quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

DITOS DO POVO


Fui ao facebook e roubei esta fotografia portentosa do Valter Cavaleiro. Está lá outra do mesmo autor e igualmente bela. Porque não estou registada nessa rede social, não lhe pude pedir autorização. Espero que ele me não leve a mal pelo atrevimento.


FEVEREIRO

Fevereiro matou a mãe ao soalheiro.

Fevereiro quente traz o diabo no ventre.

Janeiro geoso e Fevereiro chuvoso fazem o ano formoso.

Quando não chove em Fevereiro, nem prados nem centeio.

Tantos dias de geada terá Maio, quantos de nevoeiro teve Fevereiro.


Só me lembro destes dois. Fico à espera de que alguém aceite partilhar aqueles que conhece.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

ARES DA SERRA

A DIVINA PROVIDÊNCIA E A GORRA DO PRIMO MANUEL

por

ANTÓNIO AUGUSTO FERNANDES

Imagem retirada daqui


Era sábado. A euforia da perspectiva do feriado de domingo (o conceito de fim-de-semana estava por inventar), podia-nos ter dado para pior, mas não, em vez de jogarmos ao pirogalo ou à bilharda, depois das aulas, deu-nos o diabo para surripiar a gorra nova do Nelzeira, ou melhor, do meu primo Manuel do Outeiro, e fazê-la esvoaçar de uns para os outros à laia desses boomerangs ou bresbees com que hoje as crianças se divertem na praia. O Nelzeira bem corria duns para os outros na tentativa de recuperar o que era seu, bem berrava que a boina era nova, que lha tinha comprado o pai ao contrabandista que trazia a mercância da Galiza. Mas a malta divertia-se à brava. Até que, num lançamento mais incauto, por efeitos imprevistos da aerodinâmica, a boina, pairou manso, mansinho e foi aterrar no telhado da escola. Consternação geral! Mas, após breve conciliábulo, logo ali se combinou que, a seguir às aulas, iríamos buscar uma escada de mão que andava pela eira do senhor Amadeu e resolveríamos o assunto.

E assim foi: mal a senhora D. Maria, a caminho de casa, dobrou a esquina do pátio onde morava o Patinge, os mais afoitos correram em demanda da dita escada. Eu ainda hesitei em associar-me à empresa, que o meu pai não era para cócegas. Mas como nessa altura já frequentava a catequese com grande quantidade de devoção e de puxões de orelhas da Aninhas da Eira, nossa catequista, veio-me à mente o sumo preceito catequético de amar o próximo como a nós mesmos. Além do mais, o Nelzeira, ainda era um próximo ainda mais próximo que os outros próximos, pois até era meu primo direito e compincha de reinação! E todo exaltado pelo espírito evangélico de bem-fazer, como cruzado que parte na guerra contra os mouros, atirei-me à boa acção, convencido de que Deus havia de me recompensar… se calhar até com uma bicicleta.

Dávamos por finda a empreitada, já o primo Manuel descia com a gorra enfiada até às orelhas, e reaparecia a D. Maria ao pé da casa do Carriço, pressurosa em seu caminhar e furiosa em seu aspeito. Acontecera que, quando atravessava o Prado, alguém a advertira que os garotos andavam aos ninhos no telhado da escola e partiam as telhas todas.

Alguns dos comparsas ainda se escamugiram a tempo. Ao alcance das iras da professora ficámos uns quatro ou cinco, entre eles o Nelzeira que escalava na demanda do seu bem, o Zequinha Lelé que segurava a escada e eu que, de nariz no ar, dava orientações, aguardando a libertação da boina e as bênçãos de Deus pela minha boa acção. A D. Maria, como estava cansada da semana a aturar a ganapada, não deu uso imediato à palmatória: introduzindo-nos na sala de aula das meninas, apontou os nossos nomes no quadro, sem querer saber das nossas boas intenções e dos ensinamentos evangélicos aprendidos na catequese com a Aninhas da Eira. Na segunda-feira ajustaríamos contas!...

Saímos inconsoláveis, porque sabíamos que a D. Maria quando pegava na palmatória para castigo dos nossos desvarios não era nada peca a distribuir bolos. Ainda estava bem presente na nossa memória a sorte de um dos Pereiros (seria o Sabido?) que tivera a infeliz ideia de ir espreitar como é que as meninas faziam as suas necessidades na sua casa de banho privativa, isto é, ao ar livre, entre as giestas e escarambunheiros que bordejavam o carreirão das Ribas. Como os tempos eram outros, pouco dados a investigações sobre fisiologia feminina, a D. Maria não apreciara muito esta aula de auto-educação sexual e premiara-lhe a curiosidade científica com vinte palmatoadas, dez em cada mão.

Quanto a mim, para além da perspectiva acabrunhante da meia dúzia de bolachas, fiquei abalado pela primeira grande crise de fé: sentia-me profundamente descrente dos ensinamentos da Aninhas da Eira sobre o amor ao próximo e a disposição da Divina Providência para recompensar as boas acções. E pensava com os meus botões que, se me tivesse posto na alheta em vez de amar a gorra do próximo como a mim mesmo, o primo Manuel que me perdoasse, mas não estaria agora metido em sarilhos! Enfim, passei um domingo atormentado, na perspectiva das palmatoadas de segunda-feira.

Só na segunda-feira é que recuperei a fé na Providência e a crença nos ensinamentos da catequese, quando me certifiquei de que as ameaças da D. Maria tinham caído no esquecimento. Ainda hoje creio firmemente que foi a Divina Providência quem guiou a mão da primeira rapariguinha a entrar na sala das meninas pela manhã inspirando-a a praticar a boa acção de limpar o quadro sujo. Se calhar também era aluna da Aninhas na catequese… e com a sua boa acção apagou do quadro os nossos nomes, a memória da nossa boa acção e as mais que certas palmatoadas da D. Maria.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

BREVE

Os Deolinda são um dos fenómenos mais interessantes da música portuguesa actual. Há pouco tempo actuaram no Coliseu de Lisboa e ofereceram ao público um tema inédito: Que parva que eu sou!"

O poema nada tem de belo, mas tem tudo de verdadeiro no modo como retrata a geração dos nossos filhos ou netos. Gostei de ouvir o tema, por aquilo que é dito, pela forma como está cantado (a voz da Ana Bacalhau é portentosa) e porque a melodia me fez lembrar o lirismo do José Afonso.

Apeteceu-me partilhar isto convosco. Aqui vo-lo deixo.



Que Parva que eu Sou

..............................Sou da geração sem remuneração
..............................E não me incomoda esta condição
..............................Que parva que eu sou!

..............................Porque isto está mal e vai continuar
..............................Já é uma sorte eu poder estagiar
..............................Que parva que eu sou!

..............................E fico a pensar
..............................Que mundo tão parvo
..............................Onde para ser escravo é preciso estudar!

..............................Sou da geração “casinha dos pais”
..............................Se já tenho tudo, pra quê querer mais?
..............................Que parva que eu sou!

..............................Filhos, maridos, estou sempre a adiar
..............................E ainda me falta o carro pagar
..............................Que parva que eu sou!

..............................E fico a pensar
..............................Que mundo tão parvo
..............................Onde para ser escravo é preciso estudar!

..............................Sou da geração “vou queixar-me pra quê?”
..............................Há alguém bem pior do que eu na TV
..............................Que parva que eu sou!

..............................Sou da geração “eu já não posso mais!”
..............................Que esta situação dura há tempo demais
..............................E parva não sou!

