sexta-feira, 25 de julho de 2008

Arufe

DOS DICIONÁRIOS:

Ar(ulfi) + (W)u(l)f
Arulfus + Wulf: águia e lobo
.


Arufe, sítio de águias e de lobos. Arufe, lugar de céu e de terra; lugar dos senhores do céu e dos senhores da terra.


Em Arufe tudo é essência e primórdios.

*
Arufe é um vale velho da meseta, quebrado pelas forças que criaram os primeiros continentes. O sítio da fractura foi sendo calcado pelas ribeiras enquanto as montanhas, devastadas pelos ventos e pelas chuvas, se transformavam, lentamente, em planaltos. É por isso que o vale de Arufe é amplo e a serra não oprime.

Às vezes, a Terra mostra as entranhas em barrancos fundos que são úberes floridos, maneira de nos provar que é muito mais do que o chão que permite que pisemos.

A variedade de verdes é quase inesgotável e quando se eleva o olhar vemos o verde estampado num azul tão puro e transparente que custa a acreditar. Os lobos, se fossem ferozes, escolheriam outro lugar para viver.

Arufe é lugar com coordenadas geográficas definidas, possível de alcançar por caminhos de bichos e por caminhos de homens.

A geografia emociona e emudece quem lá chega. Aí, o acto da criação é absoluto, real e concreto: no cheiro da terra fofa, funda e húmida; na fragilidade dos caules da flora rasteira que atapeta os passos dos animais, dá as cores aos sonhos da noite e impregna o sangue com o perfume discreto que dá a respirar; na música da água corrente e sempre presente, temperadora do frio e do calor; na singeleza da roseira brava, do linho bravo, do abrunheiro bravo e de todas as plantas não tocadas por mão humana; na copa heróica de cada castanheiro que se intersecta com a copa heróica de outro castanheiro, ou de um freixo, ou de um olmo, gigantes protectores que coam as inclemências das alturas e são sustento de bichos e homens.


Arufe é permanência. Arufe é o tempo que não muda.

*

Se Arufe é sítio de lobos, a casa é a toca dos homens, lugar onde se abrigam do frio e onde podem pernoitar sossegando o alerta dos sentidos; é espaço de aprendizagem das hierarquias e da linguagem a condizer; é sítio da experimentação dos afectos mais profundos.
Os Homens da casa são lobos na acepção que os lobos farão de si próprios, se nas línguas dos homens formos capazes de lhes traduzir os termos. Amam-se, ensinam-se e sustentam-se, cada um para todos os outros até à extenuação das suas possibilidades. Sendo toca, a casa é lugar de ser-se e pertencer-se.

Em Arufe havia a casa da avó.

A casa fica encravada na boca aberta de uma eira esboucelada. Casa e eira - abrigo e sustento - são território dos homens-lobo.
Tudo tem a cor da terra porque a casa, de granito e xisto, enegreceu por fora e enegreceu por dentro e o telhado fica ao nível do chão da eira. Em Arufe, as construções dos homens são tocas de lobos e só assim são harmonia, e só assim fazem sentido.

Em tempo certo, no justo devir das estações, a casa escura e baixa enchia-se de ramos de amoreira. Nas folhas passeavam-se os bichos-da-seda, no seu vagar de comer que é o vagar da infância.
Mais adiante no tempo, cachos de casulos distribuíam-se pela cozinha ampla e abochicavam-na de ouro. Aos serões, mulheres e raparigas aconchegavam-nos ao seio, não fosse o frio impedir a metamorfose. Só mulheres e raparigas. Às mulheres e às raparigas cumpriu sempre acalentar a vida.

Apenas algumas crisálidas seriam aconchegadas: aquelas às quais estava destinada a perpetuação. O destino das outras cumpria-se longe do olhar das crianças, não por querer poupá-las à dureza da verdade, antes, porque as dobadeiras e tecedeiras da seda seriam de paragens mais longe. Para aqueles que residiam na casa, a vida nunca foi coisa que se escondesse. Mas, pelos casulos que ficavam, os meninos podiam testemunhar a ressurreição!

Os olhos grandes de uma criança de corpo miúdo guardaram cada uma destas imagens. Elas haveriam de tornar-se lastro importante de recordações afectuosas. E se a memória resultar, tão-só, da visualização das palavras de outros, não será menos sua, nem sequer menos possível.

A certo tempo a casa esvaziou-se de gente e os bichos-da-seda deixaram de contar com os afagos de mãos cuidadosas. O interior, que o lume deixou de alumiar, queda-se em negrume de fuligem. Cá fora, as amoreiras vão perdendo o viço, como se quisessem dizer que já não servem para nada. Nas paredes da casa medram fetos e ervas do "arroz" e dos "roquelhos", agora poupadas às brincadeiras que a canalha inventava com elas. A eira deu-se ao descanso. Nas suas bordas, figueiras e medronheiros podem crescer sossegados. Reina o silêncio.

É estranho falar de silêncio quando a eira se enche dos cantos da bicharada: toutinegras, pardais, rouxinóis, pintassilgos, rolas... até o cuco se aproxima, esquecido da timidez. E à noite há corujas e mochos. A passarada multiplica-se, agora que nenhum ganapo lhe persegue os ninhos, em hora de lazer e de lazeira lambona. Há também as preguiças e os vaga-lumes e isto só para falar nos animais que os homens são capazes de ouvir! Falar de silêncio, no meio de tamanha sinfonia, é como dizer-se que só a voz dos homens pode dar corpo ao ar. É presunção do homem que deixou de ser lobo e se assenhoreou de toda a vida.

A casa, se perdeu a gente, ganhou perfume: a essência fresca e delicada das maçãs. As maçãs de inverno, colhidas no Outono, são lá depositadas. E as paredes negras de fuligem ganham tal luminosidade, que é como se um sol pequeno estivesse dentro da casa, a brilhar só para elas.


Arufe é terra de viventes, mesmo que já não estejam connosco.



Fátima Stocker, Ago./ Nov. 2004

domingo, 20 de julho de 2008

Incêndios Florestais
"prevenir, a atitude correcta"

Nunca é demais ver os resultados da falta de cuidado

Veja os videos disponiveis nesta página (ECO empresas)

Ontem foi o dia com maior número de incêndios desde que se iniciou a fase Charlie, ocorridos em território Nacional e envolveu o maior número de combatentes e de meios para no seu combate

Ocorrências de incêndios mais significativas (ANPC)

Veja aqui as estatisticas desde que se iniciou a fase Charlie (ANPC)

terça-feira, 15 de julho de 2008

ARES DA SERRA





II - POTRIQUEIROS

por

António Augusto Fernandes




F. Léger, L'Acrobate et les Jongleurs (1965)


Conversava-se ao desenfado sobre política e políticos no meio daquela gente tranquila das serras do norte. Aproveitando uma pausa nos prolóquios, uma mulherzinha miúda, de atentos olhos de azeviche, envolta nos trapos negros de quem já muito aturara à vida em fomes e pesares, sai-se de lá com a exclamação desenganada: São uns potriqueiros! E a palavra saltou-me, inteira na sua risonha complacência, dos escaninhos das memórias da infância, onde adormecera há que vidas.

Onde iam eles, os potriqueiros!
Nos tempos esganados que se seguiram à Segunda Grande Guerra, não era fácil para um pobre acudir todos os dias aos ladridos da barriga atormentada pela fome e havia que recorrer a almudes de criatividade para rapar o magro pão de cada dia, dia sim dia não. Dentre esses imaginativos salientavam-se os potriqueiros. Potriqueiros lhes chamava o povo do norte, fazendo uso de uma simpática corruptela de pelotiqueiros, significando uma espécie de artistas mais ou menos circenses que faziam jogos malabares com pequenas pelas, cujo diminutivo seria pelotas.

O povo até que gostava deles, dos potriqueiros, seus irmãos na miséria e descendentes de uma longa linhagem de artistas saídos do povo, cujos ascendentes mais remotos se situavam entre aqueles velhos jograis que, no tempo dos afonsinos, percorriam feiras e vilares com seus momos e mistérios, seus cantares e poemas, numa Idade Média que, nas serras do interior, teimou em prolongar-se pelo século XX, tanto no imaginário religioso e profano, como na maneira de lidar com a terra. Com o tempo a palavra foi alargando a sua dimensão semântica e passou a significar também aqueles que mostram capacidade de sobreviver à custa de simpáticas artes e manhas de carácter mais ou menos histriónico.

