio Fernando, e tantos outros que, na sua passagem, nos empolgaram com a representação do “Amor de Perdição”, da “Rosa do Adro” e do “Zé do Telhado” nos palheiros do tio Alfredo "Guerra" e do tio João "Santo" apetrechados para tal.

Voltando ao artesanato, lembro o tio Graciano “Grilo” e os seus socos de amieiro aos quais aplicava brochas redondas, se fossem socas das senhoras, ou de duas orelhas se fossem para os homens. Estas ferragens não só impediam as escorregadelas como minimizavam o desgaste rápido do pau. As solas velhas de uns sapatos serviam para a parte superior. Lembro os dois sapateiros, tio Carlos e suas “candongas” e tio João, mais aprumado, já de outra geração. Recordo, também, o Fernando cigano e sua esposa, habilidosos na produção de cestas de verga. A verga tinha tratamento específico: era amolecida em água, depois era descascada e, finalmente, passada pela chama, tudo enquanto estivesse verde, para diminuir o risco de ruptura.

Tínhamos dois excelentes carpinteiros, o tio Hermenegildo e o Rafael, que não só eram peritos na construção de carros de bois, engarelas, caniços, arados, jugos, trasgas como, também, eram capazes de pôr telhados.

Para trabalhar o ferro, as tarefas eram entregues ao tio Ramos na forje de cima e ao "Doutor Carroucho” na da fraga grande do Prado. Os foles gigantes deixavam a miudagem boquiaberta, sobretudo se os via em funcionamento. Sacas e sacas de carvão, feito de cepos de urze e trazidos do Cabeço Cercado e dos Montes, eram despejados na grande pia de cantaria rija, azulada, onde o fole chegava com seu bico de assoprar para acender as brasas e trabalhar “bater” o ferro. O som propagava-se pelo bairro todo, enquanto as fagulhas deliciavam o olhar como se fosse fogo de artifício. Neste lugar, com o saber dos citados, eram apontados ferros de gaviar, pica-chão, ganchas, enxadões, ferragens para as rodas dos carros e respectivos pregos, enxadas, ponteiros, enfim, quase todo o material em ferro fundido.

Tecedeiras, da minha lembrança, tínhamos a tia Irene, com o seu tear de vai e vem, cruzando centenas de vezes, de um lado para o outro, os fios de lã ou de algodão e, mesmo, farrapos velhos recortados em peças sem serventia que seriam usados para fazer mantas de trapos.

Nestes tempos, em Rebordainhos, para além dos nomes de baptismo, quase toda a gente era identificada pela nomeada. O mais graduado, “Juiz”, estava uma certa noite na taberna de baixo, que o Álvaro tinha à sociedade com o tio Carlos “Chiote”, a presenciar um jogo de batota. A noite já ia alta quando um carro da GNR parou à porta. Alguns agentes cercaram o edifício enquanto outros entraram com rapidez e lançaram mãos ao dinheiro que permanecia sobre a mesa. Depois de ter identificados todos os presentes, um agente ouviu um barulhito por detrás de uma porta onde colocavam as pipas. Dirigiu-se lentamente para lá, abriu a porta e, com um foco de luz, apontou para um canto onde o tio Juiz se escondia. – Olha o vinhateiro!!! Disse o Guarda, enquanto este voltava cabisbaixo para junto dos outros, a fim de ser identificado.

O tio Juiz não julgava, nem o Doutor dava consultas, assim como o Engenheiro não assinava projectos, nem o coronel comandava nenhum Batalhão, mas eram pessoas que bem mereciam tais títulos de nobreza, pela dedicação respeitosa e humildade partilhada.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

PEDRO

Não importa por que lado se olhe, a morte é sempre uma coisa atroz. Mais atroz, ainda, quando atinge quem é novo. Hoje levou-nos o Pedro, filho do Rafael e da Ester e meu primo muito querido.

Que Deus o tenha consigo e ajude a mulher e o filho, os pais e os irmãos a suportar tamanha dor.

O funeral será amanhã, dia 24, em Rebordaínhos, pelas três da tarde.

sábado, 20 de novembro de 2010

ROSTOS

Porque é importante que nos lembremos de todos, aqui fica uma fotografia de quem é mais novo. Reconhecemo-los? Como de costume, vou esperar pelas vossas sugestões.




LUGAR: casa da escola

...............1 - Eugénia (da Marquinhas)
...............2 - Carlos (do Evangelista)
...............3 - Josefa (da Ana de Arufe)
...............4 - Marta (da Clotilde)
...............5 - João Luís (dos Pereiros)
...............6 - Rogério (da Marquinhas)
...............7 - Ivone (da Maria Albertina)
...............8 - Cristina (da Maria Albertina)
...............9 - Pedro (neto do Guilherme dos Pereiros)
...............10 - Aires (da Esmeralda)
...............11 - Amaro (da Maria Albertina)
...............12 - Luís (do Fernando)
...............13 - Miguel (da Júlia da Quinta)
...............14 - Sónia (do Valente)

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

PRÉMIO DARDOS

Os mais curiosos hão-de ter reparado que, lá para baixo na barra lateral, estão indicados os nomes (com a respectiva ligação) de alguns blogues. Um deles é o da nossa amiga Eduarda, do Sons e Sentidos, página muito interessante e esteticamente muito bela. A Eduarda, aderindo ao espírito e às regras do "Prémio Dardos", teve a amabilidade de nos distinguir com ele, o que se traduz, já, na segunda distinção. Da primeira vez fui incapaz de cumprir as regras do prémio e, como os burros, mantenho-me tal e qual. Desta vez vou transcrevê-las, mas deixo ao critério dos leitores a sugestão de nomes de outros blogues para que possa indicá-los. Está, pois, nas vossas mãos.

Muito obrigada à Eduarda, pelo amor a Rebordaínhos, pela amizade e pela distinção. E sempre digo que visitá-la em sua casa faz muito bem à alma.

Por sugestão da Lurdes Pereira, são os seguintes os nomeados:

Cousas de Macedo de Cavaleiros, do Cavaleiro Andante
Diário de um Jardim , da Sandra Rocha
Barbitúrico da Alma , do Miguel Pires Cabral


REGRAS:

O Prémio Dardos é o reconhecimento dos ideais que cada blogueiro emprega ao transmitir valores culturais, éticos, literários, pessoais, etc. que, em suma, demonstra sua criatividade através do pensamento vivo que está e permanece intacto entre suas letras e suas palavras.

As regras são:
- Exibir a imagem do selo no blog
- Exibir o link do blog responsável pela indicação
- Escolher 10, 15 ou 30 blogues para dar a indicação e avisá-los.

domingo, 14 de novembro de 2010

CONTAS


PORCA OU VACA?