..............................E fico a pensar,
..............................Que mundo tão parvo
..............................Onde para ser escravo é preciso estudar!
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Porque sinto uma repulsa visceral pelo novo acordo ortográfico, continuarei a escrever como antes. Quem quiser utilizar as novas normas sinta-se à vontade para o fazer, porque esta é uma casa de liberdade.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

MATAR SAUDADES

Tal e qual como o José Fernandes fez o favor de enviar, para que todos possamos aproveitar. Bem-hajas, Zé!

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sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

AURORA BOREAL


Tinha terminado mais um dia de Janeiro. Às seis da tarde, já toda a gente ceara e preparava-se para passar mais um serão. Provavelmente, as mulheres entretinham-se a fazer meia e os homens, tábua no colo, pisavam o unto que, enrolado em bola, se tornaria no tempero delicioso do caldo de couves do ano inteiro.

Ninguém sabe como foi que deram por ela, mas o facto é que todos sairam à rua e olhavam embasbacados. Nunca tal se vira!

O céu apresentava-se de um vermelhão que metia medo. Todo o Norte parecia tingido de sangue!

Ouviram-se gritos de temor pelo fim do Mundo anunciado e as mães abriram os braços para que neles lhes coubessem todos os filhos que tinham. Deve ter sido assim por todo o povo. Menos no bairro da Portela.

Na Portela, o tio Ramos e o tio Pereira, cunhados por serem casados com duas irmãs, faziam um fado! Na sala do Pereira, ambos de meotes, dançavam um com o outro, dando-se o braço em gancho. E cantavam também, porque dançar sem música não tinha jeito nenhum! De vez em quando paravam e assomavam à janela. O Ramos espreitava e dizia:

- Olha a aurora boreal!

O Pereira, que gostava pouco dos "ai meu Deus" e de coisas que nunca vira, tratava de corrigir:

- São os medeiros dos Vales que estão a arder!

E passaram a noite nisto, a dançar de meotes e a espreitar à janela, um a afirmar que era a aurora boreal e o outro a dizer que eram os medeiros dos vales a arder!

No bairro da Portela não sabiam se haviam de chorar com o espectáculo do céu, ou rir com o espectáculo dos dois borrachos.

Os cegos de Vinhais rapidamente poriam em verso este acontecimento raríssimo de uma aurora boreal observada em Portugal. Pela feira dos Chãos, tais quadras chegaram ao conhecimento de meio mundo e foi assim que o meu tio Manuel as decorou e mas ensinou. Tinha doze anos nessa altura e estávamos em 1938.

Meus senhores, venham ouvir
Grande pecado de paixão,
Caso triste e horroroso
Fez tremer o coração!

Apareceu um sinal
Aos vinte e cinco de Janeiro,
P'ra que todos acreditassem
Naquele Deus verdadeiro!

Ele foi universal,
Em todo o lugar apareceu:
Foi visto por todo o Mundo
Mas ninguém se arrependeu!

Esse sinal foi um exemplo
Não devemos duvidar:
Anunciou por todo o Mundo
Grande guerra mundial!

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Efectivamente, a II Guerra Mundial começaria a 1 de Setembro de 1939. No entanto, logo em Março de 1938, Hitler anexava a Áustria e, pouco depois, conquistava a Checoslováquia. Entre nós, muitos veriam na aurora boreal a confirmação da
mensagem de Fátima.
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A imagem que ilustra o artigo foi
retirada daqui. Mostra uma aurora austral porque não encontrei nenhuma boreal que correspondesse às descrições que ouvi e li.

domingo, 23 de janeiro de 2011

JOGOS

Não sei porquê, hoje isto não me sai da cabeça...


- Ó vilão do cabo, cheira a pão queimado! Quem é que o queimou?

- Foi o rei que aqui passou!

- Que seja morto e enforcado co'as cordinhas de Santiago!

[Agora, quem se lembrar faça o favor de descrever o resto do jogo que, se me não engano, tinha alguma coisa a ver com "aguçar navalhinhas".
Pelos vistos, ninguém se lembra. Paciência, fica aqui conforme sei. Depois não se queixem, se estiver mal!]


Depois do diálogo entre os "vilãos", os garotos perguntavam a um deles:

- Mais queres passar gateirinhas ou aguçar navalhinhas?

Se escolhesse passar gateirinhas, os outros punham-se em fila, de pernas abertas. O garoto em causa tinha de passar, de gatas, por entre elas (as gateirinhas), enquanto os que estavam na fila lhe davam nozadas na cabeça.

Se escolhesse aguçar navalhinas, os garotos dispunham-se em duas filas, uns de frente aos outros, enquanto esfregavam as mãos (aguçar navalhinas). O garoto tentava passar a correr pelo meio das duas filas, de modo a apanhar o menor número possível de palmadas.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

ROSTOS

Esta fotografia apela à memória dos mais velhos frequentadores desta casa. Quem se lembra dos rostos que foram seus companheiros de infância? Aqui fica o desafio.


................................. LUGAR: Escadas da tia Maria e do tio António Piloto

.................................1 - tia Teresa Martins
.................................2 - Olímpia Pereira
.................................3 - Maria Augusta Martins
.................................4 - Pedro Pereira (Manuel)
.................................5 - Augusta Pereira
.................................6 - Amélia Pereira
.................................7 - Albertina Pereira
.................................8 - Evaristo Pereira
.................................9 - Artur Pereira

sábado, 15 de janeiro de 2011

DITOS DO POVO


Janeiro molhado, se não cria o pão, cria o gado.
Pitos em Janeiro vão com a mãe ao poleiro.
Pitos em Janeiro não vão ao poleiro.
Em Janeiro, um porco ao sol e outro ao fumeiro.
Sapatos brancos em Janeiro, sinal de pouco dinheiro.


Luar de Janeiro não tem parceiro!
Não há luar como o de Janeiro, nem amor como o primeiro.
Não há luar como o de Janeiro, nem sol como o de Agosto.


Sobre o crescer dos dias:

No Natal, um salto de pardal;
em Janeiro, salto de cordeiro.

Janeiro fora, tem o dia mais uma hora
e se bem contar, hora e meia lhe há-de achar!

Sobre o devir do ano:

Consoante for o tempo nos 12 primeiros dias de Janeiro, assim serão os 12 meses do ano.

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Vamos ver se este artigo cresce como crescem os dias!

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

CARETO (III)

O Jornal Nordeste esteve, também, em Rebordaínhos e publicou uma excelente reportagem fotográfica que pode ser vista clicando sobre o sublinhado. O mesmo jornal fez, ainda, reportagem escrita e um vídeo com as fotografias que publicou no Youtube. Tudo isto são informações que o Rui me vai dando.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Careto (II)

Felizes os povos que são capazes de manter as suas tradições, muito embora precisem de as adaptar. Rebordaínhos é feliz! Que importa se o rapaz que veste o fato do careto já não é escolhido e mantido em segredo? O que interessa é que essa figura perdura, disso se encarregando o Rogério Veigas (da Marquinhas). Bem-haja ele! Mostra a cara? Paciência... também já não há raparigas para chocalhar, nem as crianças fogem dele como o diabo foge da cruz!

Bem-hajam, também, os cantadores: Casimiro Pires; Francisco Martins; Manuel Ferreira e António Rodrigo. Magníficas vozes entregues a um esforço que só a dedicação ao povo compensa! Aqui ficam quatro apontamentos, em três casas diferentes, entoando estrofes diferentes.

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Estes mimos, assim como todas as fotografias que ilustram este artigo e o anterior, temos a agradecê-los ao Rui Freixedelo (da Maria Angélica).