Esses potriqueiros arribavam à aldeia pelo Outono, quando partiam as andorinhas e o lavrador dava por findas as canseiras das malhas, da arranca das batatas, pois que os ouriços dos castanheiros, ainda não tinham começado de arreganhar. Pelas encostas da serra, acobreavam as ramagens de touças e soutos e as primeiras névoas prenunciavam o repouso da madre natureza exausta da parturição dos seus frutos. Era um tempo de pausa em que as tulhas cheias deixavam o lavrador mais propenso a largar uma malga de grão de centeio ou meia dúzia de batatas nos alforges destes histriões errantes, em troca de uns malabarismos, duas anedotas brejeiras e alguns truques de ilusionismo que lhe fizessem esquecer as canseiras de todo um ano a lutar com uma terra áspera e avara em mimos. Surdiam imprevistamente, não se sabe donde, com suas azémolas tropiqueiras ajoujadas debaixo dos magros trastes da cozinha de campanha, das vestimentas com que encenavam as suas pantominas e, às vezes, o luxo de um velho animatógrafo asmático cujas fitas enguiçavam a cada cinco minutos.

A moçoila mais vistosa da tropa fandanga, de perna ao léu e faces avivadas a lápis lazúli e vermelhão, mais o moço do cornetim, davam volta ao povoado, alagando de alacridade as ruelas bisonhas da aldeia granítica com o seu colorido e as suas notas vibrantes do velho chanfalho e arrastando atrás de si a horda grulhenta do garotio. E um frémito de charme exótico sacudia as grossas gentes serranas.

À noite, no largo da aldeia, com o sobrado de dois carros de bois desembaraçados das engarelas, postos os pinalhos na horizontal, faziam palco para exibição das suas pantominices, ou, se o tempo não estava para folestrias, em palheiro mais amplo lastrado de palha nova, pedido de empréstimo a lavrador mais galhofeiro. E o pessoal acorria a esse Tivoli improvisado, mais basto que pardais a uma eira depois das malhas. Compenetradamente, os artistas tentavam compensar o seu público dos magros tostões desembolsados entregando-se com denodo aos seus jogos de prestidigitação, à declamação histriónica de estrofes mais ou menos fesceninas e à encenação rudimentar de farsas ligeiras herdadas e estropiadas desde os tempos de Gil Vicente.

*

Desapareceram os potriqueiros. Desapareceram levados pela correnteza do imparável tempo que tudo consigo arrebata. E, com eles varreu-se a palavra mágica, potriqueiros, que nem sequer o Houaïss nem o Dicionário da Academia registam.

domingo, 13 de julho de 2008

"Liloto"

Um dos membros do blog , a "liloto" chegou hoje ao meio século de existência. Apesar de alguns Invernos muito duros e sofridos, é senhora de excelente jovialidade e entusiasmo. Para ela, os nossos sinceros parabéns!

Como todos sabem, ela é um bocadinho vaidosa. Assim em vez de lhe oferecermos flores, deixamos aqui a sua imagem

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Gastronomia Transmontana III
Receitas de Antanho

Mais uma receita deixada pela Augsta nos comentários e que de lá foi retirada para a deixar, pela sua excelência, no lugar que merece.

Fígado da Matança

O fígado que se utiliza na matança é retirado do animal acabado de matar.
Começamos por partir as iscas.
Temperam-se com sal, alho, vinagre de vinho e louro.
Entretanto, parte-se bastante cebola às rodelas para um pote onde já está o azeite a aquecer. Quando a cebola estiver translúcida, acrescenta-se o fígado juntamente com a "marinada" onde esteve. Tapa-se o pote e deixa-se cozer muito lentamente para ficar bem apuradinho.
Rectificar o tempero.
Servir com batata cozida (da nossa - a da serra)
Bom apetite

Receita enviada pela Augusta Mata (Rebordaínhos)

Ao repto lançado pela Augusta, nos comentários, logo apareceu a Regina Céu a deixar receita do......

Caldo de grabanços das malhas


Foto de António Fernades (malha-1981)

António,
A sopa de grabanços ou erbanços das malhas era muito simples. Provavelmente, a excelência do sabor era o facto de ser feita no pote.
Coziam-se os grabanços até ficarem quase desfeitos, engrossando o caldo. Acrescentavam-se batatas (poucas), a couve esfarrapada e massinhas ou macarrão. Havia quem cozesse uma galinha velha. Esta sopa ficava a manhã quase toda a fervilhar, um pouco afastada dos tições.
Do que me lembro era apenas isto.

Receita de Regina Céu Fernandes (Rebordaínhos)

Pelo que me disse (telefonei-lhe a perguntar, porque o caldo dela ainda hoje faz de mim cão de Pavlov), a tia Maria não lhe põe couves (que couves, Céu?), mas acrescenta-lhe arroz ou, às vezes, massinha. Diz que, muitas vezes, deixa os erbanços cozidos de véspera e que os acrescenta depois às batatas no pote, para cozerem melhor. Para lhe dar bom sabor, no caldo também coze chicha gorda que pode ser substituída por unto ou pingo. No fim de estar tudo cozido, esmaga a batata com o garfo sobre uma espumadeira. Como com a batata se esmagam alguns erbanços, o resultado é aquele creme espesso muito saboroso. Também alegre, porque dourado, a combinar com o pão que se está a malhar. (Fátima)

Próximo post desta etiqueta "repolgas à moda da minha sogra "


terça-feira, 8 de julho de 2008

Nomeadas (II)

Pasme-se: são 190! Cento e noventa nomeadas!


É claro o predomínio da letra -C- (36) e só não estão representadas as letras D, H, O, Q, U e X.
Só já falta identificar uma. Quem pergunta aos mais velhos? A tia Maria Fecisma, que me aturou longos minutos ao telefone, ajudou-me com muitas, mas não se lembrava de todas!

Há algumas muito bem apanhadas! Outras, tenho pena, nem imagino o que possam significar. No dizer do Tonho, as nomeadas muitas vezes aparecem de forma mais ou menos aleatória e por fenómenos de homonímia ou paronímia, sem qualquer significação especial. Acrescenta, ainda: É espantosa a criatividade desta gente de Rebordainhos que não deixava ninguém sem ser rebaptizado.

A grande vencedora do conhecimento das nomeadas é, sem margem para dúvidas, a Céu. Deixou-me de boca aberta. Parabéns! Ela não quis receber os louros pois, nas suas palavras, as grandes vencedoras das nomeadas são a Conceição e Delfina Fernandes. Foi a elas que pedi ajuda e também o meu irmão Orlando, sobretudo das mais novas.

Tentei organizar tudo alfabeticamente, mas tanta nomeada estava a deixar-me birolha. Ninguém se espante, por isso, se alguma vier fora de ordem. Aqui fica, então, o resultado.

Agasalho – Joaquim Pereia
Agulhas – José Carlos Silva
Alaxeco – Adriano (dos Pereiros)
Alheiras – Eduardo Pereira
Aidinhas – Alfredo Pires

Atilano – António Pires

Baçal – António Rodrigo (Ver Vira-Sacos)
Badalinho – João Silva
Bagueixe – José Fernandes
Balhinhas - Carlos Pereira (Ver Tralhós)
Batitá – José Augusto Pereira
Barbas d'Alho - Manuel Maria Pereira (Ver Galochas)

Barril – Manuel Pires (filho do sr. João Santo)
Beringuel – Luís RodrigoBexiga – Augusta Silva
Bilhó – Helena Alves (filha da tia Glória)

Bombo – José Fernandes (filho da tia Vermelha)
Bonifácio – Tarcísio Martins
Botão de Camisa – Eduardo Alves (filho da tia Glória)
Botija – Júlia Martins
Bóto – Manuel Gomes (Ver Galanduns)
Boubla – Aniceto Ferreira
Braba – Teresa Fernandes
Brotas – Hermenegildo Martins (filho do tio Grilo)


Cabo Raso – Alfredo Fernandes
Cachulas – António Pires
Çaço – Francisco António Fernandes (Ver Chasco)

........... ..Rui Fernandes

Cagalheta - João Pereira (Ver Engenheiro)
Caixeiro – Hermenegildo Pires
Caldeireira – Isabel Pires

Calhilha – Casimiro Pires
Caloura – Emília Maria Pereira
Calouros – Benedita Pereira....................
                 Emília Pereira
.................Estefânia Pereira
....................César pereira
Çapão – Sebasião MartinsCarabunhas – Alfredo Pires
Carambolas – Ernesto... marido da Sr. Dona Denérida, irmã do P.e João
Caranvas - Manuel Marins. Ver "Frade" e "Guerra"
Carriço – Evangelista Fernandes
Carroucha – Camila Pereira

