domingo, 15 de maio de 2011
sexta-feira, 13 de maio de 2011
Parabéns
terça-feira, 10 de maio de 2011
MARIA DA CONCEIÇÃO PIRES
– Quem é bruxa, rapaz?
– É bossemecê, é bossemecê, é bossemecê, que até faz dançar as pitas e parar o relógio da taberna!
Naturalmente, ninguém acreditava no disparate, mas ver a fera a ser enfrentada provocou vontade de rir em todo o mundo, como se de um desagravo colectivo se tratasse. Também eu não acredito na textualidade das palavras do fedelho, mas vislumbro nelas uma verdade profunda: a Vermelha foi capaz de realizar o impossível!
Chamava-se Maria da Conceição e vivia no bairro da Portela, ao lado da irmã Olímpia e à frente da irmã Francisca, partilhando com elas trabalhos e confidências no solheiro em que desaguavam as escaleiras exteriores da casa da Francisca. Aí, aproveitando as horas mortas do dia, espadeiravam o linho ou fiavam a lã a que a Francisca, no seu tear, se incumbiria de dar forma. Pudesse ela, como a parca, tecer a vida e tudo seria bem diferente! Três mulheres, três irmãs, três berços de bons augúrios. Eram netas paternas da família dos Bentos o que, na bitola da escassez do cimo da serra, lhes conferia o estatuto de gente abastada e lhes prometia um futuro desanuviado. A vida se encarregaria de escolher outras linhas por onde escrever!Maria da Conceição nasceu em 1897 e casou-se em 1920, num tempo em que as leis da República já tinham estipulado a igualdade matrimonial entre marido e mulher, embora a notícia disso, se chegou a Rebordaínhos, homem nenhum fez caso dela. Também o seu que, como pinha de casamento, se levara apenas a si e à má índole de que era feito. Ninguém pode dizer que batia na mulher, não por falta a vontade, mas porque o feitio da Vermelha agigantava o metro e meio que tinha de corpo e dava-lhe tal expressão ao rosto e rubor à face que ele não se atrevia. Virava costas e ia-se para a taberna onde jogava e bebia, bebia e jogava. E perdia! Perdia o que não era dele e devia ser sustento dos filhos que, ao fim de uns anos, já eram seis, mais um que era só dele, mas que a mulher acarinhou como se tivesse nascido dela. Umas vezes era o homem que lhe dizia, “perdi tal terra”, outras vezes era o vencedor do jogo da véspera que chamava do fundo das escadas e a informava: “sr.ª Maria, olhe que a sua junta de vacas agora é minha!” “E como vou eu lavrar a terra para dar pão aos filhos?” – teria ela perguntado – “Peça às suas irmãs, que lhe não negarão amparo”.
Depois de deitar os filhos, as horas do serão alongavam-se e davam-lhe tempo para pensar na vida. Concentrava-se melhor enquanto, cadenciadamente, desenhava semicírculos no ar, colocando o polegar de uma mão sobre o indicador da outra e fazendo-os girar alternadamente e em sentido inverso, como quem troca os passos num jogo de roda. Outras vezes descansava a mão esquerda sobre o regaço e acariciava-a com a direita, num movimento dirigido da ponta dos dedos para o punho que lhe fazia arrepanhar ligeiramente a pele e essa carícia era como uma súplica que lhes dirigia: nunca me falteis!
Embora com a casa em desmedrança, ainda tinha com que matar o bicho aos filhos antes de irem para a escola onde, naquele tempo, já leccionavam os dois irmãos Ribom, vindos de Bragança. Apesar de lhe fazerem muita falta para o trabalho, seguira o conselho do cunhado Ramos para quem a aprendizagem das letras era tão importante que até às filhas obrigava a frequentarem a escola. “Um homem tem de saber assinar o seu nome – ter-lhe-á dito – e às mulheres não lhes faz mal nenhum! Não deve ter sido difícil convencê-la, sobretudo porque, em seu entender, filhos instruídos dariam homens melhores do que o pai. A despesa extra lá se pagaria, poupando em tudo o resto.