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A graça que acho a esta fotografia!

domingo, 9 de janeiro de 2011

O CARETO


A sua origem perde-se nos tempos. Há quem o afirme celta e há quem lhe atribua filiação romana. Ninguém duvida, no entanto, que o careto é uma figura pagã que foi cristianizada.

Os caretos - figuras maiores das festas dos rapazes - existem por todo o Nordeste transmontano e estão associados a diferentes festas litúrgicas, segundo as preferências de cada aldeia. Para nós, é o dia de Reis.


Em Rebordaínhos, a festa é organizada pelo mordomo das Almas que oferece lauto mata-bicho ao careto e aos cantadores. Depois, dirigem-se todos ao adro da igreja onde, fente à porta principal, cantam e rezam. De seguida iniciam o périplo pelas povoações que compõem a freguesia: Arufe, quinta de Vila Boa, Pereiros, Vales (ainda lá vão?) e, naturalmente, Rebordaínhos. Era uma canseira, nos tempos em que todas as casas eram habitadas e o percurso se fazia, integralmente, a pé.

As famílias aguardam em suas casas pela visita. Os cantadores, que se não intimidam com o frio, puxam pelas vozes e entoam alguns versos (ver aqui). Finda a cantoria, o mordomo recolhe a esmola que lhe é dada. Em casas de luto, em vez de se cantar, oferece-se uma oração por alma de quem partiu.

Que faz o careto? Vestido com fato garrido, costurado de uma colcha velha e debruado com franjas de lã, traz chocalhos à cinta, que sacode o mais que pode para se fazer ouvir bem. Numa mão transporta uma maçã onde vai cravando as moedas que as pessoas lhe dão, ao pedido de "ũa c'roinha! ũa c'roinha!" Na outra mão transporta uma foice. Chocalhos e foice são as armas que usa para se meter com as raparigas, que fogem dele a sete pés. Traz a cara tapada por uma máscara que lhe acentua o aspecto diabólico.



Além de chocalhar as raparigas, o careto é um atrevido, capaz de entrar em qualquer casa e, com a foice, roubar algumas chouriças e salpicões do fumeiro.

Com o fato vestido, o rapaz transformava-se na própria personagem do careto. É por isso que nunca mostrava a cara pois acreditava-se que se o fizesse e morresse, iria direitinho para o inferno, sem possibilidade de redenção.





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A figura do careto é composta de diversos símbolos, a maioria deles associados ao diabo: o fato e a máscara de cor vermelha, os chocalhos e também a maçã, aquela que Eva comeu, induzida pela serpente. Mas o careto ainda transporta uma foice que todos relacionamos com a ideia de morte. Representará a morte da natureza presente no calendário cíclico de eterno retorno que os celtas celebravam? Não sei e ninguém o pode afirmar, mas tenho a certeza de que, através desta festa, estabelecemos uma ligação entre o mundo dos vivos e o mundo das almas - afinal, o mundo futuro de todos nós.

sábado, 8 de janeiro de 2011

DIA DE REIS


Surripiei esta fotografia à Lurdes, que a incluiu na página de Rebordaínhos no facebook.

A nossa festa de dia de Reis vai ser amanhã e o Rui Freixedelo, porque estará lá, prometeu que me enviaria as fotografias que pudesse tirar. Publicá-las-ei assim que me cheguem.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

ROSTOS

Eis a segunda fotografia fornecida pela Ondina. Já nenhum deles é menino e, confesso, para mim foi um desafio tentar encontrar nestes rostos as faces dos homens e das mulheres de hoje. Vamos ver, então, quem dá palpites!


............... 1 - Gina (da Maria Albertina)
............... 2 - Patrícia (da tia Julieta)
............... 3 - Tilinha (da Lurdes)
............... 4 - Marta (da Lúcia)
............... 5 - Pedro (da Ondina)
............... 6 - João Duarte(dos Pereiros)? Paulo (do sr. Víctor)?
............... 7 - Celeste (do Valente)
............... 8 - Paulo (do Valente)? Miguel (da Bárbara)?
............... 9 - Gorete (do Cerca da Quinta)
............... 10- Miguel (da Bárbara)? Paulo(do Valente?
............... 11- Susana (da Marquinhas)

domingo, 2 de janeiro de 2011

CONTAS


EPIFANIA E LAVANDEIRAS


Celebra-se hoje a festa da Epifania. Nas leituras dominicais destaca-se a passagem do Evangelho de S. Mateus em que se narra a visita dos Reis Magos, gentios vindo do Oriente. É, precisamente, neste acontecimento que reside a epifania, ou seja, a manifestação de Deus que, através dos Reis Magos, Se revela a todos os povos da Terra.

Se bem vos recordais, o melífluo rei Herodes pediu aos Magos que, assim que encontrassem Jesus, lhe viessem dizer onde estava, para também O ir adorar. Na verdade, o que ele queria era matá-Lo, para não ter quem lhe disputasse o poder mas, avisados em sonhos, os Reis do Oriente foram-se embora sem nada contarem. Herodes, para cortar o mal pela raiz, determinou a matança dos inocentes. Jesus escapou com vida porque a Sagrada Família fugiu para o Egipto.

É aqui que entram os acrescentos que, em Rebordaínhos, fazemos ao texto bíblico.
Na nossa tradição, dizemos que S. José ferrou a burra ao contrário, de modo a enganar os que fossem em sua perseguição: quem olhasse para as pegadas pensaria que aquele animal estaria a entrar na terra, em vez de sair dela. Mesmo assim, os soldados do rei perguntavam:

- "Vistes passar Jesus por aqui?"
E as lavandeiras, limpando as pegadas com a cauda, respondiam:
- "Por aqui não passou! Por aqui não passou!"

Gostaria de saber a moral que cada um tira desta história (para poder acrescentar ao texto).
Eu deixo esta: o auxílio dos mais humildes é tão importante que até Deus beneficiou dele.

"O seguro morreu de velho",terão pensado as andorinhas, não fosse o diabo tecê-las e os soldados do rei começassem a questionar-se sobre as pegadas. É a máxima acrescentada pela Olímpia.

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O que eu aprendi sobre lavandeiras! Vejam lá bem que lhes chamam Motacilla alba e têm mais nomes vulgares do que nomes próprios os reis!

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A pintura da visita dos Reis Magos é de Grão Vasco, grande pintor português do séc. XV-XVI

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

SR.ª IRENE e SR. VÍCTOR



Ao Sr. Víctor e à Sr.ª Irene
que são
Amigos um do outro,
Constantes no carinho que se dedicam mutuamente,
Companheiros nas horas felizes e nas horas amargas,
Consagrados aos filhos,
Devotados aos amigos,

Porque
Punham adiantado nas casas dos outros, aceitando receber quando calhava
E com o seu trabalho ajudaram a crescer a nossa terra,
Deus acrescentou-lhes as bênçãos merecidas.


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Aproveitando este exemplo de perseverança, o blog de Rebordaínhos quer desejar a todos um

domingo, 26 de dezembro de 2010

NATAL

Motivos vários impediram-nos de gozar este ano o calor do Natal em Rebordainhos.
Apesar disso, não pude deixar de fazer uma pequena reportagem do que por lá se passou. No entanto, como não estive na missa de Natal, a reportagem está incompleta. Não tenho fotografias, nem do charolo, nem do ramo.
Tinha nevado durante a noite, mas quando me desloquei à aldeia havia, apenas, uns restinhos que ainda se podem ver nalgumas fotos. Mas o frio manteve-se, a ponto de produzir aqueles "candeolos" com cerca de um metro de comprimento, que podem ser admirados na casa dos manos.
Assim, e porque não tenho muita habilidade com as palavras, deixo algumas imagens. Valem muito mais.