.......................Conceição Fernandes (ver Sarrolha).......................
                     Delfina Fernandes (ver Grufina)
Chanças – Américo Fernandes (filho da tia Vermelha que foi para o Brasil)
Carteiras – Artur Augusto Pereira (ver Sacheco)
Caseiro – Sr. Humberto, de Arufe

Chasco - Francisco António Fernandes (Ver Çaço)

Checha - Maria dos Santos Caminha
Chedre – Carlos Pereira
Chefe – José Gomes
Chicheiro – Francisco Rocha
Chiote – Carlos neves
Chochelas – José Pereira
Cidália – Natália Pires
Conservado – António Pires (Toninho da sr.a Margarida)

Cornecho – António Pereira (filho da sr.a Benedita Caloura)
Coronel – Manuel António Fernandes

Corrécio – Emídio Pires (filho do tio Grilo)
Couceiro – Amadeu Pereira

Çuca – José Caminha
Cuco – João Fernandes
Cueca – Fernando Silva
Curopos – João Alcino


Êlhe – Fernando Carlos Martins
Engenheiro –João Pereira
Ervilhas – Hermínio Pereira

Escacha - Toninho da sr.a MargaridaEscachado – Armindo Pais
Escamado – Frederico Assunção Pires

Façana – Humberto Martins
Falta de ar – Norberto Pires
Farinhoto – Alexandre Pires (filho do tio Alípio Piqueno)
Farturas – Artur Alves
Fecisma – Maria da Graça Pereira
Ferramentas – José Carlos Veigas

Ferrinho – ?
Foguete – José Pais.................
                Armindo Pais (Ver Inimigo)
Fouce – João Manuel Pereira
Frade – Manuel Martins (Ver Guerra)
Fudicas – Ramiro Alves
Fuseiro – Aníbal Pereira


Galandum – José Gomes; (Ver Chefe )......................
                  Manuel Gomes (Ver Bóto)......................
                 Álvaro Gomes
Galeco – Jorge Pires
Galila - Tina Pires
Galochas – Manuel Maria Pereira (Ver Barbas d'Alho)
Garnacho – Sr. António (de Arufe, marido da sr.a Sância)

Garrano – José Adriano Pereira Martins (Ver Panarra)
Girinha – Alzira Machado
Gitlém – Hermenegildo Pires
Gralha – Ascensão do Senhor (esposa do Sr. José Luís)
Grande (A) - Antonieta Morais
Greludo - João Silva
Grifa – Zulmira Pereira
Grifo – António (Toninho, filho da tia Zulmira. Ver Marreta)
Grilo – Graciano Martins
Grufina – Delfina Fernandes (Ver Carroucha)
Guerra – Abílio

.................Adriano
.................Alfredo Martins (Ver Rastreja)
.................Manuel Martins (Ver Frade)
.................Sebastião Martins (Ver Çapão)

Inimigo – Armindo Pais (Ver Foguete)

Jarrete – António Júlio Pereira
Joaninha – Adília Julieta Morais

Juiz – António Silva

Labaredas – Victor Martins (Ver Macieiro)
Leirão – Carlos Martins

Leque – Mário Bernardo
Ligeira – Luís Machado
Lhé – Manuel Pais
Lobo – Alfredo Pires (Ver Aidinhas)
Lunetas – Carlos Ribom
Luzerna – Maria da Luz Gomes

Leocacha – Helena Pires (filha do tio Caixeiro)

Macieiro – Victor Martins (Ver Labaredas)
Malaguetas – Filipe Baptista
Malino – Joaquim Pereira (Ver Agasalho)
Mandinho – Amândio Pereira
Maneta – Olímpia da Natividade Afonso
Manias – José Maria Pereira (filho do tio César)
Maralha – Maria Emília Pereira (mulher do sr. Alcino)
Marão – Mário Fernandes
Marelo – Paulo Martins
Margarido – Carlos Pires
Maria Narcisa -
Maria da Graça Costa
Marquesa – Maria (mãe da sr.a Perpétua e da tia Maria do Seco)
Marreta – António Pereira (Ver Grifo)
Matrilena – Helena Martins

Milão – António Pereira
Mocho – António Honorato Fernandes (filho da tia Vermelha)
Moreno – Francisco Martins
Morraco – António Braz Pereira

Moucha – Zulmira Pereira

Nharro – Gilberto Fernandes (Ver Tição)
Nelzeira – Manuel Caminha


Pacheco – Duarte Pires
Pachica – Ana Maria Martins
Panarra – José Adriano Pereira Martins (Ver Garrano)
Pancrácia – Ana Morais
Panke – Carlos Gomes

Pássaro – Virgílio Fernandes
Pastora – Antónia Fernandes
Pataca – Maria Filomena Martins
Pateiro – Duarte Fernandes
Patinge – Amâncio Martins
Patolas – António Gomes
Patorro – Jaime do Nascimento
Pedro – Manuel dos Ramos Pereira
Pelada – sr.a Isabel
Pereirinha – Lurdes Pereira Ribom

Perrincha – Fernando Martins
Pescadinha – Basílio Pires

Picarete – João Baptista Pereira
Pilatos – Jorge Pereira
Piloto – António dos Santos Martins

Pintassirgo – António Pires (filho do tio Caixeiro)
Pincha – António Pereira (no Brasil era o “Couce de Mula”)
Pinguim – António Pires (filho do tio Alípio)
Pinote – Orlando Martins
Pintana – Guilhermino Fernandes (Ver Sortes)
Piqueno – Alípio Pires
Piruças – Orlando Fernandes

Pote – José Fernandes
Pouca-Chicha – Fernando Alves


Raposa – António Bernardo Pereira
Rastreja – Alfredo Martins (Ver Guerras)
Rata – Efigénia Pereira
Rauta – Gualter Martins
Rente (ao chão) – António Morais
Ribas – Amílcar Pires
Roca – Ana Pereira
Ruça – Amélia Pereira

.............Júlia Pereira

Sacheco – Artur Augusto Pereira (Ver Carteiras)
Santa – Etelvina Pires
Santacombinha – João de Deus Pires
Santo – João Pires
Santo Velho – António Manuel Pires
Sarrolha - Conceição Fernandes (Ver Carroucha)
Seca – Eduarda Pires
Seco – João Pires
Serrinha – Joaquim Martins (filho do tio Moreno)
Sorna – Carlos Martins
Sortes – Guilhermino Fernandes (Ver Pintana)

Sota - Angélica Costa

Taré – Perpétua Pires
Tição – Gilberto Fernandes (Ver Nharro)
Torto – Adriano Martins (Ver Guerra)
Tralhós – Carlos Pereira (Ver Balhinhas)
Trocho – António Rodrigo


Valente – João Valente
Vermelha – Maria da Conceição Pires
Vira-Sacos – António Rodrigo (Ver Baçal)


Zãeno – Eduardo Rodrigo
Zaragatas – Manuel Veigas
Zarrunga – Ascensão Fernandes (de Arufe)



Fátima Stocker

domingo, 6 de julho de 2008

Onde estão os meus sapatos?

ONDE ESTÃO OS MEUS SAPATOS?"

Este é o título de um livro que, há tempos, encontrei nas estantes da livraria Cervantes em Salamanca. A sua autora - Brenda Avadian – descreve no decorrer do mesmo “o caminho percorrido…” pelo seu pai “…através da doença de Alzheimer”.
Como ficar indiferente a um título destes, se há tão pouco tempo perdi a minha mãe, vítima de Alzheimer?