Desde que os filhos entraram para a escola, a rotina passou a ser outra. A sala, antes só usada nos dias de festa, era agora lugar de estudo, porque a janela que se abria para Norte a tornava na divisão mais iluminada da casa. Nunca a Vermelha faltou a uma sessão de estudo dos filhos. Depois de merendarem, um por um, obrigava-os a recitar a lição do dia e a cumprir os deveres marcados. Espreitava-lhes as lousas onde desenhavam, uns as letras e os algarismos, outros as frases e as contas e comparava tudo com o que vinha nos livros. Só quando via perfeição se dava por satisfeita e permitia que fossem para a rua brincar com os amigos. Nunca confessou se tinha sido premeditado ou se fora obra do acaso, mas de tanto os acompanhar, aprendeu ela própria a ler. Os filhos foram a sua escola!
Nem enquanto a prole estudava, o marido lhe dava sossego. Já restavam poucas leiras dos bens que ela herdara dos pais quando, certa noite, depois de ter perdido nova junta de vacas, lhe chegou com a novidade:
– Dizem que em França se consegue fazer bem pela vida… eu vou para lá e o dinheiro que ganhar mando-to, para sustentares a família!
– Vai! Quem to proíbe? Lá, poderás perder ao jogo, mas ninguém me entrará em casa a buscar aquilo que é meu. Se mandares dinheiro, tanto melhor, não fazes mais do que a tua obrigação! – Deve ter sido esta a resposta que deu.
E ele foi, deixando os filhos tão pequeninos que, na expressão dela, “cabiam todos debaixo de um cesto”. Passados uns meses escreveu uma carta a dizer que ainda não tinha arranjado trabalho; passado quase um ano escreveu a dizer que não podia mandar nada porque estava doente e não podia trabalhar. Foram essas todas as notícias que deu até que, já velho e doente, garatujou um pedido de que o recebesse de volta. Não queria mais nada!
Não tinha filhas mas tinha sobrinhas e afeiçoou-se-lhes como o náufrago se agarra ao lenho, mormente à Teresa que até era sua afilhada e em quem via muito do seu vigor. Ternamente, referia-se a ela como a “çafra”, numa alusão à arte do pai (çafra/safra é bigorna) e ao destemor com que encarava qualquer trabalho que era preciso fazer. Tal amor cresceu ainda mais quando os filhos, já homens, começaram a emigrar, uns para o Brasil e outros para França. A família que a Teresa, entretanto, constituíra tornou-se a sua e reinava nela com direitos reconhecidos de matriarca. Mais tarde, após o casamento do seu António Honorato com a Celeste, haveria de dividir essa soberania entre a casa do filho e a da sobrinha, visitando-os todos os dias e levando para dormir consigo, alternadamente, ora a Maria do Rosário, sua neta, ora a Amélia, sua sobrinha-neta. Eram estas, também, que lhe faziam o agrado de lhe esfregar o sobrado ou os potes, mas nunca saíam sem a recompensa de umas moedas metidas carinhosamente na mão. Foram, elas também, a testemunha de que, apesar de tudo quanto penou, não ganhou rancor à vida nem a ninguém. Certo dia, contam, tendo almoçado juntas depois de uma manhã inteira a apanharem batatas, a tia Vermelha, colocando as mãos sobre o regaço, saiu-se com esta: “assim estejam os nossos piores inimigos!”Os filhos mantiveram-se fiéis e escreviam-lhe com muita frequência. Ela recebia as cartas, beijava-as e recolhia-se para as ler sozinha, não aceitando compartilhar esse momento íntimo com ninguém. Para alguma coisa aprendera a ler! Mas não sabia escrever, por isso, socorreu-se da Teresa e, mais tarde, das filhas desta, para poder dar a resposta. Exigia sempre que a carta acabada de escrever fosse relida, não faltasse alguma das palavras que ditara. No fim, mandava que se acrescentasse: “esta carta foi escrita por … a quem deves agradecer”. E os agradecimentos lá vinham sempre, e era essa a única parte que ela aceitava partilhar com alguém.
A Vermelha nunca vestiu senão saias rodadas e compridas, embora gostasse da blusa justa e do seio moldado pelo corpete. Nos pés calçava botins, invariavelmente. Era, pois, uma mulher do século XIX e só isso justifica que, ao tomar conhecimento do passamento do marido, se tenha vestido de luto e decidido celebrar-lhe missa fúnebre. Parece que ainda perguntou aos netos porque não choravam, se era seu avô, mas estes responderam-lhe que tal homem lhes não era nada. Por causa do luto, e vez única na vida, a Teresa atreveu-se a repreender a tia – que lhe obedeceu.