Augusta

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

FELIZ NATAL

Arvore de natal


LUZES DE NATAL

I

..........................Carregaram-me de netos os meus filhos
..........................Novas luzes na árvore de natal

II

..........................David...Teresa...Inês...Rita...Maria
..........................Meus meninos Jesus.... Minha alegria

..........................Em dez olhos a luz que me alumia
..........................nesta Noite que é noite mas é Dia


David Mourão-Ferreira, 1984


quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

EQUIPAMENTOS DA EQUIPA DE FUTEBOL


São interessantes as histórias à volta dos equipamentos da nossa equipa de futebol.

Disseram-me que os houve do FCP, do Victória de Setúbal, do Benfica e, até, ao tempo do meu tio António Pincha, um que era todo verde. Nesses idos já distantes jogava-se, não na Cabeça, mas no Castelo.

As duas fotografias de que dispomos parecem mostrar o mesmo fardamento, mas não deve ser, por causa das histórias que lhes estão associadas. Sobre aqueles que vemos na fotografia da esquerda (devem ser os do FCP) sabemos que foram comprados pelos jogadores que, para arranjarem o dinheiro, se juntaram e justaram a segada de uma terra de pão. São várias as pessoas a confirmarem a história.

Sobre os da segunda fotografia ficámos a saber que foram oferecidos por um primo da D. Graça, o Sr. Jaime (ver comentário da Olga ao artigo anterior), o mesmo que aparece em sombra na fotografia. Este Sr. Jaime, lembrou a Augusta, é o pai do marido da Ana Maria (do tio antónio Piloto).

Como se terão obtido os restantes? A minha irmã Amélia lembra-se de ver a minha irmã Albertina a bordar os emblemas das camisolas. De quais seria?

Informações recentes dadas pelo Rui Freixedelo (podem ler-se na caixa de comentários. Estou a escrever a 27 de Dez. de 2010) dizem-nos que houve mais equipamentos. Um de cor vermelha e preta com o patrocínio do talho do Francisco Martina; outro azul e branco que não sei se será aquele que já referi, mas estou em crer que não, porque o patrocinador era, já, o Armindo Pais (embora sejam, provavelmente, anteriores aos vermelhos e pretos).

E é com este cruzar de informações que vamos avivando as nossas memórioas. Se houvesse mais quem se dispusessem a fazer o mesmo...!

Deste peregrinar pelo mundo do futebol sobressai algo que era muito nosso: o juntar de forças e vontades para alcançar aquilo que almejamos, mas também a aceitação e agradecimento da oferta quando ela surge. Ainda conseguiremos ser assim?

sábado, 11 de dezembro de 2010

ROSTOS

Quero agradecer à Ondina que me enviou duas fotografias muito interessantes. Começo por publicar a mais antiga, datada de 13 de Abril de 1969. Será que nos reconhecemos sem haver lugar a dúvidas?

Aqui fica e, como sempre, aguardo pelas vossas sugestões. Lembro que já tinha publicado uma semelhante, enviada pelo Tonho Brás e que pode ser recordada aqui.


............... 1 - Artur Pereira (do tio Fouce)
............... 2 - João Veigas
............... 3 - Guilhermino Fernandes (Sortes)
............... 4 - Luís Jeremias (de Arufe)
............... 5 - Armindo Pais (do tio Foguete)
............... 6 - tio Aniceto ?
............... 7 - Henrique Pereira (do tio Arnaldo)
............... 8 - Carlos Pereira (do tio Arnaldo)
............... 9 - Pedro Pereira (Manuel do tio Fouce)
............... 10 - Tarcísio Martins (do tio Sebastião)
............... 11 - César Pereira (Baptista)
............... a) Vaz? Manuel da tia Hélia?
............... b)
............... c) Sr. Jaime (primo da D. Graça)

Perguntas, a brincar, para responder quem souber (tive que contar com o "treinador" para chegar aos 11!) :

Porque é que a equipa estava desfalcada? Houve um que se zangou ou era feio de mais para a fotografia?

Eis a resposta às minhas dúvidas, dada pelo Baptista, com a ressalva de que a memória o pode estar a atraiçoar: A equipa estava desfalcada porque houve um que se zangou por não lhe atribuirem a posição que ele tinha a certeza que merecia.

Valente génio, digo eu!

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

ARES DA SERRA

EM LOUVOR DO LAREGO

por

ANTÓNIO AUGUSTO FERNANDES


Sim, as malhas eram a grande celebração das colheitas, mas muito suor, muita poeira, muita mosca, muita dor de quadris. A verdadeira festa da serra, a celebração ritual da abundância era mesmo o mata-porco.

Por algum motivo os nossos remotos bisavós tinham esculpido em granito, no pino da serra, no sítio a que ainda hoje chamamos a Fraga do Berrão, uma grosseira representação em granito do porco bísaro, que os de Parada nos roubaram à falsa fé. Esse, o bísaro, era tão natural dessas serras quanto os seus serranos. E estes deviam-lhe a subsistência durante as grandes invernias, quando a terra se amortalhava e o temporal empecia as caçadas e a recolecção dos frutos da terra. Ainda não se esmiuçou bem a origem etimológica de larego, mas desconfio que tem a ver com lar: o sustento do lar, o conforto do lar, as delícias de Sardanapalo à disposição do lar dos pobres. Diziam os entendidos que cada parte do reco tinha o seu sabor peculiar, o que dava origem a um sem número de pitéus diferentes e todos de excelência. Quem não recorda o perfume inebriante de um bom naco de lombo em vinha-de-alhos a rechinar sobre as brasas de carvalho, nas noites de invernia, enquanto se seroava e o vento zoava lá fora no arvoredo? E aqueles mimos inexcedíveis do salpicão, do presunto, do pisperno cozido ou assado no forno e, menos convencional mas não menos sápido, do petisco da costela seca no sal e cozida com casulas? Ou ainda os rijões do redenho que se guardavam no pingue em panelas de barro para o tempo das ceifas? Não esquecendo toda aquela panóplia saída das mãos milagreiras e dos saberes da dona de casa e que constelava o céu de qualquer cozinha montesina: as alheiras, as chouriças, os chouriços doces, os chouriços azedos, o palaio, o cagateiro, o butelo, os chavianos…


Foi todo este entorno cultural que deu origem aos ditos: pelo Santo André, agarra o porco pelo pé. E ainda: pelo Santo André quem não mata porco mata a mulher. Não, o rifão não é tão uxoricida como parece à primeira vista; apenas significa que quem não mata porco mata a mulher do dito, ou seja, a porca; ou, vá lá, numa leitura mais lata, mata a mulher à míngua, porque, em casa sem mata-porco entra a fome pela certa.

O tempo das matanças era no pino do inverno, quando nas lareiras os imensos cavacos de carvalho ou castanho se desfaziam em brasido resplandecente e as geadas curavam as carnes do cevado imolado, juntamente com o fumo da lareira, ambos coados pela telha vã das cozinhas, sem recurso ao frigorífico (que aliás nem existia). Já repararam que, desde que a civilização e os requisitos do conforto forraram as cozinhas, impedindo a entrada das geadas e a circulação livre do fumo, e desde que insecto malvado matou os negrilhos com cujas folhas se apuravam as carnes do cevado nas suas últimas semanas de vida, o fumeiro já não é bem, bem a mesma coisa?!