“Então mãe, os garotos já telefonaram?”
“Já. Telefonaram de… diz lá tu!”
“De Celorico?”
“Isso.”
Este foi talvez o primeiro diálogo que, se tivesse estado mais atenta, me indicaria que a minha mãe estava, também ela, a entrar no mundo do Alzheimer. Mas, tal como inúmeras pessoas, entendi aquele pequeno esquecimento como próprio de um processo de envelhecimento que eu via como normal. Mas não era…
Inicialmente, foi-lhe diagnosticada uma depressão. Quão apertado estava o meu coração ao sair com ela do hospital onde, no dia, seguinte seria submetida a uma operação à vesícula biliar…
“O que tu queres, sei eu….queres mamata” – dizia-me ela quando a tentava convencer a ficar.
“…Um doente de Alzheimer poderá não reconhecer uma infecção como algo problemático e não ir mesmo ao médico ou, então, vestir-se inadequadamente, usando roupa quente num dia de Verão.”
Os esquecimentos acentuavam-se. A cada dia que passava, algo de novo acontecia
“Mãe, a rapariga pode estar bem fresca” – dizia-me o meu filho mais velho quando, ao abrir o frigorífico, encontrou uma revista com uma menina na capa.
“Um doente de Alzheimer pode pôr as coisas num lugar desajustado: um ferro de engomar no frigorífico ou um relógio de pulso no açucareiro”
“… E tu deste-me alguns salpicões?”
Esses salpicões, havia eu de os encontrar bem guardados entre os cobertores que ia lavar para serem arrumados no verão que se aproximava. Embrulhados em dois sacos de plástico, lá estavam eles. E que tempos de procura, e dores de cabeça, por pensar que os meus irmãos pudessem acreditar que, efectivamente, eu tivesse voltado a guardar os enchidos, tal como o meu pai havia referido…
“Uma pessoa com a doença de Alzheimer esquece-se das coisas com mais frequência, mas não se lembra delas mais tarde, em especial dos acontecimentos mais recentes.”
Nesta altura já eu sabia que algum tipo de problema estava a afectar a minha mãe. E, por isso, chamei à atenção do meu pai para a necessidade do cumprimento da medicação ( a minha mãe era perita na simulação da toma dos medicamentos).
Coitado do meu pai. Que enorme responsabilidade acabava de lhe colocar em cima dos ombros! Mais uma a somar a tantas outras que já havia assumido ao longo da sua vida.
Os fins-de-semana passaram a ser dedicados ao arranjo duma casa que, imediatamente após eu ter saído, regressava à desorganização habitual. “Vale-te bem a pena, filha! Mal tu viras costas, põe logo tudo com dono!” – dizia-me o pai, ao ver-me atarefada para deixar tudo em ordem. Hoje questiono-me se não se trataria de uma defesa que ela adoptava para se lembrar das coisas.
“ Mãe, já comeu?”
“Não sei”
Desde pequena, habituei-me a ouvir minha mãe dizer à hora de almoço, que só naquela altura estava a tomar a primeira refeição do dia. Havia então necessidade de lhe lembrar que deveria comer. Para além disso, “…O doente de Alzheimer pode ser incapaz de preparar qualquer parte de uma refeição ou esquecer-se de que já comeu”.
Naquela altura, a demência já estava diagnosticada, e as leituras efectuadas já eram “mais que muitas”, mas nada me fazia compreender o porquê, apesar da minha força aparente, quando tentava explicar aos meus irmãos que, tal como eu, não compreendiam inicialmente determinados comportamentos.
Recordo o dia em que, tendo tido alta do hospital, e estando em minha casa na companhia do genro, tentou a fuga por três vezes. Começou a preocupação de que, algum dia, se esquecesse de onde estava.
“ Pai, onde está a mãe?”
“Inda agora estava aqui, não sei como desapareceu tão depressa!”
“…uma pessoa com a doença de Alzheimer pode perder-se na sua própria rua, ignorando como foi dar ali ou como voltar para casa”
Até então, a dona “da carteira” da casa era ela. Nada era comprado sem que ela soubesse. Mas também o dom da gestão da casa começava a perder-se. Quanta vezes lhe telefonei avisando que eu levaria com que fazer de comer. Mas outras tantas houve que, chegada à aldeia, tinha um outro almoço à espera…
“A senhora dá-me tanto dinheiro para pagar um selo?...” – Dizia-lhe o carteiro quando ela lhe entregava uma nota de dez contos para pagar um único selo .
“…alguém com a doença de Alzheimer pode esquecer completamente o que são os números e o que tem de ser feito com eles…”
As variações de humor eram, também, uma constante. Quantas interrogações para os amuos que, de repente, apresentava sem que alguém conseguisse encontrar explicação!
“Oh! Deixa-me… se soubesses como estou !...”
“Alguém com a doença de Alzheimer pode apresentar súbitas alterações de humor – da serenidade ao choro ou à angústia – sem que haja qualquer razão para tal facto.”
Vieram as desconfianças, os comportamentos inadequados…
“Podemos depositar o cheque, mãe”- Dizia-lhe eu, depois de lhe terem pago a colheita das castanhas desse ano.
“Não, não. Quero ver o dinheirinho aqui na minha mão.”
E lá fomos nós levantar o cheque num banco para, de seguida, atravessarmos a rua, para depositar o dinheiro noutro.


.....
“A mãe, pai?”
“Está lá dentro.”
Estava a ”lavar” a casa de banho. Banheira, bidé, azulejos… tudo estava impecavelmente limpo na sua perspectiva, mas… o detergente que usou foram... fezes.
“…um doente com Alzheimer pode mudar totalmente, tornando-se extremamente confuso, desconfiado ou calado. As alterações podem incluir também apatia, medo ou um comportamento inadequado.”
E começaram também os discursos desconexos. Palavras que se foram apagando da sua memória, e outras que adquiriam um significado que só ela entendia. “Quero morrer” dizia ela, quando tinha necessidade de defecar. “…doente de Alzheimer pode esquecer mesmo as palavras mais simples ou substituí-las por palavras desajustadas, tornando as suas frases de difícil compreensão.”
A mudez começou a acentuar-se. Só muito esporadicamente saía alguma palavra com sentido, ou bem empregue no contexto.
Mais adiante, a mãe trabalhadora, lutadora, guerreira, amiga, presente, preocupada, passava os dias sentada, balbuciando palavras incompreensíveis ou, simplesmente, emitindo aquele som “ah, ah ah…”, para, no final, não emitir som algum.
“Um doente de Alzheimer pode tornar-se muito passivo e necessitar de estímulos e incitamento para participar”
A doença de Alzheimer, sem pedir autorização, entrou na nossa vida e levou-nos a nossa mãe.
Dizem, ainda, que a pessoa com demência acaba por não reconhecer as pessoas. Até mesmo as que lhes são mais significativas acabam por se transformar em meros desconhecidos. E, a verdade, é que no final, já quase não reconhecia ninguém (?) Permitam-me a interrogação Acredito piamente que, apesar de não mencionar qualquer nome, nunca deixou de conhecer os filhos. Também acredito que tenha reconhecido a Dorinda até ao final. Essa é a minha convicção.
“Mãe, sou eu… Sou eu mãe, estou aqui”…
Beijei-a muito. Beijos a que habitualmente ela correspondia…
Mas, apesar da minha insistência, naquele dia 13 de Março, a mãe já não foi capaz de me beijar, nem de sorrir para mim. Estava linda, como sempre mas…



simplesmente partiu.


A mãe foi encontrar-se com o pai.












Nota: Todas as citações foram retiradas de – Portal da Saúde, em
http://www.portaldasaude.pt/

Após recordar algumas das receitas que aprendi com ela, senti que tinha a obrigação de fazer uma homenagem à minha mãe.
Os factos narrados podem não aparecer pela ordem cronológica em que aconteceram. Simplesmente, a partir do momento em que comecei a escrever, o fio foi-se desfiando e tentei, simplesmente, construir numa sequência mais ou menos organizada, aquilo que aqui pode ser lido.
Mas, simultaneamente também, achei que deveria fazer mais que isso. Queria dedicar este post a todos os que padecem de Alzheimer, (ou de outras demências), nomeadamente aos naturais e residentes em Rebordaínhos.
Queria, também, dedicá-lo aos seus familiares, cuidadores muitas vezes esquecidos e incompreendidos que, de forma abrupta, vêem a sua vida voltada do avesso.
Por outro lado, entendi que deveria ir mais além. Porque não aproveitar para esclarecer um pouco mais as pessoas, apresentando simultaneamente alguns sinais da doença. Se tal atitude tiver alguma utilidade, tanto melhor.
Um abraço, e muita garra para as pessoas (doentes ou familiares) que estejam a passar por tal situação.

sábado, 5 de julho de 2008

Gastronomia Transmontana -II -
"Receitas de Antanho"

Que nos perdoem os visitantes destre blog , por aqui transcrever (na íntegra) dois comentários colocados no post anterior, mas a pronta colaboração da minha cunhada, a excelência e a origem das mesmas,o facto de serem dedicadas aos irmãos e o querer partilhar convosco levaram-me a fazê-lo.

Obrigado Augusta

A lavagem das tripas na Fonsim. Era a matança do Rafael. Vêem-se (da esquerda para a direita), a Ester, a tia Zulmira e um bocadinho da bata da tia Teresa.