Maria da Conceição faleceu faz este mês trinta e oito anos. Espero, eu que a tenho como exemplo, ter sido capaz de lhe prestar a justa homenagem. O orgulho de lhe pertencer à família é todo meu.
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domingo, 8 de maio de 2011
PRIMAVERA
"Não há tempo mais alegre

É claro que Maio é, também, o mês de Maria que, para nós, é mais Senhora de Fátima.

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As fotografias são de Maio de 2005 e de Junho de 2010
É claro que Maio é, também, o mês de Maria que, para nós, é mais Senhora de Fátima.

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As fotografias são de Maio de 2005 e de Junho de 2010
sexta-feira, 6 de maio de 2011
TIO ZÉ LUÍS
Deus Pai levou o tio Zé Luís, pessoa bondosa, gentil e jovial. Também pessoa jovem, pois o número de anos não o impedia de querer continuar a aprender. Registei na memória o pedido que fez ao meu irmão: "tu, quando te reformares, volta para cá, porque os velhos precisamos de quem nos ajude a ler melhor!" Já não foi (fomos) a tempo. Tenho tanta pena, tio Zé Luís!
Que Deus o abençoe e o guarde ao pé de Si e da sua Ascensão que nos deixou há tão pouco tempo.
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domingo, 1 de maio de 2011
ÀS NOSSAS MÃES
terça-feira, 26 de abril de 2011
sábado, 23 de abril de 2011
PARA MATAR SAUDADES
Para os ausentes e saudosos, deixo aqui estas fotografias tiradas pela Augusta.
E deixo também a letra de um jogo de roda que dançávamos na eira no domingo de Páscoa. Cantávamos tão bem e éramos tão felizes! Lembro que os versos se repetem dois a dois:
Ai, se o loureiro não tivesse
Ai, pelo meio tanta rama,
Da minha janela via
Os olhos à minha dama.
REFRÃOAi, tudo é dançar, dançar,
Ai, tudo é dançar assim,
Vá de roda com seu par
Vamos dançar ao jardim.
Vamos dançar ao jardim,
Ai isso é se eu quiser,
Nem você é meu marido,
Nem eu sou sua mulher...................................................
....................................................
....................................................Ai, se o loureiro não tivesse
....................................................Ai, pelo meio tanta flor,
....................................................Da minha janela via
....................................................Os olhos ao meu amor.
....................................................
E deixo também a letra de um jogo de roda que dançávamos na eira no domingo de Páscoa. Cantávamos tão bem e éramos tão felizes! Lembro que os versos se repetem dois a dois:

Ai, se o loureiro não tivesse
Ai, pelo meio tanta rama,
Da minha janela via
Os olhos à minha dama.
REFRÃOAi, tudo é dançar, dançar,
Ai, tudo é dançar assim,
Vá de roda com seu par
Vamos dançar ao jardim.
Vamos dançar ao jardim,
Ai isso é se eu quiser,
Nem você é meu marido,
Nem eu sou sua mulher...................................................
....................................................
....................................................Ai, se o loureiro não tivesse
....................................................Ai, pelo meio tanta flor,
....................................................Da minha janela via
....................................................Os olhos ao meu amor.
....................................................
sexta-feira, 22 de abril de 2011
SANTA PÁSCOA
Hoje é Sexta-feira Santa, dia de profundo recolhimento. Na nossa infância, todo o trabalho cessava e o silêncio inundava o povo. Em sinal de luto pela morte do Senhor, as mulheres cobriam os cabelos com um lenço. Na igreja, as imagens eram escondidas sob panos roxos e nenhuma flor adornava os altares. Também os sinos se mantinham quedos e as pessoas eram chamadas à casa de Deus por matracas que as crianças faziam soar pelos caminhos.
Cá fora, a natureza dava testemunho da Ressurreição que se anunciava.
Uma santa Páscoa para todos
Cá fora, a natureza dava testemunho da Ressurreição que se anunciava.