Ah! aquelas manhãs em que pairavam no ar farripas de neblina, a que se misturava o fumo das lareiras acesas desde a manhã e a fumaça da palha queimada a chamuscar os bichos imolados!... Por essa altura já fazia frio, os trabalhos mais prementes do campo haviam cessado e sobrava todo o tempo do mundo para o convívio e uma boa cavaqueira.

Logo à pormanhã, os matadores iam-se ajuntando com seus vagares para o mata-bicho: umas lascas de trigo com uns figos secos e umas nozes, tudo empurrado por uns tragos de aguardente. O matador aparecia para pontificar ao ritual, com a longa faca bem afiada embrulhada em toalha de linho, como instrumento litúrgico consagrado a este acto e, por isso, preservado dos rasteiros usos culinários. Como quase sempre se tratava de alimárias a rondar as dez arrobas, a primeira grande aventura residia em convencer o bicho a deixar-se agarrar. Mas como bichos que eram, privados da vianda nas vinte e quatro horas anteriores para limpeza dos intestinos, dizia-lhes o instinto que não era para coisa boa que aqueles forasteiros lhe invadiam a loja, em vez da dona com a vianda. E era o cabo dos trabalhões para convencer o bicho a deixar-se atar ao banco onde iria ser imolado.

Passo em branco a parte mais cruenta do acto, não vá algum elemento mais zelota da ASAE vir meter o nariz inquisitorial na última das matanças que porventura ainda se realize em Rebordainhos para lhe aplicar a coima e a subsequente proibição definitiva. Para efeitos práticos e politicamente correctos, aqui se deixa exarado que as matanças acabaram definitivamente, são apenas recordações medievais.

Hoje, o que mais densamente me povoa a memória é toda uma sinfonia dos odores fortes desses tempos de invernia em que se faziam as matanças. O cheiro da terra fecundada pelas primeiras chuvadas, o aroma forte da folhagem de carvalhos e castanheiros a decompor-se por touças e soutos ou a curtir nas ruas da aldeia, o aroma difuso dos cogumelos de toda a espécie, ou roquelhos como então se dizia: as rocas ou freirinhas, os míscaros, as carneiras, os tortulhos, as mozinhas, as repolgas, as línguas de vaca… eu sei lá. O incenso das lareiras onde ardem as achas de carvalho de mistura com os perfumes do que fervia nos potes de ferro. A todos estes odores que pairavam no ar, vinham misturar-se os cheiros violentos e desencontrados que falavam das matanças, desde o acre dos fachocos de palha para a chamusca, ao esturro dos pêlos queimados e da pele estonada do bicho. Não havia Chanel que se lhe comparasse, porque tudo tinha um cheiro forte de vida intensa.

Imolado o animal entrava-se na fase das abluções. Como a água era colhida, depois de se partir o gelo, no tanque onde a cria ia beber, era uma tortura digna da Santa Inquisição apanhar com aquela água gélida nas nozes dos dedos, enquanto com um áspero calhau de granito ou um caco de telha se procedia à raspagem generalizada do courame. Em seguida, meia dúzia de navalhas peliqueiras aplicavam-se a barbeá-lo: havia os generalistas, que raspavam a parte mais fácil do lombo e da barriga, e os especialistas que se dedicavam com desvelo de artistas ao pormenor das orelhas, da focinheira e dos chispes. E o defunto ficava escanhoado que nem acabadinho de sair das mãos do Armindo da Eira, nosso barbeiro oficial. Limpinho que até o Sr. Bispo lhe podia pegar ao colo.


Por essa altura já um corregidoso lhe tinha sacado das patas ainda a ferver os dedais para os introduzir no bolso distraído da jaqueta que lhe estivesse mais à mão, e já os garotos rondavam para se assenhorearem do rabo do bicho, petisco que por tradição lhes competia para assarem na brasa. Com o animal de barriga voltada para o céu, as patas seguradas por quatro acólitos, o matador, como mais entendido em cirurgia, traçava-lhe na barriga golpe preciso em forma de barcaça, para depois sacar a barbela, condimento imprescindível para as alheiras. Retiradas as banhas, condenava-se no ar gélido da manhã, o cheiro enjoativo das entranhas ainda fumegantes. Havia que extraí-las com o máximo rigor, não fosse a vesícula rebentar e inutilizar o fígado, ou gesto mais atabalhoado perfurar os intestinos destinados aos enchidos: despejavam-se cuidadosamente para um grande cesto de verga forrado com panos de estopa e sustido por mulher vigorosa. Aqui se iniciava a mais dura de todas as tarefas ligadas à matança: quatro ou cinco mulheres valentes assumiam a responsabilidade de transportar essa tripalhada até à ribeira, armadas de rocas − os paus de virar tripas − para as lavarem antes que a aragem as congelasse. As pobrezitas regressavam só lá para a hora do jantar, embiocadas nos xailes, enregeladas, de pingo no nariz, tentando aquecer as mãos engaranhadas debaixo dos sovacos. Eram recebidas como heroínas e socorridas na cozinha com o suplemento calórico duma malga de café a ferver temperada com bagaceira. E eram mesmo umas heroínas, essas mulheres de então, que pariam os filhos com a naturalidade das matriarcas bíblicas e batalhavam nos campos com o denodo de homens!

Era nesta fase final, depois de limpo e lavado com vinho o cavername interior do animal, que os homens se deixavam acometer pelo pecadilho das matanças: subtrair um chichozito do lombo para ir assá-lo numas brasas sorrateiras das vizinhanças. E os donos já sabiam que não valia a pena proibir ou vigiar para que a fatalidade não acontecesse, porque quanto mais apertada fosse a vigilância mais pesado era o tributo. Limitavam-se por isso a suplicar: eh! rapazes, poupai-me, que a casa é pobre!... Ainda recordo a última destas façanhas a que assisti. Minha Madrinha, com a fera catadura que lhe era conhecida e o ar autoritário de quem não admitia ser contrariada, numa tarefa que só a homens competia, proibiu terminantemente que lhe tocassem nos lombos do animal, extraordinário bicho, aliás! E postou-se com severo olhar de Argos a supervisionar todas as operações. Olha o que tu foste fazer! O tio Eurico, que comandava as operações de abertura do bicho, riu-se por baixo dos bigodes (espera aí que já levas!). Deu golpe fundo nas carnes do lombo mas deixou o tassalho preso por uma febra. Quando o animal já estava a ser içado para ficar dependurado na trave com o tamoeiro e minha madrinha dava por findas as tarefas de supervisão, o tio Eurico, como que dando um sacolejão mais forte para endireitar a carcaça, à sorrelfa sacou o chicho predestinado e enfiou-o no bolso da jaqueta que lhe estava encostada, a do tio Hermínio, outro cidadão exímio em pregar uma boa partida. P’ra riba dum quilo!

Estes meus amigos que me perdoem revelar estas atraganices de que nem eles já se lembram, mas aqui deixo o meu muito obrigado por me terem convidado para a função da assadura, em casa do tio Adriano, ali ao lado. O chichinho tostadinho na brasa, além do perfume do lombo assado tinha também aquele sabor peculiar das coisas proibidas. E a Madrinha, lá do céu, bem sabe que nem sequer passou mais fome nesse ano.