Também me agrada este post. Seguem as couves da matança:

Ingredientes

Couve penca (portuguesa) em quantidade considerável, pois mingam com a cozedura. A couve mais branquinha é melhor
- ovos
- uma colher ou duas de farinha
- 3 ou 4 dentes de alho
- azeite (transmontano)
- sal qb
- vinagre de vinho qb

Amanham-se as couves, folha por folha, tendo o cuidado de descascar o talo na sua parte mais dura (mais convexa). Cortam-se em pedaços não muito pequenos e lavam-se muito bem.
Cobre-se o fundo dum pote com o azeite onde se colocam os dentes de alho e deixam-se alourar. Depois retiram-se e introduzem-se as couves. Tapa-se o pote e deixam-se cozer na água que as mesmas vão libertando. O lume deve ser brando. Ir mexendo, ou virando o pote, para não pegarem. Temperar com o sal a gosto.
Depois de muito bem cozidas (praticamente desfeitas) adicionam-se-lhe os ovos previamente mexidos e aos quais se adicionou o vinagre.
Mexer aquando da adição.
O resultado é uma espécie de esparregado de couve. Adicionar uma ou duas colheres de farinha para as tornar mais cremosas.
Rectificar o tempero e servir bem quentinhas com um assado de carne, e BOM APETITE.

Nota: quem não tiver pote, pode sempre cozinhá-las numa panela, mas fica-se a perder aquele sabor da comidinha no pote... (porque cozinhada lentamente? Ou porque o pote é de ferro? Provavelmente pelas duas razões).

Couve de penca oferecida pela Carma

Beijos e, no Inverno está prometido um jantar com couves da matança.
Augusta

E, porque não podemos ficar sem sobremesa, aqui vai uma muito especial que ofereço a todos os meus irmãos, porque sei que não a têm:

PUDIM DE FEIJÃO DA MINHA MÃE

500gr de açúcar
1 tigela de feijão branco descascado e passado pelo passador (a feijoca é melhor, porque mais rápida de descascar)
12 ovos (dos quais 9 gemas e três inteiros)
1 cálice de vinho do Porto
1 colher de manteiga

Põe-se o açúcar ao lume até adquirir ponto de fio.
Mistura-se o feijão no açúcar. Depois misturam-se os ovo e gemas batidos. Depois de tudo misturado, junta-se uma colher de manteiga e um cálice de vinho do Porto.
Deita-se numa forma caramelizada e coze em banho Maria

Deliciem-se com esta soberba sobremesa da minha mãe.
Beijos



Recolha da Augusta, junto da sua mãe, Teresa do Nascimento Martins (Rebordaínhos)

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Gastronomia Transmontana - I -

Tenho jeito para a cozinha, mas não conheço as receitas da região para as confeccionar.
Não sendo o tempo da castanha, este post é tão somente um convite para pedir a colaboração dos leitores: quem puder, envie-nos receitas transmontanas, para aqui serem publicadas (caso seja recolha oral ou outra, por favor indiquem a fonte).

Quem sabe quais os pratos da matança do porco e como se confeccionam, em especial o das couves com ovos, vinagre e alho e o delicioso arroz feito com a água de cozer as aves e que acompanha os enchidos? Tive a oportunidade de, soberbos, os saborear mais do que uma vez em casa do Rafael, e estes dois fazem parte de uma dezena daqueles que se servem, nesse dia, aos convivas. Quem ajuda a falar neles?

Carne de porco com castanhas (6 pessoas)

1,5 kg de carne de porco (entremeada)
2 dl vinho branco
6 dentes de alho
1kg de castanhas assadas
Sal (qb)

Corta-se a carne em bocados regulares (com cerca de 5cm) e põe-se a marinar de um dia para o outro com o vinho branco, alho e sal.

No dia seguinte, retira-se o alho e levam-se os rojões a cozer no vinho da marinada. Quando estes tiverem um aspecto de cozido, escoa-se o vinho e acrescenta-se a gordura (óleo, azeite, banha, etc.) e levam-se novamente ao lume até ficarem louros. Quando os rojões estiverem quase prontos, acrescentam-se as castanhas para que estas tomem o gosto dos rojões. Por fim, serve-se acompanhado com maçã crua fatiada.


Retirado da Rota da Castanha - UTAD -



domingo, 29 de junho de 2008

Esquecida

...Para que saibam que um Homem da terra também, um dia, amou!

ESQUECIDA


Canto a história de um pranto
Nascido e vivido de um canto…
Por momentos julgado,
Mas amado.

Naquele dia… tarde… dois
Novembro, sol de Abril foi
O choro, o grito e a angústia….
Pelo amor e a dor do medo de justiça,
Que gritei como quem está só.

A dor e o tempo no vento dos lábios
De um lençol de lágrimas…
Branco como tu branca, e eu…
E assim fiquei.

Caminhada…, ida e pensada,
Horas perdidas de uma noite
Longe de não ver o dia de te ver…
No lençol que outrora te cobria
Esse corpo desfeito do cutelo
Que o rubro cravo desleito nesse peito…
O transformou por todo o tempo.

E os brancos seios de bicos
Dourados, amados, vêm, cortados,
Pacíficos beber a sede,
De amor e dor…

Por eles correm
Ténues fios de um frio
Escaldante, … e caem…
É o fogo, o lodo…e o fundo.
Um suspiro de lágrimas, …um grito.
Uma dor ofegante respirada.
É tudo, e é nada…
E eu e a preta cor do amor proíbido
Morro.

Foi melhor assim.
E acordo e recordo…

O Amor.


Orlando Martins (2002-08-14)

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Padre David Ramos Fernandes

Faz hoje três anos que o Sr. Padre David faleceu. Natural da nossa Freguesia, dedicou toda a sua vida ao serviço do Senhor e dos seus semelhantes. Padre, enfermeiro, jornalista, escritor e músico, eram muitos os seus talentos.
Tive a oportunidade de o conhecer, ainda criança, em Montemor-o-Novo. Ele era visita habitual da casa de meus tios, onde eu passava muitos dias das férias escolares.
Dele só me lembro da sua viola e da sua alegria quando nela dedilhava, da afabilidade para com a gente pequena e do entusiasmo com que era recebido lá em casa.
Três décadas depois, ao visitar essa minha tia para apresentar a minha futura mulher, veio à baila a naturalidade da Fátima e só então fiquei a saber que aquele Padre que eu conheci na infância, ainda era nosso primo.
No passado dia 8 de Junho (almoço da Junta) foi colocada parte de uma imagem, por ele feita, junto à nossa Igreja Matriz, um gesto de agradecimento e respeito patrocinado pelo Sr. Padre Estevinho e pelo Presidente da Junta, com o aplauso de todo o povo de Rebordaínhos (ver o post ainda o almoço da Junta).
O blog não quis deixar passar a data sem a assinalar prestando-lhe esta homenagem que, embora modesta, é do coração.
Fizemos vários contactos com a Casa de S. Rafael, nos Açores, pois sabemos que tem lá várias esculturas de sua autoria, a ver se obtínhamos fotografias, mas ainda não obtivemos resposta. Continuaremos, porém a tentar.
Deixamos em baixo links para a pouca informação de que dispomos.


Jornal Mensageiro - Comunidade fotográfica


Mais duas bonitas fotos de "Rebordaínhos" venceram, empatadas, o concurso de "foto da semana". As mesmas figuram com o meu nome pelos motivos que já expliquei no post referente às fotografias da semana anterior.
Fotos vencedoras



autoria de Emília Caminha
classificada em 1º. lugar com 5 *****
"Caroujo"







Autoria de Olimpia Pereira
Primeiro lugar com 4
****
"Casa d'além"




Foram enviadas mais duas fotos, uma da Olimpia, (pormenor da casa d'além e outra do cão do Toninho, tirada por mim, e que foi a pior classificada da semana. Parabéns às vencedoras ; as minhas desculpas à cadela!
Penso que a foto de pormenor da "casa d'além " tem uma história associada à concavidade da pedra. Se alguém a quiser desvendar, deixe o seu comentário.

Visualizar todas as fotos

A nossa equipa tem fotos excelentes, como se pode constatar pelas fotos enviadas para o Blog. Submetam-nas a concurso, vá lá!

Trindade Coelho: Centenário da sua morte

Em Lisboa, a Câmara Municipal está a trabalhar em parceria com outras entidades para produzir um programa à altura do jornalista, escritor e jurisconsulto de Mogadouro: Francisco José Trindade Coelho (1861-1908). O descerramento de uma lápide ...