Uma santa Páscoa para todos
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quinta-feira, 14 de abril de 2011
ORAÇÕES
DE TARDE
PAI-NOSSOS PEQUENINOS
I
Meio-dia
Pai-nosso pequenino
pelo monte vai rugindo
com as chaves do Paraíso
quem nas deu, que as dera,
Santa Maria Madalena.
Cruz no monte,
cruz na fonte,
que o diabo não me encontre
nem de noite nem de dia
nem à hora do meio-dia.
À honra de Deus e da Virgem Maria
um Pai-nosso e uma Ave Maria
OU
na versão da avó da Fátima Amaral:
Padre nosso pquenino,
pelo monte vai rugindo,
leva as chaves ao paraiso,
quem lhas deu, que lhas não dera
Santa Maria Madalena.
cruz na fonte,
cruz no monte,
nem o pecado comigo se encontre,
nem de noite, nem de dia,
nem à hora do meio dia.
Já os galos pretos cantam,
já os anjos se levantam,
já Jesus desceu da cruz,
para sempre,amém Jesus.
II
Tarde
Pai-nosso pequenino
quando Deus era menino
pôs os pés no seu altar
o sanguinho a pingar.
Tate, tate, Madalena
não mos chegues a limpar
estas eram as cinco chagas
que Deus tinha que passar.
domingo, 10 de abril de 2011
ARES DA SERRA
PASCOELAS
por
por
ANTÓNIO AUGUSTO FERNANDES
Quando raiava Sábado Santo, varriam-se da aldeia as trevas fuliginosas da Paixão, os cochichos ciciados, as horas mortas sentadas à lareira sem nada para fazer, as rezas lamentosas da via-sacra olhando os quadrinhos dependurados das paredes da igreja, com as feias visagens dos judeus que judiavam de Nosso Senhor, ajoelha, levanta, ajoelha, levanta, e Jesus caminhando de Herodes para Pilatos e depois até um monte escalvado, como o Alto do Sirgo, onde ficava crucificado. Com o Sábado Santo, as luminosidades da primavera resplandeciam mais intensas e descia sobre a serra a autorização de se ser feliz novamente, de jogar o pingue e a bilharda, de ir visitar os ninhos que já se sabiam, de se provar o folar.
E era também o dia de descermos em bandos grulhentos até aos lameiros da Ribeira dos Pereiros em cata das pascoelas com que se enfeitassem os pobres casebres serranos e reconquistássemos a alegria de ser Páscoa. Pascoelas: um pequeno luxo doirado para receber o Senhor quando, no domingo, visitasse a casa de cada um. Eram as primeiras flores a aparecer na serra, o anúncio temporão de uma primavera que mal se anunciava ainda, companheiras das andorinhas leves como sílfides e do canto travesso do cuco a arreliar as moçoilas casadouras. Parecia quase um milagre que, tão delicadas e mimosas, tão cor de ouro, germinassem e crescessem sob as geadas intensas daqueles sítios mais fundeiros e subessos: gentis gotas de sol suspensas dos caules finos, protegidas pelo verde rugoso das suas folhas, saudando os primeiros lampejos de um sol fagueiro e irmão.
Sempre me espantara que preciosidades daquele quilate enjeitassem nascer nos lameiros familiares das Bouças, da Ribeira ou do Catrapeiro para irem despontar naquele buraco dos Pereiros. Eram decerto flores de eleição, já que na sala de aula, elas apareciam pintadas no bojo de uma jarrinha que o senhor Professor invariavelmente propunha como modelo para os da quarta se exercitarem no desenho à vista. Mas nunca os nossos lápis Viarco eram suficientemente amarelos para reproduzirem o ouro daquelas pétalas, nunca o seu verde nos satisfazia ao pintarmos aquelas folhas rugosas que as protegiam.
Levados pelo fascínio de conquistar esses primeiros mimos florais lá nos aventurávamos pelo tortuoso carreirão das Ribas até aos lameiros dos Pereiros, sabendo embora que iríamos enterrar as botas cardadas nos ervaçais ainda encharcados da invernia. E, como os argonautas de Homero, regressávamos soberbos e contentes, ostentando os nossos velos de ouro.