Era uma vez um homem que foi à feira e comprou uma porca muito grande. Saíram-lhe os ladrões ao caminho e roubaram-lhe a porca. Os ladrões eram os donos da casa onde tinha ficado ao ir para a feira, mascarados. Sem o saber, o homem decidiu pernoitar na mesma casa e os ladrões, para que ele se fosse embora, ao deitar-se, puseram-lhe uma abóbora, partida ao meio, dentro da cama. Mas o homem entendeu tudo! De noite, levantou-se e foi com uma moca à cama do capitão dos ladrões. Batia, batia, batia e dizia:

– É porca ou vaca? Ele dizia que era vaca.

O dono da porca não parava de bater e o chefe dos ladrões disse-lhe:

– Vá àquela gaveta e leve o dinheiro que quiser. Deixe-me!

O chefe e os companheiros, cheios de medo, fugiram para o campo e esconderam-se num nabal. Ficaram com a cabeça no chão e o cu no ar. O dono do nabal foi buscar nabos ao campo e pensava que aquilo eram pedras e sacudia-lhes os nabos no cu. O capitão ficou muito mal. Então, o dono da porca vestiu-se de médico e foi lá para o procurar. Levava um pau cheio de pregos. Continuou a bater e a perguntar:

– Porca ou vaca?

O chefe tornou-lhe a dizer que fosse à gaveta e levasse o dinheiro que quisesse.

O homem vestiu-se outra vez, mas de sacerdote, e a criada dos ladrões chamou o chefe para que se fosse confessar. Novamente lhe tornou a bater:

– É porca ou vaca? E assim continuou, até que lhe despejou todo o cofre.


Moral que eu tirei da história: assim se prova que o crime não compensa!
___________
Encontrei um artigo muito interessante sobre o porco bísaro na página da Confraria de Chaves. Transcrevo só um pedacinho:

J.F Macedo Pinto em 1878 no Compêndio de Veterinária escrevia:
(...) “1º Typo Bizaro ou Céltico – As raças deste typo descendem do javali comum e pertencem exclusivamente à Europa.
(...) “Em Trás-os-Montes, Minho, Beiras e na Estremadura ao norte do Tejo predomina este typo; distinguindo-se suas variedades pela corpulencia côr e maior ou menor quantidade de cerdas. Encontram-se porcos que medem 1,50 metros da nuca à cauda e quasi 1 metro de altura, dando em cevões 200 a 250 kilogrammos. (...)

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

DITOS DO POVO

NOVEMBRO

A minha perspectiva

A perspectiva da Augusta


Do cerejo ao castanho, bem me amanho;
Do castanho ao cerejo, mal me vejo.

Dos Santos ao Natal, Inverno natural.
No dia de S. Martinho, vai à adega e prova o vinho.
No dia de S. Martinho, lume, castanhas e vinho.
Verão de S. Martinho são três dias e mais um bocadinho.
Se queres pasmar teu vizinho lavra, sacha e esterca pelo S. Martinho.
Pelo S. Martinho, prova o teu vinho, ao cabo de um ano já não te faz dano.
Pelo S. Martinho mata o teu porco e bebe o teu vinho.
Pelo S. Martinho semeia favas e cebolinho.
Água-pé, castanhas e vinho faz-se uma boa festa pelo S. Martinho.
Novembro à porta geada na horta.
Trinta dias tem Novembro, Abril, Junho e Setembro; de vinte e oito, só há um, e os mais têm trinta e um.

A castanha tem três capas de Inverno: a primeira mete medo, a segunda é lustrosa e a terceira é amargosa.
A castanha veste três camisas: uma de tormentos, outra de estopa e outra de linho.
A noz e a castanha é de quem a apanha.
Castanha bichosa, castanha amargosa.
Castanha quente, só com aguardente
Castanha que está no caminho é do vizinho.


Altos altentes
carapinhas carapentes
dá uma risada
e caem-lhe os dentes.
............................O que é?

Tenho camisa e casaco
Sem remendo nem buraco
Estoiro como um foguete
Se alguém no lume me mete.

Se me rio... de mim sai uma donzela
Mais donzela do que eu
Ela vai com quem a leva
Eu fico com quem me deu.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

BAIRRO DE À CHAVE [2.ª parte]

por

ANTÓNIO BRAZ PEREIRA

Dedico o meu texto aos filhos de Rebordainhos já falecidos, e aos seus entes queridos vivos, que não puderam visitá-los no dia dos Fiéis Defuntos.

O convívio, entre a população, apesar das diferenças sociais e financeiras existentes era, aparentemente, cordial. Só na aparência porque, na realidade, os pobres eram os que sempre vergavam diante dos que possuíam abundância alimentar, bens ou títulos, uns herdados, outros adquiridos pela labuta constante, árdua e ambiciosa.

Se sondássemos os agregados familiares de Rebordainhos, estes poderiam dividir-se em três categorias: abastança, remedeio e necessidade. Nestes, o provérbio, “casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão”, manifestava-se como uma evidência. Era uma luta constante pela sobrevivência, tendo em conta os magros meios que o destino impunha. Alguns submetiam-se; outros escolhiam o inconformismo; uns eram optimistas e outros pessimistas.

Havia os bons e os maus pais de família, todas elas numerosas devido à falta de meios contraceptivos, sem esquecer a grande influência da religião católica. A concepção de filhos era um automatismo. A submissão da mulher às obrigações de esposa e às exigências incontestáveis dos maridos, muitos deles machistas todo-poderosos, incontroláveis quando à noite, já tarde, voltavam a casa, embriagados e sem um tostão nos bolsos, após longas horas na taberna a jogar e beber copos de vinho, alheios aos sentimentos inerentes ao dever de pais. Revoltados e inconscientes, agrediam os seus: à esposa, fisicamente, com pancada forte; aos filhos, moralmente, pois viam-se chorosos, com fome, e impotentes perante tal besta feroz e capaz de tudo. Estes filhos, por força, haveriam de guardar sequelas e traumatismos para o resto das suas vidas.

Eram essas humildes e dedicadas mulheres que carregavam e transportavam todas as culpas e responsabilidades. Ainda que inocentes, era sobre elas que caíam todas as injustiças e a elas é que era apontado o dedo da vergonha e do desprezo. Muitas foram mães solteiras, com seis, sete ou mais filhos, de variados pais incógnitos, como narravam naquele tempo as certidões do Registo Civil.

