ANTÓNIO BRAZ PEREIRA
Apesar de considerada terra fria, Rebordainhos acolheu, carinhosamente, saltimbancos, mendigos e forasteiros que por lá se mantiveram: a Joaninha e seu saco de mão e um caldeiro repleto de coisas desnecessárias e o Camilo, de pele escura por ser africano, que, quando com um copito, tocava batuque com o que lhe vinha à mão. Certa vez em que houve fogo nos os montes, e ouvindo o sino tocar a rebate, dirigiu-se a correr para o local, acompanhando a maior parte da população, com o intuito de apagar as chamas que ameaçavam terrenos de centeio próximos. O Camilo, que seguia correndo à minha beira, ao chegar junto da casa do tio Couceiro viu a Adosinda à porta, dirigiu-lhe estas palavras:
– Ó Sra Adosinda, guarde-me para aí estes dez tostões não os vá perder no incêndio…
Havia também o “Rádio” que permaneceu longo tempo por lá. Penso que a alcunha lhe venha de tanto falar, ou porque trazia sempre com ele um rádio pequeno a emitir música. E o tio Guerra, homem trabalhador e de paz; os ciganos “Laregos” e os do tio Fernando, e tantos outros que, na sua passagem, nos empolgaram com a representação do “Amor de Perdição”, da “Rosa do Adro” e do “Zé do Telhado” nos palheiros do tio Alfredo "Guerra" e do tio João "Santo" apetrechados para tal.
Voltando ao artesanato, lembro o tio Graciano “Grilo” e os seus socos de amieiro aos quais aplicava brochas redondas, se fossem socas das senhoras, ou de duas orelhas se fossem para os homens. Estas ferragens não só impediam as escorregadelas como minimizavam o desgaste rápido do pau. As solas velhas de uns sapatos serviam para a parte superior. Lembro os dois sapateiros, tio Carlos e suas “candongas” e tio João, mais aprumado, já de outra geração. Recordo, também, o Fernando cigano e sua esposa, habilidosos na produção de cestas de verga. A verga tinha tratamento específico: era amolecida em água, depois era descascada e, finalmente, passada pela chama, tudo enquanto estivesse verde, para diminuir o risco de ruptura.
Tínhamos dois excelentes carpinteiros, o tio Hermenegildo e o Rafael, que não só eram peritos na construção de carros de bois, engarelas, caniços, arados, jugos, trasgas como, também, eram capazes de pôr telhados.
Para trabalhar o ferro, as tarefas eram entregues ao tio Ramos na forje de cima e ao "Doutor Carroucho” na da fraga grande do Prado. Os foles gigantes deixavam a miudagem boquiaberta, sobretudo se os via em funcionamento. Sacas e sacas de carvão, feito de cepos de urze e trazidos do Cabeço Cercado e dos Montes, eram despejados na grande pia de cantaria rija, azulada, onde o fole chegava com seu bico de assoprar para acender as brasas e trabalhar “bater” o ferro. O som propagava-se pelo bairro todo, enquanto as fagulhas deliciavam o olhar como se fosse fogo de artifício. Neste lugar, com o saber dos citados, eram apontados ferros de gaviar, pica-chão, ganchas, enxadões, ferragens para as rodas dos carros e respectivos pregos, enxadas, ponteiros, enfim, quase todo o material em ferro fundido.
Tecedeiras, da minha lembrança, tínhamos a tia Irene, com o seu tear de vai e vem, cruzando centenas de vezes, de um lado para o outro, os fios de lã ou de algodão e, mesmo, farrapos velhos recortados em peças sem serventia que seriam usados para fazer mantas de trapos.
Nestes tempos, em Rebordainhos, para além dos nomes de baptismo, quase toda a gente era identificada pela nomeada. O mais graduado, “Juiz”, estava uma certa noite na taberna de baixo, que o Álvaro tinha à sociedade com o tio Carlos “Chiote”, a presenciar um jogo de batota. A noite já ia alta quando um carro da GNR parou à porta. Alguns agentes cercaram o edifício enquanto outros entraram com rapidez e lançaram mãos ao dinheiro que permanecia sobre a mesa. Depois de ter identificados todos os presentes, um agente ouviu um barulhito por detrás de uma porta onde colocavam as pipas. Dirigiu-se lentamente para lá, abriu a porta e, com um foco de luz, apontou para um canto onde o tio Juiz se escondia. – Olha o vinhateiro!!! Disse o Guarda, enquanto este voltava cabisbaixo para junto dos outros, a fim de ser identificado.
O tio Juiz não julgava, nem o Doutor dava consultas, assim como o Engenheiro não assinava projectos, nem o coronel comandava nenhum Batalhão, mas eram pessoas que bem mereciam tais títulos de nobreza, pela dedicação respeitosa e humildade partilhada.






