Uns tempos mais tarde, já rapazote, depois de a minha diáspora me ter alijado para longe do ninho materno, quando regressei a Rebordainhos pela primeira vez nas férias da Páscoa, aferroou-me um aguilhão de nostalgia pelas pascoelas de outrora. À sorrelfa, quase envergonhado da minha infantilidade, sem dar cavaco a ninguém, arrisquei-me a recriar a descida de Orfeu em demanda de Eurídice, descendo até aos lameiros da Ribeira dos Pereiros, em demanda das pascoelas da infância.
De pascoelas nada vi, nada encontrei. Decerto esse tesouro pertencia, tal como as fadas e a carochinha, às magias de quando se é criança e que se perdem quando o buço desponta. E remontava o carreirão das Ribas, desapontado da procura frustrada, quando…

Não sei se se lembram. Ali nas Ribas, havia (creio que ainda há) um lameiro, no meio do lameiro uma amoreira, uma das últimas sobejantes de quando por lá se criavam bichos-da-seda e, junto da amoreira, uma poça de rega. Pois foi nessa poça que as pascoelas me floriram os olhos deslumbrados: três moçoilas procediam às abluções rituais da Páscoa. Depois de terem purificado as almazinhas juvenis no confesso ao Pe. Amílcar, vinham dealbar ali, na solidão das Ribas, os tenros corpinhos de adolescentes em flor. Nuazinhas como Deus a pôs no mundo, alvas sob a luminosidade espiritual da manhã de primavera, com a graça pagã das rolas, dos freixos, das pascoelas, enfim, das coisas naturais, lavavam-se umas às outras, na reciprocidade amorável das Três Graças de Canova. Na cútis leite e rosas, no peito os outeirinhos de neve coroados de amora madura e, entre as colunas de alabastro de que fala o Cântico dos Cânticos, a penugem discreta que escurece as secretas regiões da remota fonte da vida.
Pouco durou a bucólica. Quando deram pelo meu olhar transeunte e embevecido, desataram em grandes gorjeios, enovelando-se umas nas outras na atrapalhação de ocultar a olhos profanos o que o pudor da adolescência manda seja ocultado.
Porque, Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades e… após dias, dias vêm e cada sazão tem as suas pascoelas…
Foi assim que, nessa Páscoa, em vez dos lameiros dos Pereiros, foi por ali, nos lameiros das Ribas que me desabrocharam essas outras pascoelas, não douradas, mas alvas como a neve, mas igualmente deslumbrantes, igualmente primaveris.
______E era também o dia de descermos em bandos grulhentos até aos lameiros da Ribeira dos Pereiros em cata das pascoelas com que se enfeitassem os pobres casebres serranos e reconquistássemos a alegria de ser Páscoa. Pascoelas: um pequeno luxo doirado para receber o Senhor quando, no domingo, visitasse a casa de cada um. Eram as primeiras flores a aparecer na serra, o anúncio temporão de uma primavera que mal se anunciava ainda, companheiras das andorinhas leves como sílfides e do canto travesso do cuco a arreliar as moçoilas casadouras. Parecia quase um milagre que, tão delicadas e mimosas, tão cor de ouro, germinassem e crescessem sob as geadas intensas daqueles sítios mais fundeiros e subessos: gentis gotas de sol suspensas dos caules finos, protegidas pelo verde rugoso das suas folhas, saudando os primeiros lampejos de um sol fagueiro e irmão.
Sempre me espantara que preciosidades daquele quilate enjeitassem nascer nos lameiros familiares das Bouças, da Ribeira ou do Catrapeiro para irem despontar naquele buraco dos Pereiros. Eram decerto flores de eleição, já que na sala de aula, elas apareciam pintadas no bojo de uma jarrinha que o senhor Professor invariavelmente propunha como modelo para os da quarta se exercitarem no desenho à vista. Mas nunca os nossos lápis Viarco eram suficientemente amarelos para reproduzirem o ouro daquelas pétalas, nunca o seu verde nos satisfazia ao pintarmos aquelas folhas rugosas que as protegiam.
Levados pelo fascínio de conquistar esses primeiros mimos florais lá nos aventurávamos pelo tortuoso carreirão das Ribas até aos lameiros dos Pereiros, sabendo embora que iríamos enterrar as botas cardadas nos ervaçais ainda encharcados da invernia. E, como os argonautas de Homero, regressávamos soberbos e contentes, ostentando os nossos velos de ouro.