Vivia-se num País onde vigorava a lei do mais forte, do mais poderoso; onde os pobres só tinham direito ao silêncio, ao conformismo, à submissão, ao trabalho duro e penoso em troca de um pão de centeio ou de uma cesta de batatas que, à noite, levavam para casa, orgulhosos e felicíssimos por terem algo para matar a fome, pelo menos aquela noite, aos filhos numerosos …

As grandes propriedades pertenciam à classe das casas de “abastança,” que se contavam pelos dedos de uma mão. Vinham por herança, mantinham-se pela persistência no trabalho e acrescentavam-se por compra ou penhoras. Quantas terras penhoradas não puderam ser resgatadas por falta dos 10, 20, 30 ou 50 escudos impossíveis de amealhar! Certas casas, outrora fartíssimas, chamadas “grandes”, arruinaram-se por falta de empenho, zelo e coragem para gerir um trabalho árduo, consistente, embora avassalador. Os pais desleixavam-se, refugiando-se nos jogos e nos copos de vinho bebidos nas tascas, voltando para casa já a noite ia avançada, embriagados e mais endividados ainda, com dívidas que sabiam jamais poder pagar. Esta herança deixada aos filhos contaminou-os, e a maior parte deles seguiram os mesmos caminhos tortuosos de que só se arrependiam nas poucas horas que dedicavam à reflexão. Na sua dependência, o copo de vinho e a batota eram mais apetecíveis, de acesso livre e muito fácil. O choro das esposas e dos filhos já não os comovia, a violência transportava-os ao de lá do auto-controlo emocional, moral e físico, violência sem remorsos, por isso, sem remissão. A questão das dívidas teve, ao longo dos anos da minha lembrança, graves consequências no seio de uma população carenciada e dependente, encaminhada para a delinquência: furtos, assaltos à mão armada e, até, assassínios.

Ser pobre não significava, apenas, não ter nada; era também o desprezo, o abandono, a indiferença, a morte provocada por qualquer doença, ainda que fácil de curar. A doença era pior quando batia à porta daqueles que não tinham um tostão nem conhecimentos nas hostes da saúde pública, como foi o caso daquele miúdo que morreu à mingua, dia após dia, com uma broncopneumonia, por não aparecer no seu caminho uma alma bondosa que o levasse ao hospital, onde a administração de penicilina e dois ou três dias de repouso lhe teriam salvo a vida. Tempos depois, assim já não aconteceu com outro rapaz, com menos dois anos de idade, mas de família privilegiada, que foi salvo. Aos meus ouvidos, e durante toda a minha vida, soarão os gemidos daquele mártir, pedindo socorro! No coração, terei sempre a repugnância pela discriminação social!

No bairro de à Chave não havia ricos e, entre os moradores, existia uma cumplicidade de entreajuda e solidariedade. Também eles se contavam entre os jeireiros, contratados segundo as suas competências: coragem, fortaleza e dedicação para segar os fenos ou o centeios, arrancar batatas, etc., enchendo os palheiros, tulhas, cilos ou adegas daqueles que, tendo mais, poderiam vender o que lhes sobrasse.



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frases de Ben Zoma (04:01 Pirkei Avot)

" Quem é sábio?" - A pessoa que aprende a partir de todas as pessoas...

" Quem é poderoso?" - Aquele que domina a inclinação para o Mal...

" Quem é rico?"- O que se alegra em sua Parte...

" Quem é honrado?"- Aquele que honra os outros seres humanos...

domingo, 7 de novembro de 2010

GENTES DO BAIRRO DE À CHAVE


tio João (Picarete), filho Ricarte com seu filho Filipe e...


Tinha pensado ilustrar a segunda parte do belíssimo texto do Tonho com as fotografias das pessoas que mencionou. Duas circunstâncias contribuíram para que tal não acontecesse. Em primeiro lugar, a falta de resposta de alguns descendentes impediram-nos de coligir todas as imagens que pretendíamos e em segundo lugar, sendo esta determinante, critérios editoriais levaram-me a preferir intercalar as duas partes do artigo do Braz com a publicação das fotografias recolhidas. A segunda parte do artigo, de tão sensível, merece uma leitura sem distracções. Está já agendada para ser publicada amanhã.

tia Angélica e tio Arnaldo................................. tia Maria Cândida e tio João

......
Emídio (Corrécio).................................... Emídio e Ascensão

.
tio César........................................................... tia Hélia

tia Hélia

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

BAIRRO DE À CHAVE


por

ANTÓNIO BRAZ PEREIRA


Sempre que nos ocorrem recordações dos tempos vividos, e à medida que o tempo vai passando (veloz a partir dos cinquenta anos, paciente entre os vinte e os quarenta, lento, muito lento, até chegarmos aos dezoito anos), elas actuam em nós de modo contraditório: ora assumimos conduta reticente à divulgação de um passado, feliz ou então amargurado, ora falamos orgulhosamente das coisas aprazíveis, enquanto tentamos, com manto de veludo, ocultar ou ignorar outras que a realidade dos tempos nos impôs, e que actualmente nos envergonham tendencialmente.

Conheci uma aldeia, a minha Aldeia, onde nasci e vivi e sempre carreguei no meu coração pelos muitos caminhos percorridos. Narrações diversas, divergentes, dissociações, tornaram-se lentamente, profundamente, uma realidade fictícia, que a imaginação pessoal e fértil arrasta pouco a pouco, como um pesado sentimento de culpa, de tolerância comprimida, misturando-se um remorso, saliência de vaidade orgulhosa, da completa realização imortalizadora dos sonhos.

Quando a minha avó (a quem chamávamos mãe Lana) faleceu, teria eu seis ou sete anos. Nessa altura viemos morar para sua casa, situada no bairro de baixo, na à Chave. Era a terceira casita, à esquerda de quem entra em Rebordainhos, vindo de Rossas. Por essa altura a Igreja tinha caído e, por causa das obras necessárias, procedeu-se à transferência, para o Cemitério, dos restos mortais das pessoas aí sepultadas sob o soalho de madeira apodrecida. Também o Cemitério fica no bairro de à Chave.

A primeira casa, caiada e baixa, com umas escadinhas de cimento transversais à rua e uma pequenina varanda que dava acesso à porta da cozinha, era a do tio Benjamim. Uma janelita que, voltada para a rua principal, deixava que a luz penetrasse na sala através dos vidros sujos, era o seu único luxo. Esta família, a quem a má sorte marcou com uma doença visual hereditária, teve, ainda, a desdita de ver um dos filhos, que tinha a minha idade, ser vítima de meningite que lhe trouxe gravíssimas sequelas. O José Augusto viria a falecer com uns vinte e poucos anos, por acidente, numa agueira de um lameiro, lá para os lados da Teixeira.