Entretanto à roda dos potes, as mulheres davam a última demão nos preparativos do ágape. E era com gestos de ritual muito antigo que, logo de início, o que não estava nos hábitos do quotidiano, se abria a cerimónia com a bênção da mesa. Rompiam-se as hostilidades com um arroz acolitado por presunto e salpicão cozidos: este era o prato ritual de celebração da abundância, na intenção implícita de lembrar que, Deus fosse louvado, não se haviam passado carestias na roda do ano e os mimos do ano anterior haviam perdurado até ao presente. A seguir, o prato simbólico de movimento inverso, religando o presente com o passado: o verde cozido do bicho recém-imolado, acompanhado de batatas cozidas. Vinha depois o peru alourado no forno, aconchegado em couves guisadas. E, mais que do peru, falam-me à memória essas couves guisadas, como nunca mais comi na vida.

O ágape prolongava-se por horas, porque, além de abundante, os afazeres não apertavam e, à medida que as libações se sucediam, vinham à baila façanhas antigas que de ano para ano se repetiam porque haviam passado já à memoria colectiva, que é como quem diz, faziam parte do património histórico da comunidade: ele era a história daquele bicho que, com uma focinhada nas partes, virara de cangalhas o homem que tentava laçar-lhe o focinho; ele era aqueloutro que, abandonado no banco como morto acordava com o pêlo incendiado e desatava a correr como alma penada pelo nabal, ou ainda o de quinze arrobas que, ao ser dependurado, partia o chambaril e esmagava o focinho no chão; e mais um que, procurado na loja, andava ainda a foçar no nabal… E assim, no conforto da amizade e do vinho, as horas deslizavam cheias e serenas até que alguém se lembrava da cria por acomodar ou de umas águas a tornar… O dono da casa designava então um mais industriado na arte para dar graças e seguia-se uma longa teoria de rezas pelas obrigações da casa, pelos presentes, pelos ausentes… E, a rematar, num gesto de cerimonial antigo sempre repetido, os varões presentes, ao arrastar das cadeiras, desenhavam com a mão direita sobre a mesa o gesto lento de quem colhe uma flor invisível ou recolhe uma bênção. Ainda hoje me traz intrigado tal gesto que parecia brotar da fundura dos tempos em que os patriarcas se sentavam à roda da fogueira nas tendas armadas no deserto e chegavam à fala com Iavé.



Era assim há cinquenta ou sessenta anos! E nós, pobres, éramos felizes. E ricos sem o sabermos!...

domingo, 5 de dezembro de 2010

ESTATÍSTICAS

O tempo das matanças está a chegar e está já alguma coisa na manga para vos oferecer. Brevemente!

Entretanto, quero partilhar convosco alguns dados animadores, para nos ajudarem a distrair deste dia de tanta chuva e de tanto vento. Trata-se de alguns elementos estatísticos que o blogger fornece desde Maio deste ano. Aqui atrás já publiquei um artigo sobre o assunto. Hoje actualizo os dados. Aí vão:


Por aqui podemos ver - se alguém tinha alguma dúvida - que os nossos leitores vivem, na sua esmagadora maioria, em Portugal. Seguem-se a França e o Brasil, ou seja, os dois países que acolhem mais naturais da nossa terra. Recebemos visitas frequentes dos EUA, Suíça, etc.

A consulta destes gráficos é muito interessante. Além de visualizarmos a flutuação de visitas, podemos ver, também, aquilo que as pessoas mais procuram. É normal que o artigo da semana seja aquele que tem mais visualizações para esse espaço de tempo não sendo, por isso, de valorizar. De particular interesse é o número de visualizações constantes em "de sempre". Sem concorrência, o artigo sobre os andores na festa de N.ª Senhora (o de 2008!) é aquele que as pessoas mais procuram. Saliente-se, ainda, que outros artigos, escritos há já algum tempo (como o "Ser Transmontano" do abcd e o "Bairro de À Chave", do António Brás), continuam a merecer o interesse dos nossos leitores.

A todos, um resto de bom domingo

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

JOGOS


Vamos lembrar e inventariar as nossas brincadeiras?

Proponho que comecemos por aquelas que podíamos fazer dentro de casa e que, embora possam ser de qualquer lugar e altura do ano, as fazíamos preferencialmente quando as nossas mães nos não deixavam sair para a invernia.

À cabeça vem-me, agora, uma, mas preciso da vossa ajuda para as descrever, porque me lembro de pouco mais do que do nome:


1 - Porca Perrincha

Faz-se um montinho de cinza com um pau espetado ao meio. Esse pau era a porca perrincha. À vez, cada um dos jogadores diz:

-Ó compadre! Dá-me umas ripinhas de feno para a minha burrinha?

- Vá lá ao palheiro, está lá a porca perrincha, nem morde nem rincha, mas olhe lá a ver se a pincha!

Depois de receber a autorização, o jogador (e cada um dos outros na sua vez) tira uma parcela de cinza, com muito jeitinho para não tombar o pau.

O jogador que tombasse o pau seria aquela que ira agachar-se de olhos tapados, tentando adivinhar o que lhe iam pondo nas costas, respondendo à pergunta: "O que é que te pesa, burro da abadesa? Enquanto não advinhasse não se podia levantar.

Vindo da memória do comentador anónimo, como pode ver-se na caixa de comentários.


2 - Cerrobico

Os jogadores põem uma mão cada um, com os dedos bem abertos. Um deles encarrega-se de, com a mão livre e à medida que dá pequenos beliscões em cada dedo, ir dizendo (cada espaço é um leliscão num dedo):

Cerro - bico - bico - bico
quem - te deu - tamanho -bico
foi o - ouro - e a - prata
senta-dinho - na - buraca
em - busca - da - perdiz
para - o filho - do - juiz
senhora - mãe
senhora - filha
empreste-me - uma - vas-sourinha:

(Nesta altura, esse jogador abre bem a mão, a fingir de vassoura, e desenha círculos sobre as outras mãos, a fingir que as varre. Vai dizendo:)
Varre, varre vassourinha,
se varreres bem dou-te um vintém,
se varreres mal dou-te um real!

Mal acaba a lenga-lenga, fecha a mão em punho e vai dando pequenas nozadas nas cabeças dos jogadores. Cada cabeça corresponde a uma palava:

Çola, Çapata, Rei, Rainha
Vai ao mar buscar a grainha
A casa da Dona Inês
Vai lá tu, que é tua vez!

O jogador em cuja cabeça calhou a palavra "vez" afasta-se o mais possível. Todos os outros juntam-se e escolhem duas coisas para cada um: algo de apetitoso e algo que corresponda a uma partida. Só um deles escolhe trazer o que perdeu às carrichas. Depois de feitas as escolhas, perguntam o seguinte (suponhamos) àquele que se afastou:

- Mais queres vir numa cesta ou no lombo de um burro (mas dizem alternativas para cada um dos jogadores)?
Se escolher vir na cesta e à cesta correspondesse, por exemplo, vir de gatas, era isso que teria que fazer. Mas se escolhesse vir de burro e a isso correspondesse vir às carrichas, o jogador correspondente teria que o ir buscar!

Vindo da memória da Augusta.


3 - O que é isto?

Os jogadores fecham uma mão em punho e, de modo alternado, põem os punhos uns sobre os outros. Um dos jogadores fica com uma mão livre.

O jogador com a mão livre serve-se dela para ir tocando, de cima para baixo, nos punhos dos outros e pergunta:

- O que é isto?
- Um punho! (responde o jogador em cujo punho se toca. E pergunta o mesmo a todos, até chegar ao último)
- O que é isto?
- É uma arquinha velha! (Responde o jogador com o punho no fim da pilha. E prossegue o diálogo:)
- O que é que tem dentro?
- Pão bolorento!
- E por fora?
- Cordinhas de viola
- O primeiro que se rir leva uma castanhola!