Uns tempos mais tarde, já rapazote, depois de a minha diáspora me ter alijado para longe do ninho materno, quando regressei a Rebordainhos pela primeira vez nas férias da Páscoa, aferroou-me um aguilhão de nostalgia pelas pascoelas de outrora. À sorrelfa, quase envergonhado da minha infantilidade, sem dar cavaco a ninguém, arrisquei-me a recriar a descida de Orfeu em demanda de Eurídice, descendo até aos lameiros da Ribeira dos Pereiros, em demanda das pascoelas da infância.
De pascoelas nada vi, nada encontrei. Decerto esse tesouro pertencia, tal como as fadas e a carochinha, às magias de quando se é criança e que se perdem quando o buço desponta. E remontava o carreirão das Ribas, desapontado da procura frustrada, quando…

Não sei se se lembram. Ali nas Ribas, havia (creio que ainda há) um lameiro, no meio do lameiro uma amoreira, uma das últimas sobejantes de quando por lá se criavam bichos-da-seda e, junto da amoreira, uma poça de rega. Pois foi nessa poça que as pascoelas me floriram os olhos deslumbrados: três moçoilas procediam às abluções rituais da Páscoa. Depois de terem purificado as almazinhas juvenis no confesso ao Pe. Amílcar, vinham dealbar ali, na solidão das Ribas, os tenros corpinhos de adolescentes em flor. Nuazinhas como Deus a pôs no mundo, alvas sob a luminosidade espiritual da manhã de primavera, com a graça pagã das rolas, dos freixos, das pascoelas, enfim, das coisas naturais, lavavam-se umas às outras, na reciprocidade amorável das Três Graças de Canova. Na cútis leite e rosas, no peito os outeirinhos de neve coroados de amora madura e, entre as colunas de alabastro de que fala o Cântico dos Cânticos, a penugem discreta que escurece as secretas regiões da remota fonte da vida.
Pouco durou a bucólica. Quando deram pelo meu olhar transeunte e embevecido, desataram em grandes gorjeios, enovelando-se umas nas outras na atrapalhação de ocultar a olhos profanos o que o pudor da adolescência manda seja ocultado.
Porque, Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades e… após dias, dias vêm e cada sazão tem as suas pascoelas…
Foi assim que, nessa Páscoa, em vez dos lameiros dos Pereiros, foi por ali, nos lameiros das Ribas que me desabrocharam essas outras pascoelas, não douradas, mas alvas como a neve, mas igualmente deslumbrantes, igualmente primaveris.
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quarta-feira, 6 de abril de 2011
A MOURA E AS MOURAS
Passei quase cinquenta anos de vida sem dar importância ao sentido distinto com que usávamos o mesmo nome: moura. É verdade que umas vezes o utilizávamos no singular e outras no plural, mas o número também nunca me serviu de alerta. Era a moura da Fraga Grande da Ladeira, aquela que fiara um saco de maçarocas enquanto transportava a fraga à cabeça, e eram as mouras, aquelas ervas que nascem nos tanques e nas ribeiras, com as quais brincávamos em crianças. Uma e outras nada podem ter em comum e só pensei nisso depois de ter aprendido uma lição, pelas mãos generosas da nossa querida visitante Quina, da Idanha-a-Nova. Palavra de honra que até corei de vergonha por, ao menos, nunca ter pensado no assunto!
A moura é evidente: aquele “ou” resultou em Português da transformação do “au” latino. Ela é moura porque “maura”, isto é: da Mauritânia.
As mouras têm um percurso muito mais complexo. Com propriedade, apetece compará-lo com o da vida das pessoas. Com efeito, até ao séc. XVI era rara a utilização do ditongo “oi” em língua portuguesa, embora vulgar entre os judeus. Gil Vicente até brinca com o assunto (1). A partir daí, generalizou-se o seu uso e, hoje, dizemos um e outro sem cuidarmos nisso. No entanto, se repararmos bem, são muito raras as palavras que, em Rebordaínhos, comportam o ditongo oi. Essa raridade talvez justifique que os nossos antepassados, quando ouviram falar em “moiras”, tenham transformado automaticamente esse som estranho noutro mais familiar e conhecido.