Montados num burro velho, com uma redução visual de 80%, o tio Benjamim, a tia Elvira e o Zé Augusto lá iam todos os dias, não importa se chovia e nevava ou se fazia sol, levar e trazer o correio, pelo caminho acidentado que era o carreirão de Arufe, num percurso de 4km até à Estação de Rossas. Abrigavam-se do frio e da chuva, ou esperavam a chegada da camioneta que trazia o correio, na tasca do “azeiteiro” junto à estrada nacional, tasca quase sempre cheia de homens jogando às cartas e bebendo uns copitos de vinho tinto. Depois da espera voltavam para Rebordaínhos, ensopados em água ou neve, gelados pelo vento forte e cortante que lhes dificultava o passo e tornava desgastante o caminho, exigindo tudo isso uma coragem extrema e um levar das forças ao limite. Cristão muito praticante, o tio Benjamim, quando em mortórios ou mesas de reza, rezava pelos santos, alguns com nomes um tanto estrambólicos, e até houve uma vez em que, não se lembrando de mais ninguém por quem rezar… rezou pelo “parreco”!

Encostada à do tio Benjamim (com parede meeira), de construção antiga, de pedra rija faseada para o alinhamento e telhado de caleira, ficava outra casa. Uma porta grande e velha dava acesso à cozinha térrea, e na outra extremidade, outra porta com dois degraus para se entrar na grande sala, pelo menos em comprimento, onde se realizaram numerosos bailes e outras reuniões. Essa casa, após a venda, era a casa do Fernando e família, ciganos muito estimados pela população, educados e trabalhadores cujos dois filhos eram amigos da rapaziada com quem conviviam sem complexos nem restrições.

A casa da “mãe-Lana” – a casa de meus pais – também era geminada com outra, que viria a ser doada às duas filhas menores da Assunção, em compensação pela morte do pai no trágico acidente ocorrido na curva dos roubões. Tinha umas escaditas de cantaria (que serviam as duas casas) e uma varanda onde era costume abrigar a lenha da chuva no Inverno.

Neste bairro bem povoado, havia uma encosta enlameada que, de curva tão apertada, foi sempre o cabo dos trabalhos para quem a queria subir com carro de bois ou a motor. Quantas vezes foi necessário rebocar os que ali chegavam e que se ficavam pelo meio da encosta, expostos aos olhares curiosos do Sr. Joaquim “Malino” do Emídio “Corrécio” e do tio “Cachulas” que espreitavam através de uma guarita feita na cantaria (talvez para esse efeito, já que a entrada da casa era por cima, assim como a do tio Carlos Sapateiro), ou nas escadas do tio César!

No pátio do tio Aníbal “Fuseiro”, dividido com outros herdeiros (tia Aninhas e D. Lurdes), raramente nos era permitido brincar, mas, logo por cima da encosta medonha, havia um pequeno largo ocupado em parte pelo sequeiro do tio Francisco “Moreno” onde nos juntávamos para dar ao tagarelo com seus numerosos filhos, ocupando o tempo com jogos tradicionais: Rou-Rou, pedrisca, bilharda, palmada, cepo, roça, pingue, pião, fito, etc. Outros, por precisarem de mais espaço, jogavam-se no Adro da Igreja, cerca de 100m mais adiante, ou na eira frente às casas da tia Gaudência e do tio Júlio “Jarrete”. Do outro lado da rua morava o Tio João “Picarete” com a família. As suas escadas e varandinha de granito, paralelas à rua, deixavam que se subisse por um lado e descesse pelo outro e eram um brinquedo para os garotos que, quando por ali passavam, se divertiam a subir e descer, mas que fugiam apressados assim que, atrás deles, surgia a dona da casa, danada e ameaçadora, com uma vassoura na mão, a dar valente reprimenda por lhe sujarem as escaleiras. Várias vezes entrei nesta casa e me quedei tempos infindos a ouvir o tio João contar histórias da França, da linguagem francesa que tanto amava, escapando-se-lhe uma frase para aqui, outra para ali, mas sobretudo da Guerra de 1914 na qual participara activa e orgulhosamente. Os seus dois filhos nascidos em França guardaram sempre o sotaque. Um deles, o Joaquim, tinha por nomeada o “Malino”, alcunha que lhe assentava como uma luva, como se pode confirmar pela história que se segue:

Certo dia, estava um grupo de rapazes na tasca a conversar sobre as festas e bailes que estava a haver nas aldeias vizinhas. Naquele tempo, todos nos lembramos, fora os próprios pés, quase ninguém tinha outro meio de transporte. Mas o “Malino” tinha já o seu automóvel e, não querendo fazer o caminho a pé, os mais atrevidos arriscaram-se a pedir-lhe:

– Podia-nos levar-nos à festa?
Olhou para eles de soslaio e, sem reflectir, respondeu:
– Levo! Claro que levo!!! Ide-vos lá a vestir…

Os moços não se fizeram rogados. Correram para suas casas, lavaram-se e assearam-se segundo as possibilidades de cada um, enquanto na tasca os mais velhos, vendo que o “Malino” continuava ali descontraído e com roupa de trabalho, suspeitando da malandrice, perguntaram:

– Tu vais assim, rapaz?...
Com um sorriso malicioso, palavras arrastadas e carregadas no rrrr, respondeu:
– Calma ainda não chegarrram…
Dizendo isto, saiu porta fora em direcção à sua residência. Os rapazes voltaram momentos depois e, não o vendo, tomaram a mesma direcção. Chegados à porta da sua casa, como não ouviam qualquer rumor, resolveram esperar. A espera foi longa e, como já começavam a desesperar, bateram à porta. De dentro respondeu uma voz masculina:

– ide-vos à cama que eu já cá estou!

O Emídio “Corrécio” era um dos residentes de Rebordainhos a quem eu, como garoto, mais temia. Também os cães e gatos o conheciam à légua, pelas suas atraganices, bem como o Cesário, seu padrasto, que era pastor dos fidalgos da Quinta. Com o Cesário, o “Corrécio” tem uma história que ficou gravada nos anais da terra. Certo dia, a mãe mandou-o levar-lhe o almoço. O Cesário, tendo já comido as magras batatas acompanhadas de umas cangas e peles de bacalhau, aprestava-se para atacar a malga do caldo de couves, quentinho e saboroso, que a “Magrila”, sua esposa, sempre fazia. Mexia o caldo com vagar e, à medida que ia mexendo, ia ficando perplexo com a cor avermelhada que via. Não tirava os olhos do caldo, mas o seu rosto ia ficando tenso e o gesto trémulo. Decidiu-se pela pergunta:

– A tua mãe cozeu chouriça no caldo?
– Cozeu, cozeu! Respondeu o rapaz, enquanto se ia afastando, não fosse o padrasto dar pela marosca.

O Cesário que, enquanto perguntava, levou a colher ao fundo da malga, viu aparecer à tona uma grande e gorda vaca-loura, como se fosse um camarão cozido.