Ver a noticia completa em: http://ntmad.blogdrive.com/
blog da CTMAD

President Casa de Tras-os-Montes e Alto Douro Lisbon. Nuno Aires entrevistado pelo programa "Portugal no Coração" da RTP1, na sede da CTMAD.

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Nomeadas

Ora vamos lá puxar pela cachimónia.

Aqui fica uma lista de nomeadas. Quem se atreve, sem ser da família dos visados, a dizer os nomes próprios e apelidos de cada um?

Eu tenho a certeza que me faltam muitos. Quem ajuda, para que se acrescente?



Aidinhas , Atilano

Baçal , Badalinho , Bagueixe , Balente , Batitá, Barril , Beringuel , Bexiga , Bilhó , Bombo , Botão de Camisa , Botija , Boto , Braba , Brotas , Burmelha

Cachulas , Çaço , Caixeiro , Calhilha, Caloura , Calouro , Çância , Çapão, Carabunhas , Carambolas , Carriço, Carroucha, Carteiras , Caseiro , Castanheta , Chedre, Chefe , Chicheiro , Chiote , Chochelas , Cornecho , Corrécio , Couceiro , Çuca, Cuco, Curopos

Êlhe , Engenheiro, Escachado

Façana , Farinhoto
, Fecisma , Ferrinho , Foguete, Fouce, Frade, Fuseiro

Galandum, Galila , Garnacho , Garrano , Girinha , Gitlém , Gralha , Greludo , Grifa , Grifo , Grilo , Grufina , Guerra


Inimigo

Jarrete, Juiz,

Labaredas, Leque, Lhé , Lobo, Lunetas , Luzerna

Macieira , Malaguetas
, Mandinho , Maneta , Manias , Maralha , Maria Narcisa , Marquesa , Milano ,
Mocho , Moucha

Nelzeira , Nharro

Pacheco , Pachica, Panarra, Pastora , Pataca , Pateiro , Patinge, Patolas , Patorro, Pedro, Pelada , Pereirinha , Picarete , Pilatos, Piloto, Pintassirgo, Piqueno, Pincha, Pinguim , Pinote , Pintana , Pote

Rastreja , Rata, Rente , Ruça

Sacheco , Santa
, Santacombinha , Santo, Sarrolha , Seco , Serrinha , Sorna , Sortes , Sota

Taré , Tição , Torto , Trocho ,

Zãeno , Zarrunga

Fátima Stocker
_____
Como se pode ver pelos comentários, as ajudas foram tantas que tive que diminuir o tamanho da letra, para não ficar aqui um lençol!

terça-feira, 24 de junho de 2008

Casa de Trás-os-Montes e Alto Douro (CTMAD) em Lisboa

Na sequência da nossa inscrição como associados da Casa de Trás-os-Montes e Alto Douro (CTMAD) e da divulgação do Blog Rebordaínhos junto da Direcção da Casa, recebemos o mail que abaixo se transcreve, informando que o nosso blog já figura na letra "R" da entrada "Nossa Terra" nas abas laterais das páginas da CTMAD. Não tive tempo de consultar todos os blogues do referido item, para ver se lá está mais alguma página do nosso Concelho de Bragança. Se alguém, com conhecimentos das freguesias do Concelho, pudesse fazer essa pesquisa seria uma apreciada colaboração, ficando assim satisfeita a nossa curiosidade e poderíamos acrescentar tais páginas aos nossos links.

Para a CTMAD vão os agradecimentos públicos da Equipa do Blog.
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Parabens pelo v/ blog. Já está no nosso index em:
http://ntmad.wordpress.com/
http://ntmad.blogdrive.com/
http://ntmad.blogspot.com/

Oportunamente será colocado noutros sítios da casa (http://ntmad.wordpress.com/sitios-da-casa/)

Um abraço trasmontano-altoduriense.

CTMAD

Aproveito para sugerir que os nossos visitantes efectuem visitas aos sítios da casa, através dos links acima referenciados, pois encontrarão lá iniciativas e artigos de interesse. Acrescento, para os que estão em Lisboa, que já foi lançada a primeira pedra da nova sede, numa zona nobre e muito aprazível da cidade de Lisboa.
A inscrição como sócio é simples e expedita, podendo ser feita pela Internet e a importância a pagar é de 20€/ano, (não havendo jóia) e 5 € para o cartão.

Já depois de publicar este post, recebi um mail do nosso colaborador "Júnior" Rui Freixedelo, a informar que as freguesias do nosso Concelho que figuram nas páginas da CTMAD são as seguintes:

Coelhoso, e Rio de Onor

Os nossos agradecimentos ao Rui por tão pronta colaboração

sábado, 21 de junho de 2008

Novo fôlego

O António Fernandes, para nós o Tonho da tia Lídia, é natural de Rebordaínhos. Ele, que sabe do assunto muito mais do que eu alguma vez saberei, vai começar por me perdoar o acento, contrário às regras, que insisto em exibir sobre o "i" do topónimo. Sei que a justificação é pobre, mas não suporto a ideia de poder ouvir pronunciar "Re-bor-dai-nhos" em vez de "Re-bor-da-i-nhos", como quem dá um "ai" de lamento ou pede "dai-n(h)os", como se aquele povo não desse sempre mais do que deveria ou poderia.

O Tonho é, desde agora, novo colaborador do blog. Escreve com uma qualidade de cortar a respiração e com uma pureza que regala a alma. Abençoado Francisquinho Ribom que lhe ensinou as primeiras letras. Abençoado o Tonho que nos oferece uma série de textos memoráveis a que deu o título geral de Ares da Serra.

São textos mais longos do que aquilo que é costume publicar-se nos blogues, mas cada um tem uma unidade tal que dividi-los em capítulos seria desvirtuá-los. Os leitores do Rebordaínhos saberão apreciar a publicação integral.

Iniciamos a série Ares da Serra com o magnífico retrato do nosso orgulhoso e livre concelho medieval.

Bem-hajas, Tonho.

Fátima Stocker

ARES DA SERRA



I - Memórias de um (pobre) Paraíso Perdido

por
António Augusto Fernandes

Aí por meados do século XX, no rescaldo das misérias do pós-guerra, a efervescência do renascer de um mundo novo que vinha fermentando por esse Portugal fora passava ainda ao lado de Rebordainhos. Resquícios esporádicos de civilização avistavam-se lá em baixo, em Rossas: automóveis raros passavam ronceiros pela estrada nacional nº 4 e o comboio da linha do Tua passeava-se, muito de seu vagar, entre o Douro e Bragança.

Ora foi por essa altura que o Estado Novo se lembrou de que, lá em cima, nos picotos da Serra de Nogueira, uns trezentos serranos bravos lutavam pela vida, rodeados de soutos e touças onde, no Inverno, uivavam os lobos mais bastos que pardais nas eiras depois das malhadas e no Verão o sol causticava. E então mandou rasgar, a pá e picareta, aquela estrada madraça que, ainda hoje, os liga ao IP e à estação de caminho de ferro e ao vasto universo. Até essa altura, naquele fim do mundo a mil metros de altitude, a vida decorria sem sobressaltos de maior, atreita apenas às maleitas em que a vida era pródiga e a querelas, rixas e alegrias comunais que os serranos vinham vivendo desde sempre, em moldes idênticos aos dos tempos velhos em que D. Sancho II lhes concedera foral. Até à construção da estrada só dali se saía a pé, de burrico ou no pachorrento carro de bois alcandorados nas poderosas rodas de freixo maciço que alagavam os velhos caminhos com a melopeia cheia de trinados das treitouras bem cingidas aos eixos rijos como aço. Eram desses carros de bois, com a mesma configuração que apresentam nas iluminuras do Livro de Horas do senhor D. Manuel, o primeiro de seu nome, que dependia o ténue tráfego comercial: levar os sacos o centeio e a batata sobejos do sustento das suas gentes e trazer o parco arroz, o pozito açúcar, o cotim das andainas e o aço para apontar as guinchas de arrancar batatas e os enxadões de desfazer monte.