As nossas mouras, parece-me, equivalem às “moiras” da Idanha, entidades associadas ao destino das pessoas. Pela explicação da Quina, fundamentada na vasta ciência do professor Vitorino Nemésio, fiquei a saber que as moiras correspondem às divindades gregas com o mesmo nome (que sempre designei por Meras, o seu outro nome), a que os romanos chamam as “Parcas”. Moiras ou Meras (ou Parcas) são três irmãs malvadas – Átropo, Cloto, Láquesis – que determinam como há-de ser a vida de cada um dos seres humanos, entendida como se fosse um fio que a primeira fiava, a segunda enrolava e a terceira cortava.
A analogia parece-me clara: o percurso dos cursos de água simbolizando os caminhos da vida; as mouras, fios das nossas vidas, enredados ou cortados ao sabor da agitação das águas. O destino de cada um de nós!

Bem-haja, Quina, porque me permitiu este exercício de pensamento.
_____
(1) Vejam-se estes exemplos das falas dos judeus casamenteiros Latão e Vidal, extraídos da “Farsa de Inês Pereira”
LATÃO
Será o que hoiver de ser (…)
Ora oivi, e oivireis (…)
VIDAL
Como oivo cantar (…)
Afoitado pela mão (…).
Lembremos que os mais velhos de Rebordaínhos ainda dizem “afoutar”
A moura é evidente: aquele “ou” resultou em Português da transformação do “au” latino. Ela é moura porque “maura”, isto é: da Mauritânia.
As mouras têm um percurso muito mais complexo. Com propriedade, apetece compará-lo com o da vida das pessoas. Com efeito, até ao séc. XVI era rara a utilização do ditongo “oi” em língua portuguesa, embora vulgar entre os judeus. Gil Vicente até brinca com o assunto (1). A partir daí, generalizou-se o seu uso e, hoje, dizemos um e outro sem cuidarmos nisso. No entanto, se repararmos bem, são muito raras as palavras que, em Rebordaínhos, comportam o ditongo oi. Essa raridade talvez justifique que os nossos antepassados, quando ouviram falar em “moiras”, tenham transformado automaticamente esse som estranho noutro mais familiar e conhecido.
A analogia parece-me clara: o percurso dos cursos de água simbolizando os caminhos da vida; as mouras, fios das nossas vidas, enredados ou cortados ao sabor da agitação das águas. O destino de cada um de nós!
Bem-haja, Quina, porque me permitiu este exercício de pensamento.
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(1) Vejam-se estes exemplos das falas dos judeus casamenteiros Latão e Vidal, extraídos da “Farsa de Inês Pereira”
LATÃO
Será o que hoiver de ser (…)
Ora oivi, e oivireis (…)
VIDAL
Como oivo cantar (…)
Afoitado pela mão (…).
Lembremos que os mais velhos de Rebordaínhos ainda dizem “afoutar”
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Fátima Stocker
sábado, 2 de abril de 2011
ACORDO ORTOGRÁFICO
Nunca é fácil escrever o primeiro artigo a seguir à notícia do falecimento de um dos nossos. Hoje ocorreu-me que poderia aproveitar a nossa página para levar ao conhecimento de todos uma iniciativa legislativa de cidadãos (prevista na lei) contra o acordo ortográfico. Eu já assinei.
Previa-se que a recolha de assinaturas decorresse até 25 de Abril, mas a recente dissolução do parlamento irá, certamente, fazer alterar algumas datas. Logo se vê.
A assinatura pode ser feita de dois modos:
1 - Preenchendo o impresso e enviando-o por correio para (seguir as indicações desta página) :
Apartado 53
2776-901 Carcavelos
2 - Preenchendo o impresso e enviando-o por e-mail.
Bem sei que a língua evolui e está sujeita a transformações constantes, mas este acordo (perdoem-me os seus defensores) parece-me uma aberração.
Previa-se que a recolha de assinaturas decorresse até 25 de Abril, mas a recente dissolução do parlamento irá, certamente, fazer alterar algumas datas. Logo se vê.
A assinatura pode ser feita de dois modos:
1 - Preenchendo o impresso e enviando-o por correio para (seguir as indicações desta página) :
Apartado 53
2776-901 Carcavelos
2 - Preenchendo o impresso e enviando-o por e-mail.
Bem sei que a língua evolui e está sujeita a transformações constantes, mas este acordo (perdoem-me os seus defensores) parece-me uma aberração.
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