– Ah ladrão que me querias matar! …
O moço não quis palha nem grão, desatou a correr e fugiu. O casal já dormia quando, muito tarde, o Corrécio se atreveu a entrar em casa.

Continua...

domingo, 31 de outubro de 2010

MEMENTO



............................ Deus, Senhor nosso!...

............................ Quantos são hoje já os olhos
............................ que nos fitam de além-terra!...
............................ Tantos já os sorrisos
............................ cristalizados no barro original
............................ a que volveram,
............................ e volveremos,
............................ no após ódios e paixões!...

............................ Rodeados, dia após dia,
............................ de cada vez mais ausências,
............................ torna-se despovoado
............................ o nosso vasto mundo.
............................ E mais perdidos nele somos,
............................ gasalhados apenas
............................ da frialdade das sombras
............................ dos que partiram,
............................ nossa perene
............................ e silente companhia.

............................ Guarda-os Tu, Senhor,
............................ em teu seio.
............................ E a nós protege-nos
............................ pelos dias breves deste peregrinar,
............................ enquanto aguardamos,
............................ para os nossos ossos,
............................ o aconchego
............................ da mãe-terra que nos gerou,
............................ e, para o espírito,
............................ o regresso à pátria definitiva
............................ de que provimos.

............................ Amen.
.................................................................... AA.


quinta-feira, 28 de outubro de 2010

ROSTOS

[Vou estar fora entre amanhã e segunda-feira. Por esse motivo só posso, em princípio, adicionar as sugestões que surgirem até hoje. Às restantes, adicioná-las-ei quando voltar.

Entretanto, tenho já agendado para publicação automática no dia 1 um belíssimo poema/oração sobre estas datas tão significativas do nosso calendário religioso.]

O Tonho do tio Arnaldo teve a gentileza de me enviar esta fotografia, alargando o desafio de nos (re)conhecermos uns aos outros. Obrigada a ele e a quem lha fez chegar.


Lugar -Casa da tia Olímpia no Outeiro

........................ 1 - tia Julieta do Gomes
........................ 2 - tia Ester
........................ 3 - tia Julieta do tio Eurico
........................ 4 - Aninhas da Eira
........................ 5 - Luisa do tio João Picarete
........................ 6 - D. Clara
........................ 7 - Lúcia
........................ 8 - Adozinda do tio Amadeu Couceiro
........................ 9 - Júlia do Tio César
........................ 10 - Isilda do tio Arnaldo
........................ 11 - Teresinha da tia Isabel Caldeireira
........................ 12 - Hermenegildo "Brotas"
........................ 13 - Tonho do tio Alípio Piqueno
........................ 14 - Baptista Grilo
........................ 15 - Carlos do tio António Atilano
........................ 16 - Gilberto da Tia Delfina
........................ 17 - Elisa do tio Amadeu Couceiro
........................ 18 - Manuel Ferreira do tio Aniceto

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Para Ti


......................................Para Ti

......................................Vamo-nos sentar…

......................................Por hoje já chega, bem sabes…

......................................O sol de meia encosta já quer abalar,
......................................E com o gado acomodado,
......................................Contigo aqui ao lado,
......................................Já podemos conversar.

......................................O que tenho para te dizer,
......................................São sentimentos que trago
......................................De um sentir cândido e amargo,
......................................Deste olhar só para ti.

......................................Sabes Pai,

......................................Aquele dia em que me acordaste,
......................................Para a vida que me entregaste,
......................................Julguei até renascer.

......................................E tu, estavas lá.

......................................Ao acordar, já o sol raiava…
......................................E os teus braços paternais,
......................................Como almofadas reais,
......................................Fizeram-me erguer.

......................................Dos rumos que me traçaste,
......................................Da vida que me ensinaste,
......................................Em parte, eu consegui.

......................................Não penses que fugi,
......................................Por vezes não fui capaz,
......................................Mas levei a vida que escolhi.

......................................Sabes Pai

......................................Agora compreendo,
......................................O afável longo tempo
......................................Que do teu peito abriste
......................................Para me fazer feliz.

......................................Até já.

................................................Orlando Martins - 2010

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

SILÊNCIO...


Por

abcd


Sabem o que me deixa mais feliz quando visito Rebordainhos?

O silêncio…

Este continua o mesmo, não mudou, não necessita de saudades, nem de pedras, nem de putos e muito menos de evolução. Não necessita de saudades porque não as consente na sua ambiguidade, não necessita de pedras ou de suportes porque é em si mesmo um forte indestrutível, não necessita de putos porque os devora nas noites frias de Inverno e não necessita de evolução porque simplesmente não há evolução no divinal.

Atrevo-me mesmo a dizer que só volto a Rebordainhos porque existe esse silêncio, o silêncio da minha mãe reflectido nos seus olhos quando me vêem, o silêncio das paisagens que mudam ciclicamente há décadas sem nunca consentirem essa mudança, mas principalmente o silêncio que me cobre à noite quando vou dormir e ouço as vozes antigas pairarem sobre mim como fantasmas que revejo nas férias. É assim o silêncio em Rebordainhos, puro como a água da Ribeira e ameaçador como os lobos das antigas histórias que nos devoravam em sonhos…

Pergunto-me se será um silêncio só meu, ou se pertencerá aos demais?

Não sei, mas é um silêncio gratuito, que nos é oferecido desde a mais tenra idade e nos é tirado quando nos impomos a vaidade das terras longínquas. Para mim, que deixo hoje as minhas participações neste magnifico blogue, é de longe a característica mais marcante desta pequena aldeia, pois tudo o que antes foi escrito por mim se resume no fundo a esta palavra, ao seu significado, ao seu peso…

...............Silêncio… para que as Saudades sejam sentidas
...............Silêncio… para que as pedras da velha aldeia se ouçam
...............Silêncio… que os putos estão a chegar
...............Silêncio... que eles decidiram ficar
...............Silêncio… pois só assim existe o verdadeiro perdão
Antes de terminar gostaria de agradecer a todos pelas palavras calorosas com que sempre comentaram os meus textos. Obrigado a todos…

Depois gostaria de deixar um abraço especial à Fátima pela simpatia sempre demonstrada e por ter sido verdadeira comigo quando precisei da sua preciosa ajuda.

Por último, espero que não levem a mal o facto de manter o anonimato, é uma escolha minha, e sinceramente não tenho nenhuma explicação válida para vos dar, é apenas uma escolha.