Os três quilómetros até Rossas, percorriam-se, pedibus calcantibus, pelo carreirão de Arufe, tortuoso como sendas do Tibete: as mulheres em chinelos e com os sapatinhos de polimento guardados na saquita de chita para serem calçados ao chegar à estação. E do velho Jarrete contava-se que para poupar as botas novas de couro cru fazia o caminho descalço. Um dia que estourou a unha do dedão do pé com uma topada num calhau, largou aliviado: − Porra! Olha se eu trazia as botas calçadas! Mas os carros de bois, para evitarem o desnível da subida da Galiana, alongavam-se em grande volta pela Quinta do Sepúlveda, pelo Cano, pela Airoá, duplicando assim o percurso. Muitos dos velhos finavam-se sem que alguma vez houvessem pisado o macadame de Bragança ou visto as maravilhas dos lumes eléctricos, nem para consultar um médico, por ali tratando as maleitas em que a vida era sobeja com tisanas de ervas milagreiras e fumigações. O comboio, sim, viam-no lá em baixo, minúsculo como lagarta torcendo-se sobre as duas fitas de ferro e largando baforadas de fumaça pelas ventas. Quando o vento soprava de leste, ouviam-no assobiar como quem se despede − por aqui me vou − até se engolfar no ventre da terra pelo túnel de Arufe, deixando no ar nuvens de algodão sujo e o apelo nostálgico do vasto mundo que se estendia para lá do círculo do horizonte.

A linguagem em que exprimiam alegrias, dores e necessidades do quotidiano rescendia ainda ao galaico-português em que os trovadores do século XIV haviam chorado os seus males de amor. O pão de cada dia estava dependente do sol que fazia germinar as sementes, das chuvas que fecundavam a madre da terra, das trovoadas que em minutos arrasavam o labor de um ano e de Deus que pontificava na sua igrejinha de granito no centro da aldeia que uma pedra no ângulo do campanário data de 1745.

Os insecticidas eram ainda desconhecidos: os piolhos desbastavam-se muito ecologicamente a sabão macaco ou estourando-os entre os polegares e o escaravelho da batateira, recém-aparecido, ao que se dizia, por malandrice americana, afogava-se em latinhas com querosene.

Na roda do ano, a alimentação cingia-se ao pão negro de centeio, à batata e ao conduto fornecido pelo porquito de ceva que se imolava pelo Natal e guardava na salgadeira ou dependurado no fumeiro sob a forma de alheiras e salpicões, porque à escassez dos meios naturais acrescia a penúria herdada da guerra há pouco finda. − Haja saúde e coza o pote − como diz o outro. Mas o negro pote de três pernas pouco mais cozia que batatas com couves e, quando bem calhava, a talhada de toucinho com que se adubava o caldo e, mais raramente, a magra postita de bacalhau, caro como o lume! Ceava-se caldo e batatas e almoçavam-se, de madrugada, as batatas e o caldo sobejos da ceia. Uma sardinha para cada um, quando o sardinheiro adregava de passar, e quanto a chicharros − dos três vinte a cinco tostões − um para cada dois. O pão moía-se no moinho comunal do Catrapeiro e, cada quinze dias, com grandes gabelas de urzes e giestas em que o monte era pródigo, esquentavam-se os fornos que, embora individuais, tinham utilização comunitária, e ali se coziam aqueles pães centeeiros grandes como rodas. Outros mimos como o pão de trigo, o chibinho medrado entre urzes e tojo pelos montes ou o naco de vitela só nas festas assinaladas no calendário. E ninguém tinha o desplante de celebrar aniversários: era lá coisa que se festejasse a data da entrada neste vale de lágrimas! E tirava-se também a barriga de misérias nas celebrações rituais da fartura − as malhas e a matança, com sua licença, do porco. Era este, o cevado, para o qual se inventara o familiar chamadoiro de larego − o amigo do lar − que regalava os palatos serranos com os petiscos mais mimosos: aqueles salpicões muito engelhados e de estética atroz que sazonavam no fumeiro e se saboreavam em rodelas finas cor de vinho velho sobre o carolo de pão de centeio, aquele presunto róseo marmoreado, inventado por algum deus desconhecido para deleite dos seus comparsas no Olimpo e concedido como consolo aos mais afortunados dos mortais. E as alheiras? Pelas manhãs cintilantes de geada, evolava-se pela telha vã das cozinhas e pairava sobre a aldeia uma névoa ténue amarrada pelo frio em que se enlaçavam o cheiro acre da dos cavacos de carvalho ardendo sobre a laje sagrada do lar e o aroma dessas alheiras alourando sobre as brasas e depois acompanhadas pelas vastas malgas de café de cevada. É a excelcitude destes prazeres concedidos também aos pobres que nos faz compreender o culto antiquíssimo ao porco traduzido em dezenas de megálitos com o nome e a forma aproximativa de porcas ou berrões, espalhados por todo o Nordeste. O cochino, durante a ceva era tratado com cuidados de mulher parida, com todos os mimos: farelo, grão, nabos, castanhas, as perfumadas castanhas mamotas que os ganapos pilhavam do caldeirão onde se lhe cozia a vianda, dependurados sobre as grandes fogueiras do Inverno incipiente; e ainda aquele luxo das folhas de negrilho que a juventude mais lépida ia ripar nos ramos cimeiros dos olmos que se erguiam como espeques nas estremas dos lameiros; essas folhas, ásperas como lixa, raspavam os intestinos do bicho e, diziam os antigos, davam aos presuntos curados na aldeia um não-sei-quê que os distinguia de todos os outros.

Mas isso era papa fina afugentada do cotio e reservada para os dias assinalados na folhinha ou dos trabalhos maiores ritualizados na roda do ano, como matanças ou malhas. De resto, o passadio do dia-a-dia, de uma austeridade cenobítica, esbeltava os corpos, enrijava as almas e deixava-lhes o céu garantido.

O termo da freguesia abrange os seus doze quilómetros quadrados, mas quase tudo cerros escalvados de terras delgadas que nunca tentaram frades de ordem rica nem senhores de pendão e caldeira. E porque os ricos e poderosos nunca cobiçaram tais terras, todos eram donos e senhores de leira onde colher as suas cinquenta ou cem pousadas e de belga onde plantar a cesta de batatas e o talo de couve galega para o caldo, o que lhes dava direito a sentirem-se donos e senhores da sua vida e alijar qualquer tipo de canga. Dignos de serem agricultados à maneira do sul só alguns vales, engordados pelo húmus que, ao longo de séculos as enxurradas iam arrastando dos altos e que tivessem água de nascente, para lameiro ou batatal. Mas, como abundava a mão-de-obra, todos os cerros andavam a cultivo. Esgaravatavam-se montes e pedregais onde só o centeio, amigo do serrano, resistente a secas e geadas, vingava para que, havendo pobreza, não houvesse miséria nem se morresse à míngua.

Nos princípios do Outono, os plangentes carros de bois chiavam pelos caminhos de touças e soutos atestados de toros de carvalho e ramos sobejos da poda dos castanheiros, deixando os sequeiros à porta de casa abastecidos para enfrentar a longa e ríspida invernia que se fazia anunciar pelas primeiras chuvadas e pelas névoas que toucavam a Serra dos Pereiros.

Pelos Santos, era já com os dedos engaranhados pelo frio dos nevoeiros outonais e pelos primeiros sincelos que os castanheiros pingavam as castanhas mais temporãs. Em dia de Todos-os-Santos, os garotos acudiam aos soutos acendendo grandes montes de fetos e giestas secas onde tostavam as primeiras castanha da temporada. Com a sua malguita de marmelada e meia dúzia de malápios trazidos nas sacolas de remendos festejavam o primeiro feriado do ano com mais orgulho e sarambeques que sibaritas orientais.

Na poveca serrana não se podia dizer que houvesse pobres e ricos, mas apenas uma pequena diferença entre pobres e menos pobres, cifrada em uns alqueires de centeio e umas sacas de batatas a mais de um lado ou de outro. De resto, todos ganhavam honradamente o pão de cada dia com o suor do próprio rosto e a ajuda do vizinho, não se registando desequilíbrios sociais suficientes a engendrar qualquer hipótese de revolução ou conflito social. Uma que outra casa lá tinha o seu moço de lavoura, quase sempre de fora, que tinha alojamento no palheiro, com duas mantas encafuadas no feno bem cheiroso, aquecido pelo bafo das vacas, dentro de todos os requisitos da ecologia.