Depois deste diálogo, os jogadores fecham a boca e fazem carantonhas uns aos outros, para ver qual se ri primeiro. Ao que se rir, todos os outros dão castanholas na cabeça.


3 - Esconde, esconde não digas nada a ninguém

À volta da lareira, um dos jogadores esconde um botão (ou uma pequena pedra) entre as suas mãos, juntas e esticadas. Os outros jogadores colocam as suas mãos na mesma posição.

O jogador que tem o botão,passando as suas mãos por entre as dos outros jogadores, tem que entregar o botão a um qualquer, sem deixar perceber a quem. Ao mesmo tempo, vai dizendo "esconde, esconde, não digas nada a ninguém!". Por seu lado, quem receber este botão também não pode demonstrar que o tem em sua posse.

Depois de passar as mãos por todos os jogadores vai perguntando, alietoriamente, qual será o jogador que está em posse do botão.
Ganha quem adivinhar e passa a ser este a esconder o botão.

Vindo da memória da Olímpia.



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A imagem é pouco apropriada mas, visualmente, foi o que achei de mais sugestivo para avivar memórias.

domingo, 28 de novembro de 2010

A MEU PAI


UM DIA NA VIDA DO JOÃO QUE VIRIA A SER O FOUCE
Parecia-lhe que caminhava há já muito tempo, mas não sabia dizer quanto. Saíra ainda o galo não cantara e estugara o passo de modo a estar bem longe quando o padrinho acordasse e, dando pela sua falta, revirasse o Brinço e os arredores à sua procura. Em linha recta, a distância entre o Brinço e as Cabanas pouco passará das cinco léguas, mas naquelas cercanias linha recta é coisa que não existe, sendo necessário multiplicar por dois para se obter a verdadeira extensão. Era afoiteza de mais para um garoto, a bem dizer, mal tirado dos cueiros. Na véspera, gastara o tempo que medeia entre a ceia e o deitar a delinear o trajecto que o levaria para bem longe daquela terra de desterro e passou a noite desassossegado porque não queria perder a hora em que todos dormissem a sono solto. O Inverno assentara arraiais.

O padrinho nem era má pessoa, mas naquele dia deu-lhe para o moer de pancada, teimando que fora de propósito que lhe mijara nos sapatos metidos no sequeiro para ensebar no dia seguinte. Como poderia ser de propósito, se os sapatos estavam tapados com guiços e ele os não podia ver? Bem tentou explicar-se mas, em vez de o ouvir, o padrinho tirou o cinto das calças e bateu-lhe com o lado da fivela, para mais o ferir. Suportou a dor até o outro se cansar e, enquanto apanhava, tomou a decisão de partir. Não era estimado naquela casa onde o padrinho adoptara, agora, a prática da mulher, sempre a zurzir nele como vento em ramo tenro.
– Vou para casa de meu avô que é meu amigo!

Ala ficara para trás. Passara pela terra sem ver fumegar os telhados, sinal de que todos dormiam ainda. O tremeluzir da alvorada já lhe permitia confirmar que uma carambina espessa cobria os caminhos e, ao longe, avistava encostas e encostas de terra semeada de pão à espera de nascer. Concluiu que ia bem e que devia meter-se a direito até Corujas e, dali, arredar um pouco à esquerda em direcção a Comunhas. Pensou que seria melhor evitar as povoações, não fosse alguém reconhecê-lo e associá-lo ao padrinho, que, em seu entender, era conhecido em todo este mundo e no outro. Além disso, àquela hora os lobos já lhe não deviam saltar ao caminho, pois, saciados pela caça nocturna, estariam aninhados nas tocas, aconchegando os filhos. Pensar nos lobos fê-lo estremecer. Ouvira, vezes sem conta, histórias antigas e recentes de alcateias que se organizavam para dar caça aos viajantes solitários, seguindo-os e emboscando-os nos lugares em que era impossível falharem. À lembrança de que alguns sobreviveram por terem acendido uma fogueira, levou a mão ao bolso e sossegou: os fósforos, tão ciosamente guardados pela mulher do padrinho, continuavam ali e eram a única coisa que trazia daquela casa maldita. Se ela o apanhasse, levaria uma tunda, pela certa! Nesse momento deu-se conta de que, mais do que pelo medo dos lobos, estremecera por perceber que, da vida, recebia menos do que os filhos das feras. Esses eram protegidos e acarinhados por seus pais, mas o seu mandara-o para longe de casa, como se atirasse um traste imprestável para a rua. A má sorte tocara-lhe a ele, por ser o mais velho dos rapazes. Tinha nove anos acabados de fazer e, ala! vai servir para casa de teu padrinho, para aprenderes a ser homem e para que eu me lembre menos da tua mãe que morreu por causa de um filho; não foste tu mas tanto faz, porque também nasceste dela, assim como todos os outros e não posso encarar convosco sem que a dor e a raiva me corroam as entranhas! Os outros rapazes, em chegando à idade, seguirão o mesmo caminho! O pai não lhe disse estas partes, mas ele adivinhara-as porque se habituara a estudar-lhe o semblante desde que, havia quatro anos, a mãe se esvaíra em sangue ao fazer nascer o José Delfim.

O comportamento do pai mudara como do dia para a noite. Era alegre e afectuoso, incansável no amanho das propriedades que tinha nas Cabanas e em Rebordaínhos, para que nunca o pão faltasse em casa e a sua Albertina jamais se arrependesse do dia em que aceitou casar-se com ele. Amava os filhos e amava a vida que lhe sorria porque a tinha consigo. Depois ela morreu e viver tornou-se numa agonia que ansiava ver terminada. Tudo deixou de lhe importar! Procurou afugentar a dor refugiando-se na taberna e no jogo. Perdia sempre, mas as leiras com que saldava as dívidas como que encurtavam a distância que o separava do lugar em que ela estava. Em casa, os filhos choravam pela mãe e em todos via traços do seu rosto bem-amado. Olhar para eles significava tê-la ali sem lhe poder tocar e isso era ferro em brasa na sua chaga aberta. Tinha que os afastar, porque não suportava a consumição da dor. Por enquanto, só o João, o mais velho dos rapazes, estava capaz de sair de casa. Lembrou-se do seu parente que vivia no Brinço, que até era padrinho do garoto, entendeu-se com ele e despachou-lho. Esperaria dois anos para fazer o mesmo ao António e logo se veria quando é que o mais novo estaria em condições de seguir pelo mesmo caminho. Das raparigas, todas mais velhas do que os rapazes, já tratara: pô-las em cima de um burro e mandou-as para casa do avô, nas Cabanas. Ficaria ele sozinho em Rebordaínhos.


***

Caminhar estava a tornar-se mais difícil desde que passara Comunhas. Embrenhara-se nos montes para poupar distância, mas as ladeiras eram compridas e o matagal cerrado obrigava-o a andar ao travesso. O frio era tal, que o caroujo só despegava das árvores quando se lhes agarrava aos ramos rasteiros para se amparar na subida e, ao cair no chão gelado, fazia um barulho de vidrinho a quebrar-se. Mas o pior é que ia descalço e as silvas laceravam-lhe a carne. Sentou-se a descansar e retomou o fio do pensamento. Recordou as brincadeiras com o António, seu irmão dilecto, a quem alguns chamavam o “Pincha” porque, apesar de ser mais novo, pinchava a todos quando jogavam ao queda. Lembrou-se das irmãs, a Ana, a Valentina e a Maria que, quase mulheres, precisavam de si para as amparar. Depois pensou na mãe e visualizou o seu rosto meigo com tanta nitidez que quase lhe pareceu que estava ali presente. Os seus traços eram finos, mas o que mais se salientava eram aqueles olhos que falavam sem que a boca precisasse de dizer, “tu és o meu filho muito querido!” Eram olhos de mãe, daqueles que nos afagam por inteiro porque nos amam plenamente. Quem dizia que a sua tia Aninhas se parecia com ela é porque nunca tinha ouvido aqueles olhos a falar!