Espero sinceramente que o blogue continue neste caminho, e que continue a desbravar a “ignorância” daqueles que infelizmente não conhecem Rebordainhos…

Cresci e passei os meus anos entre os sábios, e não encontrei nada melhor do que o silêncio
Pirkei Avot 1,17

_________________
Que pena!
Fátima

terça-feira, 19 de outubro de 2010

ROSTOS

Para encerrar o espólio da tia Etelvina, aqui ficam mais estas fotografias. Cá espero as vossas sugestões.


......
... 1 - sr. Casimiro.................................................... 2 - tia Etelvina

3 - tia Eduarda (Seca)

......
... 4 - ................................................. 5 -

Esta destina-se, apenas, a figurar no nosso arquivo porque, naturalmente, todos sabemos quem são: a tia Etelvina e o sr. Casimiro

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

ARES DA SERRA



MALHA À EIRA!...

por

ANTÓNIO AUGUSTO FERNANDES



Ainda o dia vem em casa de Pilatos. Apenas a oriente o céu se carmina de leves tons de cereja madura e já pelas ruas da aldeia se movimentam os mais madrugadores, que, em Agosto, embora os dias sejam compridos como as léguas da Póvoa, os afazeres abundam e nunca as tarefas se dão por findas, por mais que um cristão cirande e moa o esqueleto debaixo da torreira desde que se levanta até ao último bocejo antes de se enfiar nos lençóis de estopa: esta vai à fonte encher os cântaros para os gastos do dia, aquele vai regar o talhãozito de horta nas cortinhas do Prado, outro vai acomodar a cria, que hoje não sobra quem a toque para o lameiro… É um formigueiro álacre correndo por quelhas e canadas.

Se bem que ainda estejamos no pino no Verão, pela manhã já corre uma brisa brejeira que arrepia, e até sabe bem este corre-corre que acalenta o coiro de quem acaba de largar o quentinho da cama.

Subitamente, sobre casas e hortas, soa o clamor, lento e longo, ondulando ao sabor da brisa: MALHAAAaaa… À… EEEeeei…raaaa…! – É a voz tonitruante do maquinista da malhadeira do tio Alfredo Guerra, o João Santa Combinha que gatinhou até ao alto da meda do tio Manuel Frade e de lá lança o pregão anunciando que a máquina está a postos para mais um dia de malha. MALHA À EIRA! e uns decibéis mais baixo, completa o recado: QUE ESTÁ O BACALHAU NA CALDEIRA!...

Homens ajeitando ainda sobre os ombros o casaco de cotim, mulheres ultimando o nó do lenço no cocuruto da cabeça, garotos traquinando em corrimaças, familiares e amigos, mais aqueles que já tornam ou ainda vão ganhar a jeira, enfim, um rio de gente desliza pela rua do Outeiro e desagua na eira do tio Zé Çuca.

Dentre a rapaziada nova, com o viço da idade a incitá-los à folestria, lá se adianta um a desafiar que põe o motor em funcionamento só com uma mão. E põe mesmo! Começa a faina: o dono da malha, o tio Manuel Frade, no seu passo largo e escangalhado, movimenta-se como maestro mal ensaiado pelo meio das gentes, dando ordens e distribuindo ferramentas: espalhadouras de pau de freixo para os que vão atirar os molhos da meda para cima da malhadeira, um engaço para arrebanhar os cuanhos, uma molhada de sacas em que se vai transportar o grão para a tulha, as cordas de palha entrançada, ainda húmidas, para as feixeiras que transportarão a palha para o medeiro, cuja construção em cone é confiada a um esteta mais entendido na arte das pirâmides, desta vez o pequeno tio Bagueixe.

Entretanto algum moço de sangue mais esquentado lá ensaia já beliscão lascivo na moçoila que passa, enquanto um velhote, de queixo encostado ao cabo da ferramenta, recorda, com sorriso maroto a que faltam dentes, os tempos em que era ele o protagonistas de idênticas façanhas.
Iniciava-se assim o ritual de celebração das colheitas a fechar todo um ciclo de canseiras e trabalhos desmedidos. Por isso se sentia no ar uma alegria brejeira de festa pagã, gratos a Deus que é Pai de todos e à mãe terra de cujo ventre nascem os frutos que dão sustento a todos os viventes. Agora as malhas, dentro de pouco a arranca das batatas e, mais lá para os Santos, quando as névoas já descem da serra e a molinha encharca os campos, a apanha das castanhas. A isto se resume a riqueza da serra.

Era assim uma malha há cinquenta anos: uns lançam os molhos do alto da meda para o estrado da malhadeira, com cuidado para que o grão não se esbagoe à toa; aqui, um moço, destro de gestos e flexível de rins, desenvencilha o molho e passa-o ao maquinista, o Santa Combinha, orgulhoso do seu fato-macaco e óculos descomunais de piloto da primeira grande guerra, que o enfia às gabelas pelas goelas da máquina. Pela frente desta, uma passadeira, aos soluços, vai largando a palha que dois homens atiram para longe com as espalhadouras de pau. As raparigas, apapoilando as cabecinhas de alvéloas com os garridos lenços de ramagens, com a ajuda do seu par, engabelam em altos feixes que põem à cabeça e depois, esforçadamente, mas com o donaire de elfos, transportam pela escada de mão esguia, até ao alto do medeiro; por outro lado, em mantas velhas, enfardam-se os cuanhos que outras mulheres transportam para o palheiro. Atrás da malhadeira, os mais maduros ensacam e contabilizam o cereal em sacas de oitenta quilos que os moços mais garbosos transportam para a tulha. E, pela cadência com que os sacos se vão enchendo, comenta-se a fartura ou escassez do ano a partir da proporção entre a palha entrada e o grão saído.

À medida que o sol se eleva para o zénite e o calor aperta, os malhadores despicam-se com gritos guerreiros e, de quando em vez, um grito fino de moça sobreleva o ruído de feira quando algum mariola, ao ajudar a apertar o feixe, adianta em demasia mão lampeira em direcção à parceira que parece não estar pelos ajustes. Percalços ligeiros que depressa se esquecem no ardor do mourejar.

Pelas nove horas, as mulheres que ficaram em casa, à volta dos potes, aparecem com o almoço. Estendem longa fila de toalhas de estopa mesmo ali na eira, à sombra, se puder ser, sobre umas manchocas de palha fresca acabadinha de malhar. Em volta os malhadores agacham-se, como em celebração de rito primitivo. Os de joelhos mais comidos pela artrose lá arrastam um tanganho em que pousem a rabadilha. Salpicando a brancura das toalhas aparecem os mimos que se reservam para estas alturas: primeiro, as travessas do bacalhau tostadinho nas brasas de carvalho, salpicado de rodelas de cebola e aloirado com um fio de azeite, que fazem anelar as narinas famintas. Circulam os enormes pães de centeio e cada um serve-se a gosto com a navalha peliqueira própria ou emprestada pelo vizinho. Começa o repasto e o pipinho de esguicho ou a cabaça vão circulando pelo adjunto: um despesão só em vinho que tem que se comprar, porque a serra não o dá! Por toda a extensão da mesa, as meias esferas de queijo flamengo ou aqueles queijinhos de cabra, maneirinhos e rijos que nem castanhas piladas, provenientes de detrás da serra, Vilardouro ou Cabanas, que os da tia Perpétua e os da tia Zulmira não chegam para as encomendas. Estranhamente e ao arrepio do menu consagrado de qualquer maître, este primeiro repasto finda com largas malgas de café de cevada com leite atulhadas de sopas de trigo.