O Largo do Prado era o centro social onde se enfrentavam as duas tabernas concorrentes mas amigas. Aos domingos de tarde, ouvida a missa do P. Amílcar, para aí vinham os homens espairecer sob a bênção patriarcal de um freixo e um negrilho monumentais, enquanto as mulheres abancavam à soleira da porta de casa para desenferrujar a língua e pôr em dia os faits-divers comunais. Aliás o freixo do Prado tinha a sua crónica: uns anos por outros, aparecia um figuro da cidade que pagava um cântaro de vinho ao pessoal e, numa solenidade de rito, ia lançar ao tronco da árvore o copo que lhe era devido, em memória do avô que o tinha plantado há que vidas. A rapaziada mais espigadota, ainda com ânimo para tais folestrias depois de uma semana agarrados ao cabo do enxadão ou à rabiça do arado, jogavam ao fito, à relha ou ao calhau, muito esfuziantes e provocadores na meça de forças, sobretudo quando passavam as moçoilas, muito louçãs nas suas chitas domingueiras, fingindo-se ariscas no faz-de-conta de algum recado urgente e lançando o rabicho do olho para os conversados. Os mais entradotes a quem os anos já tornavam mais pesada a rabadilha e amainavam as quenturas do sangue, abancavam para uma partida muito vozeada de sueca ou o chincalhão a quartilho fraternalmente partilhado por todo o adjunto. E, por altura das ave-marias, quando as mulheres embiocadas corriam pressurosas para o Terço, uma animação muito pingueira estrondeava já por todo o Prado.

Ao centro do largo gorgolejava uma bica que trazia a água encanada lá de cima, do Lombo-de-à-Igreja, sítio do lugarejo primitivo, de reminiscências castrejas, um alto pedreguento batido de todos os ventos, donde se avistavam muitas léguas em redor, com as vantagens defensivas que a localização representava nos grossos tempos dos avoengos que de lá devem ter avistado as legiões de César calcorreando a via romana vinda de Salmantica em demanda de Aquis Flaviis, galgando a serra lá em cima, na garganta do Pórto. Lombo-de-à-Igreja lhe chama o povo, que os topógrafos, ou por uma ignorância a crassa ou por dureza de ouvido, cadastraram como Agreja.

Além dessa bica e de uma outra mais aristocrática, gizada pelo Sr. professor Francisco Ribom junto ao pelourinho, matava-se a sede, pela concha da mão ou pela aba do chapéu, da Fonte Grande, da Fonte do Espinheiro e da Fonte da Vila, três fontes de chafurdo, de água granítica abençoada, com a naturalidade bíblica e a falta de higiene de quem desconhecia a existência de termos obnóxios como poluição, micróbio ou bactéria.

Nesses tempos, à aldeia assistia ainda o designativo de vila usado pelos dos Pereiros, com origem em velhos tempos, não menos pobres, mas de maior prestígio, conferido por foral de D. Sancho II e atestado pelo velho pelourinho que perdera já a cabeça e os anos corcovavam sobre a fraga esconsa que lhe servia de soco, à ilharga da Igreja e pela memória da Casa da Cadeia, então adscrita a habitação do professor. De resto, a aldeiazita de cem fogos, vista de longe, tinha um ar airoso: ruas assaz direitas e largas para o comum das aldeias nortenhas, espraiada pela encosta voltada a sul e de costas para Espanha. A poente alteava-se a cumeada da Fraga do Berrão, onde em tempos presidira a divindade tutelar de uma porca como a de Murça, furtada, diziam os antigos, pelos de Parada; em frente, barravam-lhe o horizonte os longes azulados da serra de Bornes, e a leste a linha esfumada do planalto que vai de Mogadouro a Miranda. Olhada do Alto da Cabeça que lhe ficava defronte, o povoado tinha o seu quê de prazenteiro, porquanto a tristura das paredes negras de granito e dos telhados pardos do musgo se esvaía, amaciada na grande profusão de verdes: negrilhos, calineiros, macieiras e nogueiras e os remendos mimosos dos hortejos entremeados com as casas. Aqui e além, a mancha de cal dos muros da Casa da Aula, da Igreja e do Cemitério e mais três ou quatro casas, desabrochava como flores de esteva sobre fundo de urzes e codeços.

Caldeados pela aspereza do clima e rijeza do solo, os serranos não eram particularmente expansivos, mas também não eram, de seu natural, azedos. Parcos de palavras, até na brevidade com que narravam os casos da vida ao serão ou suciando pelas tabernas, lá se tornavam mais palavrosos com o copito bebido à sobreposse. Então diziam o que deviam e o que não deviam e rebentavam altercações breves como tempestades de Agosto que os mais cordatos e menos bebidos amainavam sem sobressalto de maior. Calçavam-se tamancos talhados em amieiro pelo tio Grilo soqueiro e vestia-se cotim chita; a roupa interior, quando calhava de se usar, era de tomentos que produziam sobre a pele o efeito penitencial da lixa sobre a madeira. Mas era gente de alma lavada como geralmente são os habitantes das serras, afeitos a ares limpos, horizontes largos e habituados a apenas terem Deus acima de si. E, como que demarcando essa única dependência, já os antigos tinham erigido cruzes de pau tosco sobre soco em cantaria bruta nas quatro entradas da povoação: a caminho da Tempa, pelo leste, na saída da Airoá, a sul, à Corredoura do lado poente, e a norte quando se vai para a Tergaça, porque, sem perderem muito tempo com beatérios, conservavam o sentido do Transcendente e aprestavam-se de boamente a desencardir a alma e receber Nosso Senhor pela Páscoa da Ressurreição. Nas tardes de trovoada brava, quando os alustros fuzilavam sem relego e terrincos medonhos pareciam querer afundir o mundo, quem mais por perto andasse da Igreja apressava-se a ir desinquietar do seu nicho de santo um S. Silvério, papa e mártir muito maneirinho, de dois palmos. Debaixo de um vasto sombreiro de doze varas, o santo lá se deixava transportar para o adro como infante ao colo de alguma comadre, muito compostinho com sua mitra e báculo. Voltado para a serra a poente, ficava-se em contemplação, futurando das misérias que a violência dos elementos poderia acarretar a agros e criação se não lhes acudisse. E o santo acudia-lhes sempre, porque aquela gente era boa quando podia e a vida a não aporrinhava em demasia. De tal protecção acrisolada tinham a certeza os serranos quando, no dia seguinte, pelos soalheiros se fazia relato muito bisbilhotado e condoído das desgraças sucedidas nos povos em volta: um castanheiro de séculos rachado de alto a baixo, trinta ovelhas fulminadas, um batatal arrastado pela enxurrada… E sabe-se lá mais o quê! Este São Silvério que pontificava à esquerda do aro do presbitério era um santo muito da devoção da pequenada, fosse pelo seu tamanhinho, fosse por fazer com muita virtude as vezes de Santa Bárbara nas trovoadas. Trocadamente pintado de roxo por algum pinta-monos menos familiarizado com a hagiografia, mais tarde foi reconduzido aos seus trajos brancos de papa e parece que ainda assim se mantém.

De resto cantavam loas ao Deus Menino e arrematavam as roscas do charolo pelo Natal, casavam-se as moças e serravam-se as velhas por um embude, de outeiro para outeiro, pelo Carnaval, celebrava-se a fartura efémera das colheitas no final do Verão e faziam-se filhos por toda a roda do ano, como mandava madre natura. E era assim que a Casa da Aula andava repleta de criancedo: umas vinte rapariguinhas muito conversadeiras para a D. Maria e outros tantos rapazotes brutos e vivaços para o mano, o Sr. Francisquinho Ribom, quando nos tempos sáfaros de hoje não chegam à meia dúzia por atacado e a escola já fechou por falta de quorum.

Os tempos não eram melhores que os de hoje, nem mesmo pintados no retábulo da saudade, bem pelo contrário. Eram outros e assim foram vividos. E, dentro de pouco, vê-los-emos sumidos na voragem dos dias, não figurando sequer como ligeira nota de rodapé nos manuais etnográficos.

Por isso, para que não caiam de todo no olvido, deles aqui se lavra nota, porque a grande história é a que nos moldou a infância a que pertencemos, mesmo quando há muito perdida, se dela nos sobram para sempre uns fiapos de nostalgia guardados nas arcas da memória.

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Jornal Mensageiro - Comunidade fotográfica

Foram duas as fotos vencedoras da comunidade fotográfica do Jornal Mensageiro (on-line) e que serão publicadas na edição impressa, uma delas, a do "Souto" foi enviada em nome do Blog de Rebordaínhos, a pedido da autora da mesma, que é a Emília Caminha, embora o nome que aparece seja o meu, dado que foi por ele que foi enviada, possivelmente o regulamento não permite envios colectivos.

Souto em Rebordaínhos
Foto de Emilia Caminha

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