Estava parado havia tempo de mais. O frio apossara-se-lhe do corpo que tremia intensamente. Já não sentia os pés e esfregou-os um no outro com energia. Tinha que retomar o caminho. Ergueu-se e, num gesto que iria conservar para a vida, meteu as mãos nos bolsos, encostou os braços ao corpo e, com um ligeiro torção, puxou as calças para cima. Aos primeiros passos os pés queixaram-se, magoados por pisarem a terra enrijecida pela geada. Não lhes deu ouvidos e prosseguiu no seu andar que era balançado por assentar inteiramente o pé no chão. Perscrutou o céu e este mostrou-lhe carantonha de borrasca. Arrepiou-se e tentou aconchegar-se melhor na jaqueta para se proteger, ao mesmo tempo que fazia contas ao percurso. Deduziu o número de aldeias pelo número de áreas cultivadas que atravessara e concluiu que estaria no termo de Valongo. Só lhe faltava atravessar a serra para chegar a Espadanedo que não era longe. De Espadanedo às Cabanas é que seria pior, tal a altura dos montes e a fundura dos barrancos, perigosos porque ocultos pela grande densidade de giestas e de urzes, ou das temíveis silvas que, naquela altura do ano, se encontravam tão rijas e secas que nem as cabras lhes tocavam. Seria um subir e descer numa canseira medonha, mas tudo iria correr bem porque, aí, estaria em zona conhecida. Este deslindar do percurso fê-lo sentir-se confiante e redobrou o ânimo, apesar do frio que apertava cada vez mais e dos farrapos de neve que começavam a cair. Sentiu, no entanto, alguma preocupação devido à névoa escura e densa que cobria os vales e já trepava, ameaçadora, pelas encostas. Se tamanho nevoeiro o apanhasse poderia confundir o caminho e perder-se!

À medida que avançava, os seus receios confirmavam-se. Agora, o horizonte que podia enxergar ficava-lhe à distância de um palmo, não lhe permitindo avistar, sequer, de uma árvore para outra. A neve caía intensamente, em farrapos enormes, e o chão já se tingira todo de branco. Escorregava a cada passo e os tropeções que dava nas pedras com os seus pés nus magoavam-no tanto que as lágrimas lhe saltavam dos olhos em borbotões. Percebeu que a temperatura tinha descido muito porque, ao limpar a cara, encontrou as lágrimas transformadas em gelo. Desesperou e, pela primeira vez, soltou um brado que traduzia toda a dor que transportava na alma:

– Ó minha mãe, ajude-me!

Depois gritou muito, cada vez mais alto, até que caiu num choro profundo que o deixou exausto. Sentiu a tentação de parar e descansar encostado ao toro de um carvalho, mas teve medo de adormecer e que a neve o cobrisse de morte. Se ao menos tivesse um capote como aquele em que o padrinho se embrulhava!

Seguiu a marcha, penosa porque o ar gélido lhe feria os pulmões e a neve o obrigava a semicerrar os olhos. Como ela caía, acumulando-se no chão e obrigando-o a levantar cada vez mais as pernas para conseguir caminhar! Deixou de tentar medir o tempo e a distância. Deixou, até, de sentir dor, mas prosseguia agarrado à ideia de que tinha que seguir em frente. Cada passo andado era uma vitória contra a ordem de desistir que o corpo lhe dava, mas contrariava-o porque se lembrava que a casa do avô era uma casa de calor. Lembrou-se, então, dos fósforos que trazia no bolso. Não lhe serviriam para acender uma fogueira pois toda a lenha estava molhada, mas a sua chama, por pequena que fosse, sempre o ajudaria a aquecer as mãos. A princípio custou-lhe, porque os dedos engaranhados não lhe obedeciam, mas assim que conseguiu e viu aquele pequeno lume ateado sentiu um conforto indescritível. Acendeu mais dois para redobrar a sensação e, logo que se consumiram, meteu as mãos debaixo da jaqueta e enfrentou a tormenta abraçado a si próprio. Deu-lhe, então, para tomar decisões em relação ao futuro.

Quando fosse grande casaria com uma mulher cujos olhos falassem tão docemente como os da sua mãe. Teriam muito filhos e amá-los-iam mais do que Deus Pai quis ao Seu e esses filhos que Deus lhes desse seriam aquilo que quisessem ser, porque ele, nem que tivesse que trabalhar como um condenado, haveria de os ajudar a encontrar vida boa. E nunca se lastimaria nem arrependeria dos muitos torrões que viesse a desfazer com a enxada! Um dia, a fotografia da sua filha mais velha sairia nos jornais, com uma legenda a dizer: “se todos fossem assim!” e ele, como forma de manifestar o orgulho, sentar-se-ia naquela pedra saliente das escaleiras da casa que seu pai tinha em Rebordaínhos, e que então seria a sua, e ofereceria um copo de vinho a quem quer que passasse. Como as palavras são dom feminino, a mulher encarregar-se-ia das explicações e, enquanto mostrasse o jornal, declararia sorrindo que a filha concluíra o liceu e aquela fotografia fora tirada durante a realização de um exame. Acolheria as brincadeiras dos filhos como beijos no coração e se alguma lhe saísse chocha de todo, em vez de a repreender rir-se-ia com ela. Em pequenos, todos fariam balancé das suas pernas enquanto estivesse sentado ao lume durante os serões de Inverno e também não se esqueceria de deixar o fundinho do caldo para eles sorverem deliciados. Queres? Ouvia-se perguntar a um deles. Chamaria a todos por nomes ternos e assaria bilhós com que encheria os bolsos para ter sempre alguma coisa pronta para lhes dar. Nesses pequenos gestos mostraria a dimensão do amor que lhes dedicava. Se, por alguma maldade do destino, algum deles partisse para longe e deixasse de saber notícias, meteria pernas ao caminho e achá-lo-ia, nem que fosse no país dos franceses e nem que tivesse de suportar a prisão por causa disso. E se a sorte fosse ainda mais cruel e lhos levasse a todos para a guerra… nesse caso, não saberia o que fazer, a não ser chorar às escondidas e rezar com toda a fé para que lhos devolvessem vivos. Só por um filho admitiria voltar a chorar mas, assim Deus o quisesse, as lágrimas que o sufocaram lá atrás seriam as últimas que vertera.


***

Parara de nevar e o nevoeiro começava a dissipar-se. Olhou em volta e caiu-lhe a alma aos pés ao perceber que não sabia onde estava. Perdera-se! E agora? Já deviam ser horas de o Sol se pôr e de noite não poderia enfrentar a floresta. Tinha medo e o estômago doía-lhe porque não comera nada desde manhãzinha. O desânimo apoderou-se dele e, pela primeira vez, não resistiu à ordem de parar e dormir que o corpo lhe dava. Deixou-se cair, derrotado, e nem se importou que o seu rosto ficasse encostado à neve gelada. Já não fazia diferença!
Depois, não sabe se sonhou, ouviu distintamente a voz de sua mãe:

– João, estás em Vila Seco, no termo de Rebordaínhos. A casa do avô fica para o outro lado! Anda, dá-me a tua mão.


Com muito amor do seu forgalho