Assim retemperadas as forças, a faina recomeça com redobrado arreganho. No ar adensa-se a poeira e o suor tomba às bagadas. O patrão, atento, vigia para que o pipinho ou a cabaça cirandem a dar alento, que o calor aperta e o labor é pesado. As meninas mais biquinho de lêndea lá bebericam o seu golito de laranjada (quando o patrão é mais mãos rotas) ou copos de água fresca da Fonte Grande (que a da Canada do Outeiro há muito que não presta para beber). E os dos sacos, porque a tarefa é mais dura e a tia Maria dos Santos é generosa, sempre avezaram meia dúzia de ovos para bater com vinho e cerveja mais uns pozitos de açúcar, néctar de se lamber o beiço com que retemperam as forças e que ciosamente ocultam da lambarice dos demais.


O ar tolda-se de poalha, o calor aperta, a moinha cola-se à garganta e o pessoal vai limpando a testa à manga da camisa com grande ênfase. E, se o pipinho tarda a passar, lá aparece um mais zãino que atira um molho quase inteiro para as goelas da malhadeira: o motor começa a arquejar, a máquina engasga-se e quase sempre a correia de transmissão salta. Aí temos o percalço transformado em momento de repouso, enquanto o Santa Combinha pula do seu poiso, simulando zanga e com ares de entendido, para proceder ao desengasganço da máquina. O patrão bem protesta pelo tempo perdido e pelo grão que vai na palha, declamando que só lhe saem malandros…
Após breve pausa para umas larachas, tudo recomeça.

Por volta da uma da tarde, aparece um miúdo com o recado das cozinheiras: o jantar está pronto!

Ainda bem, que corpo já estava a pedi-lo. Agora, como o sol está a pino, recolhem à sombra do cabanal em frente da casa do patrão e cada um ajeita-se conforme pode para dar início à função.

O prato de resistência é a infalível canhona guisada. O apetite do trabalhador rural é proporcional à dureza das tarefas a que se entrega. Por isso, era coisa digna de se ver aqueles pratos de esmalte comprados na feira dos Chãos, atulhados com pirâmides de batata farinhota coloridas pela molharanga do guisado e acolitada por dois ou três bons nacos da carne do ovino sacrificado para a função. E repete-se, que a tarde é comprida! A findar, um perfumado caldo de ervanços em que se cozeu o pisperno do cevado e em que a tia Maria dos Santos é mestra consumada.

Pena era que, desta feita, os patrões não tenham descendência, porque, quando da meda já só restassem quatro molhos, a que se dava o nome de virgo, a filha (ou filho, quando só houvesse descendente varão) seria transportada de charola até à malhadeira. Por tal homenagem competia ao homenageado a obrigação da oferta de rebuçados para as malhadeiras e cigarros para os malhadores.

Decerto as gentes daqueles tempos não eram melhores nem piores que as de hoje. Mas havia uma maneira genuína de viver as pequenas alegrias que a vida proporcionava, uma capacidade para se ser feliz com coisa pouca e um sentimento de pertença à comunidade suficiente para ultrapassar as quezílias e pequenas invejas do quotidiano, o que dava lugar a uma disponibilidade permanente para dar uma mão ao vizinho e partilhar das suas alegrias ou desgraças.

Acontecia estas malhas grandes terminarem ainda com duas ou três horas de sol. Então aproveitava-se para despachar uma malha de pobre, daquelas com menos de cem pousadas. Desta vez calhou ao tio Chancas aproveitar esse bocado de sorte que lhe permitia malhar sem mais despesas. Velhote benquisto pelo povo, vivendo da enxada, do muito esgravatar numas leiras pobres e da boa vontade das ajudas, lá agenciava, ano por outro, os seus sessenta, setenta alqueires. Atendendo a quem era, o pessoal avontadava-se e num rufo lá despacharam a deprecada.

É bem verdade que um pobre, quando é mesmo pobre, nem do que é seu é dono: em dia de malha caíam sobre a colheita todos os cobradores como corvos sobre a carniça: ele era a avença do barbeiro, ele era a côngrua do padre, ele era a renda da lameireca das Almas, ele era o diabo a quatro…E, sobretudo, para desonra da Serra, os juros do empréstimo à onzena: para se acudir à fome, quando o ano era mais comprido que a colheita, havia que pedir pão para a boca. Aí, por cada dez alqueires tinham que se pagar onze (daí o negregado nome de onzena). E lá se ia em maquias grande parte da colheita.

O dia findava. O sol despencara já para trás da Serra dos Pereiros e o pessoal ia dispersando. O tio Chancas, que não era homem para desmoralizar e alegrete das pingas bebidas à custa do Manuel Frade, olhava para o pouco que lhe sobrava e agitando uma ciranda acima da cabeça como sevilhana bailando o seu bolero, cantarolava:

Depois da malha acabada,
Aqui está o que me calha:
Uma bebedeira nos cornos
E uma gabela de palha.

________
Na realidade não havia nenhum Chancas em Rebordainhos. A anedota é verdadeira apenas na sua substância.

domingo, 10 de outubro de 2010

ROSTOS

Vamos lá ver se reconhecemos os rostos humanos e a face do lugar. Creio que não será difícil. Peço desculpa pela numeração um pouco desordenada, mas só depois de tudo feito é que reparei que me tinha esquecido da criança com o n.º 19.


........................LUGAR - Eira em frente à casa do tio Júlio, etc. Era dia 13 de Maio (de 1962), dia que, em Rebordaínhos, se dedicava à festa da Sr.ª de Fátima e à realização das primeiras comunhões.

Tendo em conta um comentário que chegou hoje (13 de Outubro), referindo que o Armando nasceu em 1965, torna-se evidente que não pode ser ele a criança ao colo da Marquinhas. Assim sendo, proponho nova identificação: a criança deve ser o Norberto, filho da sr.ª Eduarda. O Norberto tem, exactamente, a minha idade, o que bate certo com aquilo que vemos na fotografia.


........................1 - tio Júlio "Jarrete"
........................2 - tio César
........................3 - tia Helena (irmã da tia Teresa)
........................4 - "Marquinhas"
........................5 - Zequinhas (da tia Estefânia)
........................6 - tia Estefânia
........................7 - D. Lurdes
........................8 - tio João "Fouce"
........................9 - Sr. P.e Amílcar
........................10 -
........................11 - Maria Beatriz
........................12 - Augusta (da tia Teresa e do tio João Fouce)
........................13 - tia Teresa (do tio João Fouce)
........................14 - Fátima (da tia Teresa e do tio João Fouce)
........................15 - Olímpia (da tia Teresa e do tio João Fouce)
........................16 - António "Cornecho" (da tia Benedita)
........................17 - Teresa "Brava" (da tia Estefânia)
........................18 - Amélia (da tia Teresa e do tio João Fouce)
........................19 - Norberto (da Sr.ª Eduarda)

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

O BUÍÇA




Agora que falamos tanto de República, vem a propósito lembrar que tudo começou com um crime horrendo: o regicídio. Este é dos assuntos que gera debates mais acesos entre os historiadores, mas isso não é para aqui chamado. O que vem a propósito é que um dos dois assassinos se chamava Manuel da Silva Buíça e era natural de Vinhais, embora vivesse em Lisboa. Os transmontanos não lhe louvaram o acto e escreveram uns versos a propósito. Assim, mais uma vez da memória do tio Manuel:



...............................O Buíça de Vinhais
...............................filho de boas pessoas
...............................matou el-rei D. Carlos
...............................à entrada de Lisboa.

...............................Logo à primeira descarga
...............................el-rei D. Carlos falou:
...............................-Adeus mulher e meus filhos,
...............................a minha vida acabou!

...............................Ó Buíça, ó Buíça,
...............................ó Buíça, ó ladrão,
...............................mataste el-rei D. Carlos,
...............................tu te deste à prisão.

...............................Ó Buíça, ó Buíça,
...............................ó Buíça de Vinhais
...............................mataste el-rei D. Carlos
...............................com quatro tiros mortais!

...............................E o rei D. Manuel de Bragança,
...............................filho de D. Carlos I
...............................para se livrar da morte
...............................fugiu para o estrangeiro!

Nitidamente, estes versos foram escritos após a implantação da República, porque há um salto no tempo entre as duas últimas quadras.

Diz-me, também, o tio Manuel que uma sobrinha (ou prima?) do Buiça, chamada Gracinda, ia frequentemente a Rebordaínhos (normalmente no Verão) e ficava em casa do tio Pereira. Diz ele que o tio Pereira a conheceu em Vinhais, vila onde ia muito para tratar dos seus negócios. Essa rapariga chorava com vergonha, sempre que alguém lhe falava do familiar assassino.

O regicídio foi amplamente falado na imprensa nacional e internacional. Como não havia a disponibilidade que temos hoje de tirar fotografias, os artigos eram ilustrados com desenhos que tentavam ser fiéis aos factos. Deixo aqui algumas.

.............


Se alguém tiver curiosidade em ler uma descrição dos acontecimentos, aqui fica a página da revista "Ocidente".

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CARTA TESTAMENTO DE BUÍÇA

Manuel dos Reis da Silva Buiça, viuvo, filho de Augusto da Silva Buiça e de Maria Barroso, residente em Vinhaes, concelho de Vinhaes, districto de Bragança. Sou natural de Bouçoais, concelho de Valpassos, districto de Vila Real (Traz-os-Montes); fui casado com D.Herminia Augusta da Silva Buíça, filha do major de cavalaria (reformado) e de D.Maria de Jesus Costa. O major chama-se João Augusto da Costa, viuvo. Ficaram-me de minha mulher dois filhos, a saber: Elvira, que nasceu a 19 de dezembro de 1900, na rua de Santa Marta, número… rez do chão e que não está ainda baptisada nem registada civilmente e Manuel que nasceu a 12 de setembro de 1907 nas Escadinhas da Mouraria, número quatro, quarto andar, esquerdo e foi registado na administração do primeiro bairro de Lisboa, no dia onze de outubro do anno acima referido. Foram testemunhas do acto Albano José Correia, casado, empregado no comércio e Aquilino Ribeiro, solteiro, publicista. Ambos os meus filhos vivem commigo e com a avó materna nas Escadinhas da Mouraria, 4, 4º andar, esquerdo. Minha família vive em Vinhaes para onde se deve participar a minha morte ou o meu desapparecimento, caso se dêem. Meus filhos ficam pobrissimos; não tenho nada que lhes legar senão o meu nome e o respeito e compaixão pelos que soffrem. Peço que os eduquem nos principios da liberdade, egualdade e fraternidade que eu commungo e por causa dos quaes ficarão, porventura, em breve, orphãos. Lisboa, 28 de janeiro de 1908. Manuel dos Reis da Silva Buiça. Reconhece a minha assignatura o tabelião Motta, rua do Crucifixo, Lisboa.


Repare-se na data. Mataria o rei no dia seguinte, em conluio, pelo menos, com outro regicida, António Costa.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

PARABÉNS



Acabei de saber a notícia e é com muito gosto que a divulgo:

A Sofia Pires, filha do Rui e da Silvie, entrou para Enfermagem Veterinária no Instituto Politécnico de Bragança. Muitos parabéns para a Sofia e para os seus pais que, merecidamente, devem estar felizes e orgulhosos.

Que a vida te sorria sempre, Sofia!

sábado, 2 de outubro de 2010

MEMÓRIAS

Vinha num dos velhos livros de leitura (3.ª classe?) e foi-me dita, de cor e de cabo a rabo, pelo tio Manuel:



........................................Em certa aldeia indigente,
........................................isto em tempos já passados,
........................................viviam muito santamente
........................................dois velhinhos bem casados.

........................................A mulher dizia ao companheiro,
........................................juntos os dois:
........................................- Se tu morreres primeiro,
........................................morrerei logo eu depois!

........................................E num coro afectuoso,
........................................ambos diziam ali:
........................................- Eu só peço ao Deus bondoso
........................................que me leve antes de ti!

........................................Nisto, uma pancada forte
........................................na porta se fez ouvir.
........................................Perguntam: Quem é? - A morte!
........................................Venham abrir!

........................................- Diacho, diz o marido,
........................................como há-de isto agora ser?
........................................Tenho aqui um pé dorido...
........................................Vai lá tu abrir, mulher!

........................................Mas ela logo se queixa:
........................................- Valha-me Nosso Senhor,
........................................este flato não me deixa...
........................................Vai lá tu, faz o favor!

........................................E a morte, enfadada,
........................................investiu pelo postigo:
........................................levou os dois velhos consigo!